Cheguei hoje em Roma e já pude provar um pouco do gosto (não exatamente saboroso) desta cidade. Mas isso fica para depois, agora falarei como foram as aventuras de Félix, O Ogro, na Terra da Frescura.
Paris
Mais quatro dias se passaram, com mais uma enxurrada de informações na cabeça. Ela já está transbordando, e olha que ainda faltam duas semanas. Ainda bem que tenho as fotos e os vídeos para refrescar a memória. Contagem em 1409 até o momento. Fico pensando se algum dia terei saco para rever tudo...
Meu primeiro dia em Paris foi bem inútil. Banzo de sono da viagem de trem, cheguei cedo ao hotel e fiquei enrolando na net até o quarto ser liberado. Perto do meio dia a porteira abriu e deixei minhas malas lá. A barriga reclamava e perguntei para a atendente se tinha um restaurante aberto por perto. Ela me indicou um que, ao sentar, descobri que era de comida tradicional. Ou seja, com altos pratos e altos preços. Abracei o capeta e decidi ter uma baita refeição tipicamente parisiense. Entrada com escargot (são bons, mas não tem nenhum gosto marcante como camarão, por exemplo), prato principal à base de pato assado com mel (altamente bom) e sobremesa com um queijo especial (sobremesa salgada, claro) acompanhados de uma cerveja parisiense (desculpem, vinho não é comigo). Duas horas de refeição depois, saí do restaurante bem mais pobre e bem mais feliz.
No resto do dia, fiquei no hotel planejando mudanças para o resto da viagem. Percebi que, por mais que seja uma experiência diferente, para cada noite que eu passasse dividindo cabine em trem ou ferryboat eu perderia uma dia ficando podre depois. Então bora comprar passagens de avião, que felizmente não são caras aqui na Europa (na verdade, consegui passagens até mais baratas que os trens). Passando horas para achar e entender as regras de cada companhia, fazendo mais umas mudanças de roteiro e em reservas de hotel, acabei ficando até de noite nisso.
Não tive muito tempo de recuperar o sono, pois na segunda feira era dia de visitar o Louvre, e tinha ouvido histórias horríveis sobre filas quilométricas, pessoas morrendo de fome na espera e etc. Dá para comprar o ingresso antecipado online, mas como eu não teria acesso à impressora, não queria arriscar. Então acordei cedo e rumei para o museu, usando o sistema de metrô de Paris que é bem simples de entender e eficiente. Mas aqui não tem arrego, tem que passar o ticket na catraca senão não entra. Deve ser porque aqui as pessoas furam o sinal vermelho de pedestres o tempo todo...
Cheguei quinze minutos antes de abrir e já tinha uma fila considerável. Iniciei o Movimento Pelo Direito de Sentar, fazendo a fila virar uma curva para todos sentarem na beirada da fonte, mas logo a iniciativa foi abortada pelas autoridades repressoras, que parecem achar que uma fila curvada funciona diferente de uma fila reta. Felizmente, a demora quando abriu o portão foi curta e demorou só uns quinze minutos para entrar.
O Louvre é grande, muito grande. Em teoria é um museu de arte, mas possui um acervo
fantástico de antiguidades egípcias, gregas, romanas e do oriente próximo. Foi para essas que parti inicialmente, demorando a me achar nos confusos corredores, mas logo podendo curtir a exposição. Existem algumas peças “pop” no meio, facilmente reconhecíveis pela multidão que se aglomera ao redor delas, como o primeiro Código de Hammurabi a ser achado e a Vênus de Milo, também conhecida afetuosamente por Miss Talidomida. Também há um setor arqueológico onde pode-se andar por dentro das fundações da antiga fortaleza medieval que era o Louvre. Gastei a maior parte do dia nestas seções, e só passei atropelado pela seção de pinturas para dar uma espiada na Mona Lisa. Bem meia boca. A Vênus de Milo é mais gostosa.
Era meio da tarde e ainda dava tempo de passar no Museu de História Natural, que é bem mais complexo que o pequenininho de Berlim. O problema é que ele não é um edifício único, mas um conjunto de prédios temáticos, cada um com seu ingresso e seu horário de funcionamento. Tive tempo de ver bem só a galeria de paleontologia e anatomia comparada, o que já é mais do que suficiente para quem foi um viciado em dinossauros a infância inteira (ainda adoro, mas não acompanho mais de perto). Ainda gastei um tempo dando voltas no parque que abriga o museu antes de ter um chiquérrimo jantar no McDonald’s (o lugar onde mais comi nessas semanas) e voltar ao hotel.
Terça feira planejei para ser aquele dia onde se fica andando pela cidade visitando várias atrações que não exigem um compromisso tão grande de tempo, como um museu. Só não andei literalmente porque, como falei, o metrô aqui é muito conveniente e metade do preço do de Berlim. Minha primeira parada foram as catacumbas, um sistema de corredores subterrâneos com um ossuário onde foram colocados milhares (milhões?) de ossos dos cemitérios supersaturados de Paris, durante os séculos XVIII e XIX. Ali comecei a provar o gostinho de viajar na temporada.
Não cheguei muito cedo, perto de dez e meia, achando que, por não ser um dos pontos turísticos top, não teria tanto estresse. Sonho meu... A fila não era tão extensa assim, o que só engana. Pois, até você perceber que ela se arrasta lerdamente por uma espera de duas horas e meia, você já está na metade e não vai desistir aí. Pois é, já passava de uma da tarde quando cheguei à entrada da parada. Só querendo muito mesmo para agüentar...
O passeio mesmo é curto, mas extremamente legal. Nada de guias chatos e blábláblá sobre cada pedra no caminho, você compra o ingresso e se manda para os corredores por conta mesmo. Depois de algumas passagens obscuras e pontos com alguma coisa singular, chega por fim ao ossuário. E haja osso, meu amigo. São dezenas e dezenas de corredores cercados dos dois lados por pilhas de ossos até quase o teto. Junto com eles, algumas placas com indicações de origem ou escritos religiosos, que soam muito macabros naquele lugar. Como você se sentiria lendo o trecho do Apocalipse, “E ao toque da trombeta todos os mortos ressuscitaram, cercado por milhares de ossos? Se alguém tocasse uma cornetinha ali, ia ter nego enfartando na hora. No fim, o motivo pelo qual a fila é tão lerda (não mais do que 200 pessoas podem ficar ali dentro ao mesmo tempo) é um bênção, pois você frequentemente se encontra totalmente sozinho e sem ouvir mais que o som dos próprios passos enquanto anda pelos corredores. Isso enriquece demais a experiência.
Demora-se cerca de uma hora para andar por pouco menos de dois quilômetros de corredores. É um lugar muito legal de conhecer, mas é preciso chegar com antecedência. Esperar aquele tempo todo não vale tanto a pena. A demora me fez ter que correr mais rápido para ver as outras atrações do dia e trocar um possível almoço elaborado por... McDonald’s!
Das criptas parti para a Île de La Citê, o nome gay para a ilhota no meio do Sena onde Paris começou. Lá se encontra um dos símbolos máximos da cidade, a Catedral de Notre Dame, além de outros edifícios históricos. Meu objetivo era a Catedral e lá fui eu me deparar com uma nova fila serpenteando pela praça. Decidi primeiro visitar o sítio arqueológico que fica embaixo da praça (e que não tinha fila, milagre!), com vestígios dos tempos de dominação romana e da Idade Média. Depois, voltei para encarar a procissão. Notre Dame é grande e muito bonita, com certeza, mas acho que eu ainda estava meio anestesiado pelo impacto da Catedral de Berlim. A igreja alemã ganha na base da força bruta, pois é muito maior, e também possui um interior mais ricamente decorado. Para realmente sentir a força de Notre Dame é preciso sempre mentalizar que aquilo tem quase mil anos. Daí sim se percebe como é mais um feito impressionante patrocinado pelo poder da igreja católica medieval.
Não fique muito tempo em Notre Dame pois já era quase cinco horas e ainda dava para correr para outro destino programado para o dia, o Cemitério de Pére-Lachaise. Basicamente, um cemitério. Mas famoso pela grande quantidade de sepulcros monumentais e de algumas personalidades enterradas. Cheguei rapidamente e pude andar por cerca de 45 minutos pelas ruazinhas silenciosas cercadas de túmulos elaborados e antigos (os mais velhos sendo dos fins do século XVIII). Mesmo sendo um local bem famoso na alta temporada, ainda reinava lá um ambiente de paz e silêncio... sepulcral, é claro. Pena que tive pouco tempo, pois poderia gastar mais uma hora vagando pó lá. E não encontrei o túmulo de ninguém conhecido, embora não fosse um grande objetivo meu.
Seis da tarde, hora de rumar para o único destino turístico de Paris que fica aberto até de madrugada e mesmo assim sempre tem gente a dar com o rodo: a boa e velha Torre Eiffel, a Mais Famosa Construção Horrível do Mundo. Chegar até seu topo é uma saga por si só. Na parte de baixo, entre os quatro pilares, filas enormes se formam para pegar os elevadores. Não tenho idéia de qual o tempo da espera, mas deve ser cabreiro. O esquema é comprar o ingresso para subir pelas escadas. O primeiro andar é fácil de chegar e ali você paga quatro euros por uma bebida para agüentar o segundo, que cansa um pouco quem já ficou o dia todo andando, mas é tranqüilo. De lá, a vista já é bonita, mas você está a um terço da altura total. Só que ali, do segundo andar, a fila para pegar o elevador é bem mais sossegada. Ainda tem uma espera de meia hora, quarenta minutos, mas pelo menos você gasta esse tempo apreciando a vista. No elevador, o negócio lembra a torre do Beto Carreiro, você vai subindo, subindo, subindo pra cacete. Até fiquei esperando a hora da queda livre, que felizmente não veio. Lá em cima o espaço é bem pequeno, mas a vista é espetacular. Paris não é uma cidade de arranha-céus, então poucos edifícios sequer chegam perto da altura da torre. Algumas pessoas podem questionar se vale a pena o empenho, mas eu digo que, pelo menos uma vez, sim. Nem que seja para cumprir tabela.
Após descer da torre já era nove da noite (com o sol ainda alto, claro) e rumei de volta para o hotel. Foi um dia legal e bem aproveitado, embora tenha sido ruim ter perdido tanto tempo na fila das catacumbas.
No outro dia, fui visitar o Palácio de Versailles, que fica relativamente distante de Paris. Mas ainda assim é simples chegar lá de trem. Como eu tinha comprado o ingresso antecipado na internet, não me preocupei muito em chegar super cedo, já que “comprando antecipadamente no nosso site você evita filas!”. Sim, você evita a fila de 50 metros para comprar o ingresso e pode entrar direto na de meio quilômetro para entrar no palácio. E dá-lhe espera até entrar no Palácio em si, ali pelas onze e meia. Lembram quando falei que imaginava que Charlottenburg fosse uma versão menor de Versailles? É isso mesmo, mas no segundo caso você precisa prestar mais atenção aos cotovelos das outras pessoas do que à decoração em si. Sério, é o lugar mais saturado que conheci em Paris. Acompanhar a maré de pessoas que se arrastava pelos aposentos reais é parecido com andar na Oktoberfest no sábado do feriadão.
Depois de umas cinco salas, vi que aquilo não ia render, pois não estava conseguindo curtir. Tentei voltar, pensando em voltar no fim da tarde quando imaginava que o fluxo fosse menor. Depois de duas salas uma menina se colocou na minha frente, dizendo que era proibido voltar. Isso mesmo, a saída ali, a alguns metros, mas eu era obrigado a seguir o fluxo do tour principal. Tentei argumentar com ela, que mal sabia falar inglês e foi irredutível. Tendo chegado longe demais para ser jogado para fora pelos seguranças, me resignei a passar o mais rápido possível pelo bolo de pessoas. A cada nova sala socada que aparecia, eu ficava com vontade de socar a menina, por mais bonitinha que ela fosse (aliás, meus cumprimentos ao cara que escolhe as gurias que trabalham lá!). Depois de muito aperto, consegui chegar à saída, finalmente. E ninguém apareceu para me dizer que, na verdade, eu era obrigado a ficar andando em círculos na multidão até o fim dos dias.
Durante aquele horário mais movimentado, decidi focar meu tempo nos jardins e estruturas anexas ao palácio. Ali, não importa se todo o universo tenha decidido fazer uma visita ao mesmo tempo, nunca vai faltar espaço. Os jardins são enormes, se estendendo por lagos, fontes, canteiros e alamedas. Passeei sossegadamente até chegar a uns pequenos palácios anexos, legaizinhos, mas nada fora do comum. Atrás deles, daí sim um lugar muito legal. Um dois reis a usar o palácio, Luís XV, construiu um vilarejo rural-modelo a pedido de sua rainha, a marrenta Maria Antonieta, no final do século XVIII. O lugar ficou conservado e é possível andar por lá realmente se sentindo em uma vila de duzentos anos atrás, com suas casinhas, hortas e criações de animais. Um lugar perfeito para relaxar.
Na metade da tarde, era hora de voltar ao Palácio e encarar o tour de verdade. Me senti como a rainha que pediu para construir o vilarejo, tendo que voltar ao barulho da corte. Minha tática até que deu certo, pois ainda tinha muita gente, mas dava para caminhar mais tranquilo. Uma série de quartos absurdamente decorados, é o que tem para ver. É legal, mas gostei mais dos jardins do que do palácio em si.
Fechando esta parte da viagem, não me arrisco a fazer nenhuma inferência sobre os franceses (além do fato de falarem inglês pior do que os alemães), pois fiquei pouco tempo para conhecer as pessoas. A cidade é riquíssima culturalmente e tem muita coisa para descobrir, eu tive tempo de ir apenas nos pontos mais conhecidos. Só que, ao contrário de Berlim (que não é uma cidade turística), Paris fica verdadeiramente cheia na temporada, por isso é recomendável ir em outro período. A não ser que você queira apreciar bastante as famosas “french filas”*.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
De germanos para francos
Acabei de chegar em Paris. Meu último dia em Berlim foi bem sossegado, andei de novo pela região do Reichstag e Portão de Brandenburgo para tirar novamente as fotos perdidas, aproveitando para almoçar um joelho de porco arregado na Unter Den Linden. Estava muito bom, mas a tiazinha francesa da mesa ao lado parecia que ia vomitar a cada garfada que eu dava. Dica etílica é a cerveja de trigo da Paulaner, a melhor que tomei nesses dias por lá.
O dia estava bem bonito e ensolarado, diferente de como tinha sido no resto da semana. Berlim é a cidade com o tempo mais maluco que já vi. Cada dia tinha uns três ou quatro ciclos de sol, vento forte e chuva. Às vezes em menos de meia hora você tinha céu aberto, daí chuva e ventania, e de repente tempo limpo de novo. Nunca saia do hotel de Havaianas e bermuda (com o tempo ensolarado) ou cheio de casacos (com o tempo feio) achando que será daquele jeito até de noite.
De tarde passei no Museu de História Natural. Tinha pouco tempo, mas acabou sendo uma boa deixar ele para a finaleira, pois rodei tudo em pouco mais de uma hora. De cara você entra em uma sala com esqueletos gigantes de dinossauros montados. Depois, fica um pouco menos interessante, pois, depois de ter ido no zoológico, ver bichos empalhados não é aquela coisa toda. E coleções com centenas de tipos de minerais diferentes não são muito minha praia...
Depois voltei para o hotel apenas um curto tempo para esperar o trem, que saía sete da noite. Eu tinha ouvido que os trens rápidos de longa distância são cheios das coisas, com vagão-restaurante, internet wireless e etc. Bem, não os trens-dormitório noturnos. Esses são os trens-favela. Quartinhos bem apertados, nada de internet e micro-cozinhas com sanduíches. De um tipo só. Pelo menos a mulher que cuidava do vagão atendia bem e dividi a cabine com um tiozinho bem simpático, com quem tive uma boa conversa e me ajudou na primeira experiência com o metrô parisiense. Não deu para dormir muita coisa e fiquei pensando se não era melhor ter economizado a cara reserva de quarto e ter ido na poltrona mesmo, mas valeu a experiência.
Então, hora de falar do pouco que pude conhecer da vida dos alemães. De modo geral, qualquer ocidental pode se sentir à vontade na Alemanha, pois ainda estamos dentro da “nossa sociedade”. Você pode olhar para as meninas na rua sem ter seus olhos arrancados e não precisa cagar em um buraco no chão. Aliás, o banheiro é um bom modo de começar. Todo ele tem um sistema eficiente de controle de fluxo e temperatura da água em nas torneiras. Os banheiros e demais aposentos tem calefação e água quente, o que me faz pensar de onde vem toda essa energia. Por outro lado, todas as privadas possuem alguma forma de economizar água, seja podendo parar o fluxo com um novo aperto ou (mais comum) o botão para líquidos e o botão para sólidos, se é que me entendem. Ah, e eles não possuem cestos de papel (só para papel toalha na pia). Limpou o traseiro, manda para a privada. Os canos devem ser bem largos para evitar desgraças... Demorei um pouco para perceber isso, e a tiazinha da limpeza do meu primeiro hotel deve estar até agora horrorizada por ter mexido no cesto de toalhas de papel.
Outra coisa muito interessante é a relação deles com os sinais de trânsito. Imaginem eu, ao chegar na cidade, indo atravessar a primeira rua junto com outras pessoas. Sinal fechado para pedestres, mas nenhum carro por perto, já vou me metendo e, de repente, vejo que estou sozinho no meio da rua. Olho para trás e todo mundo está lá, parado, esperando de boa. Talvez algum olhar acusador me fuzilando também. Com os dias, percebo que todos sofrem de síndrome de Coiote do Papa-léguas: pode não ter carro algum em vista até o horizonte, mas se o sinal está fechado, eles não metem o pé na rua. Eles realmente obedecem a parada, pois, segundo Tati me falou, tem uma multa pesada esperando pelos espertinhos. Claro que é muito raro ter um guarda vendo, e uns 10% ou 20% das pessoas atravessam de qualquer modo, mas passei a obedecer também. Mesmo me sentindo um perfeito idiota.
Falando em coisas que poderiam ser feitas por não ter ninguém olhando, um brasileiro FDP poderia se dar muito bem no sistema de transporte, se quisesse. Em todos os trens e metrôs, você compra sua própria passagem em um guichê automático e, quando o veículo pára na estação, abre as portas e é só entrar. Existe uma multa por andar sem passagem, mas em todos os trens urbanos que peguei, e na maior parte dos interurbanos, não passou ninguém cobrando passagem. É muito interessante ver como as pessoas obedecem. Uma certa dose de consciência misturada com uma vigilância ocasional e punições pesadas, este me parece ser o modo como as coisas funcionam na Alemanha.
E como funcionam. O sistema de transporte é eficiente e rápido, embora caro para os padrões brasileiros. Demora um pouco para pegar a manha com os números de plataforma, a mistureba de linhas de trem, metrô e ônibus, as diferentes direções que eles percorrem... Não espere por um cara saltitante de camisa vermelha qual das 16 plataformas da estação é a de trem subterrâneo, pois essas coisas são marcadas apenas por uma letra nas placas. Porém, logo depois que você se acostuma, vê como é fácil ir de um lado para o outro das cidades.
Tal conveniência nem precisa ser tanta, pois mesmo as duas cidades grandes por onde passei, Frankfurt e Berlim, me pareceram bem compactas. Você pode ir para a maioria dos lugares andando e, sinceramente, na maioria das vezes me pareceu mais fácil pegar apenas uma linha e caminhar até meu destino do que fazer as várias baldeações possível para chegar lá direto.
Com um sistema de transporte público desses, dificilmente eu vi trânsito pesado ou trens lotados. Ajuda o fato deles usarem muito bicicletas e ter ciclovia em todas as ruas. Até bicicleta com carrinho de bebê ou cachorro acoplado eu vi.
Ah, e tem as pessoas também, né? Como sou um sociopata viajando sozinho, tive poucas interações de verdade com os alemães, além do “quanto custa?” e “onde fica?” (encontrar quem fale ou pelo menos entenda o básico do inglês é fácil). Mas as poucas impressões que tive foram corroboradas pela Tati, que já os conhece há mais tempo. Eles são bem educados e prestativos (embora um bom número de vezes eu tivesse a impressão de me tratarem como um turista idiota – o que é pura verdade, claro), mas bem protocolares. Mesmo tomando uma cerveja ou entre amigos, assuntos pessoais não vêm à tona. Tati falou que possui amigos de um ano sobre os quais não sabe quase nada. Ninguém se mete na sua vida, mas também estão pouco se fodendo para você. Eu precisaria de um tempo mais longo de convívio para me decidir se gostaria ou não disso.
Uma coisa que ainda não peguei direito é a cultura da gorjeta. Segundo as informações que tenho, é de praxe dar uma gorjeta por um serviço prestado, como o atendimento em um restaurante ou uma corrida de taxi. Normalmente isso é feito arredondando para cima os centavos. Até entendo no caso de um almoço em um restaurante, mas quer dizer que toda vez que eu sentar para tomar um café tenho que dar gorjeta? Todos os meus cafés de 2,50 euros custarão três? Não saquei ainda bem o protocolo, mesmo porque quando você não fala nada eles te dão o troco normal direto, sem parecer incomodados (ao menos, fingem bem). Em várias ocasiões dei a gorjeta, mas de modo geral ainda espero meu troco, ainda mais pagando os preços super inflacionados dos locais turísticos (uma Coca 500 ml sai por 2,50 em média, quando no mercado um litro vai custar 1,00 – mas o recorde foi uma Coca 400 ml de três euros no Neues Museum).
Por fim, uma coisa que adorei: eles AMAM cachorros. Os bichos estão por toda a parte, e não falo só de poodles, yorkshires e chiuauas. O tempo todo na rua você vê pessoas andando com cães do tamanho de pôneis, totalmente tranqüilos, sem focinheira, até com a corrente solta. Os cães entram nas lojas com os donos, ficam deitados ao lado da mesa nos cafés, pegam metrôs e trem interurbanos... Parece que eles descobriram que o problema raramente é o cão em si, mas o seu dono, e com algum cuidado e treinamento você pode levar seu lobo para passear no parque sem causar tremores nem na mais rabugenta das velhinhas.
Um país onde as coisas realmente funcionam, as pessoas seguem as regras que fazem a sociedade funcionar, são relativamente impessoais e amam cachorros... É, eu acho que gostaria de morar em um país assim. Mesmo ainda me sentindo um idiota ao esperar o sinal de pedestres abrir.
O dia estava bem bonito e ensolarado, diferente de como tinha sido no resto da semana. Berlim é a cidade com o tempo mais maluco que já vi. Cada dia tinha uns três ou quatro ciclos de sol, vento forte e chuva. Às vezes em menos de meia hora você tinha céu aberto, daí chuva e ventania, e de repente tempo limpo de novo. Nunca saia do hotel de Havaianas e bermuda (com o tempo ensolarado) ou cheio de casacos (com o tempo feio) achando que será daquele jeito até de noite.
De tarde passei no Museu de História Natural. Tinha pouco tempo, mas acabou sendo uma boa deixar ele para a finaleira, pois rodei tudo em pouco mais de uma hora. De cara você entra em uma sala com esqueletos gigantes de dinossauros montados. Depois, fica um pouco menos interessante, pois, depois de ter ido no zoológico, ver bichos empalhados não é aquela coisa toda. E coleções com centenas de tipos de minerais diferentes não são muito minha praia...
Depois voltei para o hotel apenas um curto tempo para esperar o trem, que saía sete da noite. Eu tinha ouvido que os trens rápidos de longa distância são cheios das coisas, com vagão-restaurante, internet wireless e etc. Bem, não os trens-dormitório noturnos. Esses são os trens-favela. Quartinhos bem apertados, nada de internet e micro-cozinhas com sanduíches. De um tipo só. Pelo menos a mulher que cuidava do vagão atendia bem e dividi a cabine com um tiozinho bem simpático, com quem tive uma boa conversa e me ajudou na primeira experiência com o metrô parisiense. Não deu para dormir muita coisa e fiquei pensando se não era melhor ter economizado a cara reserva de quarto e ter ido na poltrona mesmo, mas valeu a experiência.
Então, hora de falar do pouco que pude conhecer da vida dos alemães. De modo geral, qualquer ocidental pode se sentir à vontade na Alemanha, pois ainda estamos dentro da “nossa sociedade”. Você pode olhar para as meninas na rua sem ter seus olhos arrancados e não precisa cagar em um buraco no chão. Aliás, o banheiro é um bom modo de começar. Todo ele tem um sistema eficiente de controle de fluxo e temperatura da água em nas torneiras. Os banheiros e demais aposentos tem calefação e água quente, o que me faz pensar de onde vem toda essa energia. Por outro lado, todas as privadas possuem alguma forma de economizar água, seja podendo parar o fluxo com um novo aperto ou (mais comum) o botão para líquidos e o botão para sólidos, se é que me entendem. Ah, e eles não possuem cestos de papel (só para papel toalha na pia). Limpou o traseiro, manda para a privada. Os canos devem ser bem largos para evitar desgraças... Demorei um pouco para perceber isso, e a tiazinha da limpeza do meu primeiro hotel deve estar até agora horrorizada por ter mexido no cesto de toalhas de papel.
Outra coisa muito interessante é a relação deles com os sinais de trânsito. Imaginem eu, ao chegar na cidade, indo atravessar a primeira rua junto com outras pessoas. Sinal fechado para pedestres, mas nenhum carro por perto, já vou me metendo e, de repente, vejo que estou sozinho no meio da rua. Olho para trás e todo mundo está lá, parado, esperando de boa. Talvez algum olhar acusador me fuzilando também. Com os dias, percebo que todos sofrem de síndrome de Coiote do Papa-léguas: pode não ter carro algum em vista até o horizonte, mas se o sinal está fechado, eles não metem o pé na rua. Eles realmente obedecem a parada, pois, segundo Tati me falou, tem uma multa pesada esperando pelos espertinhos. Claro que é muito raro ter um guarda vendo, e uns 10% ou 20% das pessoas atravessam de qualquer modo, mas passei a obedecer também. Mesmo me sentindo um perfeito idiota.
Falando em coisas que poderiam ser feitas por não ter ninguém olhando, um brasileiro FDP poderia se dar muito bem no sistema de transporte, se quisesse. Em todos os trens e metrôs, você compra sua própria passagem em um guichê automático e, quando o veículo pára na estação, abre as portas e é só entrar. Existe uma multa por andar sem passagem, mas em todos os trens urbanos que peguei, e na maior parte dos interurbanos, não passou ninguém cobrando passagem. É muito interessante ver como as pessoas obedecem. Uma certa dose de consciência misturada com uma vigilância ocasional e punições pesadas, este me parece ser o modo como as coisas funcionam na Alemanha.
E como funcionam. O sistema de transporte é eficiente e rápido, embora caro para os padrões brasileiros. Demora um pouco para pegar a manha com os números de plataforma, a mistureba de linhas de trem, metrô e ônibus, as diferentes direções que eles percorrem... Não espere por um cara saltitante de camisa vermelha qual das 16 plataformas da estação é a de trem subterrâneo, pois essas coisas são marcadas apenas por uma letra nas placas. Porém, logo depois que você se acostuma, vê como é fácil ir de um lado para o outro das cidades.
Tal conveniência nem precisa ser tanta, pois mesmo as duas cidades grandes por onde passei, Frankfurt e Berlim, me pareceram bem compactas. Você pode ir para a maioria dos lugares andando e, sinceramente, na maioria das vezes me pareceu mais fácil pegar apenas uma linha e caminhar até meu destino do que fazer as várias baldeações possível para chegar lá direto.
Com um sistema de transporte público desses, dificilmente eu vi trânsito pesado ou trens lotados. Ajuda o fato deles usarem muito bicicletas e ter ciclovia em todas as ruas. Até bicicleta com carrinho de bebê ou cachorro acoplado eu vi.
Ah, e tem as pessoas também, né? Como sou um sociopata viajando sozinho, tive poucas interações de verdade com os alemães, além do “quanto custa?” e “onde fica?” (encontrar quem fale ou pelo menos entenda o básico do inglês é fácil). Mas as poucas impressões que tive foram corroboradas pela Tati, que já os conhece há mais tempo. Eles são bem educados e prestativos (embora um bom número de vezes eu tivesse a impressão de me tratarem como um turista idiota – o que é pura verdade, claro), mas bem protocolares. Mesmo tomando uma cerveja ou entre amigos, assuntos pessoais não vêm à tona. Tati falou que possui amigos de um ano sobre os quais não sabe quase nada. Ninguém se mete na sua vida, mas também estão pouco se fodendo para você. Eu precisaria de um tempo mais longo de convívio para me decidir se gostaria ou não disso.
Uma coisa que ainda não peguei direito é a cultura da gorjeta. Segundo as informações que tenho, é de praxe dar uma gorjeta por um serviço prestado, como o atendimento em um restaurante ou uma corrida de taxi. Normalmente isso é feito arredondando para cima os centavos. Até entendo no caso de um almoço em um restaurante, mas quer dizer que toda vez que eu sentar para tomar um café tenho que dar gorjeta? Todos os meus cafés de 2,50 euros custarão três? Não saquei ainda bem o protocolo, mesmo porque quando você não fala nada eles te dão o troco normal direto, sem parecer incomodados (ao menos, fingem bem). Em várias ocasiões dei a gorjeta, mas de modo geral ainda espero meu troco, ainda mais pagando os preços super inflacionados dos locais turísticos (uma Coca 500 ml sai por 2,50 em média, quando no mercado um litro vai custar 1,00 – mas o recorde foi uma Coca 400 ml de três euros no Neues Museum).
Por fim, uma coisa que adorei: eles AMAM cachorros. Os bichos estão por toda a parte, e não falo só de poodles, yorkshires e chiuauas. O tempo todo na rua você vê pessoas andando com cães do tamanho de pôneis, totalmente tranqüilos, sem focinheira, até com a corrente solta. Os cães entram nas lojas com os donos, ficam deitados ao lado da mesa nos cafés, pegam metrôs e trem interurbanos... Parece que eles descobriram que o problema raramente é o cão em si, mas o seu dono, e com algum cuidado e treinamento você pode levar seu lobo para passear no parque sem causar tremores nem na mais rabugenta das velhinhas.
Um país onde as coisas realmente funcionam, as pessoas seguem as regras que fazem a sociedade funcionar, são relativamente impessoais e amam cachorros... É, eu acho que gostaria de morar em um país assim. Mesmo ainda me sentindo um idiota ao esperar o sinal de pedestres abrir.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
A vida é um museu
Amanhã é meu último dia em Berlim e na Alemanha. De noite pego um trem para Paris que chega domingo de manhã. É hora de contar como foi esta semanada na capital.
Berlim
Cerca de oito horas da noite de domingo a aventura do Wacken terminou, com minha chegada à estação central de Berlim. É a maior e mais bonita estação das que vi, com vários andares e escadas rolantes por tudo quanto é lugar. Além, claro, do Fantasma da Estação, que grita desesperadamente toda vez que um trem de superfície parte.
Um dos motivos para minha escolha do hotel em Berlim tinha sido o fato de ser próximo da estação. E próximo é um eufemismo: ele é literalmente do lado. Um alívio para um soldado cansado ansiando por repouso. Arrastei minhas malas até lá, fiz o check in, tomei um banho, jantei na base do McDonald’s e morri na cama até o começo da tarde de segunda.
Segunda feira nem quis pensar em fazer nada, mesmo com alguns amigos no MSN aparentemente desesperados com o fato de eu não estar correndo para ver algum prédio velho a cada segundo. Segundo um plano de viagem meticulosamente calculado, eu sabia que este era uma mistura de hotel com albergue. Ou seja, com quartos no estilo de hotel, mas com algumas conveniências dos albergues, como cozinha coletiva e máquina de lavar. Então pude dar jeito em minhas roupas, que voltaram um traste do Wacken. Dica aos viajantes: enquanto você espera para usar a máquina, fique usando o computador na cozinha coletiva. Com um pouco de sorte, você ganha um almoço de graça com a caridade das outras pessoas. Com um pouco mais de sorte, essas pessoas incluem uma ninfeta espanhola por quem você seria preso sem nem hesitar.
Com roupas limpas e bem alimentado, pude me sentir humano novamente. Usei o resto do dia para organizar os vários passeios que gostaria de fazer, incluindo tentar entender o complexo (mas eficiente) sistema de transporte público da cidade. No dia seguinte pude, finalmente, começar o turismo de verdade.
Na terça, rumei para um local mais afastado do centro para encontrar um lugar onde se fazem visitas guiadas aos subterrâneos da cidade, incluindo bunkers e túneis da Segunda Guerra e da Guerra Fria, sistemas de metrô abandonados e outras dungeons urbanas mais. De um modo bem calouro, fui apenas sabendo que o local era do lado da estação de trem. Resultado: Félix correndo de um lado para o outro com poucos minutos para o início da visita, às onze. Com alguns minutos de atraso, encontrei o lugar, junto com mais um grupo de holandesas (ah, as mulheres holandesas...) também atrasadas. Por sorte, o guia, um galês piadista com um inglês carregado de sotaque e uma baita cara de pinguço, deu mais uma passadinha antes do tour para ver se ainda tinham alguns perdidos. Voltou com um metaleiro e três holandesas (ah, as mulheres holandesas...) a tiracolo.
O passeio demorou uma hora e meia e incluiu uma visita a um bunker nazista que posteriormente foi transformado pelos soviéticos em um abrigo em caso de guerra nuclear. Do modo como o troço foi mal-feito e com o ambiente opressivo que ficaria, se fosse usado, eu com certeza preferiria estar embaixo da bomba e evaporar. Depois ainda saímos para uma estação de metrô atual, mas que também tinha sido modificada para virar bunker, em caso de necessidade. Muito legal descobrir que por trás daquelas portinhas que ficam trancadas tinha toda uma estrutura de salas e corredores para abrigar pessoas em um caos nuclear.
Logo depois deste tour guiado era para ter outro, por diferentes estruturas subterrâneas, mas o guia me disse que, por azar, logo naquele dia não haveria a visita. Terça feira não era um bom dia, segundo ele. Decepcionado, só me restou rumar para o segundo destino do dia, do outro lado da cidade, me separando das holandesas (ah, as mulheres holandesas...)
Junto a um grande parque, fica o Palácio de Charlottenburg, construído por um nobre prussiano (que logo se tornou o primeiro rei da Prússia) para ser uma casa de campo para a sua mulher. E bota casa nisso. É um grande palácio do final do século XVII que foi habitado até os anos 40, quando levou umas pipocadas dos bombardeiros britânicos e foi quase todo abaixo. Reconstruído e restaurado, virou atração turística (uma história semelhante à de muitos outros lugares de Berlim). Passei por salas e mais salas absurdamente decoradas, em algo que penso ser uma versão menor de Versalhes. Como este, também possui um imenso jardim desenhado em diversas formas geométricas, com um belo mausoléu encravado no meio das árvores.
Infelizmente, um dos grandes setores também se encontrava fechado, porque... era terça feira, claro. Mesmo que no site oficial da cidade estivesse escrito “aberto diariamente”. É, alemão também faz cagada. Ainda tive que andar um bom pedaço e me perder nas linhas de metrô / trem de superfície antes de voltar ao hotel. Não foi um bom dia, mal aproveitado, mas felizmente o único assim na semana (bem, você pode argumentar que a segunda feira também foi mal aproveitada, mas eu digo que aproveitei pra caralho dormindo!).
Quarta feira foi o dia de recuperar a moral com um dos passeios mais ansiados: o Zoológico de Berlim. É um dos maiores e mais diversos do mundo, com um monte de bichos que eu jamais tinha visto na vida. Acabou sendo bom ter ido no de Frankfurt, pois eles tem muita coisa em comum, e assim poupei um bom tempo. Comecei pelo aquário, que é super badalado e até pode ser visitado separadamente. Por causa disso, achei que fosse maior do que é. É bem parecido com o de Frankfurt, com a exceção dos aquários maiores com os bichos grandes (coisa pouca, tipo um tubarão-tigre de três metros). Fábio, tu ia adorar. Ou se sentir deprimido ao voltar para casa e ver os peixinhos no aquário de casa...
Mandei para o espaço os bichos-balaios que você vê em qualquer Zoo do mundo (leões, girafas, elefantes, etc.), entretanto alguns ainda mereceram uma visita. Isso porque estes zoológicos da Europa são montados para que o público fique o mais próximo possível dos animais. Em alguns casos, é perfeitamente possível estender a mão e, quem sabe, perder uns dedos na boca de um bicho curioso (não sei como aquela criançada ainda tem todos os membros). O vidro também é muito usado, em vez das grades, mesmo em jaulas grandes. Então, por mais que você já tenha visto um hipopótamo, é totalmente diferente ver um nadando a 50 cm de você.
Mas o que importava eram os bichos novos, e destaco o bizarro aardvark (uma mistura de porco com tamanduá da África, que deve dar um bom assado), os ursos (o polar é grande, mas o pardo me pareceu tão pequeno... ok, não gostaria de entrar num ringue com ele mesmo assim) e, claro, os animais que são total e absolutamente os mais lindos e legais de todo o universo: os lobos. Entre várias passadas ao longo do dia, fiquei quase uma hora e meia de olho nos bichos e filmei / fotografei o suficiente para um documentário. Fora o momento do bode no meio do dia, eles não param de interagir entre si e inventar novas coisas. Uma hora, estão todos correndo uns atrás dos outros. Em outra, decidem escavar um novo buraco. Depois, brigam por um pedaço de osso. Daí interagem com as pessoas do outro lado do vidro. Então, o Alfa decide levantar e encher todo mundo de porrada. E assim vai, o dia todo. Juro que morri de vontade de pular o parapeito e ir lá abraçar e rolar com todos. Com certeza ia ser lindo e todos ficariam felizes: um com um pedaço de perna, outro com um braço, outro com umas costelas... Até uma orelha ou duas sobrariam para o filhotinho.
Fui embora perto da hora de fechar. De noite, desci para o saguão do hotel tomar umas cervejas e ver o jogo, interagindo com a brasileirada que também se encontrava lá. Eram sete brasileiros e uma alemã assistindo. Duas horas depois, tinha uma pessoa feliz e sete tristes. Tente adivinhar quais são.
Quinta feira foi o dia de ir para a Ilha dos Museus, um setor da cidade que aglomera meia dúzia de museus de história e arte. Fui a pé, pois o caminho passa pelas vistas obrigatórias de Berlim,o Reichstag e o Portão de Brandenburgo. As duas construções me surpreenderam, sendo maiores e mais bonitas do que eu esperava. Desci uma das ruas mais conhecidas da cidade, a Unter Den Linden, passando por vários edifícios históricos e comendo um almoço genuinamente alemão. Nos almoços, todo dia é uma nova descoberta quando se pede pratos aleatórios. Neste dia descobri que “liver sausages” nada mais são do que murcilhas e que “sauerkraut” percorreu um longo caminho até virar o nosso chucrute.
Chegando na Ilha, minha primeira parada foi na Catedral de Berlim, e à primeira vista dela meu queixo já caiu. Ao entrar, ele descolou da cabeça e saiu rolando pelo chão. Aquilo é FODA! É a maior e mais bonita igreja que já vi. Mesmo sendo uma igreja protestante, a decoração e ostentação interna não deixam nada a dever a qualquer catedral católica. E na parte principal um domo colossal se estende até 116 metros de altura (!!!), dando a impressão de que o céu é ali mesmo, onde tem os anjos do topo desenhados. Se impressiona mesmo as pessoas da era dos arranha-céus, imagina as pessoas do século XVIII. Se eu fosse um camponês desta época, de certeza acreditaria em Deus. Notre Dame e a Basílica de São Pedro ainda estão na minha agenda e, se forem mais imponentes que essa, eu me converto. Juro.
Uma dica: suba os vários degraus até a passarela no início do domo, assim terá uma visão espetacular de Berlim. Outra dica: não esqueça sua câmera no banco da igreja, assim não terá que descer tudo correndo para procurá-la. Pelo menos quem a achou, devolveu-a aos guardas, como um bom cristão. Não antes de roubar o cartão de memória, como um bom cristão. Felizmente não tinha nenhuma foto minha pelado diante do espelho, mas perdi todas as fotos tiradas até o momento no dia.
Todas essas coisas significaram que cheguei para ver os museus mesmo só às quatro da tarde. Sem problemas, pois tinha planejado a quinta feira porque é o dia em que os museus ficam abertos até dez da noite. Uma idéia tão boa que todo o planeta também a teve. Na frente do que eu mais gostaria de visitar, o Pergamonmuseum, havia uma fila de proporções mitológicas. Decidi desviar de rota e deixá-lo para o dia seguinte, indo para a fila do Neues Museus, que era mais curta. Ali, comprei um ticket muito interessante que dá acesso livre à grande maioria dos museus da cidade por três dias. Se você pretende visitar mais que dois, vale muito a pena, ainda mais que você não precisa se preocupar se conseguirá ou não ver tudo, pois se faltar tempo é só voltar em outro momento.
Comecei pelo Neues Museu (“museu novo”, significando com isso que tem só 150 anos de idade), que possui um acervo focado em antiguidades históricas gregas, romanas e egípcias. Também possui as descobertas originais do sítio que se imagina ser Tróia e algumas coisas de Pré-História e História Beeem Antiga. Não é preciso dizer que me perdi ali dentro, né? A sua peça mais famosa é o Busto de Nefertiti, com uma sala inteira dedicada só a ela. Você olha para a peça, em um estado quase perfeito de conservação, e fica realmente admirado por aquilo ter três mil anos de idade, em vez de produzido no ateliê da escola de artes na semana passada. É proibido de tirar foto e não tem jeito, mesmo ficando lá longe na sala adjacente e tentando usar o zoom aparece uma tiazinha engoda metendo a mão na lente. Saí apenas na hora de fechar, às oito (mais uma das pegadinhas onde o alemão diz um horário mas fecha em outro), e ainda tinha tempo para percorrer o Altes Museum (“museu antigo”, significando com isso que é vinte anos mais velho que o outro), com foco em arte grega e romana. Gastei um bom tempo em uma coleção de moedas antigas que eles possuem, indo desde as primeiras a serem cunhadas (lá pelos séculos VII–VI a.C.) até o final da Antiguidade.
Quase dez horas, rumei de volta ao hotel. De trem desta vez, pois estava com os pés em frangalhos e com bolhas. Efeitos colaterais de andar o dia todo por dias seguidos. Fui logo dormir, pois queria ir cedo no outro dia para o Pergamonmuseum e evitar a aglomeração. Como meu “cedo” nunca é realmente cedo, cheguei passando das dez e já havia uma bela fila. Felizmente, logo descobri que era para comprar os tickets, e quem possui o super-ticket-combado como eu podia entrar direto. Os outros que percam seu tempo na fila. Trouxas. Há!
Enquanto os outros museus são “muito legais”, mas não mais que isso, o Pergamonmuseus é “muito legal mesmo”. De cara você já entra em uma sala enorme com a atração mais famosa, o Altar de Pérgamo, uma reconstrução de um templo grego do século II a.C. com um friso gigante mostrando uma grande batalha entre deuses olímpicos e gigantes. O guia de áudio é muito informativo nesta hora, dando informações detalhadas de cada trecho do friso e indicando o deus que está ali representado.
Há mais três salões no estilo “colossal” no museu, que logicamente são os que mais impressionam. Uma delas possui reconstruções de colunas e fachadas de templos gregos dos dois primeiros séculos a.C., algumas com quase vinte metros de altura. A outra tem a fachada original do mercado de Mileto na época romana, uma visão massiva e imponente. E, por fim, a que mais me impressionou, pelo tamanho e pelos sentimentos de antiguidade e glória ancestal que evoca: o Portão de Ishtar na Babilônia, do século VII a.C. Quando você vê aquele negócio todo decorado e com uma cor azul profunda, pode pensar algo como: “bah, isso deve ser uma réplica recente”. Mas é a parada original, só com algumas restaurações inevitáveis, claro. O imenso portão, assim como as paredes da avenida que são reproduzidas no museu, são de pedra azul, não de tijolos normais, por isso mantém a mesma cor que inúmeros povos devem ter visto ao entrar naquela cidade legendária.
Depois de começar com essas visões assombrosas, até me exigiu um pouco de esforço olhar com atenção para o restante do acervo, quase humilde em relação às massacrantes atrações iniciais. Mas logo começou a fluir novamente aquele sentimento de escapismo e ancestralidade ao ver peças tão antigas quanto o tempo, esculturas, ornamentos, armas de mais de cinco mil anos atrás. O museu possui uma grande coleção de artefatos de algumas culturas do Oriente Próximo, onde podemos dizer que começou a civilização humana (como o nerd interior nunca morre, me deu uma vontade de jogar Age Of Empires I...). Como complemento, ainda, tem uma exposição de arte islâmica que, embora com algumas peças legais, não conseguiu prender tanto minha atenção depois de quatro horas ali dentro. Ainda passei no quarto museu da Ilha, o Bodesmuseum, que possui um acervo de arte do final da antiguidade até o Renascimento / Barroco europeu. Como meu negócio é mais história do que arte em si, apenas olhei com mais atenção o acervo bizantino e a coleção de moedas (que é bem maior que a do Altes Museum e vai até as moedas recentes).
Uma coisa que me causou surpresa nestes museus por onde passei é... a desorganização deles. Isso mesmo. Se você imagina que os museus seriam bonitinhos e perfeitamente organizados, segundo a eficiência que os alemães demonstram em quase tudo, pode tirar o chucrute da chuva. Vi com freqüência peças expostas sem nenhuma explicação, ou peças de contextos completamente desconexos dividindo a mesma sala. A ordem das salas não faz muito sentido e você não consegue ter uma sensação de coerência ao percorrê-las. Quem não sabe ler alemão (ou seja, o mundo inteiro, fora os alemães) fica meio perdido, pois a grande maioria das peças não possui explicação em inglês, ou apenas na forma de uma frase curta (mesma coisa no Zoo). Tá, é fácil ver um machado e saber que é um machado, mas e uma bola de pedra qualquer na seção pré-histórica? Os guias de áudio, presentes em todos os museus, não ajudam muito, pois falam apenas de poucas peças, enumeradas de forma aparentemente aleatória (e se alongam em discursos chatos pra cacete). Percebi coisas assim em todos eles, mas no Neues elas chegam ao ponto de atrapalhar bastante a experiência.
Depois dessa overdose de velharias, aproveitei o fim da tarde para ir até um ponto menos chique do centro de Berlim, em busca de objetivos mais prosaicos: comprar camisas de banda. Na minha cabeça, estar em uma grande capital européia, a terra do metal, seria uma boa oportunidade de encontrar camisas das bandas mais obscuras que eu escuto e jamais encontraria no Brasil. Ledo engano. A loja onde fui, mesmo grande, tinha um acervo miado baseado em bandas comuns. Segundo o atendente, nem conseguiria achar aquilo na cidade, pois, quando o pessoal quer uma camisa diferente, simplesmente compra pela internet. Aproveitei a viagem então para comprar um novo cartão de memória para a câmera (calma, eu tinha um de reserva para tirar fotos nos museus), comer uma salsicha assada nas movimentadas barraquinhas de uma praça e voltar ao hotel. Amanhã o plano é fazer o check out do hotel, deixando as malas na sala de bagagem que eles possuem, e andar por alguns trechos ainda não vistos da cidade, incluindo a visita ao Museu de História Natural (afinal, eu sou biólogo, e não arqueólogo, né? Ai, ai...).
Eu tenho que falar das diferenças culturais ainda, que vão além de não ter cesta de lixo nos banheiros, mas este post já está longo demais. Quem sabe eu escreva no trem e poste logo ao chegar em Paris. Ate lá, então!
Berlim
Cerca de oito horas da noite de domingo a aventura do Wacken terminou, com minha chegada à estação central de Berlim. É a maior e mais bonita estação das que vi, com vários andares e escadas rolantes por tudo quanto é lugar. Além, claro, do Fantasma da Estação, que grita desesperadamente toda vez que um trem de superfície parte.
Um dos motivos para minha escolha do hotel em Berlim tinha sido o fato de ser próximo da estação. E próximo é um eufemismo: ele é literalmente do lado. Um alívio para um soldado cansado ansiando por repouso. Arrastei minhas malas até lá, fiz o check in, tomei um banho, jantei na base do McDonald’s e morri na cama até o começo da tarde de segunda.
Segunda feira nem quis pensar em fazer nada, mesmo com alguns amigos no MSN aparentemente desesperados com o fato de eu não estar correndo para ver algum prédio velho a cada segundo. Segundo um plano de viagem meticulosamente calculado, eu sabia que este era uma mistura de hotel com albergue. Ou seja, com quartos no estilo de hotel, mas com algumas conveniências dos albergues, como cozinha coletiva e máquina de lavar. Então pude dar jeito em minhas roupas, que voltaram um traste do Wacken. Dica aos viajantes: enquanto você espera para usar a máquina, fique usando o computador na cozinha coletiva. Com um pouco de sorte, você ganha um almoço de graça com a caridade das outras pessoas. Com um pouco mais de sorte, essas pessoas incluem uma ninfeta espanhola por quem você seria preso sem nem hesitar.
Com roupas limpas e bem alimentado, pude me sentir humano novamente. Usei o resto do dia para organizar os vários passeios que gostaria de fazer, incluindo tentar entender o complexo (mas eficiente) sistema de transporte público da cidade. No dia seguinte pude, finalmente, começar o turismo de verdade.
Na terça, rumei para um local mais afastado do centro para encontrar um lugar onde se fazem visitas guiadas aos subterrâneos da cidade, incluindo bunkers e túneis da Segunda Guerra e da Guerra Fria, sistemas de metrô abandonados e outras dungeons urbanas mais. De um modo bem calouro, fui apenas sabendo que o local era do lado da estação de trem. Resultado: Félix correndo de um lado para o outro com poucos minutos para o início da visita, às onze. Com alguns minutos de atraso, encontrei o lugar, junto com mais um grupo de holandesas (ah, as mulheres holandesas...) também atrasadas. Por sorte, o guia, um galês piadista com um inglês carregado de sotaque e uma baita cara de pinguço, deu mais uma passadinha antes do tour para ver se ainda tinham alguns perdidos. Voltou com um metaleiro e três holandesas (ah, as mulheres holandesas...) a tiracolo.
O passeio demorou uma hora e meia e incluiu uma visita a um bunker nazista que posteriormente foi transformado pelos soviéticos em um abrigo em caso de guerra nuclear. Do modo como o troço foi mal-feito e com o ambiente opressivo que ficaria, se fosse usado, eu com certeza preferiria estar embaixo da bomba e evaporar. Depois ainda saímos para uma estação de metrô atual, mas que também tinha sido modificada para virar bunker, em caso de necessidade. Muito legal descobrir que por trás daquelas portinhas que ficam trancadas tinha toda uma estrutura de salas e corredores para abrigar pessoas em um caos nuclear.
Logo depois deste tour guiado era para ter outro, por diferentes estruturas subterrâneas, mas o guia me disse que, por azar, logo naquele dia não haveria a visita. Terça feira não era um bom dia, segundo ele. Decepcionado, só me restou rumar para o segundo destino do dia, do outro lado da cidade, me separando das holandesas (ah, as mulheres holandesas...)
Junto a um grande parque, fica o Palácio de Charlottenburg, construído por um nobre prussiano (que logo se tornou o primeiro rei da Prússia) para ser uma casa de campo para a sua mulher. E bota casa nisso. É um grande palácio do final do século XVII que foi habitado até os anos 40, quando levou umas pipocadas dos bombardeiros britânicos e foi quase todo abaixo. Reconstruído e restaurado, virou atração turística (uma história semelhante à de muitos outros lugares de Berlim). Passei por salas e mais salas absurdamente decoradas, em algo que penso ser uma versão menor de Versalhes. Como este, também possui um imenso jardim desenhado em diversas formas geométricas, com um belo mausoléu encravado no meio das árvores.
Infelizmente, um dos grandes setores também se encontrava fechado, porque... era terça feira, claro. Mesmo que no site oficial da cidade estivesse escrito “aberto diariamente”. É, alemão também faz cagada. Ainda tive que andar um bom pedaço e me perder nas linhas de metrô / trem de superfície antes de voltar ao hotel. Não foi um bom dia, mal aproveitado, mas felizmente o único assim na semana (bem, você pode argumentar que a segunda feira também foi mal aproveitada, mas eu digo que aproveitei pra caralho dormindo!).
Quarta feira foi o dia de recuperar a moral com um dos passeios mais ansiados: o Zoológico de Berlim. É um dos maiores e mais diversos do mundo, com um monte de bichos que eu jamais tinha visto na vida. Acabou sendo bom ter ido no de Frankfurt, pois eles tem muita coisa em comum, e assim poupei um bom tempo. Comecei pelo aquário, que é super badalado e até pode ser visitado separadamente. Por causa disso, achei que fosse maior do que é. É bem parecido com o de Frankfurt, com a exceção dos aquários maiores com os bichos grandes (coisa pouca, tipo um tubarão-tigre de três metros). Fábio, tu ia adorar. Ou se sentir deprimido ao voltar para casa e ver os peixinhos no aquário de casa...
Mandei para o espaço os bichos-balaios que você vê em qualquer Zoo do mundo (leões, girafas, elefantes, etc.), entretanto alguns ainda mereceram uma visita. Isso porque estes zoológicos da Europa são montados para que o público fique o mais próximo possível dos animais. Em alguns casos, é perfeitamente possível estender a mão e, quem sabe, perder uns dedos na boca de um bicho curioso (não sei como aquela criançada ainda tem todos os membros). O vidro também é muito usado, em vez das grades, mesmo em jaulas grandes. Então, por mais que você já tenha visto um hipopótamo, é totalmente diferente ver um nadando a 50 cm de você.
Mas o que importava eram os bichos novos, e destaco o bizarro aardvark (uma mistura de porco com tamanduá da África, que deve dar um bom assado), os ursos (o polar é grande, mas o pardo me pareceu tão pequeno... ok, não gostaria de entrar num ringue com ele mesmo assim) e, claro, os animais que são total e absolutamente os mais lindos e legais de todo o universo: os lobos. Entre várias passadas ao longo do dia, fiquei quase uma hora e meia de olho nos bichos e filmei / fotografei o suficiente para um documentário. Fora o momento do bode no meio do dia, eles não param de interagir entre si e inventar novas coisas. Uma hora, estão todos correndo uns atrás dos outros. Em outra, decidem escavar um novo buraco. Depois, brigam por um pedaço de osso. Daí interagem com as pessoas do outro lado do vidro. Então, o Alfa decide levantar e encher todo mundo de porrada. E assim vai, o dia todo. Juro que morri de vontade de pular o parapeito e ir lá abraçar e rolar com todos. Com certeza ia ser lindo e todos ficariam felizes: um com um pedaço de perna, outro com um braço, outro com umas costelas... Até uma orelha ou duas sobrariam para o filhotinho.
Fui embora perto da hora de fechar. De noite, desci para o saguão do hotel tomar umas cervejas e ver o jogo, interagindo com a brasileirada que também se encontrava lá. Eram sete brasileiros e uma alemã assistindo. Duas horas depois, tinha uma pessoa feliz e sete tristes. Tente adivinhar quais são.
Quinta feira foi o dia de ir para a Ilha dos Museus, um setor da cidade que aglomera meia dúzia de museus de história e arte. Fui a pé, pois o caminho passa pelas vistas obrigatórias de Berlim,o Reichstag e o Portão de Brandenburgo. As duas construções me surpreenderam, sendo maiores e mais bonitas do que eu esperava. Desci uma das ruas mais conhecidas da cidade, a Unter Den Linden, passando por vários edifícios históricos e comendo um almoço genuinamente alemão. Nos almoços, todo dia é uma nova descoberta quando se pede pratos aleatórios. Neste dia descobri que “liver sausages” nada mais são do que murcilhas e que “sauerkraut” percorreu um longo caminho até virar o nosso chucrute.
Chegando na Ilha, minha primeira parada foi na Catedral de Berlim, e à primeira vista dela meu queixo já caiu. Ao entrar, ele descolou da cabeça e saiu rolando pelo chão. Aquilo é FODA! É a maior e mais bonita igreja que já vi. Mesmo sendo uma igreja protestante, a decoração e ostentação interna não deixam nada a dever a qualquer catedral católica. E na parte principal um domo colossal se estende até 116 metros de altura (!!!), dando a impressão de que o céu é ali mesmo, onde tem os anjos do topo desenhados. Se impressiona mesmo as pessoas da era dos arranha-céus, imagina as pessoas do século XVIII. Se eu fosse um camponês desta época, de certeza acreditaria em Deus. Notre Dame e a Basílica de São Pedro ainda estão na minha agenda e, se forem mais imponentes que essa, eu me converto. Juro.
Uma dica: suba os vários degraus até a passarela no início do domo, assim terá uma visão espetacular de Berlim. Outra dica: não esqueça sua câmera no banco da igreja, assim não terá que descer tudo correndo para procurá-la. Pelo menos quem a achou, devolveu-a aos guardas, como um bom cristão. Não antes de roubar o cartão de memória, como um bom cristão. Felizmente não tinha nenhuma foto minha pelado diante do espelho, mas perdi todas as fotos tiradas até o momento no dia.
Todas essas coisas significaram que cheguei para ver os museus mesmo só às quatro da tarde. Sem problemas, pois tinha planejado a quinta feira porque é o dia em que os museus ficam abertos até dez da noite. Uma idéia tão boa que todo o planeta também a teve. Na frente do que eu mais gostaria de visitar, o Pergamonmuseum, havia uma fila de proporções mitológicas. Decidi desviar de rota e deixá-lo para o dia seguinte, indo para a fila do Neues Museus, que era mais curta. Ali, comprei um ticket muito interessante que dá acesso livre à grande maioria dos museus da cidade por três dias. Se você pretende visitar mais que dois, vale muito a pena, ainda mais que você não precisa se preocupar se conseguirá ou não ver tudo, pois se faltar tempo é só voltar em outro momento.
Comecei pelo Neues Museu (“museu novo”, significando com isso que tem só 150 anos de idade), que possui um acervo focado em antiguidades históricas gregas, romanas e egípcias. Também possui as descobertas originais do sítio que se imagina ser Tróia e algumas coisas de Pré-História e História Beeem Antiga. Não é preciso dizer que me perdi ali dentro, né? A sua peça mais famosa é o Busto de Nefertiti, com uma sala inteira dedicada só a ela. Você olha para a peça, em um estado quase perfeito de conservação, e fica realmente admirado por aquilo ter três mil anos de idade, em vez de produzido no ateliê da escola de artes na semana passada. É proibido de tirar foto e não tem jeito, mesmo ficando lá longe na sala adjacente e tentando usar o zoom aparece uma tiazinha engoda metendo a mão na lente. Saí apenas na hora de fechar, às oito (mais uma das pegadinhas onde o alemão diz um horário mas fecha em outro), e ainda tinha tempo para percorrer o Altes Museum (“museu antigo”, significando com isso que é vinte anos mais velho que o outro), com foco em arte grega e romana. Gastei um bom tempo em uma coleção de moedas antigas que eles possuem, indo desde as primeiras a serem cunhadas (lá pelos séculos VII–VI a.C.) até o final da Antiguidade.
Quase dez horas, rumei de volta ao hotel. De trem desta vez, pois estava com os pés em frangalhos e com bolhas. Efeitos colaterais de andar o dia todo por dias seguidos. Fui logo dormir, pois queria ir cedo no outro dia para o Pergamonmuseum e evitar a aglomeração. Como meu “cedo” nunca é realmente cedo, cheguei passando das dez e já havia uma bela fila. Felizmente, logo descobri que era para comprar os tickets, e quem possui o super-ticket-combado como eu podia entrar direto. Os outros que percam seu tempo na fila. Trouxas. Há!
Enquanto os outros museus são “muito legais”, mas não mais que isso, o Pergamonmuseus é “muito legal mesmo”. De cara você já entra em uma sala enorme com a atração mais famosa, o Altar de Pérgamo, uma reconstrução de um templo grego do século II a.C. com um friso gigante mostrando uma grande batalha entre deuses olímpicos e gigantes. O guia de áudio é muito informativo nesta hora, dando informações detalhadas de cada trecho do friso e indicando o deus que está ali representado.
Há mais três salões no estilo “colossal” no museu, que logicamente são os que mais impressionam. Uma delas possui reconstruções de colunas e fachadas de templos gregos dos dois primeiros séculos a.C., algumas com quase vinte metros de altura. A outra tem a fachada original do mercado de Mileto na época romana, uma visão massiva e imponente. E, por fim, a que mais me impressionou, pelo tamanho e pelos sentimentos de antiguidade e glória ancestal que evoca: o Portão de Ishtar na Babilônia, do século VII a.C. Quando você vê aquele negócio todo decorado e com uma cor azul profunda, pode pensar algo como: “bah, isso deve ser uma réplica recente”. Mas é a parada original, só com algumas restaurações inevitáveis, claro. O imenso portão, assim como as paredes da avenida que são reproduzidas no museu, são de pedra azul, não de tijolos normais, por isso mantém a mesma cor que inúmeros povos devem ter visto ao entrar naquela cidade legendária.
Depois de começar com essas visões assombrosas, até me exigiu um pouco de esforço olhar com atenção para o restante do acervo, quase humilde em relação às massacrantes atrações iniciais. Mas logo começou a fluir novamente aquele sentimento de escapismo e ancestralidade ao ver peças tão antigas quanto o tempo, esculturas, ornamentos, armas de mais de cinco mil anos atrás. O museu possui uma grande coleção de artefatos de algumas culturas do Oriente Próximo, onde podemos dizer que começou a civilização humana (como o nerd interior nunca morre, me deu uma vontade de jogar Age Of Empires I...). Como complemento, ainda, tem uma exposição de arte islâmica que, embora com algumas peças legais, não conseguiu prender tanto minha atenção depois de quatro horas ali dentro. Ainda passei no quarto museu da Ilha, o Bodesmuseum, que possui um acervo de arte do final da antiguidade até o Renascimento / Barroco europeu. Como meu negócio é mais história do que arte em si, apenas olhei com mais atenção o acervo bizantino e a coleção de moedas (que é bem maior que a do Altes Museum e vai até as moedas recentes).
Uma coisa que me causou surpresa nestes museus por onde passei é... a desorganização deles. Isso mesmo. Se você imagina que os museus seriam bonitinhos e perfeitamente organizados, segundo a eficiência que os alemães demonstram em quase tudo, pode tirar o chucrute da chuva. Vi com freqüência peças expostas sem nenhuma explicação, ou peças de contextos completamente desconexos dividindo a mesma sala. A ordem das salas não faz muito sentido e você não consegue ter uma sensação de coerência ao percorrê-las. Quem não sabe ler alemão (ou seja, o mundo inteiro, fora os alemães) fica meio perdido, pois a grande maioria das peças não possui explicação em inglês, ou apenas na forma de uma frase curta (mesma coisa no Zoo). Tá, é fácil ver um machado e saber que é um machado, mas e uma bola de pedra qualquer na seção pré-histórica? Os guias de áudio, presentes em todos os museus, não ajudam muito, pois falam apenas de poucas peças, enumeradas de forma aparentemente aleatória (e se alongam em discursos chatos pra cacete). Percebi coisas assim em todos eles, mas no Neues elas chegam ao ponto de atrapalhar bastante a experiência.
Depois dessa overdose de velharias, aproveitei o fim da tarde para ir até um ponto menos chique do centro de Berlim, em busca de objetivos mais prosaicos: comprar camisas de banda. Na minha cabeça, estar em uma grande capital européia, a terra do metal, seria uma boa oportunidade de encontrar camisas das bandas mais obscuras que eu escuto e jamais encontraria no Brasil. Ledo engano. A loja onde fui, mesmo grande, tinha um acervo miado baseado em bandas comuns. Segundo o atendente, nem conseguiria achar aquilo na cidade, pois, quando o pessoal quer uma camisa diferente, simplesmente compra pela internet. Aproveitei a viagem então para comprar um novo cartão de memória para a câmera (calma, eu tinha um de reserva para tirar fotos nos museus), comer uma salsicha assada nas movimentadas barraquinhas de uma praça e voltar ao hotel. Amanhã o plano é fazer o check out do hotel, deixando as malas na sala de bagagem que eles possuem, e andar por alguns trechos ainda não vistos da cidade, incluindo a visita ao Museu de História Natural (afinal, eu sou biólogo, e não arqueólogo, né? Ai, ai...).
Eu tenho que falar das diferenças culturais ainda, que vão além de não ter cesta de lixo nos banheiros, mas este post já está longo demais. Quem sabe eu escreva no trem e poste logo ao chegar em Paris. Ate lá, então!
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
"WACKEEEEEEENNNNNNN!!!!"
Escrevi isso aí logo após sair do universo paralelo onde as pessoas de preto são normais. Como verão em breve, eu tinha tempo de sobra, por isso ficou “grandinho”. Agora estou em Berlim usando a segunda feira para recuperação. Vamos lá.
Goslar
Na quarta feira anterior ao Wacken, aproveitei para dar um bate e volta em outra dessas cidadezinhas históricas do interior alemão que possuem alguma coisa legal para ver, dica da Tati e de um canadense que mora com ela. A bola da vez foi a pequena Goslar, uma espécie de Heidelberg menos pop. E, na verdade, se descontar o fator “castelo fodaço”, é até mais legal que a parente mais conhecida. Talvez também por eu ter ido durante a semana, a cidade estava menos lotada e era mais fácil ter aquela sensação de imersão medieval. Infelizmente, também por isso, vários pontos turísticos estavam fechados nos horários em que tentei ir. A cidade também possui mais construções antigas. Enquanto Heidelberg me pareceu praticamente toda renascentista ou mais nova, em Goslar existem muitas construções anteriores a 1500 para ver.
Dentre estas, está a atração principal da cidade: as minas. Trata-se de um complexo de túneis de mineração escavados desde o ano 900 e alguma coisa. Isso mesmo, minas com mais de mil anos ainda conservadas. Tem algo que grita mais DUNGEON do que isso? Não vi os anões e os goblins, mas eles com certeza estão por lá.
Não é à toa que o troço foi tombado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. Isto permitiu a criação de um complexo turístico muito rico, onde dá para perder um baita tempo. Tem inclusive visitas guiadas no interior das minas, alguns de várias horas e que vão em profundidades sinistras. Infelizmente eu fui em cima da hora e sem saber que estes mais longos só rolam com reservas antecipadas. Mas ainda deu para pegar uma voltinha de uma hora e meia por uma parte mais recente das minas. Duzentos anos de idade, só isso.
Curti para caramba esse passeio, feliz como pinto no lixo (ou como nerd na dungeon?). Mesmo com o guia só falando alemão (e como falava o tiozinho!) e sem entender os detalhes, deu para acompanhar a lógica e tirar muitas imagens dos túneis e dos trecos de mineração ainda conservados no seu interior. Existem visitas em inglês, mas logicamente não numa quarta feira aleatória.
Depois de sair do túnel, ainda dei uma volta rápida numa parte que é museu, muito interessante. Mas vi só correndo porque meu tempo era curto e precisava voltar para a cidade para passar de nív... quero dizer, andar pelo centro histórico. Devia ter ficado mais pelas minas, pois, como falei, dei de cara com quase tudo fechado. Ficou só na fotografia exterior.
Goslar foi uma agradável parada não-planejada na minha viagem, e ficou até a vontade de voltar em um dia melhor. Vale a pena a visita, mas é preciso um certo planejamento para aproveitar tudo.
Wacken
... mas chega de turismo histórico por enquanto, pois logo depois o negócio foi METAAAAAAALLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!
No dia seguinte, quinta feira, eu e Tati nos mandamos para a “Terra Sagrada de Wacken” (segundo cartaz do próprio evento). Conseguimos uma carona arregada em um site alemão (você busca o lugar onde quer ir e encontra anúncios de quem estiver indo para lá no dia desejado. Funciona legal e fica bem em conta viajar). Meio dia o gurizão passou para nos pegar em casa, já com mais um caroneiro a bordo, Iron Maiden à toda e carro devidamente identificado com as letras “W:O:A”.
Lá fomos nós subindo trezentos e tantos quilômetros para o norte, passando por Hamburgo, enfrentando trânsito (sim, eles também têm disso nas rodovias, porém bem mais sossegado que no Brasil) e chegando no vilarejo de Wacken. Basicamente, é um cu de mundo. A cidadezinha possui 700 habitantes, 2000 vacas e, em determinada época mágica do ano, abre-se um portal por onde jorram 75 mil urubus negros em direção ao reino do metal.
Eu sabia que o Wacken era grande. É o maior festival do gênero no mundo. As bandas que tocam lá são as maiores e mais conhecidas, uma atrás da outra. Mas não estava preparado para o real tamanho da coisa. Não é apenas uns palcos com uma área de acampamento. É literalmente uma cidade de quatro dias. Lá é possível encontrar de tudo e tem toda a estrutura para sobreviver ao festival tranqüilo. Existem três palcos enormes e quatro menores onde rolam o tempo todo atrações intercaladas ou simultâneas. Tem mercado, dezenas de barracas com tudo quanto é comida, Biergarten... Até uma vila medieval inteira eles colocam lá, com tudo o que um guerreiro do metal precisa: comidas de aventureiros, bebidas variadas, armas e armaduras (de metal mesmo!), espaço para treinar as habilidades bélicas (arremesar uma lança ou um machete é mais difícil do que parece!), combates entre guerreiros totalmente caracterizados, e mesmo umas sessões de tortura ocasionais para disciplinar aqueles que se desviam do caminho do Deus Metal. Obviamente também temos outras atividades voltadas ao interesse dos valorosos metaleiros, como concursos de Garota Camisa Molhada e moças de boa família oferecendo fotos de topless por preços módicos.
Basicamente, dá para se divertir o tempo todo sem sequer ver uma banda. Mas, como era minha primeira vez e meu currículo de shows não é dos maiores, decidi focar na música mesmo. Tati fez o mesmo, e não nos arrependemos (bem, talvez de um ou outro...).
O festival começa para valer na quinta, mas na quarta feira a área do festival já está aberta e existem eventos de aquecimento. Então, quando chegamos, por volta das quatro da tarde, a pequena Wacken já estava totalmente transformada em território headbanger. É até engraçado, você vai passando pela ruas e tudo o que vê é gente de preto, gente de preto, gente de preto... Ao contrário de como as coisas ocorrem no Brasil (cof, River, cof, Rock, cof...), a organização trabalha junto com os wackeanos (wackenses?) e estes vêem no festival uma exclenete oportunidade de lucro. Então dá-lhe tiozinhos usando camisas de bandas que nunca devem ter ouvido na vida, vendendo qualquer coisa “... do metal”.
Passando pela cidade em si, logo chegamos à área do acampamento, que ocupa uma grande extensão ao redor da área do festival em si. Quinta feira de tarde, já era tudo um mar de barracas, camisas negras e bêbados capotados (é, a galera já se passa logo de cara, vai entender...). Como éramos só dois, conseguimos depois de algum tempo achar um bom lugar muito próximo da área do festival (se você chegar tarde e precisar de muito espaço, é capaz de ficar a meia hora ou mais de lá). Armamos as barracas no sentido inocente do termo e logo estávamos prontos para começar as andanças. Se tem uma coisa que foto ou vídeo nenhum captura, e é preciso estar lá mesmo para sentir, é a profusão de figuras bizarras com as quais se cruza durante o evento, seja nos shows ou no acampamento. Desde os vikings saídos da Idade Média às glam-hard-bichas-loucas, passando por toda sorte de chapéus engraçados, placas com dizeres filosóficos (“Golfinhos são tubarões gays”, veja quanta sabedoria), pessoas (ou, quem sabe, ninfas da floresta) pouco, muito ou totalmente nuas andando como se estivessem na praia de nudismo. E não despertando mais do que um breve olhar dos outros, antes destes voltarem sua atenção aos seus canecos de um litro de cerveja.
Logo chegou a hora do show de abertura, sete da noite (que na real é dia até quase dez horas). Nada melhor que uma clássica banda alemã para o posto, e lá estava o Helloween para ocupá-lo. Tensão no começo, multidão já reunida, e os veteranos entram quebrando tudo... por 10 segundos. Daí o som falha, as luzes apagam e ficam todos com cara de tacho no palco. Até que tiraram de letra o problema inicial, rindo da situação, até recomeçarem a música e... isso mesmo, tudo desliga de novo. Não dá para saber se a culpa é do pessoal da banda ou da organização, mas digamos que não foi um bom começo. Entretanto, até que gostei, porque daí, por causa da perda de tempo, eles decidiram pular a primeira faixa (de divulgação do disco novo que não conheço) e partir logo para um setlist recheado de clássicos. Gostei muito do show dos caras, pois tocaram muitas músicas dos clássicos “Keepers”, que são os que melhor conheço. E o vocalista Andi Deris é um piadista. Pena que só falava em alemão. Mas o que eu deveria esperar, vendo uma banda alemã num festival alemão cheio de alemães? (tem gente de todos os lugares e tropeçamos em vários brasileiros, mas a grande maioria é da terrinha mesmo)
O Helloween foi a melhor banda de abertura possível para um dos shows que eu mais esperava. Afinal, é uma banda que figura no meu Top 5 e veria pela primeira vez no próprio país deles, onde são gigantes. Porém, o show do Blind Guardian acabou sendo uma decepção. Não por eles, pois as três músicas que consegui curtir foram animais. Mas por algum motivo sinistro ocorreu uma quantidade absurda de “crowd surfing”, aquela brincadeira de shows onde se levanta um sujeito e se vai passando ele por cima da galera de mão em mão. É algo divertido, por certo. Mas não quando a cada 30 segundos tem um mané voando para cima de você e é preciso parar de curtir para empurrar o maldito. Sério, foi ridículo. Ao mesmo tempo em que incomodou muita gente (fiz minha parte ao arremessar uns dois direto no chão, nas horas de mais raiva), a maioria continuava empurrando, e isso durou o show inteiro. Só não fiquei mais puto porque logo no mês que vem verei um show deles no Brasil, mas foi bem chato. Felizmente, o crowd surfing pareceu diminuir dali em diante, mas também começamos a ver os shows mais de trás para não nos incomodarmos tanto (a Tati levou uns belos socos também em rodas de poga – já mencionei que era um festival de ogros metaleiros?).
Depois disso, pausa para o rango. Achei a comida lá muito boa, desde os simples espetos de carne à moda bárbara e lingüiças assadas até rangos mais elaborados. Passaria o dia todo comendo e bebendo, se não fosse tudo tão caro também. Se eu pensasse em termos de preço convertido, estaria chorando a cada espeto de 11 reais e cerveja 400 ml de 8. O negócio é deixar a mente no Modo Euro (“só cinco contos, está em conta!”) e ser feliz, com alguma prudência. Outra coisa que me mostrou como esquemas simples podem funcionar para resolver problemas comuns foi o uso de um sistema de caução para copos e canecos de plástico grosso, que são devolvidos depois, evitando a orgia de copos descartáveis que com certeza ocorreria no Brasil.
Barriga cheia e logo às dez já tínhamos o primeiro headliner do festival. Ninguém menos que o vovô caquético mais amado do Metal, Mr. Ozzy Osbourne . Daí juntou multidão mesmo e logo estava lá o bom velhinho, tocando seus metais clássicos, dando corajosos pulinhos de vinte centímetros e agitando a galera como um animador de festas do asilo. Uma coisa não se pode negar, mesmo com todas as desafinadas e gagazices que apareciam pelo caminho: Ozzy é foda. Com toda aquela idade e os galões de drogas que já correram pelo sangue, eles sabe como empolgar uma multidão e não para de agitar um minuto. É talvez o melhor frontman vivo (?) do metal. Quando veio a primeira do Sabbath, “War Pigs”, meu coração de metal virou melado e os olhos lacrimejaram, ao ver o próprio cara, tocando aquelas músicas, para aquela multidão ensandecida. Foi um show verdadeiramente marcante e fechou uma noite curta de shows com a vibe lá em cima. Antes de dormir, mais um litrão de boa cerveja vendo vídeos antes de fugir para a barraca.
Noite mal dormida, como o esperado para um lugar onde amanhece às cinco horas e em uma barraca baleada que deixava entrar a chuva da manhã. Ao desistir de tentar dormir mais, foi hora de fazer algo nada metal: tomar banho. Primeiros contatos com algumas realidades do evento: como os organizadores estão aumentado a quantidade de ingressos cada vez mais, existe muita gente em todo lugar. Para tudo, uma fila e uma taxa. Para usar o banheiro relativamente limpo, fila de meia hora e 50 centavos de euro (consegue imaginar uma fila longa e demorada de homens agoniados, esperando para fazer a única coisa para a qual homens procuram banheiros limpos? Ah, pois é...). Depois, para tomar banho em estilo militar/presidiário, mais fila de meia hora e 2,50 euros. A manhã ia praticamente toda nisso.
Meio dia rumei para o primeiro horário de shows, pois ia tocar uma das bandas que eu mais queria ver, o Ensiferum. É uma daquelas um pouco menos conhecidas que vêm mais dificilmente ao Brasil, por isso a expectativa. E o viking-power-sei-lá-o-que metal deles é um dos sons que mais escutei nos últimos meses. Não me decepcionei. Com menos pessoas, deu para ficar mais perto, agitar bastante e já mandar para o espaço todo o serviço feito no banho. Tocaram a maioria das minhas favoritas, inclusive a “country” “Stone Cold Metal”, que possui uma paradinha com assobios e piano de faroeste no meio que ficou genial no show.
Feito isso, um tempo para um rango e uma cerveja de trigo no Biergarten antes de encontrar Tati, que tinha ido andar pela cidade, para o show das duas e meia. Algo no mínimo bizarro. Já imaginou metal feito quase totalmente com... a voz? É o que faz o Van Canto. A bateria é o único instrumento “real”. Os riffs e solos de “guitarra”, a base de “baixo” e, bem, os vocais, são feitos apenas com as vozes de três (ou quatro, não lembro) caras e uma mulher. O estilo é Power metal melódico sem grandes novidades. Enquanto camadas e mais camadas de canto se sobrepõe, um deles faz um “dugudum, dugudum, dugudum...” imitando a base cavalgada típica do gênero. Prepare-se para rir quando outro vier fazer o “solo”, algo parecido com o som do Lyu Kang ao dar aquele golpe “pedalada” em que ele sai voando e dá vários chutes no oponente, lembram? Talvez um peru sendo estrangulado soe parecido também. As músicas até que são interessantes e eles fazem alguns covers (Nightwish, Blind Guardian, Metallica), mas eu classificaria mais como curioso do que como legal.
Findo isso, mais um tempinho sentados no Biergarten (eu estava meio quebrado, por causa da falta de sono acumulada há dias e dos shows de quinta) e fomos ver o Rhapsody Of Fire. Eu gosto da banda em estúdio, tenho os quatro primeiros discos e ouço mais o “Power Of The Dragonflame”, onde Fabio Lione passou a cantar de um modo mais variado e agressivo. Mas no show, por algum motivo, não deu liga. Eles estavam lá fazendo exatamente o que se espera deles, com velocidade e teatralidade. Mas não empolgaram, e pela reação do público como um todo eu diria que o show foi morno realmente. Tocaram umas músicas que eu conhecia e tal, mas pelo jeito as que eu mais gosto não são as mais clássicas. Pelo menos serviu para me decidir sobre se “Lamento Eroico” é uma balada épica legal ou pomposa brega. A segunda opção ganhou, desculpe.
Tati agüentou pouco e foi checar o outro show que ocorria simultaneamente no palco grande próximo (sempre era intercalado um horário com um show no palco grande central com outro em que duas bandas tocavam ao mesmo tempo nos dois palcos das extremidades). Como estava meia boca o show, também saí um pouco antes esperado que naquele horário, com dois shows rolando, teria menos briga no estande de merchandising. Doce ilusão. O aglomerado humano nem era tão grande, mas a ineficiência dos atendentes compensava com méritos. Só agüentei ali por uns 40 minutos porque sabia que ia ser assim o tempo todo, e a demora só faria diminuir o número de produtos. Tudo para comprar uma camisa oficial do festival a um preço superfaturado. Mas quando que eu poderia comprar uma lembrança dessas de novo?
Após isso encontrei Tati na fila dos caixas eletrônicos e não me senti mais tão indignado com a demora. Isso porque as filas dos caixas eletrônicos davam um banho em matéria de lerdeza. Tive tempo de ir até a barraca, comprar comida, ir ao banheiro, voltar, e ela ainda estava na metade do caminho. Haja saco. Embora eu creia que ela não tenha um.
Então, estávamos próximos do headliner do dia. Com o show mais longo de todos no festival, o Judas Priest juntou uma multidão em frente ao palco central. Era um mar de gente, aparentemente maior que no Ozzy. Eu nem conheço muito Judas, apenas três discos (Sad Wings Of Destiny, Screaming For Vegeance, Painkiller – e mais uma música, lógico), mas era uma oportunidade única de ver esses velhinhos, já que, segundo os próprios, é a última turnê mundial da banda. Rob Halford perde muito para o Ozzy em matéria de presença de palco, eu diria, pois se limita a cantar e andar pelo palco, apenas ocasionalmente evocando os “crazy metalheads”, “fucking metalheads”, “[insira um adjetivo aqui] metalheads”. Mas em matéria de desempenho ele manda muito bem, com a garganta ainda capaz de dar os característicos gritos estridentes com força total. O show me pareceu morno na primeira metade, não só porque eram músicas que eu pouco conhecia, mas o público não aparentava tanta empolgação. Tudo mudou na metade, quando entrou a absolutamente simplória e clássica Breaking The Law, em que Halford não cantou uma síliaba. Deixou tudo para o público, que fez seu serviço com louvor. Daí a coisa começou a pegar fogo. Ameaçou amornar no inevitável solo de bateria, mas quando o batera emendou a introdução de “Painkiller” (a música mais violenta do Judas, minha favorita) a temperatura estourou de novo. O show seguiu em alto nível até o final, totalizado duas horas e quinze.
Tendo cumprido a missão do dia, eu tinha duas escolhas: esperar três horas até duas da manhã para ver o Apocalyptica (a banda que mais me interessava das que sobraram no dia), ou ir dormir para estar inteiro no dia seguinte, que ia ser mais recheado de bandas. Ainda tomamos uma cerveja e vimos um show com fogo de deixar os hippies da Bio com inveja, mas a segunda alternativa predominou e deixei Tati sozinha esperando pelo quarteto de violoncelos. Foi altos show, segundo sua opinião, mas valeu a pena recuperar uns pontos de vida extras.
Acordei com o sol e pensei que era perto das nove. “Legal, devo ter dormido bem!”. Olhei o relógio: 5:50. Maldito eixo torto da terra e seu ciclo de estações. Daí voltei ao dorme-acorda até dez. Mas estava mais inteiro que na sexta. Novamente, filas da limpeza interna e externa. Voltei à barraca e comi coisas de mercado que tinha trazido, para economizar um pouco. Era um pouco mais que meio dia quando Tati voltou do banho e fomos para um show que ela gostaria de ver, do Visions Of Altantis. Típico metal melódico / pomposo com vocal masculino limpo e feminino. Tem muitas bandas neste estilo, mas eu gosto de escutar, e os 20 minutos que conseguimos ver do show foram legais.
Aí teria um espaço longo na agenda que usamos para passear pela vila medieval, tentando a sorte com as armas medievais e vendo as coisas divertidas que aquele bando de nerds criava. Trombamos com um brasileiro que nos acompanhou durante o próximo show, do Mayhem. É a banda que provavelmente simboliza melhor aquele Black Metal norueguês reto e sem concessões do início dos anos 90. Musicalmente falando, é isso mesmo. Pancadaria extrema, músicas repetitivas e um vocal totalmente insano (que eu gostei bastante). Mas os caras decidiram fugir do estereótipo ao aparecer de cara limpa, sem a característica corpse paint. Acho que isso prejudicou a teatralidade do negócio e só dava para dar risada das caras e bocas do vocalista tentando parecer MegaPowerEvil (lembre-se: JAMAIS SORRIA em um show de Black Metal). Eu gostei do som, mesmo achando a performance tosca, mas Tati logo sentou e ficou com cara de quem poderia vomitar a qualquer grito histérico ou música exatamente igual à anterior. Quem realmente chegou nesse ponto foi um norueguês que estava logo à nossa frente e virou atração com suas gorfadas. Logo outro bêbado tropeçou nele e ficou no chão também. Parecia que ia virar uma pilha de chapados, mas a galera do “genteeee, isso é sério!” acabou com as risadas gerais chamando os paramédicos. Coisas do roquenrôu!
Tendo acabado Mayhem com pelo menos 20% a menos de audição, demos uma olhadinha no Iced Earth, mas como nenhum de nós curtia muito, logo fomos passear de novo. O próximo show foi quinze para as sete, e era nada menos que nossos amigos do Sepultura. Também não é uma banda que eu acompanhe tanto assim, embora goste do estilo. Prestarei mais atenção, porque o show foi realmente forte. Eu queria ter uma idéia do quão grande a banda é na Europa, já que aqui no Brasil a única coisa que o pessoal sabe dizer é que a banda acabou depois que o Max Cavaleira saiu. E olha que isso faz quinze anos. Eu sempre achei o Derrick mais vocalista e o público europeu não parece partidário do chororô, pois a galera que tinha para assistir era comparável à de qualquer uma das bandas locais conhecidas.
Do Sepultura, foi hora de ir direto para o Avantasia, projeto-propriedade do vocalista do Edguy, Tobias Sammet. Aparentemente este era o último show deles, então o grande público estava altamente empolgado. Além de Tobias ser um bom frontman, metade da Alemanha foi chamada para dividir o palco, ficando a banda com seis vocalistas convidados de diversas bandas conhecidas. Gostei bastante, embora seja um pouco melódico demais para meu gosto. Um pouco de pancadaria a mais sempre ajuda.
Última volta pela área do festival antes de engatar uma sequência de shows que detonou, absolutamente. Primeiro, a banda que, na minha opinião, simboliza o rock sujo, rápido, pesado e descompromissiado. Yeah, they are fucking Motörhead, and they are rock’n’roll!. Neste momento, eu acredito que o Wacken inteiro estava lá para assistir. Melódicos, extremos, roqueiros das antigas, não importa, todos estavam lá para curtir com a lenda viva sexagenária Lemmy e seus companheiros. De um jeito bem direto, o trio foi jogando uma cacetada atrás da hora, sem piedade. Para mim, um dos grandes shows do festival, que encerrou com a mais que clássica dobradinha “Ace Of Spades” e “Overkill”.
Já dava para ir embora e me dar como satisfeito, ter visto pela primeira vez três lendas do metal/rock em três noites seguidas. Mas era a última noite, era preciso aproveitar tudo até o final. Os planos eram de ir longe, até o festival literalmente fechar. Várias surpresas ainda viriam pelo caminho, nem todas elas boas.
A primeira foi das mais excelentes, e um dos pontos altos do festival para mim. Logo quinze minutos após o Motörhead começaria outra banda, sobre a qual eu pouco sabia além de que tinha alguma coisa a ver com folk. Como folk metal tem sido minha pira principal nos últimos quatro anos, poderia ser interessante. Tati foi comigo, mas sem muitas expectativas, pois para ela folk metal nada mais é do que um black metal escroto com algum acordeão ou gaita de foles para fazer firula. Qual não foi nossa surpresa ao descobrir que o Eläkeläiset (saúde!) não era metal coisa alguma, mas uma banda da mais pura Humppa! Este é um tipo de música popular finlandesa que se caracteriza pela velocidade extremamente rápida e ritmo contagiante, convidando à batida de pernas e dancinhas divertidas. Só que, além de músicas “true Humppa”, o Eläkeläiset faz versões humppicas de músicas de metal e rock, incluindo Iron Maiden, Metallica, Motörhead, Beatles, Nightwish e por aí vai. Então basicamente tínhamos quatro caras sentados com acordeões, violinos, teclados e contrabaixos, mais um gordinho na bateria, botando para quebrar e não deixando nenhum metaleiro ficar parado (tá, isso pareceu propaganda de Sessão da Tarde, mas era isso mesmo). Além da música em si, a performance era ótima, com danças e piadas (pelo menos esses falavam em inglês!). Ganharam direito a um tempo de 1:15h, longo se comparado ao de muitas bandas conhecidas no festival, minutos que passaram voando na velocidade da Humppa. Nem a chuva, que depois de ameaçar durante três dias resolveu cair com força, impediu os True Warriors Of Metal de dançarem felizes na lama.
O Eläkeläiset foi a surpresa do festival, mas ainda teríamos um excelente fechamento pela frente. O Subway To Sally (não, não me pergunte por que diabos este nome) foi o encarregado e, sendo um banda grande na Alemanha, contou com um bom público que resistiu à chuva pesada (o suficiente para conseguirmos ficar no local mais próximo do palco de todos em que ficamos, sem estresse ou aperto). Até onde sei, o estilo deles era mais voltado ao folk no início da carreira, tendo se deslocado para algo meio industrial com batidas pulsantes (e até dançantes, mas não tão parecido ao Rammstein quanto soa). Felizmente o disco de transição e que parece ser o clássico deles é justamente o único que tenho, então teve várias músicas que eu conhecia. Não posso deixar de salientar a parte pirotécnica, que foi realmente show de bola. Fogo saindo do chão do palco, de cima do palco, das estruturas logo sobre nossas cabeças, cuspido pelos músicos... Um excelente modo de encerrar, às três da manhã, uma dose cavalar de metais pesados injetada diretamente no cérebro ao longo desses dias.
E então tudo acabou.
Literalmente. No momento em que encerrou o último show, o Wacken pareceu balada fechando. Ainda estávamos super animados, pois no programa mostrava que rolaria uma festa metálica com caraoquê e tudo até seis da manhã. Mas no local indicado não aconteceu nada e logo eles trataram de tirar o pessoal do local dos shows. Correndo na chuva entre as barraquinhas que fechavam uma atrás da outra, não era mais possível encontrar uma gota de cerveja, e apenas algumas sobras de comida. Todo mundo fugiu para as barracas, para casa, ou para algum buraco misterioso escondido no meio dos campos. Foi o “acabou a cerveja, acabou a amizade” na maior escala que já vi na vida! Isso deu uma desanimada em nós e só nos restou voltar amuados às barracas.
Mas ainda havia uma longa aventura a ser enfrentada, da volta. Tati tinha planejado festar até amanhecer e disparar direto, pegando os ônibus do festival que levavam até a estação de trem mais próxima, para chegar em casa pelo meio dia e dormir para trabalhar segunda. Meu plano era também festar até tarde, mas daí dar uma bojada e voltar perto do meio dia, por isso comprei a passagem para final da tarde. Tudo poderia dar certo se não fosse pelo detalhe de que não teve festa. O jeito foi ficar nas barracas dando uma bodeada esperando a hora de voltar.
A chuva engrossou e o vento começou a bater com força, de um modo que fazia minha barraquinha já sofrida parecer que ia desabar a cada minuto. Sem o telhadinho que cobre as telas que ficam na parte superior, tive que me virar com umas capas de chuva amarradas, mas com o vento não adiantava muito. Decidi que, se era para ficar na barrada daquele jeito, o melhor seria disparar de uma vez, às seis da manhã também. Não ia conseguir dormir de qualquer maneira. Desmontamos as barracas e caminhamos com as malas por um bom pedaço sob chuva e vento, o que é uma experiência inglória. Chegamos e lá estava um dos ônibus atulhado de metaleiros e malas. Juntamos nossos pacotes e ossos molhados aos deles, e lá fomos sacolejando até Itzehoe, a cidade mais próxima que possui uma estação de trem (eu já mencionei que Wacken é um cu de mundo? Deixa eu falar de novo: Wacken é um cu de mundo!).
“Ter uma estação de trem” não significa “ter uma estação de trem onde caiba todo mundo” e lá foram os metaleiros se amontoar pelo chão da microestação. Aproveitamos para trocar as roupas encharcadas. Ainda faltava uma hora para o trem da Tati e a bagatela de dez horas para o meu. Fui perguntar para o vendedor de passagens se tinha jeito de trocar de horário, mas tudo o que ele me disse foi que poderíamos já ir até Hamburgo a qualquer momento, sem ter que esperar o horário certo. Isso soou melhor que ficar naquele pulgueirinho, e lá fomos nós. Era até engraçado, aquele monte de gente de preto dominando o pequeno local, e lotando o trem que logo chegou. Em Hamburgo, finalmente descemos em uma estação decente e esperamos tomando um café. À essa altura, com a adrenalina já baixa, me sentia como um zumbi. Tati não parecia diferente. Uma hora depois, chegou o horário dela e nos separamos.
Ainda tive que esperar um pouco para abrir o guichê de vendas, onde pude perguntar se dava para trocar o diabo da passagem. Não rolou pois, como eu comprei com preço promocional, teria que pagar uma diferença grande para pegar um trem que sairia apenas três horas antes. Para quem ia esperar por dez, três a menos não fazia tanta diferença. Juro que, se estivesse em condições, aproveitaria para andar pela cidade. Com essa possibilidade totalmente fora de cogitação, me sentei num bando da estação e comecei a escrever este relato, que continuou nas horas em que passei sentado em um McDonalds comendo porcarias. O tempo todo ainda vejo pessoas de preto com cara de sono andando de um lado para o outro ou caídas nos bancos.
Se você conseguiu chegar até o final e achou isto insuportavelmente longo, pode ter uma idéia do quão grande está meu saco de ficar esperando. E ainda tenho uma hora e meia pela frente, mas com certeza não usarei para continuar escrevendo. O plano agora é pegar este trem, em duas horas estar em Berlim, ir direto para o hotel (abençoadamente é do lado da estação) e morrer na cama. Amanhã o dia é de descanso e, quem sabe, lavar as roupas e outros bagulhos que voltaram num estado deplorável. Berlim mesmo, só terça feira. Tudo dentro do planejado. Um dia a menos de turismo por três dias que foram muito, mas MUITO legais. Só me pergunto agora... Quando venho para o próximo??
Goslar
Na quarta feira anterior ao Wacken, aproveitei para dar um bate e volta em outra dessas cidadezinhas históricas do interior alemão que possuem alguma coisa legal para ver, dica da Tati e de um canadense que mora com ela. A bola da vez foi a pequena Goslar, uma espécie de Heidelberg menos pop. E, na verdade, se descontar o fator “castelo fodaço”, é até mais legal que a parente mais conhecida. Talvez também por eu ter ido durante a semana, a cidade estava menos lotada e era mais fácil ter aquela sensação de imersão medieval. Infelizmente, também por isso, vários pontos turísticos estavam fechados nos horários em que tentei ir. A cidade também possui mais construções antigas. Enquanto Heidelberg me pareceu praticamente toda renascentista ou mais nova, em Goslar existem muitas construções anteriores a 1500 para ver.
Dentre estas, está a atração principal da cidade: as minas. Trata-se de um complexo de túneis de mineração escavados desde o ano 900 e alguma coisa. Isso mesmo, minas com mais de mil anos ainda conservadas. Tem algo que grita mais DUNGEON do que isso? Não vi os anões e os goblins, mas eles com certeza estão por lá.
Não é à toa que o troço foi tombado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. Isto permitiu a criação de um complexo turístico muito rico, onde dá para perder um baita tempo. Tem inclusive visitas guiadas no interior das minas, alguns de várias horas e que vão em profundidades sinistras. Infelizmente eu fui em cima da hora e sem saber que estes mais longos só rolam com reservas antecipadas. Mas ainda deu para pegar uma voltinha de uma hora e meia por uma parte mais recente das minas. Duzentos anos de idade, só isso.
Curti para caramba esse passeio, feliz como pinto no lixo (ou como nerd na dungeon?). Mesmo com o guia só falando alemão (e como falava o tiozinho!) e sem entender os detalhes, deu para acompanhar a lógica e tirar muitas imagens dos túneis e dos trecos de mineração ainda conservados no seu interior. Existem visitas em inglês, mas logicamente não numa quarta feira aleatória.
Depois de sair do túnel, ainda dei uma volta rápida numa parte que é museu, muito interessante. Mas vi só correndo porque meu tempo era curto e precisava voltar para a cidade para passar de nív... quero dizer, andar pelo centro histórico. Devia ter ficado mais pelas minas, pois, como falei, dei de cara com quase tudo fechado. Ficou só na fotografia exterior.
Goslar foi uma agradável parada não-planejada na minha viagem, e ficou até a vontade de voltar em um dia melhor. Vale a pena a visita, mas é preciso um certo planejamento para aproveitar tudo.
Wacken
... mas chega de turismo histórico por enquanto, pois logo depois o negócio foi METAAAAAAALLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!
No dia seguinte, quinta feira, eu e Tati nos mandamos para a “Terra Sagrada de Wacken” (segundo cartaz do próprio evento). Conseguimos uma carona arregada em um site alemão (você busca o lugar onde quer ir e encontra anúncios de quem estiver indo para lá no dia desejado. Funciona legal e fica bem em conta viajar). Meio dia o gurizão passou para nos pegar em casa, já com mais um caroneiro a bordo, Iron Maiden à toda e carro devidamente identificado com as letras “W:O:A”.
Lá fomos nós subindo trezentos e tantos quilômetros para o norte, passando por Hamburgo, enfrentando trânsito (sim, eles também têm disso nas rodovias, porém bem mais sossegado que no Brasil) e chegando no vilarejo de Wacken. Basicamente, é um cu de mundo. A cidadezinha possui 700 habitantes, 2000 vacas e, em determinada época mágica do ano, abre-se um portal por onde jorram 75 mil urubus negros em direção ao reino do metal.
Eu sabia que o Wacken era grande. É o maior festival do gênero no mundo. As bandas que tocam lá são as maiores e mais conhecidas, uma atrás da outra. Mas não estava preparado para o real tamanho da coisa. Não é apenas uns palcos com uma área de acampamento. É literalmente uma cidade de quatro dias. Lá é possível encontrar de tudo e tem toda a estrutura para sobreviver ao festival tranqüilo. Existem três palcos enormes e quatro menores onde rolam o tempo todo atrações intercaladas ou simultâneas. Tem mercado, dezenas de barracas com tudo quanto é comida, Biergarten... Até uma vila medieval inteira eles colocam lá, com tudo o que um guerreiro do metal precisa: comidas de aventureiros, bebidas variadas, armas e armaduras (de metal mesmo!), espaço para treinar as habilidades bélicas (arremesar uma lança ou um machete é mais difícil do que parece!), combates entre guerreiros totalmente caracterizados, e mesmo umas sessões de tortura ocasionais para disciplinar aqueles que se desviam do caminho do Deus Metal. Obviamente também temos outras atividades voltadas ao interesse dos valorosos metaleiros, como concursos de Garota Camisa Molhada e moças de boa família oferecendo fotos de topless por preços módicos.
Basicamente, dá para se divertir o tempo todo sem sequer ver uma banda. Mas, como era minha primeira vez e meu currículo de shows não é dos maiores, decidi focar na música mesmo. Tati fez o mesmo, e não nos arrependemos (bem, talvez de um ou outro...).
O festival começa para valer na quinta, mas na quarta feira a área do festival já está aberta e existem eventos de aquecimento. Então, quando chegamos, por volta das quatro da tarde, a pequena Wacken já estava totalmente transformada em território headbanger. É até engraçado, você vai passando pela ruas e tudo o que vê é gente de preto, gente de preto, gente de preto... Ao contrário de como as coisas ocorrem no Brasil (cof, River, cof, Rock, cof...), a organização trabalha junto com os wackeanos (wackenses?) e estes vêem no festival uma exclenete oportunidade de lucro. Então dá-lhe tiozinhos usando camisas de bandas que nunca devem ter ouvido na vida, vendendo qualquer coisa “... do metal”.
Passando pela cidade em si, logo chegamos à área do acampamento, que ocupa uma grande extensão ao redor da área do festival em si. Quinta feira de tarde, já era tudo um mar de barracas, camisas negras e bêbados capotados (é, a galera já se passa logo de cara, vai entender...). Como éramos só dois, conseguimos depois de algum tempo achar um bom lugar muito próximo da área do festival (se você chegar tarde e precisar de muito espaço, é capaz de ficar a meia hora ou mais de lá). Armamos as barracas no sentido inocente do termo e logo estávamos prontos para começar as andanças. Se tem uma coisa que foto ou vídeo nenhum captura, e é preciso estar lá mesmo para sentir, é a profusão de figuras bizarras com as quais se cruza durante o evento, seja nos shows ou no acampamento. Desde os vikings saídos da Idade Média às glam-hard-bichas-loucas, passando por toda sorte de chapéus engraçados, placas com dizeres filosóficos (“Golfinhos são tubarões gays”, veja quanta sabedoria), pessoas (ou, quem sabe, ninfas da floresta) pouco, muito ou totalmente nuas andando como se estivessem na praia de nudismo. E não despertando mais do que um breve olhar dos outros, antes destes voltarem sua atenção aos seus canecos de um litro de cerveja.
Logo chegou a hora do show de abertura, sete da noite (que na real é dia até quase dez horas). Nada melhor que uma clássica banda alemã para o posto, e lá estava o Helloween para ocupá-lo. Tensão no começo, multidão já reunida, e os veteranos entram quebrando tudo... por 10 segundos. Daí o som falha, as luzes apagam e ficam todos com cara de tacho no palco. Até que tiraram de letra o problema inicial, rindo da situação, até recomeçarem a música e... isso mesmo, tudo desliga de novo. Não dá para saber se a culpa é do pessoal da banda ou da organização, mas digamos que não foi um bom começo. Entretanto, até que gostei, porque daí, por causa da perda de tempo, eles decidiram pular a primeira faixa (de divulgação do disco novo que não conheço) e partir logo para um setlist recheado de clássicos. Gostei muito do show dos caras, pois tocaram muitas músicas dos clássicos “Keepers”, que são os que melhor conheço. E o vocalista Andi Deris é um piadista. Pena que só falava em alemão. Mas o que eu deveria esperar, vendo uma banda alemã num festival alemão cheio de alemães? (tem gente de todos os lugares e tropeçamos em vários brasileiros, mas a grande maioria é da terrinha mesmo)
O Helloween foi a melhor banda de abertura possível para um dos shows que eu mais esperava. Afinal, é uma banda que figura no meu Top 5 e veria pela primeira vez no próprio país deles, onde são gigantes. Porém, o show do Blind Guardian acabou sendo uma decepção. Não por eles, pois as três músicas que consegui curtir foram animais. Mas por algum motivo sinistro ocorreu uma quantidade absurda de “crowd surfing”, aquela brincadeira de shows onde se levanta um sujeito e se vai passando ele por cima da galera de mão em mão. É algo divertido, por certo. Mas não quando a cada 30 segundos tem um mané voando para cima de você e é preciso parar de curtir para empurrar o maldito. Sério, foi ridículo. Ao mesmo tempo em que incomodou muita gente (fiz minha parte ao arremessar uns dois direto no chão, nas horas de mais raiva), a maioria continuava empurrando, e isso durou o show inteiro. Só não fiquei mais puto porque logo no mês que vem verei um show deles no Brasil, mas foi bem chato. Felizmente, o crowd surfing pareceu diminuir dali em diante, mas também começamos a ver os shows mais de trás para não nos incomodarmos tanto (a Tati levou uns belos socos também em rodas de poga – já mencionei que era um festival de ogros metaleiros?).
Depois disso, pausa para o rango. Achei a comida lá muito boa, desde os simples espetos de carne à moda bárbara e lingüiças assadas até rangos mais elaborados. Passaria o dia todo comendo e bebendo, se não fosse tudo tão caro também. Se eu pensasse em termos de preço convertido, estaria chorando a cada espeto de 11 reais e cerveja 400 ml de 8. O negócio é deixar a mente no Modo Euro (“só cinco contos, está em conta!”) e ser feliz, com alguma prudência. Outra coisa que me mostrou como esquemas simples podem funcionar para resolver problemas comuns foi o uso de um sistema de caução para copos e canecos de plástico grosso, que são devolvidos depois, evitando a orgia de copos descartáveis que com certeza ocorreria no Brasil.
Barriga cheia e logo às dez já tínhamos o primeiro headliner do festival. Ninguém menos que o vovô caquético mais amado do Metal, Mr. Ozzy Osbourne . Daí juntou multidão mesmo e logo estava lá o bom velhinho, tocando seus metais clássicos, dando corajosos pulinhos de vinte centímetros e agitando a galera como um animador de festas do asilo. Uma coisa não se pode negar, mesmo com todas as desafinadas e gagazices que apareciam pelo caminho: Ozzy é foda. Com toda aquela idade e os galões de drogas que já correram pelo sangue, eles sabe como empolgar uma multidão e não para de agitar um minuto. É talvez o melhor frontman vivo (?) do metal. Quando veio a primeira do Sabbath, “War Pigs”, meu coração de metal virou melado e os olhos lacrimejaram, ao ver o próprio cara, tocando aquelas músicas, para aquela multidão ensandecida. Foi um show verdadeiramente marcante e fechou uma noite curta de shows com a vibe lá em cima. Antes de dormir, mais um litrão de boa cerveja vendo vídeos antes de fugir para a barraca.
Noite mal dormida, como o esperado para um lugar onde amanhece às cinco horas e em uma barraca baleada que deixava entrar a chuva da manhã. Ao desistir de tentar dormir mais, foi hora de fazer algo nada metal: tomar banho. Primeiros contatos com algumas realidades do evento: como os organizadores estão aumentado a quantidade de ingressos cada vez mais, existe muita gente em todo lugar. Para tudo, uma fila e uma taxa. Para usar o banheiro relativamente limpo, fila de meia hora e 50 centavos de euro (consegue imaginar uma fila longa e demorada de homens agoniados, esperando para fazer a única coisa para a qual homens procuram banheiros limpos? Ah, pois é...). Depois, para tomar banho em estilo militar/presidiário, mais fila de meia hora e 2,50 euros. A manhã ia praticamente toda nisso.
Meio dia rumei para o primeiro horário de shows, pois ia tocar uma das bandas que eu mais queria ver, o Ensiferum. É uma daquelas um pouco menos conhecidas que vêm mais dificilmente ao Brasil, por isso a expectativa. E o viking-power-sei-lá-o-que metal deles é um dos sons que mais escutei nos últimos meses. Não me decepcionei. Com menos pessoas, deu para ficar mais perto, agitar bastante e já mandar para o espaço todo o serviço feito no banho. Tocaram a maioria das minhas favoritas, inclusive a “country” “Stone Cold Metal”, que possui uma paradinha com assobios e piano de faroeste no meio que ficou genial no show.
Feito isso, um tempo para um rango e uma cerveja de trigo no Biergarten antes de encontrar Tati, que tinha ido andar pela cidade, para o show das duas e meia. Algo no mínimo bizarro. Já imaginou metal feito quase totalmente com... a voz? É o que faz o Van Canto. A bateria é o único instrumento “real”. Os riffs e solos de “guitarra”, a base de “baixo” e, bem, os vocais, são feitos apenas com as vozes de três (ou quatro, não lembro) caras e uma mulher. O estilo é Power metal melódico sem grandes novidades. Enquanto camadas e mais camadas de canto se sobrepõe, um deles faz um “dugudum, dugudum, dugudum...” imitando a base cavalgada típica do gênero. Prepare-se para rir quando outro vier fazer o “solo”, algo parecido com o som do Lyu Kang ao dar aquele golpe “pedalada” em que ele sai voando e dá vários chutes no oponente, lembram? Talvez um peru sendo estrangulado soe parecido também. As músicas até que são interessantes e eles fazem alguns covers (Nightwish, Blind Guardian, Metallica), mas eu classificaria mais como curioso do que como legal.
Findo isso, mais um tempinho sentados no Biergarten (eu estava meio quebrado, por causa da falta de sono acumulada há dias e dos shows de quinta) e fomos ver o Rhapsody Of Fire. Eu gosto da banda em estúdio, tenho os quatro primeiros discos e ouço mais o “Power Of The Dragonflame”, onde Fabio Lione passou a cantar de um modo mais variado e agressivo. Mas no show, por algum motivo, não deu liga. Eles estavam lá fazendo exatamente o que se espera deles, com velocidade e teatralidade. Mas não empolgaram, e pela reação do público como um todo eu diria que o show foi morno realmente. Tocaram umas músicas que eu conhecia e tal, mas pelo jeito as que eu mais gosto não são as mais clássicas. Pelo menos serviu para me decidir sobre se “Lamento Eroico” é uma balada épica legal ou pomposa brega. A segunda opção ganhou, desculpe.
Tati agüentou pouco e foi checar o outro show que ocorria simultaneamente no palco grande próximo (sempre era intercalado um horário com um show no palco grande central com outro em que duas bandas tocavam ao mesmo tempo nos dois palcos das extremidades). Como estava meia boca o show, também saí um pouco antes esperado que naquele horário, com dois shows rolando, teria menos briga no estande de merchandising. Doce ilusão. O aglomerado humano nem era tão grande, mas a ineficiência dos atendentes compensava com méritos. Só agüentei ali por uns 40 minutos porque sabia que ia ser assim o tempo todo, e a demora só faria diminuir o número de produtos. Tudo para comprar uma camisa oficial do festival a um preço superfaturado. Mas quando que eu poderia comprar uma lembrança dessas de novo?
Após isso encontrei Tati na fila dos caixas eletrônicos e não me senti mais tão indignado com a demora. Isso porque as filas dos caixas eletrônicos davam um banho em matéria de lerdeza. Tive tempo de ir até a barraca, comprar comida, ir ao banheiro, voltar, e ela ainda estava na metade do caminho. Haja saco. Embora eu creia que ela não tenha um.
Então, estávamos próximos do headliner do dia. Com o show mais longo de todos no festival, o Judas Priest juntou uma multidão em frente ao palco central. Era um mar de gente, aparentemente maior que no Ozzy. Eu nem conheço muito Judas, apenas três discos (Sad Wings Of Destiny, Screaming For Vegeance, Painkiller – e mais uma música, lógico), mas era uma oportunidade única de ver esses velhinhos, já que, segundo os próprios, é a última turnê mundial da banda. Rob Halford perde muito para o Ozzy em matéria de presença de palco, eu diria, pois se limita a cantar e andar pelo palco, apenas ocasionalmente evocando os “crazy metalheads”, “fucking metalheads”, “[insira um adjetivo aqui] metalheads”. Mas em matéria de desempenho ele manda muito bem, com a garganta ainda capaz de dar os característicos gritos estridentes com força total. O show me pareceu morno na primeira metade, não só porque eram músicas que eu pouco conhecia, mas o público não aparentava tanta empolgação. Tudo mudou na metade, quando entrou a absolutamente simplória e clássica Breaking The Law, em que Halford não cantou uma síliaba. Deixou tudo para o público, que fez seu serviço com louvor. Daí a coisa começou a pegar fogo. Ameaçou amornar no inevitável solo de bateria, mas quando o batera emendou a introdução de “Painkiller” (a música mais violenta do Judas, minha favorita) a temperatura estourou de novo. O show seguiu em alto nível até o final, totalizado duas horas e quinze.
Tendo cumprido a missão do dia, eu tinha duas escolhas: esperar três horas até duas da manhã para ver o Apocalyptica (a banda que mais me interessava das que sobraram no dia), ou ir dormir para estar inteiro no dia seguinte, que ia ser mais recheado de bandas. Ainda tomamos uma cerveja e vimos um show com fogo de deixar os hippies da Bio com inveja, mas a segunda alternativa predominou e deixei Tati sozinha esperando pelo quarteto de violoncelos. Foi altos show, segundo sua opinião, mas valeu a pena recuperar uns pontos de vida extras.
Acordei com o sol e pensei que era perto das nove. “Legal, devo ter dormido bem!”. Olhei o relógio: 5:50. Maldito eixo torto da terra e seu ciclo de estações. Daí voltei ao dorme-acorda até dez. Mas estava mais inteiro que na sexta. Novamente, filas da limpeza interna e externa. Voltei à barraca e comi coisas de mercado que tinha trazido, para economizar um pouco. Era um pouco mais que meio dia quando Tati voltou do banho e fomos para um show que ela gostaria de ver, do Visions Of Altantis. Típico metal melódico / pomposo com vocal masculino limpo e feminino. Tem muitas bandas neste estilo, mas eu gosto de escutar, e os 20 minutos que conseguimos ver do show foram legais.
Aí teria um espaço longo na agenda que usamos para passear pela vila medieval, tentando a sorte com as armas medievais e vendo as coisas divertidas que aquele bando de nerds criava. Trombamos com um brasileiro que nos acompanhou durante o próximo show, do Mayhem. É a banda que provavelmente simboliza melhor aquele Black Metal norueguês reto e sem concessões do início dos anos 90. Musicalmente falando, é isso mesmo. Pancadaria extrema, músicas repetitivas e um vocal totalmente insano (que eu gostei bastante). Mas os caras decidiram fugir do estereótipo ao aparecer de cara limpa, sem a característica corpse paint. Acho que isso prejudicou a teatralidade do negócio e só dava para dar risada das caras e bocas do vocalista tentando parecer MegaPowerEvil (lembre-se: JAMAIS SORRIA em um show de Black Metal). Eu gostei do som, mesmo achando a performance tosca, mas Tati logo sentou e ficou com cara de quem poderia vomitar a qualquer grito histérico ou música exatamente igual à anterior. Quem realmente chegou nesse ponto foi um norueguês que estava logo à nossa frente e virou atração com suas gorfadas. Logo outro bêbado tropeçou nele e ficou no chão também. Parecia que ia virar uma pilha de chapados, mas a galera do “genteeee, isso é sério!” acabou com as risadas gerais chamando os paramédicos. Coisas do roquenrôu!
Tendo acabado Mayhem com pelo menos 20% a menos de audição, demos uma olhadinha no Iced Earth, mas como nenhum de nós curtia muito, logo fomos passear de novo. O próximo show foi quinze para as sete, e era nada menos que nossos amigos do Sepultura. Também não é uma banda que eu acompanhe tanto assim, embora goste do estilo. Prestarei mais atenção, porque o show foi realmente forte. Eu queria ter uma idéia do quão grande a banda é na Europa, já que aqui no Brasil a única coisa que o pessoal sabe dizer é que a banda acabou depois que o Max Cavaleira saiu. E olha que isso faz quinze anos. Eu sempre achei o Derrick mais vocalista e o público europeu não parece partidário do chororô, pois a galera que tinha para assistir era comparável à de qualquer uma das bandas locais conhecidas.
Do Sepultura, foi hora de ir direto para o Avantasia, projeto-propriedade do vocalista do Edguy, Tobias Sammet. Aparentemente este era o último show deles, então o grande público estava altamente empolgado. Além de Tobias ser um bom frontman, metade da Alemanha foi chamada para dividir o palco, ficando a banda com seis vocalistas convidados de diversas bandas conhecidas. Gostei bastante, embora seja um pouco melódico demais para meu gosto. Um pouco de pancadaria a mais sempre ajuda.
Última volta pela área do festival antes de engatar uma sequência de shows que detonou, absolutamente. Primeiro, a banda que, na minha opinião, simboliza o rock sujo, rápido, pesado e descompromissiado. Yeah, they are fucking Motörhead, and they are rock’n’roll!. Neste momento, eu acredito que o Wacken inteiro estava lá para assistir. Melódicos, extremos, roqueiros das antigas, não importa, todos estavam lá para curtir com a lenda viva sexagenária Lemmy e seus companheiros. De um jeito bem direto, o trio foi jogando uma cacetada atrás da hora, sem piedade. Para mim, um dos grandes shows do festival, que encerrou com a mais que clássica dobradinha “Ace Of Spades” e “Overkill”.
Já dava para ir embora e me dar como satisfeito, ter visto pela primeira vez três lendas do metal/rock em três noites seguidas. Mas era a última noite, era preciso aproveitar tudo até o final. Os planos eram de ir longe, até o festival literalmente fechar. Várias surpresas ainda viriam pelo caminho, nem todas elas boas.
A primeira foi das mais excelentes, e um dos pontos altos do festival para mim. Logo quinze minutos após o Motörhead começaria outra banda, sobre a qual eu pouco sabia além de que tinha alguma coisa a ver com folk. Como folk metal tem sido minha pira principal nos últimos quatro anos, poderia ser interessante. Tati foi comigo, mas sem muitas expectativas, pois para ela folk metal nada mais é do que um black metal escroto com algum acordeão ou gaita de foles para fazer firula. Qual não foi nossa surpresa ao descobrir que o Eläkeläiset (saúde!) não era metal coisa alguma, mas uma banda da mais pura Humppa! Este é um tipo de música popular finlandesa que se caracteriza pela velocidade extremamente rápida e ritmo contagiante, convidando à batida de pernas e dancinhas divertidas. Só que, além de músicas “true Humppa”, o Eläkeläiset faz versões humppicas de músicas de metal e rock, incluindo Iron Maiden, Metallica, Motörhead, Beatles, Nightwish e por aí vai. Então basicamente tínhamos quatro caras sentados com acordeões, violinos, teclados e contrabaixos, mais um gordinho na bateria, botando para quebrar e não deixando nenhum metaleiro ficar parado (tá, isso pareceu propaganda de Sessão da Tarde, mas era isso mesmo). Além da música em si, a performance era ótima, com danças e piadas (pelo menos esses falavam em inglês!). Ganharam direito a um tempo de 1:15h, longo se comparado ao de muitas bandas conhecidas no festival, minutos que passaram voando na velocidade da Humppa. Nem a chuva, que depois de ameaçar durante três dias resolveu cair com força, impediu os True Warriors Of Metal de dançarem felizes na lama.
O Eläkeläiset foi a surpresa do festival, mas ainda teríamos um excelente fechamento pela frente. O Subway To Sally (não, não me pergunte por que diabos este nome) foi o encarregado e, sendo um banda grande na Alemanha, contou com um bom público que resistiu à chuva pesada (o suficiente para conseguirmos ficar no local mais próximo do palco de todos em que ficamos, sem estresse ou aperto). Até onde sei, o estilo deles era mais voltado ao folk no início da carreira, tendo se deslocado para algo meio industrial com batidas pulsantes (e até dançantes, mas não tão parecido ao Rammstein quanto soa). Felizmente o disco de transição e que parece ser o clássico deles é justamente o único que tenho, então teve várias músicas que eu conhecia. Não posso deixar de salientar a parte pirotécnica, que foi realmente show de bola. Fogo saindo do chão do palco, de cima do palco, das estruturas logo sobre nossas cabeças, cuspido pelos músicos... Um excelente modo de encerrar, às três da manhã, uma dose cavalar de metais pesados injetada diretamente no cérebro ao longo desses dias.
E então tudo acabou.
Literalmente. No momento em que encerrou o último show, o Wacken pareceu balada fechando. Ainda estávamos super animados, pois no programa mostrava que rolaria uma festa metálica com caraoquê e tudo até seis da manhã. Mas no local indicado não aconteceu nada e logo eles trataram de tirar o pessoal do local dos shows. Correndo na chuva entre as barraquinhas que fechavam uma atrás da outra, não era mais possível encontrar uma gota de cerveja, e apenas algumas sobras de comida. Todo mundo fugiu para as barracas, para casa, ou para algum buraco misterioso escondido no meio dos campos. Foi o “acabou a cerveja, acabou a amizade” na maior escala que já vi na vida! Isso deu uma desanimada em nós e só nos restou voltar amuados às barracas.
Mas ainda havia uma longa aventura a ser enfrentada, da volta. Tati tinha planejado festar até amanhecer e disparar direto, pegando os ônibus do festival que levavam até a estação de trem mais próxima, para chegar em casa pelo meio dia e dormir para trabalhar segunda. Meu plano era também festar até tarde, mas daí dar uma bojada e voltar perto do meio dia, por isso comprei a passagem para final da tarde. Tudo poderia dar certo se não fosse pelo detalhe de que não teve festa. O jeito foi ficar nas barracas dando uma bodeada esperando a hora de voltar.
A chuva engrossou e o vento começou a bater com força, de um modo que fazia minha barraquinha já sofrida parecer que ia desabar a cada minuto. Sem o telhadinho que cobre as telas que ficam na parte superior, tive que me virar com umas capas de chuva amarradas, mas com o vento não adiantava muito. Decidi que, se era para ficar na barrada daquele jeito, o melhor seria disparar de uma vez, às seis da manhã também. Não ia conseguir dormir de qualquer maneira. Desmontamos as barracas e caminhamos com as malas por um bom pedaço sob chuva e vento, o que é uma experiência inglória. Chegamos e lá estava um dos ônibus atulhado de metaleiros e malas. Juntamos nossos pacotes e ossos molhados aos deles, e lá fomos sacolejando até Itzehoe, a cidade mais próxima que possui uma estação de trem (eu já mencionei que Wacken é um cu de mundo? Deixa eu falar de novo: Wacken é um cu de mundo!).
“Ter uma estação de trem” não significa “ter uma estação de trem onde caiba todo mundo” e lá foram os metaleiros se amontoar pelo chão da microestação. Aproveitamos para trocar as roupas encharcadas. Ainda faltava uma hora para o trem da Tati e a bagatela de dez horas para o meu. Fui perguntar para o vendedor de passagens se tinha jeito de trocar de horário, mas tudo o que ele me disse foi que poderíamos já ir até Hamburgo a qualquer momento, sem ter que esperar o horário certo. Isso soou melhor que ficar naquele pulgueirinho, e lá fomos nós. Era até engraçado, aquele monte de gente de preto dominando o pequeno local, e lotando o trem que logo chegou. Em Hamburgo, finalmente descemos em uma estação decente e esperamos tomando um café. À essa altura, com a adrenalina já baixa, me sentia como um zumbi. Tati não parecia diferente. Uma hora depois, chegou o horário dela e nos separamos.
Ainda tive que esperar um pouco para abrir o guichê de vendas, onde pude perguntar se dava para trocar o diabo da passagem. Não rolou pois, como eu comprei com preço promocional, teria que pagar uma diferença grande para pegar um trem que sairia apenas três horas antes. Para quem ia esperar por dez, três a menos não fazia tanta diferença. Juro que, se estivesse em condições, aproveitaria para andar pela cidade. Com essa possibilidade totalmente fora de cogitação, me sentei num bando da estação e comecei a escrever este relato, que continuou nas horas em que passei sentado em um McDonalds comendo porcarias. O tempo todo ainda vejo pessoas de preto com cara de sono andando de um lado para o outro ou caídas nos bancos.
Se você conseguiu chegar até o final e achou isto insuportavelmente longo, pode ter uma idéia do quão grande está meu saco de ficar esperando. E ainda tenho uma hora e meia pela frente, mas com certeza não usarei para continuar escrevendo. O plano agora é pegar este trem, em duas horas estar em Berlim, ir direto para o hotel (abençoadamente é do lado da estação) e morrer na cama. Amanhã o dia é de descanso e, quem sabe, lavar as roupas e outros bagulhos que voltaram num estado deplorável. Berlim mesmo, só terça feira. Tudo dentro do planejado. Um dia a menos de turismo por três dias que foram muito, mas MUITO legais. Só me pergunto agora... Quando venho para o próximo??
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Turista sensu lato
Primeiros dias na Europa e parece que já se passou uma eternidade. Quando penso que ainda faltam 28 dias de viagem, tenho a impressão de que farei alguns aniversários até o retorno...
A viagem foi sossegada. Quem já enfrentou muitas viagens longas de busão não tem o menor problema com uma viagem longa de avião. O espaço da poltrona pode ser mais apertado, mas de resto o conforto é infinitamente maior, sem todo o chacoalhar, com serviço de bordo e com uma telinha de televisão individual.
Mas não, não consegui dormir nada, como o usual. Nem sei como pensei que conseguiria. Mas, ei, pelo menos deu para assistir Rei Leão e Forrest Gump!
Frankfurt
Chegando no aeroporto de Frankfurt 13:30 (hora de lá, 8:30 no Brasil - são cinco de diferença), mais perdido que filho da puta em dia dos pais, comecei a fazer algo que foi comum neste início: andar de um lado para o outro tentando descobrir o que fazer em seguida. Pelo menos o tiozinho da imigração mal olhou para a minha cara. Muito bom, já que eu estava importando ilegalmente alguns quilos de alimentos brasileiros para uma amiga.
Até que foi rápido descobrir como comprar o ticket do trem e como pegá-lo, bastou uma meia dúzia de "Do you speak English?". Chegando na estação principal e portanto um mapa tosco feito à mão. é óbvio que dei algumas voltas para chegar ao meu hotel que, no fim, ficava a uns 300 m da estação.
Então, o resto do primeiro dia em Frankfurt foi bem emocionante: pedi uma pizza no hotel e morri na cama. Tudo dentro do planejado.
Até que foi bom, pois daí pude acordar 13 horas depois, às 8:00, e entrar facilmente no fuso horário deles. Daí pude sair cedo no único dia que teria para conhecer a cidade. Sem celular e impressora, usei a câmera fotográfica para tirar fotos do Google Maps e saber onde me enfiar. Saí andando mesmo, porque tudo o que eu queria ver parecia perto.
Passando pelo centro histórico, que inclui um sítio arqueológico no meio da cidade (tá, só uns restos de paredes, mas eram paredes de 1500 anos de idade!), pelas pontes que atravessam o rio principal da cidade e por um mercado de rua, pude enfim ter minha primeira refeição genuinamente alemã. Claro, composta por lnguiças e chucrão ute. Uma dica aos turistas: se você achar que sabe pelo menos uma palavra em alemão e tentar pedir um "chopp" para o garçom, ele irá lhe olhar como um extraterrestre. Pois é, não se usa essa palavra na terra-mãe. Só peça uma cerveja e deu, ela certamente virá do barril.
Depois do almoço, mas algumas voltas e fui parar no Zoológico da cidade. Parecia pequeno no mapa e não era para ser nada do outro mundo, mas pensei que seria um bom aperitivo para o de Berlim. O caramba. Mesmo esse Zoo pequeno caga na cabeça de quase todos que já vi no Brasil, com uma diversidade enorme de bichos, aquário, insetário, reptário aquecido (sim, deu para ver répteis se mexendo!), setor escurecido para animais noturnos... Legal demais! Terminei a tarde ali e só saí com as sirenes do Zoo mandando todo mundo se mandar. Voltei caminhando e ainda parei para comprar um casaco (o "verão" deles é como nosso outono...) em uma pequena e desconhecida rede de lojas chamada "cunda". Outra dica: roupas NÃO SÃO mais baratas lá. De modo geral, até mais caras. Por outro lado, paguei 50 Euros em um saco de dormir que custaria mais de 200 reais aqui no Brasil.
Heidelberg
No dia seguinte, saí para conhecer Heidelberg, uma cidade turisticamente famosa relativamente perto de Frankfurt. Daí que dei minha primeira turistada feia. Acontece que comprei os tickets no dia anterior, desnecessariamente (não acredite na histeria do "é temporada, cuidado!", dá para conseguir ticket de trem na hora fácil). Eram 10:11. Faltando 7 minutos para sair o trem, descobri que o que tinha comigo era apenas os tickets de reserva de assento. O do trem mesmo, o mais necessário, eu nem sabia que existia, e nem sabia se tinha pego da máquina automática no dia anterior. Com omeu hotel era ali do lado, pensei comigo mesmo: "dá tempo!". E saí correndo feito um maluco. Cheguei no meu quarto já morto e, depois de revirar as coisas, encontrei o maldito. E lá fui correndo de novo. Consegui chegar 10:20. No Brasil, teria dado muito certo. Na Alemanha, não. O trem já estava longe. Puto da cara comigo mesmo, só pude ir para a máquina automática e comprar um novo ticket de ida para o trem de uma hora depois. Ainda consegui a proeza de sentar na classe errada, mas por sorte percebi antes de passar a tia que cobra a passagem. Paciência. Foi como se eu tivesse chegado na hora planejada, tido uma dor de barriga de uma hora e limpado a bunda com 20 Euros. E o mais irônico foi que, durante a troca de trens na metade da viagem, o outro atrasou... 2 minutos!
Tendo perdido este tempo, cheguei e Heidelberg e a primeira coisa que fiz foi atravessar a cidade para ir no famoso castelo em ruínas. Eu pensava que seria o tipo de lugar onde eu poderia gastar muito tempo, por isso era bom começar por ele. Não deu outra. O castelo é MUITO FODA! Abandonado desde o fim do século XVII, possui algumas partes em ruínas, outras ainda inteiras, e dá para andar por quase tudo, inclusive com um tour guiado pelos aposentos interiores. Sei que ainda estou no começo, mas tenho certeza que aquele lugar será um dos pontos altos da viagem.
Depois, já mais tarde, voltei andando pelas ruas da parte histórica da cidade, consegui pegar o tem de volta na hora e, sem a menor vontade, tive que gastar a noite e madrugada terminando um trabalho para enviar para um congresso. Paciência, quem mandou ficar assistindo as aventuras do Simba no avião?..
Göttingen
No outro dia não fiz mais nada além de acordar tarde e pegar o trem. Uma viagem mais demorada pelo interior da Alemanhã, com paisagens idílicas de... plantação, plantação, cultivo de pinheiro, cultivo de pinheiro. Nada muito diferente do interior de Santa Catarina...
Chegando Em Göttingen, encontrei com a amiga que ia me hospedar por alguns dias (a mesma das comidas ilegais). Conversar, dormir muito, no outro dia andar pela cidade (que, mesmo pequena e universitária, tem suas coisas legais de ver), cerveja com um pessoal e de volta, agora digitando isso aqui. E por isso mesmo está na hora de terminar, pois daqui a pouco vou dar um bate e volta em outra dessas cidadezinhas velhas próxima.
No próximo post, que talvez seja apenas na segunda feira, depois do Wacken, algumas considerações sobre as diferenças (e semelhanças) culturais. Té mais!
A viagem foi sossegada. Quem já enfrentou muitas viagens longas de busão não tem o menor problema com uma viagem longa de avião. O espaço da poltrona pode ser mais apertado, mas de resto o conforto é infinitamente maior, sem todo o chacoalhar, com serviço de bordo e com uma telinha de televisão individual.
Mas não, não consegui dormir nada, como o usual. Nem sei como pensei que conseguiria. Mas, ei, pelo menos deu para assistir Rei Leão e Forrest Gump!
Frankfurt
Chegando no aeroporto de Frankfurt 13:30 (hora de lá, 8:30 no Brasil - são cinco de diferença), mais perdido que filho da puta em dia dos pais, comecei a fazer algo que foi comum neste início: andar de um lado para o outro tentando descobrir o que fazer em seguida. Pelo menos o tiozinho da imigração mal olhou para a minha cara. Muito bom, já que eu estava importando ilegalmente alguns quilos de alimentos brasileiros para uma amiga.
Até que foi rápido descobrir como comprar o ticket do trem e como pegá-lo, bastou uma meia dúzia de "Do you speak English?". Chegando na estação principal e portanto um mapa tosco feito à mão. é óbvio que dei algumas voltas para chegar ao meu hotel que, no fim, ficava a uns 300 m da estação.
Então, o resto do primeiro dia em Frankfurt foi bem emocionante: pedi uma pizza no hotel e morri na cama. Tudo dentro do planejado.
Até que foi bom, pois daí pude acordar 13 horas depois, às 8:00, e entrar facilmente no fuso horário deles. Daí pude sair cedo no único dia que teria para conhecer a cidade. Sem celular e impressora, usei a câmera fotográfica para tirar fotos do Google Maps e saber onde me enfiar. Saí andando mesmo, porque tudo o que eu queria ver parecia perto.
Passando pelo centro histórico, que inclui um sítio arqueológico no meio da cidade (tá, só uns restos de paredes, mas eram paredes de 1500 anos de idade!), pelas pontes que atravessam o rio principal da cidade e por um mercado de rua, pude enfim ter minha primeira refeição genuinamente alemã. Claro, composta por lnguiças e chucrão ute. Uma dica aos turistas: se você achar que sabe pelo menos uma palavra em alemão e tentar pedir um "chopp" para o garçom, ele irá lhe olhar como um extraterrestre. Pois é, não se usa essa palavra na terra-mãe. Só peça uma cerveja e deu, ela certamente virá do barril.
Depois do almoço, mas algumas voltas e fui parar no Zoológico da cidade. Parecia pequeno no mapa e não era para ser nada do outro mundo, mas pensei que seria um bom aperitivo para o de Berlim. O caramba. Mesmo esse Zoo pequeno caga na cabeça de quase todos que já vi no Brasil, com uma diversidade enorme de bichos, aquário, insetário, reptário aquecido (sim, deu para ver répteis se mexendo!), setor escurecido para animais noturnos... Legal demais! Terminei a tarde ali e só saí com as sirenes do Zoo mandando todo mundo se mandar. Voltei caminhando e ainda parei para comprar um casaco (o "verão" deles é como nosso outono...) em uma pequena e desconhecida rede de lojas chamada "cunda". Outra dica: roupas NÃO SÃO mais baratas lá. De modo geral, até mais caras. Por outro lado, paguei 50 Euros em um saco de dormir que custaria mais de 200 reais aqui no Brasil.
Heidelberg
No dia seguinte, saí para conhecer Heidelberg, uma cidade turisticamente famosa relativamente perto de Frankfurt. Daí que dei minha primeira turistada feia. Acontece que comprei os tickets no dia anterior, desnecessariamente (não acredite na histeria do "é temporada, cuidado!", dá para conseguir ticket de trem na hora fácil). Eram 10:11. Faltando 7 minutos para sair o trem, descobri que o que tinha comigo era apenas os tickets de reserva de assento. O do trem mesmo, o mais necessário, eu nem sabia que existia, e nem sabia se tinha pego da máquina automática no dia anterior. Com omeu hotel era ali do lado, pensei comigo mesmo: "dá tempo!". E saí correndo feito um maluco. Cheguei no meu quarto já morto e, depois de revirar as coisas, encontrei o maldito. E lá fui correndo de novo. Consegui chegar 10:20. No Brasil, teria dado muito certo. Na Alemanha, não. O trem já estava longe. Puto da cara comigo mesmo, só pude ir para a máquina automática e comprar um novo ticket de ida para o trem de uma hora depois. Ainda consegui a proeza de sentar na classe errada, mas por sorte percebi antes de passar a tia que cobra a passagem. Paciência. Foi como se eu tivesse chegado na hora planejada, tido uma dor de barriga de uma hora e limpado a bunda com 20 Euros. E o mais irônico foi que, durante a troca de trens na metade da viagem, o outro atrasou... 2 minutos!
Tendo perdido este tempo, cheguei e Heidelberg e a primeira coisa que fiz foi atravessar a cidade para ir no famoso castelo em ruínas. Eu pensava que seria o tipo de lugar onde eu poderia gastar muito tempo, por isso era bom começar por ele. Não deu outra. O castelo é MUITO FODA! Abandonado desde o fim do século XVII, possui algumas partes em ruínas, outras ainda inteiras, e dá para andar por quase tudo, inclusive com um tour guiado pelos aposentos interiores. Sei que ainda estou no começo, mas tenho certeza que aquele lugar será um dos pontos altos da viagem.
Depois, já mais tarde, voltei andando pelas ruas da parte histórica da cidade, consegui pegar o tem de volta na hora e, sem a menor vontade, tive que gastar a noite e madrugada terminando um trabalho para enviar para um congresso. Paciência, quem mandou ficar assistindo as aventuras do Simba no avião?..
Göttingen
No outro dia não fiz mais nada além de acordar tarde e pegar o trem. Uma viagem mais demorada pelo interior da Alemanhã, com paisagens idílicas de... plantação, plantação, cultivo de pinheiro, cultivo de pinheiro. Nada muito diferente do interior de Santa Catarina...
Chegando Em Göttingen, encontrei com a amiga que ia me hospedar por alguns dias (a mesma das comidas ilegais). Conversar, dormir muito, no outro dia andar pela cidade (que, mesmo pequena e universitária, tem suas coisas legais de ver), cerveja com um pessoal e de volta, agora digitando isso aqui. E por isso mesmo está na hora de terminar, pois daqui a pouco vou dar um bate e volta em outra dessas cidadezinhas velhas próxima.
No próximo post, que talvez seja apenas na segunda feira, depois do Wacken, algumas considerações sobre as diferenças (e semelhanças) culturais. Té mais!
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Plataforma de lançamento
Depois de três semanas do capeta e trampando até o último minuto, hora de partir. Abençoado seja o horário de partida Às 16:15, perfeitamente adequado ao meu ciclo de vida. Mesmo porque dormir de novo, agora, só depois do vôo, eu acho. Será que Dramin pega mais forte nas alturas?
Pelo menos vou poder jogar computador durante horas e horas sem me sentir culpado e... Ah, esqueci. Ficaram dados para planilhar e um resumo para escrever no avião. Legal, Félix.
Em breve, relato de um viajante calouro e primeiras impressões dazuropa...
Pelo menos vou poder jogar computador durante horas e horas sem me sentir culpado e... Ah, esqueci. Ficaram dados para planilhar e um resumo para escrever no avião. Legal, Félix.
Em breve, relato de um viajante calouro e primeiras impressões dazuropa...
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Seven days.....
... não, não para a Samara vir me pegar. Em sete dias estou embarcando para a (até o momento) mais longa e mais distante viagem da minha vida. Relaxem, nada de um trabalho de campo no coração da África ou uma expedição à Antártica. Tampouco uma jornada ao Líbano ou à Palestina para virar homem-bomba. Só uma típica viagem de turista na Europa, sozinho e por conta própria.
Será uma viagem num esquema semi-jovem mochileiro. Se por um lado vou para os vários cantos por conta e ir montando meus programas quase na hora, por outro não vou me amontoar em albergue nem à ir procura de baladas insanas/coffee shops/orgias/red light districts. Tudo isso por ser um assalariado-nerd-insone-antisocial.
Na verdade, estou indo para lá ver coisa velha. Como um fanático por história, quero ver de perto aquelas coisas dos livros. Gastar o dia inteiro em um museu, de história humana ou natural. Sentar numa igreja e ficar pirando na arquitetura. Caminhar num bairro histórico de uma cidade medieval e me preparar par ao ataque dos orcs. Talvez, depois de algumas semanas, eu não aguente mais ver cacos de porcelana e saia correndo para uma festa. Mas sei não. Afinal, eu sou o Félix. Se eu estiver cansado, é muito mais provável que peça um rango arregado (turismo gastronômico/etílico também é importante!) e fique morgando no hotel do que encarar o mundinho noturno sem companhia.
Para isso, inconscientemente montei um roteiro "viagem no tempo". Depois de um bom tempo na Alemanha, irei para França (pensem no começo da Idade Média, império franco e etc.), Itália (Roma, final da Antiguidade), Grécia (idem, Antiguidade Clássica) e fecho em Creta (civilização minóica, a primeira civilização "sensu stricto" da Europa). Pensando bem, se eu continuar a volta no tempo, o Líbano, Palestina e resto do Oriente Próximo já estarão no roteiro da próxima viagem...
Mas nem só de turismo geriátrico viverei. Haverá os momentos malucos, com certeza. Dentre eles, o principal será o Wacken. Para os não-iniciados, é só o maior festival de metal do mundo. 75 mil metaleiros acampados por cinco dias nos campos de uma cidadezinha minúscula nos canfudós da Alemanha, em um clima de "mundo paralelo", em perfeita paz e curtição, com as maiores bandas do mundo tocando uma atrás da outra. Para quem já foi num River Rock, é só pensar que é 50% mais longo, 200% mais isolado, 1500% mais populoso e com bandas 5000% melhores.
E no finalzinho será legal curtir um verão na praia em pleno Agosto. Afinal, Creta, além das antiguidades, tem dezenas de praias de veraneio. Pensando nisso que até comprei o item mais fundamental à sobrevivência de qualquer viajante na Europa: um par de Havaianas novo, obviamente!
Assim, pretendo, ao menos neste mês, atualizar o blog com frequência, tanto para registrar algumas memórias quanto para compartilhar com os amigos e quem mais quiser ver as experiências. Vai ser o mês mais agitado do Santuários desde... desde... bem, desde antes de eu ficar jogando uma besteira qualquer a cada trimestre só para tirar o pó e espantar as aranhas.
Maaaaasssss... Sete dias ainda é muito tempo, principalmente quando você tem que finalizar toneladas de coisas para poder viajar tranquilo. Por isso acho que ansioso mesmo só estarei no dia anterior. E daí... Dá-lhe chá de cadeira de avião e trem!
Bora lá!!!!
Será uma viagem num esquema semi-jovem mochileiro. Se por um lado vou para os vários cantos por conta e ir montando meus programas quase na hora, por outro não vou me amontoar em albergue nem à ir procura de baladas insanas/coffee shops/orgias/red light districts. Tudo isso por ser um assalariado-nerd-insone-antisocial.
Na verdade, estou indo para lá ver coisa velha. Como um fanático por história, quero ver de perto aquelas coisas dos livros. Gastar o dia inteiro em um museu, de história humana ou natural. Sentar numa igreja e ficar pirando na arquitetura. Caminhar num bairro histórico de uma cidade medieval e me preparar par ao ataque dos orcs. Talvez, depois de algumas semanas, eu não aguente mais ver cacos de porcelana e saia correndo para uma festa. Mas sei não. Afinal, eu sou o Félix. Se eu estiver cansado, é muito mais provável que peça um rango arregado (turismo gastronômico/etílico também é importante!) e fique morgando no hotel do que encarar o mundinho noturno sem companhia.
Para isso, inconscientemente montei um roteiro "viagem no tempo". Depois de um bom tempo na Alemanha, irei para França (pensem no começo da Idade Média, império franco e etc.), Itália (Roma, final da Antiguidade), Grécia (idem, Antiguidade Clássica) e fecho em Creta (civilização minóica, a primeira civilização "sensu stricto" da Europa). Pensando bem, se eu continuar a volta no tempo, o Líbano, Palestina e resto do Oriente Próximo já estarão no roteiro da próxima viagem...
Mas nem só de turismo geriátrico viverei. Haverá os momentos malucos, com certeza. Dentre eles, o principal será o Wacken. Para os não-iniciados, é só o maior festival de metal do mundo. 75 mil metaleiros acampados por cinco dias nos campos de uma cidadezinha minúscula nos canfudós da Alemanha, em um clima de "mundo paralelo", em perfeita paz e curtição, com as maiores bandas do mundo tocando uma atrás da outra. Para quem já foi num River Rock, é só pensar que é 50% mais longo, 200% mais isolado, 1500% mais populoso e com bandas 5000% melhores.
E no finalzinho será legal curtir um verão na praia em pleno Agosto. Afinal, Creta, além das antiguidades, tem dezenas de praias de veraneio. Pensando nisso que até comprei o item mais fundamental à sobrevivência de qualquer viajante na Europa: um par de Havaianas novo, obviamente!
Assim, pretendo, ao menos neste mês, atualizar o blog com frequência, tanto para registrar algumas memórias quanto para compartilhar com os amigos e quem mais quiser ver as experiências. Vai ser o mês mais agitado do Santuários desde... desde... bem, desde antes de eu ficar jogando uma besteira qualquer a cada trimestre só para tirar o pó e espantar as aranhas.
Maaaaasssss... Sete dias ainda é muito tempo, principalmente quando você tem que finalizar toneladas de coisas para poder viajar tranquilo. Por isso acho que ansioso mesmo só estarei no dia anterior. E daí... Dá-lhe chá de cadeira de avião e trem!
Bora lá!!!!
segunda-feira, 4 de julho de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
Resenhas do di... humm... semestre!
O SENHOR DOS ANÉIS - versão estendida (filmes)
Que a trilogia do Senhor dos Anéis foi uma das melhores adaptações de livros já feita no cinema, e uma das melhores séries de filme, todo mundo concorda. Mas alguns não sabem que aquilo que foi visto no cinema são apenas recortes do que deveriam realmente ser os filmes, adaptados a um público geral que nem sempre fica feliz de sentar por quatro horas numa sala de cinema. Pois bem, as versões completas do diretor foram lançadas em DVD posteriormente (e só depois de muito tempo no Brasil, o que insuflou os sentimentos piratas de muitos). E, com elas, não existe mais o cauteloso "um dos...". O Senhor dos Anéis vira A melhores adaptações de livros já feita no cinema e A melhor série de filmes. Ponto.
O que há de tão bom nos 40 a 50 minutos a mais que se ganha em cada parte da trilogia, em comparação à versão "normal"? Muito, mesmo. E não só detalhes pequenos da mitologia tolkeniana para causar orgasmos em fãs ensandecidos que sabem falar elfo melhor que sua língua natal. Na verdade, o ganho na parte de mitologia, por mais que exista, é menor se comparado a outro bem mais importante: o filme flui muito melhor. Pegue todas aquelas partes que você achou que ficaram um pouco estranhas, com cortes muito rápidos, ou elementos que surgem/desaparecem do nada, e elas passarão a se encaixar perfeitamente. As personalidades e motivações dos personagens ficarão muito mais fáceis de entender, importante para quem não conhece os livros a fundo. O mesmo pode ser dito para a própria sequência dos acontecimentos.
Além de uma série de cenas mais curtas entremeadas no decorrer da história, alguns trechos são bem alongados. A parte na floresta de Lórien, ao final de A Sociedade do Anel, é uma das que mais ganha corpo. O desfecho da batalha de Helm, em As Duas Torres, fica bem melhor do que simplesmente o Gandalf aparecer e tudo se resolver. Ficamos sabendo do destino de Saruman, embora seja bem diferente do livro (onde ele, na verdade, quase não aparece). O romance entre Aragorn e Arwen se desenvolve bem mais, efetivamente atraindo a simpatia do espectador (o destaque para o romance foi uma das boas modificações em relação ao livros, onde ele ocorre apenas no pano de fundo, mas me pareceu um pouco truncado na versão normal). E, claro, temos alguns segmentos inteiramente novos, que não são tão essenciais, mas ajudam a dar mais clima.
Sobre o filme em si (qualquer que seja a versão) vale ressaltar alguns de seus muitos pontos positivos. Peter Jackson fez milagre em transpôr uma história complexa para o cinema, o roteiro é muito bom e acerta nos cortes quando duas ou mais frentes distintas da história tem que ser contadas simultaneamente. A filmagem também se destaca, a alternância de perspectivas, enquadramentos e climas não deixa espaço para tédio. A trilha sonora está recheada de temas memoráveis e emocionantes. E, por fim, algo vital e que muitas vezes fica em segundo plano em filmes épicos e de fantasia: a maioria dos atores incorpora muito bem os personagens, com destaque absoluto para Gandalf (pena que Ian McKellen apenas foi indicado ao Oscar, sem ganhá-lo).
Embora a maioria das adaptações dos personagens tenha ficado boa, a versão estendida não contribui muito para os dois personagens que mais perderam na versão cinematográfica, na minha opinião. Faramir, que no livro é possivelmente o humano mais íntegro e sábio (ele chega a negar o Um Anel sem jamais ficar abalado por sua maldade), virou um filho preterido genérico, e ainda permanece assim. E a maior frustração continuou: Gimli. Nada contra ele ser personificado como aquele anão porra-louca do D&D (bem diferente dos anões de Tolkien), até acho um bom escape cômico para o filme. Mas na versão estendida ele praticamente vira um bobo-da-corte e continua quase sem momentos heróicos. Enquanto Legolas não perde uma flechada e mata olifantes sozinho, Gimli só dá cabo de alguns orcs e fica com medo de fantasmas.
Outros pontos negativos existem, aquelas partes em que você fala "isso não ficou tão legal", "esse efeito especial ficou ruim", mas são raros e poucos relevantes. No fim das contas, o maior defeito da versão estendida é um só: tem apenas onze horas de filme*, vê se pode!
NOTA: 10, com estrelinhas.
* Mas para quem quiser tudo em apenas dois minutos, lá vai: http://www.youtube.com/watch?v=yCoDB40BKn0
** E para quem ainda não viu essa: http://www.youtube.com/watch?v=zBqeiduJ2GA
Que a trilogia do Senhor dos Anéis foi uma das melhores adaptações de livros já feita no cinema, e uma das melhores séries de filme, todo mundo concorda. Mas alguns não sabem que aquilo que foi visto no cinema são apenas recortes do que deveriam realmente ser os filmes, adaptados a um público geral que nem sempre fica feliz de sentar por quatro horas numa sala de cinema. Pois bem, as versões completas do diretor foram lançadas em DVD posteriormente (e só depois de muito tempo no Brasil, o que insuflou os sentimentos piratas de muitos). E, com elas, não existe mais o cauteloso "um dos...". O Senhor dos Anéis vira A melhores adaptações de livros já feita no cinema e A melhor série de filmes. Ponto.
O que há de tão bom nos 40 a 50 minutos a mais que se ganha em cada parte da trilogia, em comparação à versão "normal"? Muito, mesmo. E não só detalhes pequenos da mitologia tolkeniana para causar orgasmos em fãs ensandecidos que sabem falar elfo melhor que sua língua natal. Na verdade, o ganho na parte de mitologia, por mais que exista, é menor se comparado a outro bem mais importante: o filme flui muito melhor. Pegue todas aquelas partes que você achou que ficaram um pouco estranhas, com cortes muito rápidos, ou elementos que surgem/desaparecem do nada, e elas passarão a se encaixar perfeitamente. As personalidades e motivações dos personagens ficarão muito mais fáceis de entender, importante para quem não conhece os livros a fundo. O mesmo pode ser dito para a própria sequência dos acontecimentos.
Além de uma série de cenas mais curtas entremeadas no decorrer da história, alguns trechos são bem alongados. A parte na floresta de Lórien, ao final de A Sociedade do Anel, é uma das que mais ganha corpo. O desfecho da batalha de Helm, em As Duas Torres, fica bem melhor do que simplesmente o Gandalf aparecer e tudo se resolver. Ficamos sabendo do destino de Saruman, embora seja bem diferente do livro (onde ele, na verdade, quase não aparece). O romance entre Aragorn e Arwen se desenvolve bem mais, efetivamente atraindo a simpatia do espectador (o destaque para o romance foi uma das boas modificações em relação ao livros, onde ele ocorre apenas no pano de fundo, mas me pareceu um pouco truncado na versão normal). E, claro, temos alguns segmentos inteiramente novos, que não são tão essenciais, mas ajudam a dar mais clima.
Sobre o filme em si (qualquer que seja a versão) vale ressaltar alguns de seus muitos pontos positivos. Peter Jackson fez milagre em transpôr uma história complexa para o cinema, o roteiro é muito bom e acerta nos cortes quando duas ou mais frentes distintas da história tem que ser contadas simultaneamente. A filmagem também se destaca, a alternância de perspectivas, enquadramentos e climas não deixa espaço para tédio. A trilha sonora está recheada de temas memoráveis e emocionantes. E, por fim, algo vital e que muitas vezes fica em segundo plano em filmes épicos e de fantasia: a maioria dos atores incorpora muito bem os personagens, com destaque absoluto para Gandalf (pena que Ian McKellen apenas foi indicado ao Oscar, sem ganhá-lo).
Embora a maioria das adaptações dos personagens tenha ficado boa, a versão estendida não contribui muito para os dois personagens que mais perderam na versão cinematográfica, na minha opinião. Faramir, que no livro é possivelmente o humano mais íntegro e sábio (ele chega a negar o Um Anel sem jamais ficar abalado por sua maldade), virou um filho preterido genérico, e ainda permanece assim. E a maior frustração continuou: Gimli. Nada contra ele ser personificado como aquele anão porra-louca do D&D (bem diferente dos anões de Tolkien), até acho um bom escape cômico para o filme. Mas na versão estendida ele praticamente vira um bobo-da-corte e continua quase sem momentos heróicos. Enquanto Legolas não perde uma flechada e mata olifantes sozinho, Gimli só dá cabo de alguns orcs e fica com medo de fantasmas.
Outros pontos negativos existem, aquelas partes em que você fala "isso não ficou tão legal", "esse efeito especial ficou ruim", mas são raros e poucos relevantes. No fim das contas, o maior defeito da versão estendida é um só: tem apenas onze horas de filme*, vê se pode!
NOTA: 10, com estrelinhas.
* Mas para quem quiser tudo em apenas dois minutos, lá vai: http://www.youtube.com/watch?v=yCoDB40BKn0
** E para quem ainda não viu essa: http://www.youtube.com/watch?v=zBqeiduJ2GA
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Abaixo o "bom mesmo eram os anos 70!"
Gosta de música pesada? Vive lamentando que “o rock/metal está morto” e que bom mesmo eram as bandas “das antigas”? Largue de chororô e conheça algumas bandas recentes, não tão conhecidas, mas com sons peculiares que demonstram que a criatividade ainda fervilha nos anos 2000:
ORPHANED LAND – não é todo dia que se ouve uma banda de metal israelita, não é? Só isso e o fato de terem um dos álbuns mais elogiados dos anos 2000 justificaria a audição. Mas o importante é que aqui temos a mais perfeita fusão de metal com música tradicional que já ouvi. Além do uso de instrumentos regionais e da mistura de linguagens, as melodias do Oriente Médio estão totalmente incorporadas no som dos instrumentos metálicos. Não é metal com folk, como muitas bandas fazem, mas folk metal na essência. Tem certa dose de vocais agressivos, mas mesmo os alérgicos não devem descartar de cara só por isso. Dê uma chance!
*Um álbum – Mabool (2004 – procure a versão que possui o EP acústico “The Calm Before the Flood”, um bônus com cacife de prato principal).
*Cinco músicas – “Birth of the Three”, “Norra el Norra”; “The Beloved's Cry” (versão acústica do TCBTF), “Sapari”, “Ocean Land”.
DIE APOKALYPTISCHEN REITER – de uma banda de metal extremo já diferenciada, a uma mistureba esquizofrênica, mas que ainda faz sentido. Esse é o caminho do DAR, que chutou todos os rótulos para longe e mostrou definitivamente que metal tradicional, extremo, melódico, rock, jazz, reggae, salsa e pop podem coexistir pacificamente na mesma banda, no mesmo álbum, até na mesma música! Some a uma vocalista extremamente versátil e você verá que isso pode resultar em um som coerente. É até difícil pegar cinco músicas que sejam representativas, vá atrás dos discos a partir do “Have a Nice Trip” (2003) para ter uma idéia melhor.
* Um álbum – Riders on the Storm (2006).
* Cinco músicas – “Friede Sei Mit Dir”, “Seemann”, “Lazy Day”, “Baila Conmígo”, “Revolution”.
FINNTROLL – misturar black metal com humppa (música popular finlandesa com influências de jazz e polka) só pode ser idéia de bêbado. E foi precisamente neste estado alcoólico que o Finntroll foi concebido. O resultado, um som extremo regado melodias alegres e uma energia folclórica incrível, é algo que todo roqueiro deveria conhecer. Só não recomendado aos alérgicos a vocais guturais/rasgados, pois eles predominam.
*Um álbum - Jaktens Tid (2001).
*Cinco músicas – “Slaget Vid Blodsälv”, “Korpens Saga”, “Trollhammaren”, “Midnattens widunder”, “Under bergets rot”.
ORPHANED LAND – não é todo dia que se ouve uma banda de metal israelita, não é? Só isso e o fato de terem um dos álbuns mais elogiados dos anos 2000 justificaria a audição. Mas o importante é que aqui temos a mais perfeita fusão de metal com música tradicional que já ouvi. Além do uso de instrumentos regionais e da mistura de linguagens, as melodias do Oriente Médio estão totalmente incorporadas no som dos instrumentos metálicos. Não é metal com folk, como muitas bandas fazem, mas folk metal na essência. Tem certa dose de vocais agressivos, mas mesmo os alérgicos não devem descartar de cara só por isso. Dê uma chance!
*Um álbum – Mabool (2004 – procure a versão que possui o EP acústico “The Calm Before the Flood”, um bônus com cacife de prato principal).
*Cinco músicas – “Birth of the Three”, “Norra el Norra”; “The Beloved's Cry” (versão acústica do TCBTF), “Sapari”, “Ocean Land”.
DIE APOKALYPTISCHEN REITER – de uma banda de metal extremo já diferenciada, a uma mistureba esquizofrênica, mas que ainda faz sentido. Esse é o caminho do DAR, que chutou todos os rótulos para longe e mostrou definitivamente que metal tradicional, extremo, melódico, rock, jazz, reggae, salsa e pop podem coexistir pacificamente na mesma banda, no mesmo álbum, até na mesma música! Some a uma vocalista extremamente versátil e você verá que isso pode resultar em um som coerente. É até difícil pegar cinco músicas que sejam representativas, vá atrás dos discos a partir do “Have a Nice Trip” (2003) para ter uma idéia melhor.
* Um álbum – Riders on the Storm (2006).
* Cinco músicas – “Friede Sei Mit Dir”, “Seemann”, “Lazy Day”, “Baila Conmígo”, “Revolution”.
FINNTROLL – misturar black metal com humppa (música popular finlandesa com influências de jazz e polka) só pode ser idéia de bêbado. E foi precisamente neste estado alcoólico que o Finntroll foi concebido. O resultado, um som extremo regado melodias alegres e uma energia folclórica incrível, é algo que todo roqueiro deveria conhecer. Só não recomendado aos alérgicos a vocais guturais/rasgados, pois eles predominam.
*Um álbum - Jaktens Tid (2001).
*Cinco músicas – “Slaget Vid Blodsälv”, “Korpens Saga”, “Trollhammaren”, “Midnattens widunder”, “Under bergets rot”.
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