Chega da moleza de andar de trem de um lado para o outro. Agora voltei ao esquema de aeroportos e toda sua correria e tempos de espera. Bora aproveitar o tempo para escrever.
Hamburgo
A senha do wireless do hotel onde fiquei só podia ser uma piada: “aproveite o clima de Hamburgo no verão de 2012”. Em todos os dias que fiquei pela região foi a mesma coisa: muito vento, ciclos e ciclos de sol, nublado e chuva. Não tenho muita coisa a dizer da cidade, pois efetivamente gastei apenas uma tarde visitando-a. Pois, na segunda feira, depois de acordar da minha hibernação pós-Wacken e procurar uma lavanderia para largar meus trapos enlameados, era quase meio dia quando saí para andar pela cidade.
Mesmo sendo a segunda maior cidade da Alemanha, é possível alcançar os pontos de interesse turístico de Hamburgo a pé. A cidade é moderna, para os padrões alemães, pois não se pode dizer que a História foi muito benevolente com ela. Foi uma das mais destruídas por bombardeios na Segunda Guerra. Antes disso, sofreu um incêndio de proporções romanas na metade do século XIX. E, um século antes disso, uma enorme enchente.
Comecei meu passeio descendo até o grande lago que domina o centro da cidade. O entorno é uma atraente área para corridas e caminhadas. Aliás, na Alemanha, praticamente toda poça ou pinguela é cercada por uma área assim. Fui beirando o lago até chegar à bonita prefeitura, onde estava rolando um festival chinês na praça e aproveitei para almoçar lá. Depois, fui visitando algumas igrejas, que são as outras construções antigas de destaque que permanecem no centro (restauradas, é claro).
Um ponto de destaque são as ruínas do que sobrou da catedral neogótica de São Nicolau. A colossal torre de 146 metros, a mais alta do mundo em sua época, foi a única coisa que sobrou na superfície. Peguei um elevador que sobe no meio da carcaça da torre, mas ele vai só até metade dela e não oferece uma vista tão espetacular assim. Na antiga cripta, tem um pequeno memorial sobre a igreja, o bombardeio de Hamburgo (incluindo uma coleção de fotos tiradas pela cidade logo depois) e os bombardeios da Segunda Guerra de modo geral. Dá para gastar uns minutos por ali tranquilo.
Continuei andando até a igreja que é o símbolo de Hamburgo, a de São Miguel. O diferencial dela é realmente sua torre encapada com bronze negro, que também possui um elevador e de onde se tem uma vista mais legal, incluindo a região do porto. A cripta possui vários túmulos e outros objetos antigos, como uma bíblia de 400 anos de idade. O interior é bonito, as paredes bem brancas contrastando com os objetos de madeira escura, incluindo um baita órgão.
Saindo dali, fui até a região do porto, o segundo maior da Europa, por volta das quatro e meia. Lá, gastei o resto do tempo em um barco-museu, o Cap San Diego. É um cargueiro dos anos sessenta que navegou até os oitenta e escapou de virar ferro-velho ao se tornar museu. O fato dele ser dos anos sessenta não é a coisa interessante, mas sim a possibilidade de andar por todos os espaços do barco. A sala de máquinas é a parte mais legal. Com a quantidade de alavancas, botões, fios, canos, painéis, mostradores e o diabo a quatro que cerca as pequenas plataformas metálicas, fico pensando o pesadelo que é ser um engenheiro naval. Perto, talvez, do pesadelo de ser um turista que não entende alemão na Alemanha, pois, novamente, nem os cartazes nem o guia de áudio tinha algo de inglês, apenas um folder meia-boca que dava uma noção superficial das coisas. Em um dos compartimentos de carga também tinha uma mostra sobre emigrantes alemães (com painéis em inglês, aleluia!), só que focado naqueles que foram para os Estados Unidos. De Hamburgo saiu a grande maioria dos emigrantes alemães para o mundo. Até descobri ter um museu só sobre emigrantes, mas infelizmente não tive tempo de ir nele.
Seis da tarde saí do barco-museu para um barco-restaurante, um pouco caro, mas com ótima comida e um prato generoso. Após comer muito, preferi pegar um trem do que caminhar de volta ao hotel. Comecei a escrever o relato do Wacken, mas não fui muito longe, pois ainda não estava plenamente recuperado, e no dia seguinte faria mais um bate-e-volta em uma cidade próxima.
Lübeck
Quando falei de gastar um dia para ir a Lübeck, Tati respondeu com um “mas não tem nada lá além do portão”. Felizmente, não concordo com ela, pois o passeio à histórica cidade portuária valeu muito a pena. Para começar, é bem perto de Hamburgo e, mesmo com o trem lento, se chega lá em 45 minutos.
Tendo me enrolado um pouco de manhã, cheguei por volta das onze e quinze. A estação de trem é bem próxima da cidade antiga, que ocupa uma ilha cercada pelos canais do rio que corta a região. Em cinco minutos, estava diante do famoso portão principal de entrada, o Holstentor. Além de o portão em si ser uma construção interessante, há um pequeno museu sobre a cidade nas saletas e corredores estreitos do seu interior, falando sobre as defesas militares e o comércio na região (que foi aquilo que tornou a cidade uma potência e líder da Liga Hanseática em parte da Idade Média).
Depois de passear por lá e conversar um tempo com um brasileiro que também tinha pegado chuva no Wacken, parti para andar pela cidade, que tem como maiores atrações suas sete grandes igrejas e o estilo de construção gótico com tijolos à vista que, uma época, já dominou a cidade inteira. Para variar, ela foi bombardeada na Segunda Guerra, mas muita coisa foi reconstruída no estilo original, o que mantém o clima de cidade medieval em muitos cantos e ruelas.
A primeira igreja que visitei foi a Mariekirche, a maior da cidade. E foi daquelas que, ao entrar, me fez soltar aquelas palavras cristãs adequadas a um ambiente sacro: “puta que pariu, que igreja do caralho!” (ainda bem que não tinha brasileiros por perto neste momento). Sério, é a igreja que jogou meu queixo mais embaixo até agora na viagem, e uma das mais bonitas que já vi. O tamanho é potencializado pela arquitetura toda de tijolos, até nas abóbodas, e pela riqueza de cores da decoração, muito diferente das igrejas branquinhas que eu estava vendo até o momento: verde e branco contrastavam com o vermelho vivo dos tijolos não-pintados. Fico pensando no espetáculo que deveria ser no estado original, pois agora muitos afrescos são apresentados apenas como pobres reproduções em painéis. Um deles, particularmente interessante, é o da Dança da Morte, que mostra uma morte safada dançando ciranda com pessoas de diversas classes sociais e profissões medievais. O afresco foi para o espaço, mas parte da obra sobreviveu em dois vitrais.
Depois de babar por um tempo, saí dali para almoçar na praça da antiga prefeitura (um belo prédio de tijolos negros). Estava ventando muito, então procurei um restaurante mais protegido. Foi uma decisão acertada, pois caiu uma tempestade daquelas de foder com Wacken e tudo mais. Fiquei no restaurante bebericando uma deliciosa cerveja bock depois de comer, só conseguindo sair quase três da tarde, o que me tirou tempo para conhecer algumas coisas.
Depois de levar aquela voadora com os dois pés da Dona Maria, as outras igrejas não foram tão impactantes, mas também valeram uma passada. A igreja dos marinheiros foi pouco atingida durante a guerra e manteve o interior original, com um órgão impressionantemente decorado. A catedral, a mais antiga de todas (do século XII), tem uma disposição atípica (a nave era dividida em três setores, em vez de um grande aposento único), tumbas bem antigas dos párocos e da galerinha rica da cidade e um enorme altar esculpido em madeira com 17 metros de altura. A de São Pedro tem o clássico elevador que oferece uma vista legal. O problema é que os horários de fechamento das igrejas é bem aleatório e no folder/mapa sobre a cidade, que você compra por dois euros, não aparecem eles. Então algumas delas já estavam fechadas e fiquei só na vontade.
Saí para pegar o trem seis da tarde, tendo deixado para trás alguns museus e interiores de edifícios que poderia ter visto (se não tivesse dado a tempestade...ok, ou se eu tivesse chego mais cedo). Lübeck vale muito uma visita para quem passar pelo norte da Alemanha. Inclusive, se eu tivesse apenas um dia disponível, preferiria ela a Hamburgo.
Atenas II – A missão
Quarta acordei de madrugada (leia-se: sete da manhã) para ir até o aeroporto pegar o avião para Atenas. Rolou uma conexão muito ninja em Munique, na qual literalmente saí de um avião para entrar em outro. Ao chegar, estranhei que o voo tinha chegado uma hora antes do previsto, mas logo lembrei que na Grécia o fuso horário muda de novo. Eram duas e meia da tarde mesmo, então. Somando o horário de verão, a diferença agora era de seis horas em relação ao Brasil.
Peguei o trem que leva até o centro e, uma conexão e dez minutos de caminhada depois, estava no meu hotel, a 100 m do complexo da Acrópole. Era o hotel onde eu teria ficado ano passado, se não tivesse tido que mudar a reserva apenas alguns dias antes. Simples, mas confortável. E melhor localização, só mesmo dormindo dentro do Parthenon.
Agora sim eu estava no verão, não naquela brincadeirinha de esconde-esconde atrás das nuvens que o Sol faz na Alemanha. Estava um dia muito quente e com pouco vento, então gastei um curto tempo termorregulando no ar condicionado do quarto. Cinco e pouco saí para dar uma volta pela Acrópole novamente. Mesmo tendo ido lá ano passado, seria um desperdício não aproveitar, estando ali do lado. Eles mudaram o esquema de entrada, porém. Antes você pagava dois ou três euros separadamente por cada sítio arqueológico na cidade. Agora, é necessário pagar 12 euros por um ingresso conjunto válido por quatro dias para todos os sítios. Não sei se pode pagar separadamente nos outros, mas, na Acrópole, só com esse. Capitalizaram legal a maior atração da cidade. É a crise, meu amigo!
Deu para ficar um bom tempo ali, pois o complexo da Acrópole fecha apenas oito da noite (no papel; na prática, sete e meia já estavam mandando a galera embora). Por algum motivo, mesmo sendo o pico da alta temporada, o lugar estava bem tranquilo. Nada de filas e aglomerações, era perfeitamente possível caminhar em paz pela colina. Efeito da hora e/ou do dia quente? Ou uma temporada especialmente fraca? Também reparei uma quantidade maior de obras de restauração dos monumentos em relação ao ano passado, o que, se por um lado atrapalha os turistas, por outro (e mais importante) mostra uma contínua preocupação em não deixar as ruínas arruinadas (!). Mas me pergunto se algum dia conseguirei ver o Parthenon sem andaimes e guindastes na frente.
Saindo dali, jantei em um calçadão ao lado do complexo e caminhei todos os sofridos 500 m até o hotel. Sim, a localização foi muito providencial...
Tirei o outro dia para visitar dois museus que não tinha conseguido ver ano passado. O primeiro é o Museu da Guerra, que faz parte daquela categoria de atrações que já fecha no começo da tarde (duas horas, neste caso). É preciso ficar bem atento a esses horários na Grécia, porque, segundo os próprios gregos me falaram, a galera é preguiçosa e fecha as paradas cedo mesmo. Malditos funcionários públicos!
O Museu da Guerra é bem interessante para quem gosta destas coisas, com cartazes e infográficos falando com mais detalhes sobre as batalhas históricas em que a Grécia esteve envolvida, desde a Antiguidade até a Atualidade (vários apenas em grego, infelizmente). A maioria dos armamentos antigos expostos são réplicas, mas exatamente por isso dá para perceber melhor seus detalhes e ver a diferença entre as armas de cada cultura (tem armamentos gregos, romanos, persas, europeus medievais, bizantinos, etc.). Os armamentos de fogo e modernos são originais, mas uma metralhadora não tem o mesmo charme de um machado de guerra de duas mãos. Em uma sala separada há uma coleção particularmente espetacular, que parece originalmente particular, com armas brancas e de fogo originais de todas as categorias citadas acima, além de indianas, japonesas e de outras culturas orientais. Para finalizar, algumas artilharias pesadas e até aviões e mísseis do lado de fora.
Perto das duas, caminhei um pouco para um museu próximo que é um dos mais famosos de Atenas, o de Arte Cicládica. Efetivamente, é um dos melhores que já visitei, em relação à estrutura e planejamento. O acervo contém peças arqueológicas da cultura cicládica e da Grécia continental. Não há uma infinidade de itens, mas cada um deles é explicado com alguns ou muitos detalhes, o que faz o visitante prestar mais atenção em cada uma. Também há muito material informativo e algumas mídias interativas bem interessantes. E tudo em grego e inglês! Para finalizar, possui um horário de abertura mais “europeu”, fechando seis horas, ou oito nas quintas feiras. É um exemplo de museu que deveria ser seguido na Grécia (porém, até onde sei ele é privado, o que possivelmente explica a melhor organização).
Porém, eu não poderia ficar ali o tempo que gostaria, pois naquele dia mesmo pegaria o avião para Santorini, seis e meia. Assim, quatro e uns quebrados peguei o metrô para voltar ao hotel onde tinha deixado a bagagem.
E daí, em questão de uma hora, tudo deu errado.
Para começar, meu dinheiro estava no fim, então passei em um caixa eletrônico no caminho do hotel. Mas ele não aceitou meu cartão, dizendo que estava com problema. Estranhei, pois algumas horas antes tinha usado ele para pagar o hotel. Pensando ser problema da máquina, tentei em outra no caminho. Mesma coisa. Do lado do hotel havia uma terceira e fiz uma última tentativa. Acho que os caixas eletrônicos se comunicaram e não gostaram da minha insistência, porque este daí simplesmente não devolveu o cartão.
Maravilha, um cartão preso na máquina apenas uma hora antes de ter que estar no aeroporto. Depois de xingar a máquina adoidado, fui ao hotel tentar realizar o procedimento de bloquear aquele cartão e ficar só com o reserva (que, felizmente, já vem junto quando você adquire o cartão de viagem do Banco do Brasil). Mas o bloqueio é só por telefone e, da Grécia, o procedimento é bem complicado. Não dá para fazer a ligação direta e é preciso usar um serviço especial das companhias telefônicas que só pode ser consultado na internet.
Quando ia para o computador do hotel tentar descobrir este número, pedi também para o atendente chamar o táxi de 12 euros até o aeroporto sobre o qual o atendente do dia anterior tinha me falando. O cara deu uma risada e disse que 12 euros até o aeroporto só em sonhos, a taxa fixa era de 55 euros! Bem que eu tinha estranhado antes, porque o aeroporto é bem longe, mas talvez aquele atendente tivesse me oferecido um táxi informal que precisaria de hora marcada.
Qualquer que fosse a verdade, eu tinha que estar no aeroporto em menos de uma hora e teria que usar o metrô. E já estava mais do que atrasado, por causa do tempo perdido com o cartão. Deixei isso para lá e saí correndo desembestadamente com a mala super pesada para a estação. No meio do caminho, senti uma diferença o peso e olhei para trás: as rodinhas tinham simplesmente estourado, sobrando só as de um lado, e a alça de ferro para carregar, soltado em um dos lados. Xingando todos os deuses gregos que deveriam estar rindo da minha cara, fui arrastando, carregando e fazendo malabarismo com as rodinhas de um lado para vencer os agora sim muito sofridos 500 metros até a estação.
Só que, como o aeroporto é bem longe, não é a todo momento que tem o metrô direto para lá. Não havia sinal de nenhum na próxima meia hora, então tive que fazer uma conexão com os trens suburbanos, vendo os minutos voarem e já pensando se a empresa seria caridosa em trocar minha passagem para o horário seguinte, que, pelo que eu me lembrava, era apenas na alta noite.
Mas, como o destino gosta de nos dar um gostinho de esperança, em vez de estar categoricamente e irreversivelmente atrasado, cheguei ao aeroporto 18:05. O despache de bagagens tinha encerrado há 35 minutos. E faltava só 25 minutos para a decolagem. Respirei fundo, abaixei a cabeça e saí atropelado com a mala e os braços em frangalhos pelos salões do aeroporto, chegando no guichê da empresa cinco minutos depois. Consegui despachar a mala, só que assinado um termo dizendo que talvez ela fosse enviada apenas no próximo vôo. Voltei a correr, agora para o portão de embarque. Na entrada, ainda me pararam para ser revistado no detector de metais e fizeram minha mochila passar duas vezes por causa do notebook. Finalmente, consegui chegar no portão e embarcar no vôo que, felizmente desta vez, estava atrasado.
Foi um fim de tarde do capeta em Atenas. Mas, no fim, tudo proverbialmente acabou dando certo. Consegui embarcar e quase chorei de emoção ao ver a mala estropiada avançando na esteira do miniaeroporto de Santorini. Sem saber se conseguiria dar jeito no negócio do cartão, fui pelo caminho mais simples e saquei a maioria do dinheiro com o bendito cartão reserva que funcionou, e dando um foda-se para o que ficou preso na máquina (como na Grécia toda máquina pede senha, diferente da Alemanha, não seria tão problema se alguém o encontrasse). Perderei uma fatia considerável no câmbio, pois terei que trocar a grana na Turquia em vez de sacar direto, e gastei 70 contos (europeus) a mais em uma mala nova.
Mas, pelo menos, aquele momento de grande estresse foi mais que compensado depois em Santorini. Aguardem cenas dos próximos capítulos!
sábado, 11 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
“Pronto, um delicioso festival cremoso com caldo extra.” “Mas eu pedi um seco!” “Desculpe, senhor, não é opcional”
Neste momento estou em Hamburgo, depois de um Wacken no mínimo aventuroso. E foi o festival de metal em que menos ouvi metal. Mas já chegaremos lá, vamos começar de onde parei antes.
Na terça feira passada, fui para Göttingen, encontrar outra amiga, a Tati, que iria comigo no Wacken. Tínhamos combinado de nos encontrar na estação, mas ela fez uma baita confusão e achou que eu vinha só no dia seguinte. Assim, depois de esperar um tempo e nada, fui direto para a casa dela, que felizmente conhecia já do ano passado. Atendeu uma menina que mora com ela que já me conhecia do ano passado, mas, à primeira vista, deve ter pensado que eu era um mendigo pedindo por abrigo na garagem. Fiquei por lá esperando até a mãe da Tati (que estava também passando um período de férias pela Europa) chegar e, depois de um tempo, a própria. Ficamos a conversar, jantar e tomar umas cervejas até perto da meia noite.
Na quarta, planejei um bate e volta em Braunschweig, a cidade de onde vieram muitos dos primeiros imigrantes blumenauenses, inclusive os Baumgarten, e onde o fundador Hermann Blumenau viveu e morreu depois de voltar da colônia. Um problema daquele passe de um dia para viagens no mesmo estado sobre o qual falei antes é que ele não permite embarque nos trens rápidos, então o trecho que poderia demorar 55 minutos dobrou de tamanho. Com tudo isso e uma óbvia resistência ao acordar cedo, era meio dia quando cheguei à terra dos ancestrais.
Braunschweig
Não fui o primeiro e nem serei o último blumenauense a me decepcionar um pouco com esta cidade. Ninguém tem a menor idéia de que daquela região saíram os primeiros colonos a se fixar na terrinha. A lógica indica isso, é claro, pois da Alemanha saíram pencas de colonos que fundaram cidades em tudo quanto é lugar do mundo. Mas, talvez pela alemãozice do Vale do Itajaí ou mesmo pela Oktoberfest, eu pensei que alguém poderia ter uma vaga noção disso.
Assim, a primeira coisa que fiz foi ir até o centro de informações turísticas ver se tinha algo por lá relacionado a Blumenau (o local ou à pessoa). Ninguém sabia quem era o figura e nem se havia algo de relevante relacionado aos Baumgarten. De fato, neste caso eu não esperava muito, pois as poucas informações que tenho são de que a família era da região de Braunschweig (que era um ducado no século XIX), não necessariamente da cidade em si, e também não me parece um nome particularmente comum ou importante na Alemanha.
Sem muita coisa para correr atrás, fiz a volteada básica pela cidade para ver os pontos interessantes, pois, como uma cidade relativamente importante desde a Idade Média, a cidade tem coisas a oferecer. Como ela foi bombardeada fortemente durante a Segunda Guerra e quase tudo foi abaixo, há poucos edifícios históricos (reconstruídos, logicamente) no meio da modernidade predominante, então mesmo no centro antigo não se tem aquela sensação de volta ao passado de outras cidades. O museu local deles, entretanto, me surpreendeu positivamente, por ter uma coleção bem interessante de peças de todas as épocas, sempre fazendo conexão com a cidade, é claro. E sem um pingo de inglês, é claro.
Depois do museu dei uma andada de algum tempo em um cemitério do século XIX dentro da área central da cidade, para ver se encontrava por acaso algum Baumgarten ou outros nomes blumenauenses conhecidos. Até trombei com alguns dos últimos, mas nenhum dos primeiros. Talvez o grande cemitério principal da cidade tivesse alguma coisa, mas eu teria que ter mais tempo e informação para fazer uma busca por lá. Depois disso, embarquei de volta para Göttingen, onde uma série incrível de decisões erradas me enrolou todo no transporte local e só consegui voltar à casa da Tati lá pelas nove da noite.
Braunschweig tem coisas interessantes, como muitas cidades alemãs, mas só vale o tempo se você tiver um dia mais ou menos livre na viagem (como era meu caso) ou para fazer uma busca mais consciente e informada sobre os ancestrais (não como o meu caso). Se algum dia eu morar na Alemanha, pode crer que gastarei um tempo para fazer esta busca. Por enquanto, fica apenas no “cumprir tabela”.
Wacken
Obs: esse texto ficou bem longo. Fique à vontade para pular as partes sobre as bandas e shows se você não é da galera de preto.
Logo no dia seguinte, quinta feira, eu e Tati embarcamos na jornada rumo ao norte germânico, onde, uma vez por ano, abre-se um portal mágico para um mundo paralelo onde é normal usar preto, as pessoas vivem em barracas e o sons pesados e violentos preenchem o ar. É o Wacken, é o maior festival de metal do mundo, e é para onde estávamos indo pelo segundo ano seguido!
No entanto, se no ano passado tudo foi perfeito, desta vez a empreitada se tornou uma verdadeira aventura, não necessariamente com a adição de boas emoções. Para começar, pegamos um trem rápido que deveria ir direto a Hamburgo e chegar uma da tarde. Entretanto, foi descoberta uma bomba da Segunda Guerra Mundial no meio de Hamburgo e foi evacuada uma área que incluía os trechos que levavam à estação central de trem. Por mais bizarro que pareça, este tipo de coisa não é incomum no país, pois, com todos os bombardeios que o país recebeu, algumas bombas não explodiram e permaneceram lá, ativas, apenas esperando a martelada de algum trator de obra incauto. Enquanto as equipes locais tentavam desarmar a bomba, o trânsito local e o fluxo de trens para a cidade ficou completamente zoado.
Tivemos que mudar para um trem lento, com todas as nossas muitas malas, e parar em uma estação aleatória. De lá, descobrir, no meio da confusão, que precisávamos pegar um ônibus que substituiria o metrô que precisaríamos pegar, mas também não estava funcionando. Depois de viajar um tempo por ele no melhor estilo brasileiro (i.e. socado de gente), todo mundo saltou e descobrimos que o ônibus apenas fazia uma parte do trecho, e que daquele ponto em diante poderíamos (melhor, teríamos) que pegar o dito metrô. Fomos até a estação só para ver o primeiro a chegar encher de gente e ir embora sem mais espaço. Para o segundo, tomamos uma posição estratégica e preparamos os cotovelos. Pulamos para dentro com nossa bagagem e lá fomos no aperto. Finalmente, chegamos à estação central, com duas horas de atraso, e apenas poucos minutos depois de ter saído um trem para a cidade onde iríamos.
O jeito foi esperar 40 minutos pelo próximo, aproveitando o tempo para almoçar e deixar a minha mala maior em um armário na estação (levei para o Wacken apenas o necessário em uma mochila e algumas sacolas). Dali partimos para Itzehoe, que tem a micro-estação mais próxima da nano-vila de Wacken. Faltava ainda um último translado, o ônibus para o festival. E foi assim que chegamos lá, apenas cinco da tarde, quando a previsão era bem antes.
Nossa maior preocupação com o atraso era achar um lugar bom para colocar as barracas. A área de camping do Wacken é imensa e a galera já chega em peso um ou dois dias antes. Ter que caminhar meia hora toda vez que quiséssemos ir para a área de shows ou procurar os chuveiros seria bem chato. Entretanto, após caminhar um pouco, conseguimos um lugar que, naquele momento, parecia perfeito: muito próximo dos locais supracitados e, ainda por cima, não era do lado das ruas principais, por onde todo o povo passa caminhando. Era do lado de uma vala de escoamento, mas isso só seria problema se chovesse pesado, não a chuva normal que sempre é esperada para pelo menos um dia de festival. Com o acampamento montado e aliviados pelo fim de uma parte complicada da viagem, pudemos rumar finalmente para o paraíso do metal.
Como o atraso nos fez perder o primeiro show que eu queria ver, o do Sepultura, rumamos para a Wackinger Village, a vila viking/medieval que novamente deu as caras no festival, para pegar nossas primeiras cervejas e começar a curtir. No Wackinger Stage, adequadamente dedicado a bandas com som medieval e/ou folclórico, estava tocando a Saor Patrol, banda composta por um barbudo de gaita de foles, três tiozinhos na percussão e um gurizão com uma guitarra para dar substância. O som é totalmente folk instrumental celta e, com aquele batuque infernal e melodias características, não tinha como a galera não agitar. É interessante ver como no ambiente do metal há esse interesse, ou ânsia, de resgatar sonoridades tradicionais, folclóricas, como uma tentativa de se ligar novamente ao passado (pelo menos ao passado europeu). Por isso músicos que tenham pouco, ou nada, a ver com o metal são bem recebidos em festivais do estilo. E, é claro, bandas que misturam o folk com o metal surgiram aos montes no último ano. Para mim, que entrei de cabeça nessa já há alguns anos, foi excelente ter essas várias bandas por lá.
Logo depois subiu uma banda um pouco mais “séria”, se descontar a teatralidade fora de contexto do vocalista (que também não estava com a voz boa), a Vogelfrey. O som deles é mais power metal, com vocais agressivos, um violino e um violoncelo para dar cor. Só que de nada adianta ter instrumentos diferentes em uma banda se você coloca o som da guitarra lá no alto e abafa todo o resto, certo? Saímos logo, pois estava para começar o primeiro grande show da noite.
Eu comecei a ouvir Saxon nas últimas semanas por causa do Wacken, já que é uma banda muito clássica que teria oportunidade de ver, mas pouco conhecia. Curti bastante as músicas que ouvi e, por isso, estava na expectativa para o show. Que foi, da parte da banda, excelente. O público que me pareceu um pouco frio, mas pode ser porque estávamos um pouco mais atrás. Curiosamente, antes de tocar “Crusader”, minha música absolutamente preferida e que imaginava ser um dos maiores clássicos deles, o vocalista falou que ela tinha voltado ao set list fazia apenas algumas semanas. De qualquer modo, valeu assistir e com certeza eu iria fácil em um show dos velhinhos de novo.
Dali fomos para a grande tenda que abriga dois palcos menores, o Wet Stage e o Headbanger Stage, para pegar uma banda que a Tati queria ver, o Mono Inc. Mas, por algum motivo (e não, não era por causa da cerveja), não consigo lembrar de nada do show. Assim fechou a primeira noite de shows, que sempre é mais curta. Aproveitamos para tomar de madrugada e evitar as filas colossais da manhã. Então fomos para as barracas. O clima neste primeiro dia foi sossegado, com alguns momentos de chuva, mas nada grave. Se permanecesse assim, seria uma maravilha.
Na sexta, logicamente dormirmos pouco porque o sol veio com força e as barracas viraram fornos (quem inventar uma barraca que permanece fresca sob o sol vai ganhar um Nobel). Aproveitamos o fato para meio dia já estar no Biergarten Stage (que é em um biergarten mesmo) para almoçar e ver uma das bandas que mais gostei no festival: o Santiano. A trupe de tiozinhos (novamente!) tem como proposta fazer “som de pirata”, que vai desde algo mais épico estilo “Piratas do Caribe” até as típicas canções de marinheiro para cantar junto. Eles não têm quase nada de metal ou rock, mas isso não os impediu de atrair um ótimo público, que se animou e agitou o tempo todo. Coloquei no topo da lista para depois colocar o tapa-olho e ir atrás de suas músicas nos mares da internet (e como eles poderão reclamar?).
Em seguida, voltamos aos palcos grandes para ver o show do Oomph!, uma daquelas bandas electro-industrial-metal/rock que proliferam na Alemanha. Só que o som deles é menos pesado. É como um Rammstein com uma bola a menos. Eu gosto do estilo, mas estes caras não fizeram minha cabeça, e em nada ajudava o vocalista fazer longos discursos aleatórios entre as músicas.
Ao fim do show, era 14:30 e tínhamos uma janela de quase três horas em nossa lista de interesses. Aproveitamos para tomar banho, pois, naquela hora, também não havia fila nos chuveiros. E foi aí que a coisa desandou de vez.
Pois, enquanto estávamos nos chuveiros, todo o calor do dia até então se condensou em uma cacetada de chuva e vento que veio com toda a força. Até tivemos que esperar um bom tempo na tenta dos chuveiros, que tremia toda, antes de conseguir sair. A paisagem do Wacken passou de idílica para desoladora a partir daí. Poças de água se formaram por todos os lados e, nos caminhos principais, onde só tem barro, o andar de milhares de pessoas começou a formar uma camada cada vez mais espessa de lama.
Nosso acampamento não ficou em melhor situação: embora a vala não tenha transbordado, muita água correu para onde estavam nossas barracas. Ficamos literalmente flutuando na água. Enquanto minha barraca segurou a onda, a da Tati foi mesmo por água abaixo. De um modo absurdo que até agora não consigo entender, o chão da barraca dela, que em toda barraca deve ser impermeável, estava literalmente uma peneira. Mesmo secando, era só apertar um pouco que a água entrava novamente. O jeito foi tirar tudo e tentar isolar por baixo do melhor modo possível com sacos de lixo. Não ficou grande coisa, mas, de modo otimista, pensei que, com a tempestade, ao menos o sol deveria sair e secar as coisas, quem sabe no próximo dia de manhã.
Mas o metal não podia parar, então perto das cinco horas partimos para a área de shows. Já estava complicado andar, com toda a lama formada, mas, ao menos, o céu ficou realmente limpo. Fomos ver o The Boss Hoss, uma banda de alemães que faz um rock country totalmente no velho estilo estadunidense. Embora eu fique me perguntando o que eles estavam fazendo no maior palco do festival (o True Metal Stage, onde ocorre apenas um show por vez, alternando com shows nos dois outros palcos grandes, o Black Stage e o Party Stage, que ocorrem simultaneamente), não há como negar que o show é muito bom e o som divertido, e a metaleirada agitou de boa. Até solo de tábua de lavar rolou!
Em seguida, veio uma sequência de três shows que eu queria muito ver, todos no Black Stage. O primeiro acabou sendo o melhor show que assisti neste Wacken, o do Opeth. É uma banda que curto muito e que merece mais do que qualquer uma o rótulo de “metal progressivo”. Isto porque, junto com o Death Metal que fazem desde o início da carreira, eles incorporam muita coisa do rock progressivo setentista, nos arranjos, modo de cantar e até timbres de guitarra utilizados. Nos discos mais recentes, inclusive, o som pesado tem sido cada vez mais deixado de lado em favor do puro rock progressivo. Isto me deixou um pouco cabreiro, pois será que fariam um show puramente calmo com voz limpa? Mas não tive nada com o que me preocupar: depois de começarem com algumas músicas realmente mais sossegadas do disco novo, a pancadaria surgiu forte e o vocalista Mikael Akerfeldt não economizou no seu gutural, que é um dos mais violentos do metal. No geral, foi um show bem equilibrado entre as duas facetas da banda, tudo temperado pelo carisma e sarcasmo do vocalista, que dá um show à parte. Voltou a chover durante o show deles, mas, como diria o próprio Akerfeldt, “combina com o nosso som”.
No próximo show da sequência, Tati foi para outro palco, pois não era muito a praia dela. Pois finalmente o Black Stage recebeu Black Metal, com o Dimmu Borgir. Tenho alguns discos da banda e gosto muito do som, Black Metal Sinfônico em sua essência, embora não seja daquelas bandas super-favoritas. Este show, em especial, poderia interessar até quem não gosta da banda, pois, para fazer o a parte sinfônica da música, a banda efetivamente colocou uma orquestra no palco. E não era um quartetinho de cordas ou uma orquestra de câmara, mas uma orquestra sinfônica e coral completos. Sem dúvida ficou muito interessante de assitir, mesmo quando os instrumentos clássicos eram esmagados pela massa de instrumentos metálicos. Ajuda que o vocalista da banda é interativo, em vez de ser daqueles Black-metal-truezão que tem que se passar de fodão malvado o tempo todo.
No intervalo entre os shows, voltávamos à Wackinger, onde gastamos bastante tempo desta vez e, por ser um lugar mais alto, tinha mais espaços com chão relativamente firme. Pegamos mais um pedaço de show da Vogelfrey (as bandas do Wackinger Stage se repetem ao longo dos dias), que estava mais bem equalizado e redondo, embora tenha incluído um momento deprimente com o vocalista arrancando com os dentes a cabeça de uma Barbie e depois ficar tristinho porque um pouco de sangue falso escorreu para o olho. Em outro momento, pegamos o show da Russkaja, que talvez tenha sido a banda mais fora de contexto do festival. Eles são russos e falam de coisas russas e tal, mas o som é puro e simples ska, com alguns poucos momentos com algum peso. Mas, novamente, impossível não se divertir com as músicas e as brincadeiras do muito carismático vocalista gordinho, e a metaleirada agitou à vontade, mostrando que intolerância sonora não é coisa do metal (pelo menos do povo que ia naquele palco...).
Para fechar a noite, finalmente rolou uma banda de folk metal “de verdade” em um dos palcos grandes, o In Extremo. Conheço eles mais do começo da carreira, quando tinham uma proposta mais voltada ao folk, mas depois eles partiram para um som cada vez mais metal tradicional. Na verdade, as coisas mais novas parecem mais heavy metal com gaitas, com quase nada de folk, e foi neste tipo de som que a apresentação foi centrada. Independente disso, foi um grande show, com muita pirotecnia e boa performance do vocalista com voz de camponês, e tocaram a minha favorita e super-folk “Herr Mannelig” (uma balada medieval sueca), então está tudo em casa.
O show terminou duas da manhã e era hora de ir chafurdando na lama até a barraca, torcendo para que o sol aparecesse com força no dia seguinte. Tati ainda passou na tenda onde rolava um suposto caraoquê metal, mas logo apareceu nas barracas também.
E o que o dia seguinte trouxe foi chuva a manhã toda. Não muito pesada, mas o bastante para piorar a situação. O movimento constante de pessoas tornou todos os caminhos sofríveis e, mesmo onde antes tinha grama, agora só havia lama. Tornou-se impossível caminhar sem afundar os pés quase totalmente nela. Assim, tivemos que reduzir todos os deslocamentos ao mínimo necessário, o que tirou do caminho coisas supérfluas como chuveiros e banheiros limpos, em favor dos shows, barracas de comida e, logicamente, pegar cerveja.
Saímos das barracas apenas perto das duas da tarde, para pegar o show da Paradise Lost no Party Stage. Uma banda que já transitou por tudo desde o Doom Metal só com guturais até o Gothic Rock dançante e, por mais que tenha recebido as pedradas que bandas que mudam o som sempre recebe, sempre se deu relativamente bem em cada abordagem. Foi um bom show, mas muito curto (só 45 minutos), estranho para uma banda com tanta história e que tocava pela primeira vez no Wacken. Poucas velharias foram tocadas, então, que é a parte que melhor conheço.
Paramos em seguida para assistir no Wackinger uma batalha entre os Guerreiros do Metal e os Soldados
do Hip-hop. Os dois lados equipados com suas armas e armaduras medievais, se enfrentando em batalhas campais e duelos individuais. Logo a coisa virou uma aula de técnicas de combate medieval para o pessoal da platéia. Muito nerd, eu sei, mas, por isso mesmo, muito legal.
Cinco e pouco da tarde começamos a ver no Wet Stage uma outra banda de metal industrial alemã, o Megaherz. Inevitável comparar sempre com Rammstein (que é/já foi o ícone do estilo), ainda mais que os vocalistas sempre teimam em cantar exatamente do mesmo modo, mas pelo menos desta vez a banda tinha as duas bolas e uma terceira brotando, pois faziam um som bem pesado, industrial mesmo (no sentido dançante, não no sentido original estilo Fear Factory). Saí antes do final porque queria chegar cedo para um dos shows pelo qual estava mais ansioso. Tati ficou para ver o Moonspell, que eu também queria ver, mas infelizmente era no mesmo horário.
O Cradle Of Filth é, sem dúvida, uma das minhas bandas favoritas. Eu não estava ouvindo muito nos últimos anos, mas antes do Wacken do ano passado voltei a pegar os discos e ouvir muito. Daí o diabo do vocalista resolveu apanhar em uma briga alguns dias antes e a banda cancelou a apresentação naquele ano. Agora, era para ser o show de compensação. Como cheguei uns 20 minutos antes do show começar, e este não estava particularmente socado, consegui ficar muito perto do palco (foi o show em que fiquei mais colado de todos os Wackens, tipo na sexta fileira mais próxima). O Cradle começou como uma banda de Black Metal Sinfônico e foi crescendo cada vez mais com o passar do tempo. Foi fácil constatar que músicas mais novas eram as mais conhecidas do pessoal. Assim, não muita gente se mexeu com o começo do show, que achei do caralho, pois entraram com a introdução sinfônica do meu disco favorito, “Dusk and her embrace” e depois com a primeira faixa deste, “Heaven torn asunder” (uma música que tem uma dinâmica fenomenal). Mas a galera teve tempo o bastante para agitar com as músicas mais conhecidas (que eu também gosto muito, claro). Não foi um dos shows quem mais empolgaram o povo no festival, mas eu, ao menos, curti demais, embora não tenha tirado do Opeth o Troféu Fefeleco de Melhor Show do Wacken.
Em seguida, pelo nosso programa (que custou um euro!), viria o show do Scorpions no True Metal stage. Entretanto, enquanto ficava de longe esperando a Tati, que me encontraria lá, percebi algo estranho no cartaz estendido ao fundo. Eu já tinha visto aquilo em algum lugar e, sem dúvida, um imenso viking brandindo sua espada em meio às chamas não tinha muito a cara do Scorpions... Corri para uma barraca de informações, onde me deram um programa (gratuito) que mostrava que quem iria tocar naquele palco agora era nada menos que o Amon Amarth, a última das bandas que eu mais queria ver no festival. O show começou e tive que ficar só ouvindo de longe duas das minhas músicas favoritas serem tocadas enquanto esperava a Tati. Quando Lea chegou, arrastei-a para o show, que ela não fazia a menor questão de ver. Mas, no fim, até ela gostou, porque talvez tenha sido o melhor show do Wacken. Eu não tinha idéia de que a banda fosse tão grande, imaginava que eles eram uma banda média-grande no máximo, mas tinha realmente muita gente no show. E o mais chamativo: todos agitando muito, desde o gargarejo até o fundão, coisa que raramente acontece nos shows enormes. Estava na cara de que a banda também estava curtindo muito aquele clima e o vocalista mostrou que você não precisa ser um carrancudo para fazer metal extremo. Na hora de cantar, era um ogro furioso. Nos intervalos, era apenas um viking feliz, sorridente e piadista de dois metros de altura brandindo um martelo de batalha. Fiquei realmente muito triste por ter rolado a confusão com o horário e ter que ver a apresentação de muito longe, pois era um show que merecia ser visto e ouvido mais de perto.
Depois dos vikings, finalmente era a ver dos escorpiões. Eu não conheço muito de Scorpions, mas acho que deve-se aproveitar a chance de ver estas bandas clássicas no fim da vida. Neste caso, a turnê é, supostamente, a última (mas sabe como é essa história de “turnê de de$pedida”...). Então eu quis ver os velhinhos. Infelizmente, não foi grande coisa, não necessariamente por culpa deles. Logo no começo do show, veio novamente uma tempestade que espantou muita gente e fez o resto se aninhar em suas capas de chuva. Daí a vibe deu aquela diminuída. A banda também não me pareceu tão enérgica. O vocalista Klaus Meine não tem mais voz para nada e talvez seja o maior motivo pelo qual está mesmo na hora da banda parar. Em alguns momentos o show se perdeu em solos demasiadamente longos, dava para pegar uma cerveja, voltar e o cara ainda estar lá fazendo acrobacias. O de bateria foi particularmente ruim. Enfim, só consegui me animar precisamente na última música, mas, também, é uma das melhores e mais empolgantes do rock: “Rock you like a hurricane”. Curiosamente, não tocaram o super-hit mela-cueca “Winds of change”. Será que acharam que o público do Wacken não seria muito receptivo para ela? Olha, até que não erraram muito...
Finalizado o show, onze da noite, novamente sob chuva e com a lama agora atingindo profundidades perigosas, o povo começou a dispersar, mesmo ainda tendo alguns shows grandes pela frente. Para variar, como eu nunca fui em um festival com a Tati no qual ela não perdesse alguma coisa importante, ela reparou nesta hora que tinha perdido a carteira e saiu pelo mar de lama a procurá-la (e, incrivelmente, achou, caída no meio do lixo ao lado de uma barraca onde tinha comprado cerveja antes). Eu fiquei um tempo vendo o show do Machine Head em um telão à frente de uma das poucas ilhas de grama que ainda sobravam.
Para finalizar a noite, fugimos para a tenda coberta onde algumas últimas bandas tocavam para um público diminuto no Wet e Headbanger Stage. À uma e meia tocou uma banda esquisita, o Winterfylleth. Nada errado nem com o som nem com a aparência, mas minha mente não conseguia encaixar as duas coisas. O som era o mais extremo que eu tinha ouvido no Wacken até o momento, poderia fácil chamar de Black Metal e dos bem pesados. Mas os caras pareciam o Offspring ou outra banda de hardcore qualquer. Pode ser preconceito meu, mas realmente som extremo e bonés não parecem combinar direito...
A última banda que vimos, duas da manhã, acabou conseguindo a proeza que era animar todos o povo que ainda se encontrava lá. E, novamente, nada tinham de metal. Era o Leningrad Cowboys, que faziam uma mistureba de hard rock, country e música russa que, por incrível que pareça, funciona muito bem. Para auxiliar, uma performance digna de estadunidenses (mas eles são finlandeses ), com fantasias, trajes bizarros, dançarinas gostosas e muito humor. Quando eles meteram “Those were the days” nem mesmo o mais bodeado dos bêbados conseguiu ficar parado. E todos vocês conhecem essa música, eu tenho certeza! Foi um desfecho surpreendentemente animado para uma noite que achei que não teria mais nada para oferecer.
Depois disso, fim da alegria. Tivemos nosso último arrastar pela lama até as barracas, apenas um breve momento de bode antes de, seis da manhã, levantar acampamento. Não tinha porque ficarmos mais lá, o melhor era chegar o mais cedo possível em um lugar civilizado, quente e seco. Tivemos uma última sorte que foi não chover durante a arrumação das coisas, como no ano passado. Quando fomos em direção ao ônibus, os tratores já tinham começado a trabalhar. Pois, imaginem: tinha muita gente no acampamento com carros. Muita gente mesmo. Milhares de carros lá. E nenhum com a menor condição de sair do atoleiro. A organização conseguiu arranjar sete tratores para ajudar na retirada dos carros, mas acho que até agora deve ter neguinho lá esperando...
De nossa parte, foi pegar o busão para chegar na estação de Itzehoe, tomada por metaleiros sujos de lama até os ossos. Tive que usar minha calça de moletom com o qual dormia e Havaianas, jogando todo o resto dos trastes em um sacolão de lixo. Estava um mendigo perfeito, sorte que não fui preso ao andar pelas ruas. Uma hora de trem depois, chegamos numa estação secundária de Hamburgo e Tati seguiu em frente para sua cidade, enquanto eu rumei para a estação central pegar minha bagagem no armário. Ainda tive a última lição do fim de semana, a de ler com cuidado as coisas antes de fazê-las, pois tinha enfiado minha mala em um cofre automático de curta duração que custava quatro euros por hora. Uma dívida de 44 euros se encontrava entre eu e minha mala e tive que ir até a administração central trocar 50 euros em moedinhas de dois para alimentar a maldita fechadura esfomeada (e, de quebra, descobrir que lá eles tem armários de longa duração que custam cinco euros por dia).
Tão cansado estava que nem liguei muito para isso, na real. Tudo o que me importava é que meu hotel ficava a cinco minutos de caminhada da estação central, e não a dez horas de distância como no ano passado. Pude chegar logo lá, perto das onze da manhã, e ainda ter pique para arrumar umas tralhas e gastar uma hora devolvendo meu tênis, a esta altura nada mais que uma bola de lama, a um estado utilizável. Eram duas da tarde quando finalmente morri na cama, todo o cansaço do festival e da falta de sono desde o começo da viagem batendo de uma vez. Levantei 20 horas depois, tendo dormido por 17 seguidas e ainda enrolado na cama mais um tempo. Embora pudesse dormir ainda mais, estava bem o bastante para aproveitar o dia e explorar Hamburgo. Mas isso é outra história...
O Wacken deste ano foi bem mais complicado que no passado, quando tudo foi praticamente perfeito. Chuva leve não atrapalha, mas chuva pesada fode a vida, pois torna complicado fazer tudo. Até sair andando para curtir as coisas que estão acontecendo se torna um estorvo. Porém, não dá para ficar amuado, se render e se entocar na barraca até tudo acabar. O evento é legal demais e tem que ser aproveitado, faça chuva ou faça sol. E, como a própria Tati disse depois, não sei o que o Wacken tem, mas, mesmo depois de todo o perrengue, logo depois de voltar já dá vontade de ir de novo. Em breve, quem sabe. Em não-tão-breve, com certeza.
Mas, sério, os deuses do metal tem que fazer as pazes com os deuses do clima. Mesmo.
Na terça feira passada, fui para Göttingen, encontrar outra amiga, a Tati, que iria comigo no Wacken. Tínhamos combinado de nos encontrar na estação, mas ela fez uma baita confusão e achou que eu vinha só no dia seguinte. Assim, depois de esperar um tempo e nada, fui direto para a casa dela, que felizmente conhecia já do ano passado. Atendeu uma menina que mora com ela que já me conhecia do ano passado, mas, à primeira vista, deve ter pensado que eu era um mendigo pedindo por abrigo na garagem. Fiquei por lá esperando até a mãe da Tati (que estava também passando um período de férias pela Europa) chegar e, depois de um tempo, a própria. Ficamos a conversar, jantar e tomar umas cervejas até perto da meia noite.
Na quarta, planejei um bate e volta em Braunschweig, a cidade de onde vieram muitos dos primeiros imigrantes blumenauenses, inclusive os Baumgarten, e onde o fundador Hermann Blumenau viveu e morreu depois de voltar da colônia. Um problema daquele passe de um dia para viagens no mesmo estado sobre o qual falei antes é que ele não permite embarque nos trens rápidos, então o trecho que poderia demorar 55 minutos dobrou de tamanho. Com tudo isso e uma óbvia resistência ao acordar cedo, era meio dia quando cheguei à terra dos ancestrais.
Braunschweig
Não fui o primeiro e nem serei o último blumenauense a me decepcionar um pouco com esta cidade. Ninguém tem a menor idéia de que daquela região saíram os primeiros colonos a se fixar na terrinha. A lógica indica isso, é claro, pois da Alemanha saíram pencas de colonos que fundaram cidades em tudo quanto é lugar do mundo. Mas, talvez pela alemãozice do Vale do Itajaí ou mesmo pela Oktoberfest, eu pensei que alguém poderia ter uma vaga noção disso.
Assim, a primeira coisa que fiz foi ir até o centro de informações turísticas ver se tinha algo por lá relacionado a Blumenau (o local ou à pessoa). Ninguém sabia quem era o figura e nem se havia algo de relevante relacionado aos Baumgarten. De fato, neste caso eu não esperava muito, pois as poucas informações que tenho são de que a família era da região de Braunschweig (que era um ducado no século XIX), não necessariamente da cidade em si, e também não me parece um nome particularmente comum ou importante na Alemanha.
Sem muita coisa para correr atrás, fiz a volteada básica pela cidade para ver os pontos interessantes, pois, como uma cidade relativamente importante desde a Idade Média, a cidade tem coisas a oferecer. Como ela foi bombardeada fortemente durante a Segunda Guerra e quase tudo foi abaixo, há poucos edifícios históricos (reconstruídos, logicamente) no meio da modernidade predominante, então mesmo no centro antigo não se tem aquela sensação de volta ao passado de outras cidades. O museu local deles, entretanto, me surpreendeu positivamente, por ter uma coleção bem interessante de peças de todas as épocas, sempre fazendo conexão com a cidade, é claro. E sem um pingo de inglês, é claro.
Depois do museu dei uma andada de algum tempo em um cemitério do século XIX dentro da área central da cidade, para ver se encontrava por acaso algum Baumgarten ou outros nomes blumenauenses conhecidos. Até trombei com alguns dos últimos, mas nenhum dos primeiros. Talvez o grande cemitério principal da cidade tivesse alguma coisa, mas eu teria que ter mais tempo e informação para fazer uma busca por lá. Depois disso, embarquei de volta para Göttingen, onde uma série incrível de decisões erradas me enrolou todo no transporte local e só consegui voltar à casa da Tati lá pelas nove da noite.
Braunschweig tem coisas interessantes, como muitas cidades alemãs, mas só vale o tempo se você tiver um dia mais ou menos livre na viagem (como era meu caso) ou para fazer uma busca mais consciente e informada sobre os ancestrais (não como o meu caso). Se algum dia eu morar na Alemanha, pode crer que gastarei um tempo para fazer esta busca. Por enquanto, fica apenas no “cumprir tabela”.
Wacken
Obs: esse texto ficou bem longo. Fique à vontade para pular as partes sobre as bandas e shows se você não é da galera de preto.
Logo no dia seguinte, quinta feira, eu e Tati embarcamos na jornada rumo ao norte germânico, onde, uma vez por ano, abre-se um portal mágico para um mundo paralelo onde é normal usar preto, as pessoas vivem em barracas e o sons pesados e violentos preenchem o ar. É o Wacken, é o maior festival de metal do mundo, e é para onde estávamos indo pelo segundo ano seguido!
No entanto, se no ano passado tudo foi perfeito, desta vez a empreitada se tornou uma verdadeira aventura, não necessariamente com a adição de boas emoções. Para começar, pegamos um trem rápido que deveria ir direto a Hamburgo e chegar uma da tarde. Entretanto, foi descoberta uma bomba da Segunda Guerra Mundial no meio de Hamburgo e foi evacuada uma área que incluía os trechos que levavam à estação central de trem. Por mais bizarro que pareça, este tipo de coisa não é incomum no país, pois, com todos os bombardeios que o país recebeu, algumas bombas não explodiram e permaneceram lá, ativas, apenas esperando a martelada de algum trator de obra incauto. Enquanto as equipes locais tentavam desarmar a bomba, o trânsito local e o fluxo de trens para a cidade ficou completamente zoado.
Tivemos que mudar para um trem lento, com todas as nossas muitas malas, e parar em uma estação aleatória. De lá, descobrir, no meio da confusão, que precisávamos pegar um ônibus que substituiria o metrô que precisaríamos pegar, mas também não estava funcionando. Depois de viajar um tempo por ele no melhor estilo brasileiro (i.e. socado de gente), todo mundo saltou e descobrimos que o ônibus apenas fazia uma parte do trecho, e que daquele ponto em diante poderíamos (melhor, teríamos) que pegar o dito metrô. Fomos até a estação só para ver o primeiro a chegar encher de gente e ir embora sem mais espaço. Para o segundo, tomamos uma posição estratégica e preparamos os cotovelos. Pulamos para dentro com nossa bagagem e lá fomos no aperto. Finalmente, chegamos à estação central, com duas horas de atraso, e apenas poucos minutos depois de ter saído um trem para a cidade onde iríamos.
O jeito foi esperar 40 minutos pelo próximo, aproveitando o tempo para almoçar e deixar a minha mala maior em um armário na estação (levei para o Wacken apenas o necessário em uma mochila e algumas sacolas). Dali partimos para Itzehoe, que tem a micro-estação mais próxima da nano-vila de Wacken. Faltava ainda um último translado, o ônibus para o festival. E foi assim que chegamos lá, apenas cinco da tarde, quando a previsão era bem antes.
Nossa maior preocupação com o atraso era achar um lugar bom para colocar as barracas. A área de camping do Wacken é imensa e a galera já chega em peso um ou dois dias antes. Ter que caminhar meia hora toda vez que quiséssemos ir para a área de shows ou procurar os chuveiros seria bem chato. Entretanto, após caminhar um pouco, conseguimos um lugar que, naquele momento, parecia perfeito: muito próximo dos locais supracitados e, ainda por cima, não era do lado das ruas principais, por onde todo o povo passa caminhando. Era do lado de uma vala de escoamento, mas isso só seria problema se chovesse pesado, não a chuva normal que sempre é esperada para pelo menos um dia de festival. Com o acampamento montado e aliviados pelo fim de uma parte complicada da viagem, pudemos rumar finalmente para o paraíso do metal.
Como o atraso nos fez perder o primeiro show que eu queria ver, o do Sepultura, rumamos para a Wackinger Village, a vila viking/medieval que novamente deu as caras no festival, para pegar nossas primeiras cervejas e começar a curtir. No Wackinger Stage, adequadamente dedicado a bandas com som medieval e/ou folclórico, estava tocando a Saor Patrol, banda composta por um barbudo de gaita de foles, três tiozinhos na percussão e um gurizão com uma guitarra para dar substância. O som é totalmente folk instrumental celta e, com aquele batuque infernal e melodias características, não tinha como a galera não agitar. É interessante ver como no ambiente do metal há esse interesse, ou ânsia, de resgatar sonoridades tradicionais, folclóricas, como uma tentativa de se ligar novamente ao passado (pelo menos ao passado europeu). Por isso músicos que tenham pouco, ou nada, a ver com o metal são bem recebidos em festivais do estilo. E, é claro, bandas que misturam o folk com o metal surgiram aos montes no último ano. Para mim, que entrei de cabeça nessa já há alguns anos, foi excelente ter essas várias bandas por lá.
Logo depois subiu uma banda um pouco mais “séria”, se descontar a teatralidade fora de contexto do vocalista (que também não estava com a voz boa), a Vogelfrey. O som deles é mais power metal, com vocais agressivos, um violino e um violoncelo para dar cor. Só que de nada adianta ter instrumentos diferentes em uma banda se você coloca o som da guitarra lá no alto e abafa todo o resto, certo? Saímos logo, pois estava para começar o primeiro grande show da noite.
Eu comecei a ouvir Saxon nas últimas semanas por causa do Wacken, já que é uma banda muito clássica que teria oportunidade de ver, mas pouco conhecia. Curti bastante as músicas que ouvi e, por isso, estava na expectativa para o show. Que foi, da parte da banda, excelente. O público que me pareceu um pouco frio, mas pode ser porque estávamos um pouco mais atrás. Curiosamente, antes de tocar “Crusader”, minha música absolutamente preferida e que imaginava ser um dos maiores clássicos deles, o vocalista falou que ela tinha voltado ao set list fazia apenas algumas semanas. De qualquer modo, valeu assistir e com certeza eu iria fácil em um show dos velhinhos de novo.
Dali fomos para a grande tenda que abriga dois palcos menores, o Wet Stage e o Headbanger Stage, para pegar uma banda que a Tati queria ver, o Mono Inc. Mas, por algum motivo (e não, não era por causa da cerveja), não consigo lembrar de nada do show. Assim fechou a primeira noite de shows, que sempre é mais curta. Aproveitamos para tomar de madrugada e evitar as filas colossais da manhã. Então fomos para as barracas. O clima neste primeiro dia foi sossegado, com alguns momentos de chuva, mas nada grave. Se permanecesse assim, seria uma maravilha.
Na sexta, logicamente dormirmos pouco porque o sol veio com força e as barracas viraram fornos (quem inventar uma barraca que permanece fresca sob o sol vai ganhar um Nobel). Aproveitamos o fato para meio dia já estar no Biergarten Stage (que é em um biergarten mesmo) para almoçar e ver uma das bandas que mais gostei no festival: o Santiano. A trupe de tiozinhos (novamente!) tem como proposta fazer “som de pirata”, que vai desde algo mais épico estilo “Piratas do Caribe” até as típicas canções de marinheiro para cantar junto. Eles não têm quase nada de metal ou rock, mas isso não os impediu de atrair um ótimo público, que se animou e agitou o tempo todo. Coloquei no topo da lista para depois colocar o tapa-olho e ir atrás de suas músicas nos mares da internet (e como eles poderão reclamar?).
Em seguida, voltamos aos palcos grandes para ver o show do Oomph!, uma daquelas bandas electro-industrial-metal/rock que proliferam na Alemanha. Só que o som deles é menos pesado. É como um Rammstein com uma bola a menos. Eu gosto do estilo, mas estes caras não fizeram minha cabeça, e em nada ajudava o vocalista fazer longos discursos aleatórios entre as músicas.
Ao fim do show, era 14:30 e tínhamos uma janela de quase três horas em nossa lista de interesses. Aproveitamos para tomar banho, pois, naquela hora, também não havia fila nos chuveiros. E foi aí que a coisa desandou de vez.
Pois, enquanto estávamos nos chuveiros, todo o calor do dia até então se condensou em uma cacetada de chuva e vento que veio com toda a força. Até tivemos que esperar um bom tempo na tenta dos chuveiros, que tremia toda, antes de conseguir sair. A paisagem do Wacken passou de idílica para desoladora a partir daí. Poças de água se formaram por todos os lados e, nos caminhos principais, onde só tem barro, o andar de milhares de pessoas começou a formar uma camada cada vez mais espessa de lama.
Nosso acampamento não ficou em melhor situação: embora a vala não tenha transbordado, muita água correu para onde estavam nossas barracas. Ficamos literalmente flutuando na água. Enquanto minha barraca segurou a onda, a da Tati foi mesmo por água abaixo. De um modo absurdo que até agora não consigo entender, o chão da barraca dela, que em toda barraca deve ser impermeável, estava literalmente uma peneira. Mesmo secando, era só apertar um pouco que a água entrava novamente. O jeito foi tirar tudo e tentar isolar por baixo do melhor modo possível com sacos de lixo. Não ficou grande coisa, mas, de modo otimista, pensei que, com a tempestade, ao menos o sol deveria sair e secar as coisas, quem sabe no próximo dia de manhã.
Mas o metal não podia parar, então perto das cinco horas partimos para a área de shows. Já estava complicado andar, com toda a lama formada, mas, ao menos, o céu ficou realmente limpo. Fomos ver o The Boss Hoss, uma banda de alemães que faz um rock country totalmente no velho estilo estadunidense. Embora eu fique me perguntando o que eles estavam fazendo no maior palco do festival (o True Metal Stage, onde ocorre apenas um show por vez, alternando com shows nos dois outros palcos grandes, o Black Stage e o Party Stage, que ocorrem simultaneamente), não há como negar que o show é muito bom e o som divertido, e a metaleirada agitou de boa. Até solo de tábua de lavar rolou!
Em seguida, veio uma sequência de três shows que eu queria muito ver, todos no Black Stage. O primeiro acabou sendo o melhor show que assisti neste Wacken, o do Opeth. É uma banda que curto muito e que merece mais do que qualquer uma o rótulo de “metal progressivo”. Isto porque, junto com o Death Metal que fazem desde o início da carreira, eles incorporam muita coisa do rock progressivo setentista, nos arranjos, modo de cantar e até timbres de guitarra utilizados. Nos discos mais recentes, inclusive, o som pesado tem sido cada vez mais deixado de lado em favor do puro rock progressivo. Isto me deixou um pouco cabreiro, pois será que fariam um show puramente calmo com voz limpa? Mas não tive nada com o que me preocupar: depois de começarem com algumas músicas realmente mais sossegadas do disco novo, a pancadaria surgiu forte e o vocalista Mikael Akerfeldt não economizou no seu gutural, que é um dos mais violentos do metal. No geral, foi um show bem equilibrado entre as duas facetas da banda, tudo temperado pelo carisma e sarcasmo do vocalista, que dá um show à parte. Voltou a chover durante o show deles, mas, como diria o próprio Akerfeldt, “combina com o nosso som”.
No próximo show da sequência, Tati foi para outro palco, pois não era muito a praia dela. Pois finalmente o Black Stage recebeu Black Metal, com o Dimmu Borgir. Tenho alguns discos da banda e gosto muito do som, Black Metal Sinfônico em sua essência, embora não seja daquelas bandas super-favoritas. Este show, em especial, poderia interessar até quem não gosta da banda, pois, para fazer o a parte sinfônica da música, a banda efetivamente colocou uma orquestra no palco. E não era um quartetinho de cordas ou uma orquestra de câmara, mas uma orquestra sinfônica e coral completos. Sem dúvida ficou muito interessante de assitir, mesmo quando os instrumentos clássicos eram esmagados pela massa de instrumentos metálicos. Ajuda que o vocalista da banda é interativo, em vez de ser daqueles Black-metal-truezão que tem que se passar de fodão malvado o tempo todo.
No intervalo entre os shows, voltávamos à Wackinger, onde gastamos bastante tempo desta vez e, por ser um lugar mais alto, tinha mais espaços com chão relativamente firme. Pegamos mais um pedaço de show da Vogelfrey (as bandas do Wackinger Stage se repetem ao longo dos dias), que estava mais bem equalizado e redondo, embora tenha incluído um momento deprimente com o vocalista arrancando com os dentes a cabeça de uma Barbie e depois ficar tristinho porque um pouco de sangue falso escorreu para o olho. Em outro momento, pegamos o show da Russkaja, que talvez tenha sido a banda mais fora de contexto do festival. Eles são russos e falam de coisas russas e tal, mas o som é puro e simples ska, com alguns poucos momentos com algum peso. Mas, novamente, impossível não se divertir com as músicas e as brincadeiras do muito carismático vocalista gordinho, e a metaleirada agitou à vontade, mostrando que intolerância sonora não é coisa do metal (pelo menos do povo que ia naquele palco...).
Para fechar a noite, finalmente rolou uma banda de folk metal “de verdade” em um dos palcos grandes, o In Extremo. Conheço eles mais do começo da carreira, quando tinham uma proposta mais voltada ao folk, mas depois eles partiram para um som cada vez mais metal tradicional. Na verdade, as coisas mais novas parecem mais heavy metal com gaitas, com quase nada de folk, e foi neste tipo de som que a apresentação foi centrada. Independente disso, foi um grande show, com muita pirotecnia e boa performance do vocalista com voz de camponês, e tocaram a minha favorita e super-folk “Herr Mannelig” (uma balada medieval sueca), então está tudo em casa.
O show terminou duas da manhã e era hora de ir chafurdando na lama até a barraca, torcendo para que o sol aparecesse com força no dia seguinte. Tati ainda passou na tenda onde rolava um suposto caraoquê metal, mas logo apareceu nas barracas também.
E o que o dia seguinte trouxe foi chuva a manhã toda. Não muito pesada, mas o bastante para piorar a situação. O movimento constante de pessoas tornou todos os caminhos sofríveis e, mesmo onde antes tinha grama, agora só havia lama. Tornou-se impossível caminhar sem afundar os pés quase totalmente nela. Assim, tivemos que reduzir todos os deslocamentos ao mínimo necessário, o que tirou do caminho coisas supérfluas como chuveiros e banheiros limpos, em favor dos shows, barracas de comida e, logicamente, pegar cerveja.
Saímos das barracas apenas perto das duas da tarde, para pegar o show da Paradise Lost no Party Stage. Uma banda que já transitou por tudo desde o Doom Metal só com guturais até o Gothic Rock dançante e, por mais que tenha recebido as pedradas que bandas que mudam o som sempre recebe, sempre se deu relativamente bem em cada abordagem. Foi um bom show, mas muito curto (só 45 minutos), estranho para uma banda com tanta história e que tocava pela primeira vez no Wacken. Poucas velharias foram tocadas, então, que é a parte que melhor conheço.
Paramos em seguida para assistir no Wackinger uma batalha entre os Guerreiros do Metal e os Soldados
do Hip-hop. Os dois lados equipados com suas armas e armaduras medievais, se enfrentando em batalhas campais e duelos individuais. Logo a coisa virou uma aula de técnicas de combate medieval para o pessoal da platéia. Muito nerd, eu sei, mas, por isso mesmo, muito legal.
Cinco e pouco da tarde começamos a ver no Wet Stage uma outra banda de metal industrial alemã, o Megaherz. Inevitável comparar sempre com Rammstein (que é/já foi o ícone do estilo), ainda mais que os vocalistas sempre teimam em cantar exatamente do mesmo modo, mas pelo menos desta vez a banda tinha as duas bolas e uma terceira brotando, pois faziam um som bem pesado, industrial mesmo (no sentido dançante, não no sentido original estilo Fear Factory). Saí antes do final porque queria chegar cedo para um dos shows pelo qual estava mais ansioso. Tati ficou para ver o Moonspell, que eu também queria ver, mas infelizmente era no mesmo horário.
O Cradle Of Filth é, sem dúvida, uma das minhas bandas favoritas. Eu não estava ouvindo muito nos últimos anos, mas antes do Wacken do ano passado voltei a pegar os discos e ouvir muito. Daí o diabo do vocalista resolveu apanhar em uma briga alguns dias antes e a banda cancelou a apresentação naquele ano. Agora, era para ser o show de compensação. Como cheguei uns 20 minutos antes do show começar, e este não estava particularmente socado, consegui ficar muito perto do palco (foi o show em que fiquei mais colado de todos os Wackens, tipo na sexta fileira mais próxima). O Cradle começou como uma banda de Black Metal Sinfônico e foi crescendo cada vez mais com o passar do tempo. Foi fácil constatar que músicas mais novas eram as mais conhecidas do pessoal. Assim, não muita gente se mexeu com o começo do show, que achei do caralho, pois entraram com a introdução sinfônica do meu disco favorito, “Dusk and her embrace” e depois com a primeira faixa deste, “Heaven torn asunder” (uma música que tem uma dinâmica fenomenal). Mas a galera teve tempo o bastante para agitar com as músicas mais conhecidas (que eu também gosto muito, claro). Não foi um dos shows quem mais empolgaram o povo no festival, mas eu, ao menos, curti demais, embora não tenha tirado do Opeth o Troféu Fefeleco de Melhor Show do Wacken.
Em seguida, pelo nosso programa (que custou um euro!), viria o show do Scorpions no True Metal stage. Entretanto, enquanto ficava de longe esperando a Tati, que me encontraria lá, percebi algo estranho no cartaz estendido ao fundo. Eu já tinha visto aquilo em algum lugar e, sem dúvida, um imenso viking brandindo sua espada em meio às chamas não tinha muito a cara do Scorpions... Corri para uma barraca de informações, onde me deram um programa (gratuito) que mostrava que quem iria tocar naquele palco agora era nada menos que o Amon Amarth, a última das bandas que eu mais queria ver no festival. O show começou e tive que ficar só ouvindo de longe duas das minhas músicas favoritas serem tocadas enquanto esperava a Tati. Quando Lea chegou, arrastei-a para o show, que ela não fazia a menor questão de ver. Mas, no fim, até ela gostou, porque talvez tenha sido o melhor show do Wacken. Eu não tinha idéia de que a banda fosse tão grande, imaginava que eles eram uma banda média-grande no máximo, mas tinha realmente muita gente no show. E o mais chamativo: todos agitando muito, desde o gargarejo até o fundão, coisa que raramente acontece nos shows enormes. Estava na cara de que a banda também estava curtindo muito aquele clima e o vocalista mostrou que você não precisa ser um carrancudo para fazer metal extremo. Na hora de cantar, era um ogro furioso. Nos intervalos, era apenas um viking feliz, sorridente e piadista de dois metros de altura brandindo um martelo de batalha. Fiquei realmente muito triste por ter rolado a confusão com o horário e ter que ver a apresentação de muito longe, pois era um show que merecia ser visto e ouvido mais de perto.
Depois dos vikings, finalmente era a ver dos escorpiões. Eu não conheço muito de Scorpions, mas acho que deve-se aproveitar a chance de ver estas bandas clássicas no fim da vida. Neste caso, a turnê é, supostamente, a última (mas sabe como é essa história de “turnê de de$pedida”...). Então eu quis ver os velhinhos. Infelizmente, não foi grande coisa, não necessariamente por culpa deles. Logo no começo do show, veio novamente uma tempestade que espantou muita gente e fez o resto se aninhar em suas capas de chuva. Daí a vibe deu aquela diminuída. A banda também não me pareceu tão enérgica. O vocalista Klaus Meine não tem mais voz para nada e talvez seja o maior motivo pelo qual está mesmo na hora da banda parar. Em alguns momentos o show se perdeu em solos demasiadamente longos, dava para pegar uma cerveja, voltar e o cara ainda estar lá fazendo acrobacias. O de bateria foi particularmente ruim. Enfim, só consegui me animar precisamente na última música, mas, também, é uma das melhores e mais empolgantes do rock: “Rock you like a hurricane”. Curiosamente, não tocaram o super-hit mela-cueca “Winds of change”. Será que acharam que o público do Wacken não seria muito receptivo para ela? Olha, até que não erraram muito...
Finalizado o show, onze da noite, novamente sob chuva e com a lama agora atingindo profundidades perigosas, o povo começou a dispersar, mesmo ainda tendo alguns shows grandes pela frente. Para variar, como eu nunca fui em um festival com a Tati no qual ela não perdesse alguma coisa importante, ela reparou nesta hora que tinha perdido a carteira e saiu pelo mar de lama a procurá-la (e, incrivelmente, achou, caída no meio do lixo ao lado de uma barraca onde tinha comprado cerveja antes). Eu fiquei um tempo vendo o show do Machine Head em um telão à frente de uma das poucas ilhas de grama que ainda sobravam.
Para finalizar a noite, fugimos para a tenda coberta onde algumas últimas bandas tocavam para um público diminuto no Wet e Headbanger Stage. À uma e meia tocou uma banda esquisita, o Winterfylleth. Nada errado nem com o som nem com a aparência, mas minha mente não conseguia encaixar as duas coisas. O som era o mais extremo que eu tinha ouvido no Wacken até o momento, poderia fácil chamar de Black Metal e dos bem pesados. Mas os caras pareciam o Offspring ou outra banda de hardcore qualquer. Pode ser preconceito meu, mas realmente som extremo e bonés não parecem combinar direito...
A última banda que vimos, duas da manhã, acabou conseguindo a proeza que era animar todos o povo que ainda se encontrava lá. E, novamente, nada tinham de metal. Era o Leningrad Cowboys, que faziam uma mistureba de hard rock, country e música russa que, por incrível que pareça, funciona muito bem. Para auxiliar, uma performance digna de estadunidenses (mas eles são finlandeses ), com fantasias, trajes bizarros, dançarinas gostosas e muito humor. Quando eles meteram “Those were the days” nem mesmo o mais bodeado dos bêbados conseguiu ficar parado. E todos vocês conhecem essa música, eu tenho certeza! Foi um desfecho surpreendentemente animado para uma noite que achei que não teria mais nada para oferecer.
Depois disso, fim da alegria. Tivemos nosso último arrastar pela lama até as barracas, apenas um breve momento de bode antes de, seis da manhã, levantar acampamento. Não tinha porque ficarmos mais lá, o melhor era chegar o mais cedo possível em um lugar civilizado, quente e seco. Tivemos uma última sorte que foi não chover durante a arrumação das coisas, como no ano passado. Quando fomos em direção ao ônibus, os tratores já tinham começado a trabalhar. Pois, imaginem: tinha muita gente no acampamento com carros. Muita gente mesmo. Milhares de carros lá. E nenhum com a menor condição de sair do atoleiro. A organização conseguiu arranjar sete tratores para ajudar na retirada dos carros, mas acho que até agora deve ter neguinho lá esperando...
De nossa parte, foi pegar o busão para chegar na estação de Itzehoe, tomada por metaleiros sujos de lama até os ossos. Tive que usar minha calça de moletom com o qual dormia e Havaianas, jogando todo o resto dos trastes em um sacolão de lixo. Estava um mendigo perfeito, sorte que não fui preso ao andar pelas ruas. Uma hora de trem depois, chegamos numa estação secundária de Hamburgo e Tati seguiu em frente para sua cidade, enquanto eu rumei para a estação central pegar minha bagagem no armário. Ainda tive a última lição do fim de semana, a de ler com cuidado as coisas antes de fazê-las, pois tinha enfiado minha mala em um cofre automático de curta duração que custava quatro euros por hora. Uma dívida de 44 euros se encontrava entre eu e minha mala e tive que ir até a administração central trocar 50 euros em moedinhas de dois para alimentar a maldita fechadura esfomeada (e, de quebra, descobrir que lá eles tem armários de longa duração que custam cinco euros por dia).
Tão cansado estava que nem liguei muito para isso, na real. Tudo o que me importava é que meu hotel ficava a cinco minutos de caminhada da estação central, e não a dez horas de distância como no ano passado. Pude chegar logo lá, perto das onze da manhã, e ainda ter pique para arrumar umas tralhas e gastar uma hora devolvendo meu tênis, a esta altura nada mais que uma bola de lama, a um estado utilizável. Eram duas da tarde quando finalmente morri na cama, todo o cansaço do festival e da falta de sono desde o começo da viagem batendo de uma vez. Levantei 20 horas depois, tendo dormido por 17 seguidas e ainda enrolado na cama mais um tempo. Embora pudesse dormir ainda mais, estava bem o bastante para aproveitar o dia e explorar Hamburgo. Mas isso é outra história...
O Wacken deste ano foi bem mais complicado que no passado, quando tudo foi praticamente perfeito. Chuva leve não atrapalha, mas chuva pesada fode a vida, pois torna complicado fazer tudo. Até sair andando para curtir as coisas que estão acontecendo se torna um estorvo. Porém, não dá para ficar amuado, se render e se entocar na barraca até tudo acabar. O evento é legal demais e tem que ser aproveitado, faça chuva ou faça sol. E, como a própria Tati disse depois, não sei o que o Wacken tem, mas, mesmo depois de todo o perrengue, logo depois de voltar já dá vontade de ir de novo. Em breve, quem sabe. Em não-tão-breve, com certeza.
Mas, sério, os deuses do metal tem que fazer as pazes com os deuses do clima. Mesmo.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Guerra e chope
Começo o novo diário de viagem com os primeiros dias um tanto quanto movimentados. A viagem para cá foi sossegada. Depois do voo de Floripa ao Rio de Janeiro, o tempo de espera foi curto até o voo internacional (três horas e meia). Tendo escolhido um lugar mais no fundão, tive a rara sorte de ficar com a fileira de três assentos toda para mim. O avião estava silencioso e tudo absolutamente confortável. Assim, consegui dormir exatos zero minutos, porque sou eu. Até tentei, mas, quando estava mais próximo de conseguir, deitado pelos bancos, a aeromoça gatinha veio acariciar minha perna... para avisar que estava rolando turbulência e eu deveria sentar e colocar o cinto. Daí desisti de vez. Saldo da viagem: um episódio de Simpsons, um de Friends, três de The Big Bang Theory, Jurassic Park pela milésima vez e várias rodadas de Championship Manager.
No aeroporto de Paris, ainda rolou uma demora na conexão para a Alemanha por causa de uma bagagem suspeita encontrada em algum setor. Risco de bomba, nada fora do normal. Cheguei no aeroporto de Munique ao meio dia (do horário daqui, sete da manhã no Brasil), rapidamente me familiarizei com as conexões de trem da cidade e cheguei no meu hotel (tããão diferente da primeira vez...), ao lado do Sendlinger Tor, o portão oeste do centro da cidade. Só larguei minhas coisas lá e fui almoçar na praça do portão. Salsicha, chucrute e cerveja, é claro. Uma cena memorável durante o almoço foi a de um casal alemão iniciando o seu filho de uns onze anos no caminho da cerveja. Os adultos com seus copos-padrão (500 ml) e o guri com um copinho menor. Rolou até brinde familiar antes de beber. Só que o rapaz pareceu não curtir muito (e quem gosta de cerveja logo de cara?) e o garçom trouxe um copo com gelo e canudo para ele ir misturando e descer melhor. Daí ele bebeu tudo. Sim, aqui cerveja é cultura: ou você bebe, ou vai para o campo de concentração.
De volta ao quarto, acordado há mais de um dia e completamente banzo, percebi que o hotel era uma merda. O dia estava ensolarado e quente, embora nada assustador para os padrões brasileiros, mas o quarto ficava um forno, e não tinha nem um ventilador para amenizar (ar condicionado lá é realmente raro, mas pô, quanto deve custar um ventiladorzinho de mesa na Alemanha?). Só dava para aguentar mais ou menos com a janela aberta, o que significaria barulho e sol na cara. Consegui dormir naquele momento porque estava podre, mas acordei de madrugada (ainda um pouco abafado) e não consegui mais. Passei as horas então procurando no Booking.com por outra opção e tive que pegar um hotel de rede, apenas um pouco mais afastado do centro, e 50% mais caro. Mas, àquela altura, valia a pena. Apenas esperei chegar oito da manhã para a recepção do hotel abrir e disparei.
Felizmente, o novo hotel era animal, bem grande e com tudo novo (e ar condicionado!). Dei sorte de já ter um quarto livre, mesmo sendo nove da manhã e o check in oficialmente sendo apenas três da tarde. Larguei as coisas lá e logo parti para andar pela cidade, porque, mesmo com o sono mega atrasado, tinha que fazer o sábado render.
Munique
Como todas as cidades antigas da Europa, Munique, mesmo sendo imensa (1,2 milhões de habitantes na região), tem um centro histórico pequeno, herança do tempo em que o mundo era maior e as cidades, menores. Assim, depois de dez minutos de caminhada, eu estava nele, e pude ver tudo a pé. No centro, a coisa mais chamativa são as várias grandes igrejas uma perto da outra. Se considerar que a cidade começou como um conurbado de monastérios (e o próprio nome dela deriva da palavra alemã para “monge”), nada mais compreensível. O que explica também as várias cervejas com nomes de santos (Paulaner, Franziskaner, Augustiner...). O problema é que a cidade levou muita bomba na cabeça durante a Segunda Guerra, e praticamente todas as igrejas foram reconstruídas, o que explica seus interiores bem austeros e, relativamente, pouco impactantes. A mais chamativa é também a mais famosa, a Frauenkirche, que impressiona pela força bruta das torres imensas (cem metros) e grande interior.
Após almoçar em um biergarten dentro de um parque, subi até a Könnig Platz (“praça do rei”), onde tem um interessante complexo de construções neoclássicas: um pórtico inspirado no Propillion de Atenas, a Galeria de Antiguidades e a Gliptoteca (galeria de esculturas antigas). Cada prédio foi feito em um estilo grego: dórico, jônio e coríntio. Este fato é mais legal do que as galerias em si. É o mesmo problema que a maioria dos museus alemães: não tem nada escrito em inglês. Nem o título das peças. Tá certo que um escudo de bronze é um escudo de bronze e pronto, mas tem coisa que você não sabe se é a ponta de um estandarte, de uma lança ou um espeto de churrasco. Curiosamente, o único texto bilíngue era em uma caixa para doações na Gliptoteca. Bem que poderiam investir as moedinhas lá em traduções...
Dali fui para um terceiro museu que, no papel, tinha me interessado, o da pré-história (que, na verdade, é um museu de antiguidades também). Só que o museu estava em obras e apenas três salas com umas coisas romanas podiam ser vistas. Em resumo, nenhum deles é particularmente chamativo, sequer chegando perto daqueles de Berlim, e perdendo feio até para os da Grécia.
Fim do expediente turístico, voltei ao hotel para descansar um pouco melhor desta vez. Não sem antes de pegar uma comida típica de Hamburgo em um restaurante tradicional alemão. Sabe, aquele com o grande M amarelo...
No domingo, meu plano era de ir ao zoológico, porque, onde tiver um, lá estarei. Mas, de manhã, caiu uma chuva fenomenal. Fiquei na dúvida entre ir ou não, porque tinha lugares interessantes (e cobertos) que eu ainda não tinha visitado. Entre uma dúvida e outra, fui me enrolando até que a chuva parou. Decidi arriscar e me mandei para o zoo, o que acabou sendo uma boa escolha. Porque o dia ficou entre sol alto e chuva forte, o que espantou um pouco a galera, e estava tranquilo de passear lá. Foi só questão de ver os espaços abertos no sol e os fechados na chuva.
Foi o terceiro zoo que visitei na Alemanha e ele compartilha da mesma lógica de Berlim e Frankfurt. Você vê os bichos bem de perto e há mais vidro que grades na sua frente. No caso das focas e leões/lobos marinhos, realmente a única separação era um vidro na altura da cintura, e era perfeitamente possível tocar nos animais, se alguém tivesse interesse em perder uns dedos. Embora não tenha a imensa riqueza de espécies de Berlim, o diferencial de Munique está em alguns espaços abertos em que não há nenhuma separação entre público e animais. Estes eram o aviário (que não tinha só pombos e pardais, obviamente), uma estufa tropical e a sala dos morcegos (que ficavam dando belos sustos ao voar em torno das pessoas). Não sei o quanto isso contribui para o estresse dos animais, mas, como o povo não ficava perseguindo e tentando pegar os bichos, não deve ser um grande problema. E aí, funcionaria no Brasil? Claro, com a diferença que todo mundo tentaria sair do lugar com um morcego no bolso.
Quando o zoo fechou, voltei ao centro para encontrar uma amiga que fez o começo da universidade comigo, a Juliana, e agora estava casada com um alemão e morando em Munique. O primeiro fato engraçado é que ela, já há três anos lá, tropeçava algumas vezes no português ou, sem pensar, falava em alemão comigo, e tinha que falar de novo ao ver minha cara de paisagem. Já que eu era o turista, fomos para a Hofbräuhaus, o biergarten mais famoso de Munique, onde as famosas canecas de litrão correm soltas e, inclusive, não existem opções de canecas menores (só para tipos específicos de cerveja, como a de trigo). Então, basicamente, é um grande espaço onde todos estão bêbados. Dividimos a mesa com um casal de alemães que moravam em Paris, com quem conversamos bastante. Minha amiga não é muito boa no inglês, o que gerou uma situação interessante: de quatro línguas em potencial, não tinha nenhuma que era compartilhada por todos na mesa. Então sempre alguém ficava viajando um pouco, mas, mesmo assim, foi bem divertido. Outra coisa bizarra era a estrita divisão espacial em relação ao atendimento das mesas, algo até compreensível em um sistema que incorpora a gorjeta. Infelizmente, ficamos em uma tríplice fronteira, fazendo contato direto com a área de atendimento de uma morena bonita e de uma loira fenomenal, mas dentro do território de um tiozinho meio surdo. E os outros garçons não te atendem mesmo, até quando o seu está demorando.
Alguns litros depois, nos despedimos e fomos embora, umas dez e pouco, porque segunda eu teria um passeio mais demorado pela frente. Mesmo assim, foi só bem depois da meia noite que consegui deitar na cama e apaguei na hora.
Levantar sete e pouco foi uma briga na segunda, mas o dia estava bonito e eu tinha duas horas de trem até os Alpes Bávaros (a pontinha da cordilheira que se encontra em território alemão). A atração principal da área são dois castelos de reis da Bavária durante seus cerca de cem anos como reino independente (durante o século XIX e começo do XX), o pequeno de Hohenschwangau e o super-famoso Neuschwanstein. Uma coisa importante que tinha aprendido na viagem anterior é que, em viagens de um dia dentro de um mesmo estado/província/o raio que o parta, é possível comprar um passe que é geralmente metade do preço de comprar os trechos de ida e volta. Sempre deve-se ter isso em mente ao fazer um bate-e-volta em uma cidade do interior a partir de uma base em uma cidade maior.
A outra coisa muito importante que eu tinha aprendido na viagem anterior, esqueci: comprar as entradas antecipadamente pela internet. Pois quando cheguei na região dos castelos às onze horas, encarei uma puta fila lerda de uma hora e meia até conseguir os bilhetes. Além da demora, como ali as visitas ao interior dos castelos são todas guiadas e com hora marcada, só tinha horários para algumas horas depois. Felizmente, a área é muito bonita e tem muita coisa para fazer enquanto se espera pelos horários. Além de um lago, há toda sorte de trilhas e estradinhas cortando as matas do lugar. Gastei uma hora andando pelas trilhas antes de ir no Hohenschwangau, cerca de uma e meia da tarde. É um castelo pequeno e relativamente simples e novo, habitado pelo rei Maximiliano II durante a metade do século XIX. Ao terminar a visita de meia hora, ainda tive duas horas para caminhar por lá antes de ir ao castelo maior.
Neuschwanstein (a simpática Nova Pedra do Cisne, ou algo assim) merece sua reputação e status de ícone, muito além de ter servido como inspiração para o castelo da Disney. Não é um castelo medieval, mas foi construído neste estilo, pois Ludovico II, filho de Maximiliano, era um entusiasta da Idade Média e quis reproduzir aquele sentimento em sua nova casinha. Tá certo que, por causa dessas coisas, ele foi considerado louco, deposto e morreu logo depois, o que impediu o castelo de ser terminado, mas o que restou foi uma obra grandiosa e recheada de referências a lendas medievais/clássicas. Tanto por fora quanto por dentro, é exatamente aquilo que vêm à cabeça quando se pensa em “castelo”. Infelizmente (muito mesmo!) só é possível andar pelo interior dos dois castelos na visita guiada, que é rápida e apressada. Eu gastaria fácil horas me perdendo pelos corredores, salas e cantos escondidos dos dois. Mas creio que, por não serem tão enormes e receberem muitos turistas (era segunda feira e tinha uma galera), deve ser o único jeito de organizar a visitação por lá.
Ao sair do castelo, só deu para dar uma passada atropelada no Museu dos Reis da Bavária antes de pegar um trem que chegasse em Munique antes das onze da noite. No fim, faltou tempo na região dos castelos, pois teria sido muito legal, por exemplo, pegar um barquinho e sair pelo grande lago que domina a área. Se alguém for para lá um dia, compre a entrada pela internet, ou acorde muito cedo. No meu caso, nem preciso dizer qual a melhor opção...
Cansado pelas caminhadas e morto de sono (e, como o usual, me enrolando para dormir), abortei qualquer tentativa de passeio na terça de manhã, assim, alguns lugares legais de visitar ficaram pelo caminho (o palácio dos reis bávaros na cidade e o museu de ciência e tecnologia). Acordei onze e meia, só a tempos de pegar um trem, que é onde escrevo, a caminho de Göttingen encontrar outra amiga para logo irmos ao Wacken. Munique é legal, embora, se descontar o zoo, a ida aos Alpes e a tarde vendo os museus meia-boca, dá para conhecer a parte turística principal em um dia. A não ser que você gaste um inteiro tomando cervejas de litrão, o que nunca deixa de ser uma má ideia...
No aeroporto de Paris, ainda rolou uma demora na conexão para a Alemanha por causa de uma bagagem suspeita encontrada em algum setor. Risco de bomba, nada fora do normal. Cheguei no aeroporto de Munique ao meio dia (do horário daqui, sete da manhã no Brasil), rapidamente me familiarizei com as conexões de trem da cidade e cheguei no meu hotel (tããão diferente da primeira vez...), ao lado do Sendlinger Tor, o portão oeste do centro da cidade. Só larguei minhas coisas lá e fui almoçar na praça do portão. Salsicha, chucrute e cerveja, é claro. Uma cena memorável durante o almoço foi a de um casal alemão iniciando o seu filho de uns onze anos no caminho da cerveja. Os adultos com seus copos-padrão (500 ml) e o guri com um copinho menor. Rolou até brinde familiar antes de beber. Só que o rapaz pareceu não curtir muito (e quem gosta de cerveja logo de cara?) e o garçom trouxe um copo com gelo e canudo para ele ir misturando e descer melhor. Daí ele bebeu tudo. Sim, aqui cerveja é cultura: ou você bebe, ou vai para o campo de concentração.
De volta ao quarto, acordado há mais de um dia e completamente banzo, percebi que o hotel era uma merda. O dia estava ensolarado e quente, embora nada assustador para os padrões brasileiros, mas o quarto ficava um forno, e não tinha nem um ventilador para amenizar (ar condicionado lá é realmente raro, mas pô, quanto deve custar um ventiladorzinho de mesa na Alemanha?). Só dava para aguentar mais ou menos com a janela aberta, o que significaria barulho e sol na cara. Consegui dormir naquele momento porque estava podre, mas acordei de madrugada (ainda um pouco abafado) e não consegui mais. Passei as horas então procurando no Booking.com por outra opção e tive que pegar um hotel de rede, apenas um pouco mais afastado do centro, e 50% mais caro. Mas, àquela altura, valia a pena. Apenas esperei chegar oito da manhã para a recepção do hotel abrir e disparei.
Felizmente, o novo hotel era animal, bem grande e com tudo novo (e ar condicionado!). Dei sorte de já ter um quarto livre, mesmo sendo nove da manhã e o check in oficialmente sendo apenas três da tarde. Larguei as coisas lá e logo parti para andar pela cidade, porque, mesmo com o sono mega atrasado, tinha que fazer o sábado render.
Munique
Como todas as cidades antigas da Europa, Munique, mesmo sendo imensa (1,2 milhões de habitantes na região), tem um centro histórico pequeno, herança do tempo em que o mundo era maior e as cidades, menores. Assim, depois de dez minutos de caminhada, eu estava nele, e pude ver tudo a pé. No centro, a coisa mais chamativa são as várias grandes igrejas uma perto da outra. Se considerar que a cidade começou como um conurbado de monastérios (e o próprio nome dela deriva da palavra alemã para “monge”), nada mais compreensível. O que explica também as várias cervejas com nomes de santos (Paulaner, Franziskaner, Augustiner...). O problema é que a cidade levou muita bomba na cabeça durante a Segunda Guerra, e praticamente todas as igrejas foram reconstruídas, o que explica seus interiores bem austeros e, relativamente, pouco impactantes. A mais chamativa é também a mais famosa, a Frauenkirche, que impressiona pela força bruta das torres imensas (cem metros) e grande interior.
Após almoçar em um biergarten dentro de um parque, subi até a Könnig Platz (“praça do rei”), onde tem um interessante complexo de construções neoclássicas: um pórtico inspirado no Propillion de Atenas, a Galeria de Antiguidades e a Gliptoteca (galeria de esculturas antigas). Cada prédio foi feito em um estilo grego: dórico, jônio e coríntio. Este fato é mais legal do que as galerias em si. É o mesmo problema que a maioria dos museus alemães: não tem nada escrito em inglês. Nem o título das peças. Tá certo que um escudo de bronze é um escudo de bronze e pronto, mas tem coisa que você não sabe se é a ponta de um estandarte, de uma lança ou um espeto de churrasco. Curiosamente, o único texto bilíngue era em uma caixa para doações na Gliptoteca. Bem que poderiam investir as moedinhas lá em traduções...
Dali fui para um terceiro museu que, no papel, tinha me interessado, o da pré-história (que, na verdade, é um museu de antiguidades também). Só que o museu estava em obras e apenas três salas com umas coisas romanas podiam ser vistas. Em resumo, nenhum deles é particularmente chamativo, sequer chegando perto daqueles de Berlim, e perdendo feio até para os da Grécia.
Fim do expediente turístico, voltei ao hotel para descansar um pouco melhor desta vez. Não sem antes de pegar uma comida típica de Hamburgo em um restaurante tradicional alemão. Sabe, aquele com o grande M amarelo...
No domingo, meu plano era de ir ao zoológico, porque, onde tiver um, lá estarei. Mas, de manhã, caiu uma chuva fenomenal. Fiquei na dúvida entre ir ou não, porque tinha lugares interessantes (e cobertos) que eu ainda não tinha visitado. Entre uma dúvida e outra, fui me enrolando até que a chuva parou. Decidi arriscar e me mandei para o zoo, o que acabou sendo uma boa escolha. Porque o dia ficou entre sol alto e chuva forte, o que espantou um pouco a galera, e estava tranquilo de passear lá. Foi só questão de ver os espaços abertos no sol e os fechados na chuva.
Foi o terceiro zoo que visitei na Alemanha e ele compartilha da mesma lógica de Berlim e Frankfurt. Você vê os bichos bem de perto e há mais vidro que grades na sua frente. No caso das focas e leões/lobos marinhos, realmente a única separação era um vidro na altura da cintura, e era perfeitamente possível tocar nos animais, se alguém tivesse interesse em perder uns dedos. Embora não tenha a imensa riqueza de espécies de Berlim, o diferencial de Munique está em alguns espaços abertos em que não há nenhuma separação entre público e animais. Estes eram o aviário (que não tinha só pombos e pardais, obviamente), uma estufa tropical e a sala dos morcegos (que ficavam dando belos sustos ao voar em torno das pessoas). Não sei o quanto isso contribui para o estresse dos animais, mas, como o povo não ficava perseguindo e tentando pegar os bichos, não deve ser um grande problema. E aí, funcionaria no Brasil? Claro, com a diferença que todo mundo tentaria sair do lugar com um morcego no bolso.
Quando o zoo fechou, voltei ao centro para encontrar uma amiga que fez o começo da universidade comigo, a Juliana, e agora estava casada com um alemão e morando em Munique. O primeiro fato engraçado é que ela, já há três anos lá, tropeçava algumas vezes no português ou, sem pensar, falava em alemão comigo, e tinha que falar de novo ao ver minha cara de paisagem. Já que eu era o turista, fomos para a Hofbräuhaus, o biergarten mais famoso de Munique, onde as famosas canecas de litrão correm soltas e, inclusive, não existem opções de canecas menores (só para tipos específicos de cerveja, como a de trigo). Então, basicamente, é um grande espaço onde todos estão bêbados. Dividimos a mesa com um casal de alemães que moravam em Paris, com quem conversamos bastante. Minha amiga não é muito boa no inglês, o que gerou uma situação interessante: de quatro línguas em potencial, não tinha nenhuma que era compartilhada por todos na mesa. Então sempre alguém ficava viajando um pouco, mas, mesmo assim, foi bem divertido. Outra coisa bizarra era a estrita divisão espacial em relação ao atendimento das mesas, algo até compreensível em um sistema que incorpora a gorjeta. Infelizmente, ficamos em uma tríplice fronteira, fazendo contato direto com a área de atendimento de uma morena bonita e de uma loira fenomenal, mas dentro do território de um tiozinho meio surdo. E os outros garçons não te atendem mesmo, até quando o seu está demorando.
Alguns litros depois, nos despedimos e fomos embora, umas dez e pouco, porque segunda eu teria um passeio mais demorado pela frente. Mesmo assim, foi só bem depois da meia noite que consegui deitar na cama e apaguei na hora.
Levantar sete e pouco foi uma briga na segunda, mas o dia estava bonito e eu tinha duas horas de trem até os Alpes Bávaros (a pontinha da cordilheira que se encontra em território alemão). A atração principal da área são dois castelos de reis da Bavária durante seus cerca de cem anos como reino independente (durante o século XIX e começo do XX), o pequeno de Hohenschwangau e o super-famoso Neuschwanstein. Uma coisa importante que tinha aprendido na viagem anterior é que, em viagens de um dia dentro de um mesmo estado/província/o raio que o parta, é possível comprar um passe que é geralmente metade do preço de comprar os trechos de ida e volta. Sempre deve-se ter isso em mente ao fazer um bate-e-volta em uma cidade do interior a partir de uma base em uma cidade maior.
A outra coisa muito importante que eu tinha aprendido na viagem anterior, esqueci: comprar as entradas antecipadamente pela internet. Pois quando cheguei na região dos castelos às onze horas, encarei uma puta fila lerda de uma hora e meia até conseguir os bilhetes. Além da demora, como ali as visitas ao interior dos castelos são todas guiadas e com hora marcada, só tinha horários para algumas horas depois. Felizmente, a área é muito bonita e tem muita coisa para fazer enquanto se espera pelos horários. Além de um lago, há toda sorte de trilhas e estradinhas cortando as matas do lugar. Gastei uma hora andando pelas trilhas antes de ir no Hohenschwangau, cerca de uma e meia da tarde. É um castelo pequeno e relativamente simples e novo, habitado pelo rei Maximiliano II durante a metade do século XIX. Ao terminar a visita de meia hora, ainda tive duas horas para caminhar por lá antes de ir ao castelo maior.
Neuschwanstein (a simpática Nova Pedra do Cisne, ou algo assim) merece sua reputação e status de ícone, muito além de ter servido como inspiração para o castelo da Disney. Não é um castelo medieval, mas foi construído neste estilo, pois Ludovico II, filho de Maximiliano, era um entusiasta da Idade Média e quis reproduzir aquele sentimento em sua nova casinha. Tá certo que, por causa dessas coisas, ele foi considerado louco, deposto e morreu logo depois, o que impediu o castelo de ser terminado, mas o que restou foi uma obra grandiosa e recheada de referências a lendas medievais/clássicas. Tanto por fora quanto por dentro, é exatamente aquilo que vêm à cabeça quando se pensa em “castelo”. Infelizmente (muito mesmo!) só é possível andar pelo interior dos dois castelos na visita guiada, que é rápida e apressada. Eu gastaria fácil horas me perdendo pelos corredores, salas e cantos escondidos dos dois. Mas creio que, por não serem tão enormes e receberem muitos turistas (era segunda feira e tinha uma galera), deve ser o único jeito de organizar a visitação por lá.
Ao sair do castelo, só deu para dar uma passada atropelada no Museu dos Reis da Bavária antes de pegar um trem que chegasse em Munique antes das onze da noite. No fim, faltou tempo na região dos castelos, pois teria sido muito legal, por exemplo, pegar um barquinho e sair pelo grande lago que domina a área. Se alguém for para lá um dia, compre a entrada pela internet, ou acorde muito cedo. No meu caso, nem preciso dizer qual a melhor opção...
Cansado pelas caminhadas e morto de sono (e, como o usual, me enrolando para dormir), abortei qualquer tentativa de passeio na terça de manhã, assim, alguns lugares legais de visitar ficaram pelo caminho (o palácio dos reis bávaros na cidade e o museu de ciência e tecnologia). Acordei onze e meia, só a tempos de pegar um trem, que é onde escrevo, a caminho de Göttingen encontrar outra amiga para logo irmos ao Wacken. Munique é legal, embora, se descontar o zoo, a ida aos Alpes e a tarde vendo os museus meia-boca, dá para conhecer a parte turística principal em um dia. A não ser que você gaste um inteiro tomando cervejas de litrão, o que nunca deixa de ser uma má ideia...
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Felix's Gate II: Shadows of Asia
E uma nova jornada começa! E traz muito mais emoção do que um trocadilho nerd medíocre no título...
Embora seja uma viagem no mesmo estilo, planejar a deste ano foi bem mais complicado do que ano passado, quando passei por poucas cidades, ficando vários dias em cada uma. Desta vez, eu sabia que começaria pela Alemanha de novo, por causa do Wacken. Minha dúvida era entre fazer um roteiro nórdico (que sai da Alemanha via Holanda, passa pela Bélgica e chega no Reino Unido) ou sulista (voltando para o país pelo qual me apaixonei, a Grécia). Felizmente, apareceram as Olimpíadas para resolver a questão. Não que eu não goste do evento, muito pelo contrário, mas para quem quer fazer turismo em um lugar, isso só significaria preços muito mais altos e atrações muito mais lotadas que o usual.
Então, bora para o Mediterrâneo! A idéia de ir quicando pelas ilhas gregas até a Turquia surgiu naturalmente, pois é um caminho bem lógico (e seria sentir um gostinho de leve da Ásia... Tipo uma sombra dela... Entenderam agora? Ahn? Ahn?). Então, tendo mais ou menos definido os países, comecei a ler sobre os locais em guias e internet.
Daí veio o Mal do Turista: comecei a querer desesperadamente ver cada pedaço de templo antigo, construção medieval e museu de velharias que existisse em cada cidade de cada ilha e/ou país. Como deixar de lado a oportunidade de ver Delos, uma micro-ilha ao lado de Mikonos que é um sítio arqueológico por inteiro? E de passear por Santorini, uma gigantesca cratera vulcânica em forma de ilha, ainda ativa e que já destruiu civilizações inteirar com os efeitos de suas erupções? Passar por um lugar realmente lendário como Tróia? Ver as paisagens quase alienígenas da Capadócia? E o remanescente da capital de um império mais antigo do que toda a Antiguidade que a maioria das pessoas conhece, em Hattusa (com satisfação-bônus para quem leu a série "Ramsés")? Sentir o clima de uma das cidades mais importantes de toda a história ocidental/médio-oriental, Bizâncio/Constantinopla/Istambul?
Enfim, para quem é apaixonado por velharias, viajar por aquela região é ver a história viva (ou morta, quebrada e espalhada em pedaços pelo chão, mas vocês entenderam o espírito...). Mas, como a Dilma só me dá um mês de férias, tive que encarar uma dolorosa tarefa de seleção de prioridades e viabilidades.
Isto singificou horas e horas de internet pesquisando meios de transporte e horários, busca esta que, na realidade, se encerrou apenas hoje. Pois tive que descartar um plano inicial, de alugar um carro em dois trechos da parte turca da viagem e sair por aí dirigindo, porque nenhuma empresa de aluguel de carros topa dar um brinquedo na mão de uma criança com menos de um ano de habilitação. Imagino que migués e jeitinhos sejam sempre possíveis, mas não daria para programar os dias de hotel, por exemplo, correndo o risco de depois mudar tudo em cima da hora. Felizes daqueles que acham legal só se mandar e pensar em tudo apenas na hora, não os neuróticos que preferem diminuir ao máximo o número de escolhas necessárias antes de viajar (ainda mais durante a alta temporada!). Mas, como a parte turca será, no fim, quase toda de busão, posso evitar a paranóia estrita dos horários de avião, e os preços astronômicos do aluguel de carro.
Um ponto importante foi tentar equilibrar um pouco mais as coisas, porque, por mais que eu ame pedras velhas, um mês de pedras velhas cansa. Ano passado passei muito tempo em museus e um pouco mais de variedade cairia bem. Assim, embora cada lugar pelo que eu vá passar tenha algo no mínimo medieval para ver (o que na Europa não tem, não é?), vários outros tipos de curtição estão previstos, desde reencontrar amigos e tomar chopes de litrão em Munique até pegar uns dias de praia nas ilhas.
Depois de idas e vindas, eis que o roteiro final foi reduzido a: Munique (turismo histórico/etílico) - Göttingen (apenas caminho) - Wacken (roquenrou!) - Hamburgo (já que é pertinho do Wacken...) - Atenas (umas horinhas, só para matar a saudade da Acrópole) - Santorini (turismo histórico/praiano/paisagístico) - Rodes (histórico/praiano) - Selçuk (histórico) - Pamukkale (histórico/paisagístico) - Capadócia (histórico/paisagístico) - Ancara (histórico) - Istambul (histórico/cultural).
E lá vamos nós, então. Não sei se terei tanto tempo quanto antes para escrever sobre os locais que passarei, mas farei um esforço, porque, antes de tudo, é um diário de viagem para relembrar das coisas depois. Ainda hoje leio o que escrevi do ano passado. Portanto, mais do que falar para as paredes, escrever em um blog morto-vivo é um registro histórico! Claro, complementado com a usual série de fotos sublinhadas por gracinhas bestas no Facebook, mas daí é só para fazer marra mesmo...
domingo, 11 de setembro de 2011
A Maravilhosa Cozinha dos Solteiros Solitários V
Prato do dia: Capeletti de carne com molho de tomate, manjericão e gorgonzola.
Ingredientes:
1 Pacote de capeletti com carne pronto
1 Pacote de Molho de tomate com manjericão pronto
Gorgonzola. Pronto, obviamente.
Modo de preparo:
Siga as instruções das embalagens. Misture tudo. Coma.
Dica: troque o gorgonzola por parmesão para fazer um delicioso capeletti de carne com molho de tomate, manjericão e parmesão.
Hoje em dia é tão fácil ser gourmet...
Ingredientes:
1 Pacote de capeletti com carne pronto
1 Pacote de Molho de tomate com manjericão pronto
Gorgonzola. Pronto, obviamente.
Modo de preparo:
Siga as instruções das embalagens. Misture tudo. Coma.
Dica: troque o gorgonzola por parmesão para fazer um delicioso capeletti de carne com molho de tomate, manjericão e parmesão.
Hoje em dia é tão fácil ser gourmet...
terça-feira, 30 de agosto de 2011
O fim é no começo
Vinte e nove horas e quatro vôos depois estou de volta à toca. De Creta a Atenas, de Atenas a Munique, de Munique para Guarulhos, de Guarulhos para Floripa (com direito a atraso de duas horas na partida, porque o tempo ruim tinha fechado o aeroporto daqui). Se ontem (anteontem... tou meio perdido) eu estava tomando sol na praia, agora sou recepcionado pelo adorável clima do agosto sulista.
Então, com jet lag, vacation lag e weather lag, hora de contar como foram os últimos dias e algumas considerações gerais da viagem. Bora lá.
Heraklion
Escrevi o nome da cidade, em vez de “Creta”, porque a ilha é grande pra cacete. Com 200 km em seu maior eixo, tem uma área onde caberiam 16 Ilhas de Santa Catarina. Mesmo assim, tem uma população de apenas 600 mil habitantes, o que lhe dá um clima bucólico de uma grande ilha parada no tempo, salpicada de vilarejos. Entretanto, também não tem nenhum super sistema de transportes desenvolvido, tudo depende de ônibus e as regiões menores não tem muito suporte de inglês. Assim, Creta exige um empenho maior para ser bem conhecida (um carro alugado é o ideal). Estando em fim de viagem e já meio sem gás, fiquei apenas nas proximidades da cidade principal, Heraklion (ou Iralkion).
Comecei o meu primeiro dia indo para o lugar que tinha me trazido até ali: as ruínas do Palácio de Knossos, centro principal da primeira civilização avançada da Europa. Além da antiguidade, o lugar é realmente legendário, sendo a residência do mítico Rei Minos e, possivelmente, a origem do Labirinto do Minotauro. Por isso que a civilização cretense que ali se formou, mais ou menos entre 2300 – 1400 a.C, é chamada de minoana ou minóica. Rodrigo e Fábio, antes que me perguntem: não, o palácio não era de bronze e não encontrei nenhuma armadura do capeta no interior do labirinto. Mas bem que procurei!
Pedindo explicação para o pessoal do hotel (que era muito bom – o hotel, não o inglês dos hoteleiros), peguei o ônibus que vai até lá, distante uns cinco quilômetros do centro. Entrando, a sensação que senti foi um pouco estranha, semelhante à de Notre Dame após a Berliner Dom. Visualmente falando, não impressiona tanto quanto as ruínas mais colossais de uma Roma ou mesmo Atenas. Mas estamos falando de locais mais de mil anos mais novos que Knossos. Quando você mentaliza o salto enorme do tempo que se dá ao andar em Knossos, fica impressionado com a civilização que construiu aquilo ali.
Mas não ache que o lugar é pequeno, longe disso. São aposentos e mais aposentos dos quais restaram apenas ruínas esparsas. O arqueólogo que as descobriu, no começo do século passado, também fez uma grande restauração de alguns trechos. Se por um lado ele foi criticado por não ser muito fiel e deixar a imaginação rolar em alguns pontos, por outro dá uma pequena noção do que deveria ser o palácio na época. Segundo o livro-guia que comprei, o palácio completo tinha 1500 aposentos (achei esse número exagerado, tenho que conferir em outras fontes). Não é à toa que a lenda o transformou em um labirinto.
Ao caminhar por lá, efetivamente você se sente num labirinto, mais exatamente como o Pac Man correndo de um lado para o outro fugindo dos fantasmas. Só que, neste caso, os fantasmas são os infinitos grupos de visitas guiadas que lotam cada ponto de destaque, lhe obrigando a fazer malabarismos para conseguir ver as coisas direito. Considerando que já era final de temporada, penso que visitar o palácio durante o pico do movimento seja um inferno, pois não é um lugar tão grande assim para a quantidade de pessoas que recebe.
Após um par de horas ali e tomar o suco de laranja mais caro do universo (4,5 euros por 300 ml!), voltei ao centro para dar uma passada no Museu Arqueológico de Creta. Tendo a fama de ser um dos grandes museus da Grécia, ele na verdade se encontra fechado para reforma (eu já sabia disso), mas organizaram uma pequena exposição com as peças mais famosas da civilização cretense. Foi legal ver várias peças “pop” da arqueologia, sempre impressionado com a habilidade manual que produziu peças tão antigas.
Ainda com bastante tempo, rumei para a beira do mar, onde existe uma fortaleza veneziana da idade média (os venezianos ocuparam a ilha por muito tempo, construindo inclusive uma muralha que cerca todo o centro de Heraklion, de pé até hoje). Achei que tinha algum tipo de visitação, mas só dá para olhar ela por fora. Aproveitei para encarar a longa caminhada pelo quebra-mar que protege o porto, com seus dois quilômetros de extensão, e que parece ser bem usado pelos locais para caminhadas e passeios de bicicleta. Voltei pelos calçadões à beira-mar deles, apreciando o céu absolutamente limpo e o mar absolutamente azul, aproveitando no caminho para jantar uma deliciosa sépia grelhada (“cutlefish”, ponha no Google para saber).
Meus últimos dois dias foram em marcha bem lenta. Não senti mais aquele compromisso todo de conhecer mil coisas (tem muitos sítios arqueológicos importantes em Creta, mas mais distantes de Heraklion). Resolvi apenas relaxar para fechar as férias. No sábado, acordei bem tarde. Saí de tarde para comer e, para desencargo de consciência, passei no pequeno Museu de História Natural que eles possuem. Sem grandes novidades, mas sempre é legal ver uns fósseis e uns lagartos vivos em aquários. Dalí fui a outra das várias tabernas à beira mar que lá existem. O nome é bem mais sexy do que parece, são apenas bares / restaurantes à beira mar com um nome diferente. Meu almoço foi com um não menos delicioso polvo grelhado, me lembrando que o lugar onde mais comi frutos do mar nos últimos tempos foi a Grécia. É porque lá eles não ficam apenas na sequência de camarão super cara, então você pode comer esses bichos diferentes por um preço normal. Nada mais fiz naquele dia, que contou como “férias das férias”.
No domingo programei para fechar a conta com um belo dia de praia, mas não queria simplesmente ir lagartear na areia. Tinha visto na frente do forte veneziano uma barraquinha vendendo passeios para Dia, uma pequena / média ilha a sete quilômetros de Heraklion. Então para lá rumei no domingo. Ao chegar, dez da manhã, vi só um tiozinho sentado na barraquinha, vendo a vida passar. Não queria me meter em fria no último dia, então sentei a uma certa distância e esperei para ver se alguém mais se candidataria ao passeio. Dez minutos, vinte minutos, meia hora... Foi aí que apareceu um primeiro casal aparentemente interessado (ou deveria dizer cooptado, pois foram trazidos de carro pelo capitão do barquinho). Quando eles saíram, perguntei se iam no passeio e eles confirmaram. Bem, sozinho eu não estaria, então fui comprar o bilhete. O preço era um pouco salgado, mas incluía o almoço, e na hora que eu estava ali duas gatinhas australianas foram cooptadas pelo capitão também. Então lá fomos nós.
No fim, mais uma família e um neozelandês perdido se juntaram a nós e nove pessoas subiram a bordo do pequeno barco, junto com o capitão e o tiozinho da barraca, que era seu imediato (os dois bem simpáticos). Partimos para a pequena jornada de uma hora entre o porto e a ilha. Nos primeiros quinze ou vinte minutos, todos empolgados e risonhos com as ondas que faziam o barquinho subir e descer como se fosse montanha russa. Com o tempo, todos ficando progressivamente bodeados. Tive que usar a estratégia de manter os olhos fixos no horizonte para agüentar alguns momentos mais revoltos. Se alguma vez pensei em virar marujo, preciso especificar: “de um barco grande”.
Mas finalmente chegamos numa ilha que não tem simplesmente NADA. Ok, tem alguma coisa: uma antiga taberna abandonada (que fez o favor de deixar as cadeiras de praia e alguns poucos guarda-sóis funcionais para a posterioridade), meia dúzia de árvores plantadas, uma igrejinha e outra meia dúzia de habitações abandonadas espalhadas. Fora isso, apenas areia, rochas, duas espécies de plantas espinhentas e muitas moscas. Mas as horas gastas na pequena praia de areia onde ficamos foram muito boas, em uma paz total. Fazer mergulho com snorkel naquelas águas extremamente límpidas é demais e eu poderia ficar dias só explorando aquilo, nadando lado a lado com dezenas de espécies de peixes nas rochas.
Quando andei pelos ermos da ilha, filmando e fotografando, e me deparei com aquela meia dúzia de casas abandonadas, de repente tudo ficou claro para mim. Pensei no nosso grupo de onze pessoas, que incluía o capitão experiente que morre cedo, o galã (eu, claro), a gostosa que também sempre morre, sua amiga um pouco menos atraente mas que fica com o mocinho, o gordinho atrapalhado, o velho estrangeiro misterioso, uma família normal de pai, mãe e filha... É claro que eu estava em um filme de terror e nas casas abandonadas se escondiam os zumbis que iriam nos matar e devorar a todos. Por isso haviam tantas moscas, atraídas pelos mortos vivos, e minha câmera seria encontrada posteriormente com as cenas reais da tragédia. Assombrado com esta revelação, fiz o que um herói sensato faria: desci até o barco para pegar mais uma cerveja e me conformar com meus últimos momentos de vida.
As horas que tínhamos se passaram rapidamente (incluindo um bom almoço preparado pelo capitão) e nenhum ataque zumbi aconteceu, então rumamos de volta para o porto (desta vez com um Dramin na cabeça). O passeio foi muito legal, mas curto demais (saindo às onze e meia e voltando às cinco, tivemos pouco mais de três horas para aproveitar a ilha). Fui direto para o hotel tomar um banho e saí depois apenas para o último jantar à beira mar, já cabeceando com aquele sono irresistível que praia causa, e dormi bastante até sair para o aeroporto hoje.
Como fica minha impressão da Grécia após estes seis dias lá? Vou parecer exagerado se eu falar algo como “o país mais bonito do mundo?”. Ok, vou manter a humildade, sabendo que minha carreira de viajante ainda é muito curta, e ficar com “o país mais bonito que já visitei”. Lá você encontra lado a lado as paisagens paradisíacas à beira mar, uma história milenar e uma cultura riquíssima, que sempre foi característica da Grécia por sua geografia, pontilhada de ilhas e cidades-estado independentes. A estrutura turística é excelente e é mais fácil se virar lá com inglês do que em grandes capitais como Paris ou Roma. Também os gregos são bem menos chatos ao pular em cima dos turistas do que os italianos (pelo menos por onde passei não tive problema algum) e as entradas / hotéis / restaurantes não são um assalto como em Paris. Em resumo, é um país que coloco muito alto na minha lista de prioridades para uma próxima viagem, possivelmente tendo carteira de motorista e passeando pelas cidades históricas do continente, além das várias ilhas ainda a conhecer. Espero realmente que eles consigam superar a crise e continuar sendo um país excelente para visitar. Afinal, é disso que eles vivem!
Ah, claro, ainda falta falar da última cidade que visitei...
Munique
Checagem de passaporte e interrogatório. Aeroporto gigante. Guardinha da emigração me olhando feio. Devo ter cara de bandido. Fim.
Resumo da ópera
Bem, e o que posso tirar destes 34 dias fora indo de um lado para o outro? Aprendi demais e vi muito mais coisas que a cabeça poderia assimilar de uma vez só (embora, quando releio o modo como escrevi aqui no blog, algumas coisas pareçam mais legais do que realmente foram). Foi minha escolha fazer este turismo histórico, com foco em museus e sítios arqueológicos, devido à minha paixão pelo tema. Acredito que os apaixonados por arte ou por baladas também aproveitariam tanto ou mais, mas claro que seus roteiros seriam diferentes. Viajar sozinho tem a vantagem de você ir para onde quiser e ficar o tempo que quiser, e me virei perfeitamente bem assim. Por outro lado, uma parceria sempre dá mais de graça, tanto para as visitas quanto para sair e tomar uma cerveja. É ruim não poder conversar sobre o que está se vendo, ainda mais sendo um cara com eu, que não faz amizade em cada hotel que passa. Mas poder escrever e compartilhar com quem acompanhou aqui pelo blog supriu um pouco desta “carência”.
Sobre viajar por conta própria, acredito que ninguém deve ter medo disso, pelo menos na União Européia. Você não vai ser preso por alguma coisa bizarra como andar com os pés aparecendo ou tomar uma cerveja num feriado religioso. O máximo que vai acontecer, quando alguma coisa dá errado, é gastar um dinheiro a mais. É preciso certa iniciativa e independência para dar conta, mas, depois de se desesperar na primeira máquina de comprar tíquete, você logo pega o ritmo. Com a internet, dá para descobrir tudo e toda cidade onde passei tinha um mapa turístico disponível de graça. O problema da internet é que todo lugar apresenta suas atrações como a oitava maravilha do mundo e pode ser difícil selecionar o que ver. Nestas horas os guias de viagem ajudam MUITO, pena que eu só tinha de Berlim e Paris.
Certamente quem viaja com pacote tem uma “eficiência” maior (ou seja, consegue ver mais coisas no tempo disponível) e não perde algumas coisas por falta de conhecimento, como aconteceu algumas vezes comigo. Entretanto, fazer as coisas no seu ritmo e poder entrar em um lugar e sair de lá só quando quiser é uma imensa vantagem. Sei que eu poderia ter aproveitado mais o tempo, mas se tivesse que acordar cedo todo dia para ir conhecer algum prédio velho, provavelmente ficaria mal humorado em poucos dias. Viajar por conta também pode sair muito mais barato, com o preço parecido ou mais caro que os pacotes, depende apenas de como você quiser se organizar. Eu escolhi pegar hotéis em vez de albergues e não procurar sempre os lugares mais baratos para comer, então a minha conta certamente ficou mais alta do que daria para fazer. Fica a critério de cada um, de acordo com seus gostos pessoais e suas condições financeiras.
Sobre viajar por trinta e poucos dias seguidos, também varia de pessoa para pessoa. Tem gente que consegue ficar os três meses que são possíveis viajando. Outros cansam depois de uma semana. Eu não reclamaria de uma pausa no meio, se teletransporte existisse (e não fosse caro como avião). Em Paris estava um pouco cansado. Talvez devesse ter tirado um dia de férias de férias àquela altura. Mas Roma e Grécia foram tão legais que o ânimo voltou. Os últimos dias em Creta, mais em esquema de “férias” do que de “turismo”, foram bem relaxantes e eu estaria pronto para encarar mais algum tempo de viagem. Quando você fica muito tempo no mesmo esquema museu / monumento / sítio, o negócio vai saturando aos poucos. Após um certo momento, todos os cacos de cerâmica parecem iguais, não importando se são de 5000 ou 500 a.C. É bom ter um programa mais variado para aproveitar mais, e não ficar o tempo todo com aquele “compromisso” de conhecer coisas novas.
Resumo do resumo
Melhor momento: Wackeeeeeennn!!!!!
Outros momentos de destaque: Castelo de Heidelberg (a primeira ruína a gente nunca esquece), Zoo de Berlim (o primeiro lobo também), Coliseu, Acrópole de Atenas, ilha deserta de Creta... e mais um monte!
“Menos melhor” momento: Paris (foi muito legal do mesmo modo, só que foi o único lugar onde o fator “temporada” pesou).
Lugares para voltar logo: Grécia, Wacken.
Lugares para não voltar tão cedo: as cidadezinhas pequenas que você conhece em um dia (Göttingen, Heidelberg – mas Goslar até rolaria) e Berlim (amei a cidade, mas meu tempo lá foi suficiente para ver as coisas que eu mais queria).
A conta (para quem quiser ter uma idéia dos custos): passagens Brasil-Europa (1000 euros), hospedagem (1184 euros – lembrando que durante uma semana não fiquei em hotel), todo o resto (2148 euros), incluindo transporte interno (cerca de 600), ingresso do Wacken (186), bagulhos que eu trouxe (cerca de 150), comida, cerveja, entradas e tudo mais. Total: 4332 euros, cerca de dez contos.
Palavra final: e que venha a próxima!
Então, com jet lag, vacation lag e weather lag, hora de contar como foram os últimos dias e algumas considerações gerais da viagem. Bora lá.
Heraklion
Escrevi o nome da cidade, em vez de “Creta”, porque a ilha é grande pra cacete. Com 200 km em seu maior eixo, tem uma área onde caberiam 16 Ilhas de Santa Catarina. Mesmo assim, tem uma população de apenas 600 mil habitantes, o que lhe dá um clima bucólico de uma grande ilha parada no tempo, salpicada de vilarejos. Entretanto, também não tem nenhum super sistema de transportes desenvolvido, tudo depende de ônibus e as regiões menores não tem muito suporte de inglês. Assim, Creta exige um empenho maior para ser bem conhecida (um carro alugado é o ideal). Estando em fim de viagem e já meio sem gás, fiquei apenas nas proximidades da cidade principal, Heraklion (ou Iralkion).
Comecei o meu primeiro dia indo para o lugar que tinha me trazido até ali: as ruínas do Palácio de Knossos, centro principal da primeira civilização avançada da Europa. Além da antiguidade, o lugar é realmente legendário, sendo a residência do mítico Rei Minos e, possivelmente, a origem do Labirinto do Minotauro. Por isso que a civilização cretense que ali se formou, mais ou menos entre 2300 – 1400 a.C, é chamada de minoana ou minóica. Rodrigo e Fábio, antes que me perguntem: não, o palácio não era de bronze e não encontrei nenhuma armadura do capeta no interior do labirinto. Mas bem que procurei!
Pedindo explicação para o pessoal do hotel (que era muito bom – o hotel, não o inglês dos hoteleiros), peguei o ônibus que vai até lá, distante uns cinco quilômetros do centro. Entrando, a sensação que senti foi um pouco estranha, semelhante à de Notre Dame após a Berliner Dom. Visualmente falando, não impressiona tanto quanto as ruínas mais colossais de uma Roma ou mesmo Atenas. Mas estamos falando de locais mais de mil anos mais novos que Knossos. Quando você mentaliza o salto enorme do tempo que se dá ao andar em Knossos, fica impressionado com a civilização que construiu aquilo ali.
Mas não ache que o lugar é pequeno, longe disso. São aposentos e mais aposentos dos quais restaram apenas ruínas esparsas. O arqueólogo que as descobriu, no começo do século passado, também fez uma grande restauração de alguns trechos. Se por um lado ele foi criticado por não ser muito fiel e deixar a imaginação rolar em alguns pontos, por outro dá uma pequena noção do que deveria ser o palácio na época. Segundo o livro-guia que comprei, o palácio completo tinha 1500 aposentos (achei esse número exagerado, tenho que conferir em outras fontes). Não é à toa que a lenda o transformou em um labirinto.
Ao caminhar por lá, efetivamente você se sente num labirinto, mais exatamente como o Pac Man correndo de um lado para o outro fugindo dos fantasmas. Só que, neste caso, os fantasmas são os infinitos grupos de visitas guiadas que lotam cada ponto de destaque, lhe obrigando a fazer malabarismos para conseguir ver as coisas direito. Considerando que já era final de temporada, penso que visitar o palácio durante o pico do movimento seja um inferno, pois não é um lugar tão grande assim para a quantidade de pessoas que recebe.
Após um par de horas ali e tomar o suco de laranja mais caro do universo (4,5 euros por 300 ml!), voltei ao centro para dar uma passada no Museu Arqueológico de Creta. Tendo a fama de ser um dos grandes museus da Grécia, ele na verdade se encontra fechado para reforma (eu já sabia disso), mas organizaram uma pequena exposição com as peças mais famosas da civilização cretense. Foi legal ver várias peças “pop” da arqueologia, sempre impressionado com a habilidade manual que produziu peças tão antigas.
Ainda com bastante tempo, rumei para a beira do mar, onde existe uma fortaleza veneziana da idade média (os venezianos ocuparam a ilha por muito tempo, construindo inclusive uma muralha que cerca todo o centro de Heraklion, de pé até hoje). Achei que tinha algum tipo de visitação, mas só dá para olhar ela por fora. Aproveitei para encarar a longa caminhada pelo quebra-mar que protege o porto, com seus dois quilômetros de extensão, e que parece ser bem usado pelos locais para caminhadas e passeios de bicicleta. Voltei pelos calçadões à beira-mar deles, apreciando o céu absolutamente limpo e o mar absolutamente azul, aproveitando no caminho para jantar uma deliciosa sépia grelhada (“cutlefish”, ponha no Google para saber).
Meus últimos dois dias foram em marcha bem lenta. Não senti mais aquele compromisso todo de conhecer mil coisas (tem muitos sítios arqueológicos importantes em Creta, mas mais distantes de Heraklion). Resolvi apenas relaxar para fechar as férias. No sábado, acordei bem tarde. Saí de tarde para comer e, para desencargo de consciência, passei no pequeno Museu de História Natural que eles possuem. Sem grandes novidades, mas sempre é legal ver uns fósseis e uns lagartos vivos em aquários. Dalí fui a outra das várias tabernas à beira mar que lá existem. O nome é bem mais sexy do que parece, são apenas bares / restaurantes à beira mar com um nome diferente. Meu almoço foi com um não menos delicioso polvo grelhado, me lembrando que o lugar onde mais comi frutos do mar nos últimos tempos foi a Grécia. É porque lá eles não ficam apenas na sequência de camarão super cara, então você pode comer esses bichos diferentes por um preço normal. Nada mais fiz naquele dia, que contou como “férias das férias”.
No domingo programei para fechar a conta com um belo dia de praia, mas não queria simplesmente ir lagartear na areia. Tinha visto na frente do forte veneziano uma barraquinha vendendo passeios para Dia, uma pequena / média ilha a sete quilômetros de Heraklion. Então para lá rumei no domingo. Ao chegar, dez da manhã, vi só um tiozinho sentado na barraquinha, vendo a vida passar. Não queria me meter em fria no último dia, então sentei a uma certa distância e esperei para ver se alguém mais se candidataria ao passeio. Dez minutos, vinte minutos, meia hora... Foi aí que apareceu um primeiro casal aparentemente interessado (ou deveria dizer cooptado, pois foram trazidos de carro pelo capitão do barquinho). Quando eles saíram, perguntei se iam no passeio e eles confirmaram. Bem, sozinho eu não estaria, então fui comprar o bilhete. O preço era um pouco salgado, mas incluía o almoço, e na hora que eu estava ali duas gatinhas australianas foram cooptadas pelo capitão também. Então lá fomos nós.
No fim, mais uma família e um neozelandês perdido se juntaram a nós e nove pessoas subiram a bordo do pequeno barco, junto com o capitão e o tiozinho da barraca, que era seu imediato (os dois bem simpáticos). Partimos para a pequena jornada de uma hora entre o porto e a ilha. Nos primeiros quinze ou vinte minutos, todos empolgados e risonhos com as ondas que faziam o barquinho subir e descer como se fosse montanha russa. Com o tempo, todos ficando progressivamente bodeados. Tive que usar a estratégia de manter os olhos fixos no horizonte para agüentar alguns momentos mais revoltos. Se alguma vez pensei em virar marujo, preciso especificar: “de um barco grande”.
Mas finalmente chegamos numa ilha que não tem simplesmente NADA. Ok, tem alguma coisa: uma antiga taberna abandonada (que fez o favor de deixar as cadeiras de praia e alguns poucos guarda-sóis funcionais para a posterioridade), meia dúzia de árvores plantadas, uma igrejinha e outra meia dúzia de habitações abandonadas espalhadas. Fora isso, apenas areia, rochas, duas espécies de plantas espinhentas e muitas moscas. Mas as horas gastas na pequena praia de areia onde ficamos foram muito boas, em uma paz total. Fazer mergulho com snorkel naquelas águas extremamente límpidas é demais e eu poderia ficar dias só explorando aquilo, nadando lado a lado com dezenas de espécies de peixes nas rochas.
Quando andei pelos ermos da ilha, filmando e fotografando, e me deparei com aquela meia dúzia de casas abandonadas, de repente tudo ficou claro para mim. Pensei no nosso grupo de onze pessoas, que incluía o capitão experiente que morre cedo, o galã (eu, claro), a gostosa que também sempre morre, sua amiga um pouco menos atraente mas que fica com o mocinho, o gordinho atrapalhado, o velho estrangeiro misterioso, uma família normal de pai, mãe e filha... É claro que eu estava em um filme de terror e nas casas abandonadas se escondiam os zumbis que iriam nos matar e devorar a todos. Por isso haviam tantas moscas, atraídas pelos mortos vivos, e minha câmera seria encontrada posteriormente com as cenas reais da tragédia. Assombrado com esta revelação, fiz o que um herói sensato faria: desci até o barco para pegar mais uma cerveja e me conformar com meus últimos momentos de vida.
As horas que tínhamos se passaram rapidamente (incluindo um bom almoço preparado pelo capitão) e nenhum ataque zumbi aconteceu, então rumamos de volta para o porto (desta vez com um Dramin na cabeça). O passeio foi muito legal, mas curto demais (saindo às onze e meia e voltando às cinco, tivemos pouco mais de três horas para aproveitar a ilha). Fui direto para o hotel tomar um banho e saí depois apenas para o último jantar à beira mar, já cabeceando com aquele sono irresistível que praia causa, e dormi bastante até sair para o aeroporto hoje.
Como fica minha impressão da Grécia após estes seis dias lá? Vou parecer exagerado se eu falar algo como “o país mais bonito do mundo?”. Ok, vou manter a humildade, sabendo que minha carreira de viajante ainda é muito curta, e ficar com “o país mais bonito que já visitei”. Lá você encontra lado a lado as paisagens paradisíacas à beira mar, uma história milenar e uma cultura riquíssima, que sempre foi característica da Grécia por sua geografia, pontilhada de ilhas e cidades-estado independentes. A estrutura turística é excelente e é mais fácil se virar lá com inglês do que em grandes capitais como Paris ou Roma. Também os gregos são bem menos chatos ao pular em cima dos turistas do que os italianos (pelo menos por onde passei não tive problema algum) e as entradas / hotéis / restaurantes não são um assalto como em Paris. Em resumo, é um país que coloco muito alto na minha lista de prioridades para uma próxima viagem, possivelmente tendo carteira de motorista e passeando pelas cidades históricas do continente, além das várias ilhas ainda a conhecer. Espero realmente que eles consigam superar a crise e continuar sendo um país excelente para visitar. Afinal, é disso que eles vivem!
Ah, claro, ainda falta falar da última cidade que visitei...
Munique
Checagem de passaporte e interrogatório. Aeroporto gigante. Guardinha da emigração me olhando feio. Devo ter cara de bandido. Fim.
Resumo da ópera
Bem, e o que posso tirar destes 34 dias fora indo de um lado para o outro? Aprendi demais e vi muito mais coisas que a cabeça poderia assimilar de uma vez só (embora, quando releio o modo como escrevi aqui no blog, algumas coisas pareçam mais legais do que realmente foram). Foi minha escolha fazer este turismo histórico, com foco em museus e sítios arqueológicos, devido à minha paixão pelo tema. Acredito que os apaixonados por arte ou por baladas também aproveitariam tanto ou mais, mas claro que seus roteiros seriam diferentes. Viajar sozinho tem a vantagem de você ir para onde quiser e ficar o tempo que quiser, e me virei perfeitamente bem assim. Por outro lado, uma parceria sempre dá mais de graça, tanto para as visitas quanto para sair e tomar uma cerveja. É ruim não poder conversar sobre o que está se vendo, ainda mais sendo um cara com eu, que não faz amizade em cada hotel que passa. Mas poder escrever e compartilhar com quem acompanhou aqui pelo blog supriu um pouco desta “carência”.
Sobre viajar por conta própria, acredito que ninguém deve ter medo disso, pelo menos na União Européia. Você não vai ser preso por alguma coisa bizarra como andar com os pés aparecendo ou tomar uma cerveja num feriado religioso. O máximo que vai acontecer, quando alguma coisa dá errado, é gastar um dinheiro a mais. É preciso certa iniciativa e independência para dar conta, mas, depois de se desesperar na primeira máquina de comprar tíquete, você logo pega o ritmo. Com a internet, dá para descobrir tudo e toda cidade onde passei tinha um mapa turístico disponível de graça. O problema da internet é que todo lugar apresenta suas atrações como a oitava maravilha do mundo e pode ser difícil selecionar o que ver. Nestas horas os guias de viagem ajudam MUITO, pena que eu só tinha de Berlim e Paris.
Certamente quem viaja com pacote tem uma “eficiência” maior (ou seja, consegue ver mais coisas no tempo disponível) e não perde algumas coisas por falta de conhecimento, como aconteceu algumas vezes comigo. Entretanto, fazer as coisas no seu ritmo e poder entrar em um lugar e sair de lá só quando quiser é uma imensa vantagem. Sei que eu poderia ter aproveitado mais o tempo, mas se tivesse que acordar cedo todo dia para ir conhecer algum prédio velho, provavelmente ficaria mal humorado em poucos dias. Viajar por conta também pode sair muito mais barato, com o preço parecido ou mais caro que os pacotes, depende apenas de como você quiser se organizar. Eu escolhi pegar hotéis em vez de albergues e não procurar sempre os lugares mais baratos para comer, então a minha conta certamente ficou mais alta do que daria para fazer. Fica a critério de cada um, de acordo com seus gostos pessoais e suas condições financeiras.
Sobre viajar por trinta e poucos dias seguidos, também varia de pessoa para pessoa. Tem gente que consegue ficar os três meses que são possíveis viajando. Outros cansam depois de uma semana. Eu não reclamaria de uma pausa no meio, se teletransporte existisse (e não fosse caro como avião). Em Paris estava um pouco cansado. Talvez devesse ter tirado um dia de férias de férias àquela altura. Mas Roma e Grécia foram tão legais que o ânimo voltou. Os últimos dias em Creta, mais em esquema de “férias” do que de “turismo”, foram bem relaxantes e eu estaria pronto para encarar mais algum tempo de viagem. Quando você fica muito tempo no mesmo esquema museu / monumento / sítio, o negócio vai saturando aos poucos. Após um certo momento, todos os cacos de cerâmica parecem iguais, não importando se são de 5000 ou 500 a.C. É bom ter um programa mais variado para aproveitar mais, e não ficar o tempo todo com aquele “compromisso” de conhecer coisas novas.
Resumo do resumo
Melhor momento: Wackeeeeeennn!!!!!
Outros momentos de destaque: Castelo de Heidelberg (a primeira ruína a gente nunca esquece), Zoo de Berlim (o primeiro lobo também), Coliseu, Acrópole de Atenas, ilha deserta de Creta... e mais um monte!
“Menos melhor” momento: Paris (foi muito legal do mesmo modo, só que foi o único lugar onde o fator “temporada” pesou).
Lugares para voltar logo: Grécia, Wacken.
Lugares para não voltar tão cedo: as cidadezinhas pequenas que você conhece em um dia (Göttingen, Heidelberg – mas Goslar até rolaria) e Berlim (amei a cidade, mas meu tempo lá foi suficiente para ver as coisas que eu mais queria).
A conta (para quem quiser ter uma idéia dos custos): passagens Brasil-Europa (1000 euros), hospedagem (1184 euros – lembrando que durante uma semana não fiquei em hotel), todo o resto (2148 euros), incluindo transporte interno (cerca de 600), ingresso do Wacken (186), bagulhos que eu trouxe (cerca de 150), comida, cerveja, entradas e tudo mais. Total: 4332 euros, cerca de dez contos.
Palavra final: e que venha a próxima!
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Navegando na História... e no Egeu!
Como o usual, escrevi durante as baldeações entre destinos. Com a diferença de que desta vez estava em um baita barco de cruzeiro indo para meu último destino, Creta. Então, com um chope de um lado e o Mar Egeu do outro, vamos lá.
Atenas
Minha viagem para Atenas foi bem tranqüila, com uma boa companhia aérea (Aegean). Chegando ao aeroporto, peguei o trem / metrô até o centro, o que demora um bom tanto, pois a viagem é longa. Logo cheguei ao meu hotel que, embora tendo aberto recentemente e com alguns problemas (wireless que não funcionava no quarto, frigobar vazio por falta de licença para venda de bebidas), tinha uma ótima estrutura. Tudo era novo e a cama, uma das melhores que já dormi. Como aqui o fuso horário avançou mais uma hora, já era noite avançada e apenas pedi para entrega um prato excelente de broto de bambu, camarões enormes e três tipos de cogumelos, e fui dormir.
O dia seguinte foi um dos melhores de toda a viagem: o passeio pela parte antiga de Atenas. Aproveitei o fato de este ser o meu primeiro hotel com café da manhã incluído para dar uma forrada (todos os outros tinham, mas pagava separado – e caro!). O hotel ficava bem perto e com dez minutos de caminhada eu já estava à beira da Acrópole. No caminho, passei no Templo de Zeus Olímpio, que já foi o maior de Atenas, mas agora não passa de meia dúzia de colunas ainda de pé. Ali comprei um tíquete integrado para quatro dias que permite entrada nos sítios mais importantes.
Na Acrópole, rodeei toda a colina fortificada, vendo as ruínas anexas, e depois subi até o topo, onde apenas três edificações se mantêm de pé: o portão de entrada, um outro templo e o todo famoso Partenon. Embora fosse onze da manhã e o dia estivesse muito ensolarado, não fazia calor, pois venta muito em Atenas (e lá em cima o troço é forte para valer).
Dali, passei à Antiga Ágora, o antigo mercado onde também ficavam muitos templos e outras edificações da antiga cidade (parecido com o complexo da Colina Palatina), incluindo o Templo de Hefestos, talvez o que tenha se mantido em melhor estado de todos os templos gregos. Fiz uma pausa no pequeno Museu da Ágora, pois o sol estava forte e, mesmo sem sentir muito calor, estava pegando um torrão. Refrescado, fui para a colina vizinha à Acrópole, onde se sobe por trilhas até um monumento romano no topo. Não tem nada de especial além de andar pela agradável floresta de pinheiros e ter uma bela vista, mas vale a pena.
Estes sítios arqueológicos gregos estão em um estado bem pior que os de Roma, por terem sido devastados pelos próprios romanos no século I a.C. e, logicamente, por serem vários séculos mais antigos. Você frenquentemente vê apenas restos de fundações e uma ou outra coluna de pé. Mas, por algum motivo, achei a visita mais legal. Talvez por conhecer e curtir mais a Grécia Antiga, e por sentir todo o clima e a força daquela terra milenar onde boa parte da cultura ocidental nasceu. Os lugares também estavam bem mais tranqüilos, com não muita gente, por ser final de temporada, o que dava uma tranqüilidade maior para imergir na atmosfera ancestral.
Findas as andanças, fui para o novo Museu da Acrópole, ali do lado. Eram quatro da tarde e aproveitei para almoçar no museu. Pedi no escuro um prato que parecia diferente, só para descobrir que “eggplant” nada mais é do que... berinjela! Quanto a isso, só posso dizer que a salada estava muito boa...
Gastei o resto do tempo conhecendo o museu que, por toda a falação que eu tinha ouvido sobre sua construção, achei que era maior. Na verdade, tem uma exposição de peças relativamente pequena. No fim, achei isso legal, pois foi possível prestar mais atenção em cada coisa, do que ficar naquela corrida louca para conhecer tudo, como nos museus enormes de Paris e Berlim. Saí com o fechamento do museu, oito da noite. Parei em um calçadão cheio de restaurantes para jantar um delicioso prato de lula à doré (para compensar a berinjela...) e voltar para o hotel. Foi um excelente dia, mas acho que a melhor estratégia é ir primeiro no museu, evitando o sol mais quente e aprendendo várias coisas para em seguida observar in loco na Acrópole.
Durante o café da manhã do dia seguinte, conheci alguns brasileiros que também estavam no hotel. Uma brasileira tinha o mesmo programa que eu, ir conhecer o Museu Nacional de Arqueologia, então fomos juntos. Pegando o metrô e caminhando um pouco pelo centro “de verdade” de Atenas (estilo cidade brasileira), chegamos ao Museu. Aquele sim tem uma grande coleção de peças, incluindo algumas “pop stars”, como a estátua de bronze em tamanho humano de Zeus (ou Posêidon) e peças de tumbas micênicas de uma antiguidade e riqueza impressionante (ouro até dizer chega).
Saímos dali no começo da tarde e aproveitamos para almoçar muito bem no restaurante de um hotel no caminho (um oásis de tranqüilidade no centro zoado). Pena que só ali descobri ter em Atenas um Museu da Guerra, incluindo armamentos medievais e da Antiguidade, que muito atiçam meu lado nerd. Só que é um dos museus que fecha às 16:00, então não dava mais tempo. Depois do almoço, nos separamos, pois eu iria para uns lugares onde ela já tinha passado.
Os outros sítios arqueológicos por onde passei era menores e mais pobres, aonde você chega, dá uma olhada e logo dispara. Estes são o Kerameikos (incluindo o mais antigo cemitério grego ainda preservado e ruínas dos portões e muralhas da cidade), a Biblioteca de Adriano (construída pelo imperador romano homônimo) e a Ágora Romana (o lugar que os romanos construíram para substituir a antiga). No caminho, procurei por alguma igreja ortodoxa legal para conhecer, mas todas estavam fechadas. A catedral principal deles estava aberta, mas está totalmente em reforma e não dá para ver muita coisa além de andaimes.
Como o guardinha do metrô não me deixou entrar com uma garrafa de cerveja, voltei caminhando sossegadamente pelo terreno da Acrópole. No hotel, minha calmaria foi prejudicada por descobrir que, por algum motivo misterioso altamente idiota, eu tinha reservado o barco para sexta feira, em vez de hoje. Tentei alterar por telefone, mas tudo o que a moça falou foi para ir no outro dia 8:30 da manhã na agência do porto para tentar um encaixe (o horário original era 12:00).
Imediatamente minha mente começou a procurar argumentos. Parecia que o do meia dia já estava lotado (e eu não queria acordar cedo). Também parece que o preço aumentava em cima da hora e teria que pagar a diferença (e eu não queria acordar cedo). Tinha outra empresa com um barco às 11:00 por um preço parecido (e eu não queria acordar cedo). E se eu cancelasse lá no porto até 24h antes (ou seja, até meio dia de hoje), eles retornariam 50% do valore (e eu não queria acordar cedo). Então, comprei o outro e deixei para cancelar antes de subir no barco (e não precisei acordar cedo).
Hoje, peguei o metrô para o porto de Pireu, sem ter muita idéia de como funciona o esquema dos barcos. Na confirmação da compra, não tinha nenhuma viadagem de ter que chegar horas antes ou algo assim, então planejei ir com alguma folga. Que se tornou quase nenhuma folga pelas enroladas na cama e conversas com os brasileiros no café. Desci na estação faltando meia hora para a partida, só para dar de cara com um porto imenso e o meu barco lá do outro lado. Caminhando o mais rápido que as malas me permitiam, consegui chegar e embarcar, faltando menos de dez minutos para a saída. Só que não rolou de fazer o cancelamento na outra empresa. Ainda demorei para entender o que estava acontecendo e dei várias voltas por corredores intermináveis até achar um lugar para deixar as malas. Então pude sentar no convés e relaxar, tomando um chope e admirando a linda paisagem em um dia totalmente ensolarado. A viagem de sete horas foi tão boa, relaxando no barco com aquele marzão azul e uma paz enorme no convés, que conta mais como passeio que como baldeação.
Atenas é um lugar maravilhoso de conhecer, e a Grécia, com todas as suas ilhas e cidades continentais antiqüíssimas, merece uma viagem por si só. Não se preocupe com aquilo que aparece na TV: eles estão em uma crise feia mesmo, e tem muitos lugares fechados e gente desempregada, mas a estrutura turística não foi afetada. Afinal, é disso que eles sobrevivem. Foi a cidade das que eu passei que mais está preparada para receber gente de fora. Em todos os lugares turísticos as pessoas falam inglês bem, e todos os museus e sítios têm textos completos nesta língua (ainda bem, pois o alfabeto deles usa símbolos diferentes do nosso, ou símbolos iguais representando fonemas diferentes). Apenas é bom checar antes os horários, pois a maioria das coisas fecha às oito da noite, mas alguns museus já às quatro. Ficar perto da Acrópole e de uma estação de metrô facilita bastante. Pelo que me falaram, o lugar costuma socar na temporada, mas no final de agosto está bem sossegado e o clima é excelente (não vejo uma nuvem há três dias e o vento não parou de soprar). Sem dúvida, um país para voltar no futuro... se ele ainda existir!
E ao chegar no porto de Creta , fui para o guichê da outra empresa choramingar para ver se ainda seriam bonzinhos de me dar meus 50%. A moça mal olhou para mim, cancelou e devolveu o valor integral em dinheiro. Sem que eu precisasse acordar cedo. Bem, acho que isso é o que se chama de EPIC WIN!
Atenas
Minha viagem para Atenas foi bem tranqüila, com uma boa companhia aérea (Aegean). Chegando ao aeroporto, peguei o trem / metrô até o centro, o que demora um bom tanto, pois a viagem é longa. Logo cheguei ao meu hotel que, embora tendo aberto recentemente e com alguns problemas (wireless que não funcionava no quarto, frigobar vazio por falta de licença para venda de bebidas), tinha uma ótima estrutura. Tudo era novo e a cama, uma das melhores que já dormi. Como aqui o fuso horário avançou mais uma hora, já era noite avançada e apenas pedi para entrega um prato excelente de broto de bambu, camarões enormes e três tipos de cogumelos, e fui dormir.
O dia seguinte foi um dos melhores de toda a viagem: o passeio pela parte antiga de Atenas. Aproveitei o fato de este ser o meu primeiro hotel com café da manhã incluído para dar uma forrada (todos os outros tinham, mas pagava separado – e caro!). O hotel ficava bem perto e com dez minutos de caminhada eu já estava à beira da Acrópole. No caminho, passei no Templo de Zeus Olímpio, que já foi o maior de Atenas, mas agora não passa de meia dúzia de colunas ainda de pé. Ali comprei um tíquete integrado para quatro dias que permite entrada nos sítios mais importantes.
Na Acrópole, rodeei toda a colina fortificada, vendo as ruínas anexas, e depois subi até o topo, onde apenas três edificações se mantêm de pé: o portão de entrada, um outro templo e o todo famoso Partenon. Embora fosse onze da manhã e o dia estivesse muito ensolarado, não fazia calor, pois venta muito em Atenas (e lá em cima o troço é forte para valer).
Dali, passei à Antiga Ágora, o antigo mercado onde também ficavam muitos templos e outras edificações da antiga cidade (parecido com o complexo da Colina Palatina), incluindo o Templo de Hefestos, talvez o que tenha se mantido em melhor estado de todos os templos gregos. Fiz uma pausa no pequeno Museu da Ágora, pois o sol estava forte e, mesmo sem sentir muito calor, estava pegando um torrão. Refrescado, fui para a colina vizinha à Acrópole, onde se sobe por trilhas até um monumento romano no topo. Não tem nada de especial além de andar pela agradável floresta de pinheiros e ter uma bela vista, mas vale a pena.
Estes sítios arqueológicos gregos estão em um estado bem pior que os de Roma, por terem sido devastados pelos próprios romanos no século I a.C. e, logicamente, por serem vários séculos mais antigos. Você frenquentemente vê apenas restos de fundações e uma ou outra coluna de pé. Mas, por algum motivo, achei a visita mais legal. Talvez por conhecer e curtir mais a Grécia Antiga, e por sentir todo o clima e a força daquela terra milenar onde boa parte da cultura ocidental nasceu. Os lugares também estavam bem mais tranqüilos, com não muita gente, por ser final de temporada, o que dava uma tranqüilidade maior para imergir na atmosfera ancestral.
Findas as andanças, fui para o novo Museu da Acrópole, ali do lado. Eram quatro da tarde e aproveitei para almoçar no museu. Pedi no escuro um prato que parecia diferente, só para descobrir que “eggplant” nada mais é do que... berinjela! Quanto a isso, só posso dizer que a salada estava muito boa...
Gastei o resto do tempo conhecendo o museu que, por toda a falação que eu tinha ouvido sobre sua construção, achei que era maior. Na verdade, tem uma exposição de peças relativamente pequena. No fim, achei isso legal, pois foi possível prestar mais atenção em cada coisa, do que ficar naquela corrida louca para conhecer tudo, como nos museus enormes de Paris e Berlim. Saí com o fechamento do museu, oito da noite. Parei em um calçadão cheio de restaurantes para jantar um delicioso prato de lula à doré (para compensar a berinjela...) e voltar para o hotel. Foi um excelente dia, mas acho que a melhor estratégia é ir primeiro no museu, evitando o sol mais quente e aprendendo várias coisas para em seguida observar in loco na Acrópole.
Durante o café da manhã do dia seguinte, conheci alguns brasileiros que também estavam no hotel. Uma brasileira tinha o mesmo programa que eu, ir conhecer o Museu Nacional de Arqueologia, então fomos juntos. Pegando o metrô e caminhando um pouco pelo centro “de verdade” de Atenas (estilo cidade brasileira), chegamos ao Museu. Aquele sim tem uma grande coleção de peças, incluindo algumas “pop stars”, como a estátua de bronze em tamanho humano de Zeus (ou Posêidon) e peças de tumbas micênicas de uma antiguidade e riqueza impressionante (ouro até dizer chega).
Saímos dali no começo da tarde e aproveitamos para almoçar muito bem no restaurante de um hotel no caminho (um oásis de tranqüilidade no centro zoado). Pena que só ali descobri ter em Atenas um Museu da Guerra, incluindo armamentos medievais e da Antiguidade, que muito atiçam meu lado nerd. Só que é um dos museus que fecha às 16:00, então não dava mais tempo. Depois do almoço, nos separamos, pois eu iria para uns lugares onde ela já tinha passado.
Os outros sítios arqueológicos por onde passei era menores e mais pobres, aonde você chega, dá uma olhada e logo dispara. Estes são o Kerameikos (incluindo o mais antigo cemitério grego ainda preservado e ruínas dos portões e muralhas da cidade), a Biblioteca de Adriano (construída pelo imperador romano homônimo) e a Ágora Romana (o lugar que os romanos construíram para substituir a antiga). No caminho, procurei por alguma igreja ortodoxa legal para conhecer, mas todas estavam fechadas. A catedral principal deles estava aberta, mas está totalmente em reforma e não dá para ver muita coisa além de andaimes.
Como o guardinha do metrô não me deixou entrar com uma garrafa de cerveja, voltei caminhando sossegadamente pelo terreno da Acrópole. No hotel, minha calmaria foi prejudicada por descobrir que, por algum motivo misterioso altamente idiota, eu tinha reservado o barco para sexta feira, em vez de hoje. Tentei alterar por telefone, mas tudo o que a moça falou foi para ir no outro dia 8:30 da manhã na agência do porto para tentar um encaixe (o horário original era 12:00).
Imediatamente minha mente começou a procurar argumentos. Parecia que o do meia dia já estava lotado (e eu não queria acordar cedo). Também parece que o preço aumentava em cima da hora e teria que pagar a diferença (e eu não queria acordar cedo). Tinha outra empresa com um barco às 11:00 por um preço parecido (e eu não queria acordar cedo). E se eu cancelasse lá no porto até 24h antes (ou seja, até meio dia de hoje), eles retornariam 50% do valore (e eu não queria acordar cedo). Então, comprei o outro e deixei para cancelar antes de subir no barco (e não precisei acordar cedo).
Hoje, peguei o metrô para o porto de Pireu, sem ter muita idéia de como funciona o esquema dos barcos. Na confirmação da compra, não tinha nenhuma viadagem de ter que chegar horas antes ou algo assim, então planejei ir com alguma folga. Que se tornou quase nenhuma folga pelas enroladas na cama e conversas com os brasileiros no café. Desci na estação faltando meia hora para a partida, só para dar de cara com um porto imenso e o meu barco lá do outro lado. Caminhando o mais rápido que as malas me permitiam, consegui chegar e embarcar, faltando menos de dez minutos para a saída. Só que não rolou de fazer o cancelamento na outra empresa. Ainda demorei para entender o que estava acontecendo e dei várias voltas por corredores intermináveis até achar um lugar para deixar as malas. Então pude sentar no convés e relaxar, tomando um chope e admirando a linda paisagem em um dia totalmente ensolarado. A viagem de sete horas foi tão boa, relaxando no barco com aquele marzão azul e uma paz enorme no convés, que conta mais como passeio que como baldeação.
Atenas é um lugar maravilhoso de conhecer, e a Grécia, com todas as suas ilhas e cidades continentais antiqüíssimas, merece uma viagem por si só. Não se preocupe com aquilo que aparece na TV: eles estão em uma crise feia mesmo, e tem muitos lugares fechados e gente desempregada, mas a estrutura turística não foi afetada. Afinal, é disso que eles sobrevivem. Foi a cidade das que eu passei que mais está preparada para receber gente de fora. Em todos os lugares turísticos as pessoas falam inglês bem, e todos os museus e sítios têm textos completos nesta língua (ainda bem, pois o alfabeto deles usa símbolos diferentes do nosso, ou símbolos iguais representando fonemas diferentes). Apenas é bom checar antes os horários, pois a maioria das coisas fecha às oito da noite, mas alguns museus já às quatro. Ficar perto da Acrópole e de uma estação de metrô facilita bastante. Pelo que me falaram, o lugar costuma socar na temporada, mas no final de agosto está bem sossegado e o clima é excelente (não vejo uma nuvem há três dias e o vento não parou de soprar). Sem dúvida, um país para voltar no futuro... se ele ainda existir!
E ao chegar no porto de Creta , fui para o guichê da outra empresa choramingar para ver se ainda seriam bonzinhos de me dar meus 50%. A moça mal olhou para mim, cancelou e devolveu o valor integral em dinheiro. Sem que eu precisasse acordar cedo. Bem, acho que isso é o que se chama de EPIC WIN!
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Quem tem paciência vai à Roma
Acabei de chegar na Grécia e, como o usual, usei o tempo de viagem para escrever. Vamos lá!
Roma
A empresa aérea que peguei para viajar de Paris a Roma (Vueling) é daquelas mais baratas o possível, com passagem a preço baixo, mas até peidar no avião deve custar alguma coisa. Nem barrinha de cereal com copo de Coca eles oferecem, tudo no carrinho de comes e bebes é cobrado. O limite de bagagem também era de apenas uma mala, o que me fez ter que realizar o Milagre da Multiplicação de Espaço para dar conta de tudo. Isso incluiu viajar de calça, tênis, um casaco no corpo e outro na mão.
Eu já tinha ouvido amigos chamarem a Itália de “o Brasil na Europa” ou até “a favela da Europa”. Efetivamente, minhas primeiras impressões de Roma não foram das melhores. Ao chegar até o aeroporto, a notícia de que as linhas de trem para a cidade não estavam funcionando, só rolava busão. Botando o pé para fora da porta automática, o bafo quente do verão mediterrâneo atacou com tudo, mesmo sendo cinco da tarde (lembram que eu estava viajando de casaco?). Na hora de pegar o ônibus, fila desorganizada com italianos folgados furando. Chegando depois de um bom tempo na estação central (com uma passagem na frente do Coliseu que já deixou todo mundo de boca aberta), bastou um segundo de hesitação no guichê automático para já aparecer outro italiano folgado dando uma “ajuda” e choramingando (literamente) por um trocado. Desci para a estação de metrô, que mais parecia um bunker de guerra (que já foi bombardeado). O sistema de metrô é bem simples: duas linhas, sendo que uma só estava funcionando pela metade. O trem chega e lota instantaneamente com uma multidão de pessoas. Quase igual a Berlim e Paris...
Descendo na estação próxima ao lugar onde eu ficaria, demorei um pouco a achar a rua exata, em meio a condomínios semi-fechados de prédios velhos. Por fim encontrei e peguei um elevador que deve ser outra relíquia dos tempos romanos, mantido em funcionamento por força de lei. Sobrevivendo à tortuosa e barulhenta subida, cheguei por fim à minha hospedagem, onde me esperava uma tiazinha que não falava um “oi” em inglês e não sabia operar a máquina de cartão. Deixando as coisas no quarto, parti sem rumo tentando achar um mercado em meio às ruas. Em uma avenida grande com várias pessoas passando, cruzo com um velhinho de paletó e gravata, pasta numa mão e pinto na outra, mijando no meio da rua. Consigo achar um lugar, compro os suprimentos para a semana e volto correndo para me esconder no quarto.
E aí, deu uma boa impressão? Pois é, imagina como deve ser encarar isso depois de três semanas em terras que são o topo da civilidade ocidental. Porém, bastou passar esse primeiro impacto para eu começar a sentir a cidade de verdade. E ser dominado por sua atmosfera.
Antes de tudo, um pouco sobre o lugar onde fiquei. Não é um hotel, mas algo que eles chamam de “guest house”, bem comuns em Roma. É na verdade como alugar por alguns dias um quarto em um apartamento coletivo. Não tem nada de recepção, camareira ou coisa assim. Você simplesmente é recebido, ganha as chaves e fica solto. Nesta em que fiquei, eram quatro quartos e mais uma cozinha / área comum. Era bem próxima do aticano e ao lado de uma estação de metrô (o que em Roma é MUITO importante, como vocês verão). O apê era novo e bem equipado, e o quarto muito bom, com banheiro privativo, ar condicionado e internet. Imaginem minha felicidade, usando a penúltima cueca e penúltimo par de meias limpo, ao abrir uma portinha e dar de cara com uma máquina de lavar. Nestes dias, poucas vezes cruzei com outros hóspedes e eles não pareciam usar a cozinha coletiva, portanto foi bom sentir um gostinho de estar “em casa” de novo.
No dia seguinte, tinha reservado (literalmente, comprando ingresso antecipado) o dia para visitar o Vaticano. Escolhi minha camisa de banda mais inofensiva e depois de uns dez minutos de caminhada, com o caldo (isto é, o fluxo de pessoas) engrossando, cheguei por fim à cidadela murada que constitui o Vaticano. Fui primeiro para a praça principal, por onde se entra para o maior colosso religioso do cristianismo (não do mundo). Ao ver a fachada da Basílica de São Pedro, nem parece uma igreja, porque é tão grande que de perto não dá para enxergar o característico domo. Quando você entra, o cérebro demora um pouco para captar o tamanho da coisa, mas vai por mim, é grande. E muito ricamente decorado, com afrescos e dourado por tudo quanto é canto.
Justiça seja feita, a Catedral de Berlim causa um impacto inicial maior, porque é constituída por um imenso aposento principal e logo quando você entra já é massacrado pelo domo. Já a Basílica tem formato de cruz e o domo fica na intersecção, então você vai absorvendo a coisa aos poucos (e sempre lembrando que ela é três vezes mais antiga). Eu diria que as duas ficam próximas no meu ranking de igrejas mais bonitas que já vi.
Depois de dar umas voltas por ali, incluindo o reabastecimento da minha garrafinha de água do São Paulo na fonte de São Pedro, fui para os Museus do Vaticano. Era para esses que eu tinha reservado o ingresso, mas nem estava tão ruim para quem não tinha comprado antes. Gastei boa parte do dia caminhando pelas coleções papais, que não incluem só coisas cristãs, mas um bom acervo de antiguidades egípcias, gregas e romanas (na Europa, parece que todo mundo tem uma coleção dessas). Isso inclui várias estátuas nuas e de deuses não-cristãos, o que não deixou de soar irônico para mim. Também neste passeio está a Capela Sistina, e é legal dar de cara com o afresco mais famoso do mundo (aquele de Deus e Adão tocando os dedinhos).
Para fechar o dia, fui para o Castelo de Santo Ângelo, que fica ali perto. Inicialmente um mausoléu para imperadores romanos, datado do século II d.C., sofreu sucessivas modificações ao longo dos séculos, principalmente pelos papas católicos. Ainda é possível caminhar pelo interior da parte romana, e o resto é aquela coisa de castelo: corredores, aposentos com algumas antiguidades, ameias, muralhas... Como cereja do bolo, um pequeno museu de armas medievais e renascentistas.
No dia seguinte, demorei muito a sair de casa, por pura enrolação. Neste dia, eu pretendia visitar a área arqueológica principal de Roma, o núcleo da cidade antiga. Chegando lá facilmente pelo metrô, fui direto ao Coliseu. Dei uma volta inteira pelo lado de fora, só para já ir babando diante daquela estrutura colossal (não é maior que um estádio mediano de futebol, mas novamente: é um estádio de dois mil anos!). Tão colossal quanto ele era a fila de entrada e o sol do meio dia que torrava a galera, então fui para a entrada da Colina Palatina e do Fórum Romano. O ingresso para todo o complexo (Coliseu / Colina / Fórum) é um só, com a diferença de que a fila ali é muito menor, pois todo mundo vai primeiro no Coliseu.
E é meio óbvio o porquê. Era uma da tarde quando consegui entrar, para caminhar por um sítio arqueológico imenso de restos de templos, prédios, arcos do triunfo e etc. Poucas sombras e sol a pino, digamos que atrapalha um pouco. Felizmente há várias fontes de água potável (toda a cidade está cheia delas) para encher a garrafinha e jogar água na cabeça. Pagar a taxa a mais pelo guia de áudio e mapa é muito importante, senão você se perde totalmente no meio das ruínas e fica sem saber o que realmente significa aquele pedaço de parede ou coluna solitária (e ainda assim é fácil se perder).
O sítio é muito rico e dá para gastar muito tempo ali dentro. O Fórum Romano concentrava os edifícios políticos e religiosos mais importantes da Roma antiga, então você encontra muitas ruínas (algumas monumentais) dos primeiros séculos a.C e d.C, e alguns edifícios bem preservados (porque viraram edifícios cristãos posteriormente). Já a Colina Palatina é o lugar onde Roma começou. Lá se encontram os resquícios mais antigos de ocupação na área, incluindo ruínas do tempo em que as lendas colocam como a época da fundação da cidade, no oitavo século a.C. Um pequeno museu mostra relíquias ainda mais antigas.
Depois dessas andanças por caminhos milenares (e com os pés de mendigo, com as Havaianas saturadas de poeiras milenares), comi um sanduíche qualquer numa barraquinha e rumei para o Coliseu. Ainda tinha fila, mas com o ingresso integrado na mão foi só ir direto para a entrada. Subi as escadas que levavam até o interior e, quando finalmente cheguei lá, um longo minuto de silêncio se passou, enquanto eu contemplava a visão. Como eu já falei, ele não é maior do que um estádio de futebol, mas a sensação de observar aquilo ali é completamente diferente. Com alguma imaginação (e tendo visto “Gladiador” umas dez vezes) dá para ver a multidão enchendo os vários níveis, enlouquecida com o espetáculo sangrento da arena. Esta se encontra aberta, mostrando os corredores inferiores por onde podiam sair as feras e os combatentes.
Depois de uma hora por lá, fui caminhar pela cidade vendo coisas aleatórias. Roma é uma cidade riquíssima e a cada esquina você dá de cara com uma praça ou construção monumental. Acredito que, se tivesse um guia turístico da cidade à mão, poderia aproveitar bem mais. Mesmo assim, a birra do primeiro dia já tinha passado e pude ver que, embora com vários problemas em comum, Roma não é São Paulo, no fim das contas.
De noite, em casa, fui programar o dia seguinte, procurando detalhes de como chegar nas catacumbas que queria tanto visitar. Só daí que vi que várias fechavam aos domingos. Claro, é um excelente dia para fechar um ponto turístico, certo? Ainda assim, das cinco que são disponíveis para visitação (de um total de dezesseis conhecidas, se não me engano), três abririam, então bora lá.
O caso é que as catacumbas não se localizam exatamente no centro, então tive que encarar o sistema de ônibus de Roma, que não fica nada a dever aos brasileiros em desorganização e demora. Comprei um passe que vale para viagens ilimitadas durante um dia, muito bom para quem pretende ir a vários pontos. Demorei bastante para chegar na zona da Via Apia, a estrada principal da Roma antiga. Seguindo a máxima do “segue o fluxo”, desci com mais uma penca de pessoas no ponto errado (e o motorista nem aí...) e tive que caminhar rápido e ainda choramingar um pouco para pegar a última visita em inglês antes do meio dia nas Catacumbas de São Calisto (depois, só de tarde). Um padre católico filipino gente boa falando em inglês (e viva a globalização!) nos levou por pequenos corredores do século IV d.C. (muito, mas muito mais antigos que os de Paris) onde os cristãos sepultavam seus mortos no período em que a religião ainda não era legalizada em Roma. Não é verdade que as catacumbas eram “o refúgio dos cristãos durante os períodos de perseguição”, mas foram usadas por muito tempo como cemitério subterrâneo. Além dos nichos (vazios, depois de ataques de bárbaros), há pinturas com cenas cristãs da época em que a igreja cristã nem tinha um cânone (a Bíblia só passou a “existir” no final daquele século).
O passeio é muito bom, pena que curto e corrido. Infelizmente as outras duas catacumbas que ficam na Via Apia são as que fecham nos domingos. Então eu teria que atravessar o centro para chegar nas outras. Junto com o grupo que tinha ido comigo, fiquei esperando mais de meia hora pelo ônibus para voltar. Peguei um ônibus que me levaria até outro ponto que queria conhecer, a Arquibasílica de São João em Laterano. Para os menos informados (como eu, até alguns dias atrás), a Basílica de São Pedro não é a igreja-mor do catolicismo romano. Este título pertence a São João, estabelecida no século IV d.C, quando o cristianismo foi aceito pelo império romano. É nela (que nem no Vaticano está) que oficialmente fica a cadeira do bispo de Roma (o bom e velho papa) e, por isso, ela recebeu o power título de “arquibasílica”.
Quando encontrei ela, achei que era bem meia boca. Mas, na verdade, era uma entrada lateral. A igreja mesmo é muito grande e imponente (mesmo sem chegar perto de São Pedro), embora quase nada tenha restado da igreja original do século IV. Há uma visita paga simples para se fazer no claustro interior dela, que na verdade não valeu a pena porque estava grande parte em reforma (mas ali dentro, no mais recôndito refúgio católico, existe... uma máquina de refrigerantes!). Vale pagar aqueles três euros porque assim você ganha o guia de áudio da igreja toda também, e ele possui momentos épicos, como a descrição de uma batalha entre o exército de Constantino (o imperador que legalizou o cristianismo no império) e o de Maxentius (seu rival ao posto de imperador), e hilariantes, como uma entrevista totalmente real com o próprio Constantino (sim, em pessoa!) onde ele fala que foi apenas um instrumento de Deus para consolidar a religião no mundo.
Depois desta visita, tive que procurar e esperar por mais um ônibus, pois o trecho de metrô entre São João e o terminal central é o que não está funcionando. No terminal central, engoli um McDonald’s rápido (depois de quatro dias sem, vejam só!) e fui atrás de outra catacumba, que diz a propaganda ser uma das mais importantes. Nisso já passava das três. O busão deu umas voltas estranhas e pulei fora quando achei que estava perto, tendo que caminhar um trecho ainda. Me perdi nas indicações e tive que andar um pedaço do caralho até perceber que estava na direção errada, e voltar tudo até finalmente estar diante da entrada do lugar. E encontrar a Folhinha Impressa da Perdição, implacável em seu curto texto: “As Catacumbas de Priscilla estarão fechadas até 28 de agosto para reparos de rotina”. Legal. Legal pra cacete. De que adianta olhar no site um dia antes, não é? Xinguei alto o diabo dos padres que cuidam dela e me resignei em caminhar mais um tanto até uma terceira catacumba, que era relativamente próxima. Daí rolou uma visita, o metaleiro maluco com mais dez tiozinhos religiosos (nenhum parecia ter menos de 50 anos). Curta, meia boca e sem novidades.
Nova espera longa pelo ônibus para voltar ao terminal central. Daí já era tarde e não dava tempo de mais nada. Ainda aproveitei meu passe ilimitado para ir parando em praças aleatórias durante o retorno de metrô, mas isso não conseguiu tirar da boca o gosto ruim (junto com o de um chá gelado com adoçante horrível que a máquina de bebidas me deu) de um dia mal aproveitado. As catacumbas certamente merecem uma visita, mas vá num dia diferente de domingo nas da Via Apia e deu.
Não pensei que eu fosse gostar de Roma tanto assim. Somando a quantidade de coisas disponíveis com o domingo ruim e minha preguiça em levantar cedo, ficou um gosto de quero mais. Nem vi os famosos Museus Capitolinos, os complexos arqueológicos das Termas de Caracalla e de Dioclesiano, vi só duas das quatro basílicas principais e só duas das cinco catacumbas... É uma cidade que, se eu passar novamente, terei muita coisa a aproveitar ainda. Quem sabe no futuro eu programe uma viagem mais completa à Itália e inclua Roma novamente. Fica a ver. Por enquanto, a única certeza que tenho é: as nossas pizzas são melhores que as deles!
Roma
A empresa aérea que peguei para viajar de Paris a Roma (Vueling) é daquelas mais baratas o possível, com passagem a preço baixo, mas até peidar no avião deve custar alguma coisa. Nem barrinha de cereal com copo de Coca eles oferecem, tudo no carrinho de comes e bebes é cobrado. O limite de bagagem também era de apenas uma mala, o que me fez ter que realizar o Milagre da Multiplicação de Espaço para dar conta de tudo. Isso incluiu viajar de calça, tênis, um casaco no corpo e outro na mão.
Eu já tinha ouvido amigos chamarem a Itália de “o Brasil na Europa” ou até “a favela da Europa”. Efetivamente, minhas primeiras impressões de Roma não foram das melhores. Ao chegar até o aeroporto, a notícia de que as linhas de trem para a cidade não estavam funcionando, só rolava busão. Botando o pé para fora da porta automática, o bafo quente do verão mediterrâneo atacou com tudo, mesmo sendo cinco da tarde (lembram que eu estava viajando de casaco?). Na hora de pegar o ônibus, fila desorganizada com italianos folgados furando. Chegando depois de um bom tempo na estação central (com uma passagem na frente do Coliseu que já deixou todo mundo de boca aberta), bastou um segundo de hesitação no guichê automático para já aparecer outro italiano folgado dando uma “ajuda” e choramingando (literamente) por um trocado. Desci para a estação de metrô, que mais parecia um bunker de guerra (que já foi bombardeado). O sistema de metrô é bem simples: duas linhas, sendo que uma só estava funcionando pela metade. O trem chega e lota instantaneamente com uma multidão de pessoas. Quase igual a Berlim e Paris...
Descendo na estação próxima ao lugar onde eu ficaria, demorei um pouco a achar a rua exata, em meio a condomínios semi-fechados de prédios velhos. Por fim encontrei e peguei um elevador que deve ser outra relíquia dos tempos romanos, mantido em funcionamento por força de lei. Sobrevivendo à tortuosa e barulhenta subida, cheguei por fim à minha hospedagem, onde me esperava uma tiazinha que não falava um “oi” em inglês e não sabia operar a máquina de cartão. Deixando as coisas no quarto, parti sem rumo tentando achar um mercado em meio às ruas. Em uma avenida grande com várias pessoas passando, cruzo com um velhinho de paletó e gravata, pasta numa mão e pinto na outra, mijando no meio da rua. Consigo achar um lugar, compro os suprimentos para a semana e volto correndo para me esconder no quarto.
E aí, deu uma boa impressão? Pois é, imagina como deve ser encarar isso depois de três semanas em terras que são o topo da civilidade ocidental. Porém, bastou passar esse primeiro impacto para eu começar a sentir a cidade de verdade. E ser dominado por sua atmosfera.
Antes de tudo, um pouco sobre o lugar onde fiquei. Não é um hotel, mas algo que eles chamam de “guest house”, bem comuns em Roma. É na verdade como alugar por alguns dias um quarto em um apartamento coletivo. Não tem nada de recepção, camareira ou coisa assim. Você simplesmente é recebido, ganha as chaves e fica solto. Nesta em que fiquei, eram quatro quartos e mais uma cozinha / área comum. Era bem próxima do aticano e ao lado de uma estação de metrô (o que em Roma é MUITO importante, como vocês verão). O apê era novo e bem equipado, e o quarto muito bom, com banheiro privativo, ar condicionado e internet. Imaginem minha felicidade, usando a penúltima cueca e penúltimo par de meias limpo, ao abrir uma portinha e dar de cara com uma máquina de lavar. Nestes dias, poucas vezes cruzei com outros hóspedes e eles não pareciam usar a cozinha coletiva, portanto foi bom sentir um gostinho de estar “em casa” de novo.
No dia seguinte, tinha reservado (literalmente, comprando ingresso antecipado) o dia para visitar o Vaticano. Escolhi minha camisa de banda mais inofensiva e depois de uns dez minutos de caminhada, com o caldo (isto é, o fluxo de pessoas) engrossando, cheguei por fim à cidadela murada que constitui o Vaticano. Fui primeiro para a praça principal, por onde se entra para o maior colosso religioso do cristianismo (não do mundo). Ao ver a fachada da Basílica de São Pedro, nem parece uma igreja, porque é tão grande que de perto não dá para enxergar o característico domo. Quando você entra, o cérebro demora um pouco para captar o tamanho da coisa, mas vai por mim, é grande. E muito ricamente decorado, com afrescos e dourado por tudo quanto é canto.
Justiça seja feita, a Catedral de Berlim causa um impacto inicial maior, porque é constituída por um imenso aposento principal e logo quando você entra já é massacrado pelo domo. Já a Basílica tem formato de cruz e o domo fica na intersecção, então você vai absorvendo a coisa aos poucos (e sempre lembrando que ela é três vezes mais antiga). Eu diria que as duas ficam próximas no meu ranking de igrejas mais bonitas que já vi.
Depois de dar umas voltas por ali, incluindo o reabastecimento da minha garrafinha de água do São Paulo na fonte de São Pedro, fui para os Museus do Vaticano. Era para esses que eu tinha reservado o ingresso, mas nem estava tão ruim para quem não tinha comprado antes. Gastei boa parte do dia caminhando pelas coleções papais, que não incluem só coisas cristãs, mas um bom acervo de antiguidades egípcias, gregas e romanas (na Europa, parece que todo mundo tem uma coleção dessas). Isso inclui várias estátuas nuas e de deuses não-cristãos, o que não deixou de soar irônico para mim. Também neste passeio está a Capela Sistina, e é legal dar de cara com o afresco mais famoso do mundo (aquele de Deus e Adão tocando os dedinhos).
Para fechar o dia, fui para o Castelo de Santo Ângelo, que fica ali perto. Inicialmente um mausoléu para imperadores romanos, datado do século II d.C., sofreu sucessivas modificações ao longo dos séculos, principalmente pelos papas católicos. Ainda é possível caminhar pelo interior da parte romana, e o resto é aquela coisa de castelo: corredores, aposentos com algumas antiguidades, ameias, muralhas... Como cereja do bolo, um pequeno museu de armas medievais e renascentistas.
No dia seguinte, demorei muito a sair de casa, por pura enrolação. Neste dia, eu pretendia visitar a área arqueológica principal de Roma, o núcleo da cidade antiga. Chegando lá facilmente pelo metrô, fui direto ao Coliseu. Dei uma volta inteira pelo lado de fora, só para já ir babando diante daquela estrutura colossal (não é maior que um estádio mediano de futebol, mas novamente: é um estádio de dois mil anos!). Tão colossal quanto ele era a fila de entrada e o sol do meio dia que torrava a galera, então fui para a entrada da Colina Palatina e do Fórum Romano. O ingresso para todo o complexo (Coliseu / Colina / Fórum) é um só, com a diferença de que a fila ali é muito menor, pois todo mundo vai primeiro no Coliseu.
E é meio óbvio o porquê. Era uma da tarde quando consegui entrar, para caminhar por um sítio arqueológico imenso de restos de templos, prédios, arcos do triunfo e etc. Poucas sombras e sol a pino, digamos que atrapalha um pouco. Felizmente há várias fontes de água potável (toda a cidade está cheia delas) para encher a garrafinha e jogar água na cabeça. Pagar a taxa a mais pelo guia de áudio e mapa é muito importante, senão você se perde totalmente no meio das ruínas e fica sem saber o que realmente significa aquele pedaço de parede ou coluna solitária (e ainda assim é fácil se perder).
O sítio é muito rico e dá para gastar muito tempo ali dentro. O Fórum Romano concentrava os edifícios políticos e religiosos mais importantes da Roma antiga, então você encontra muitas ruínas (algumas monumentais) dos primeiros séculos a.C e d.C, e alguns edifícios bem preservados (porque viraram edifícios cristãos posteriormente). Já a Colina Palatina é o lugar onde Roma começou. Lá se encontram os resquícios mais antigos de ocupação na área, incluindo ruínas do tempo em que as lendas colocam como a época da fundação da cidade, no oitavo século a.C. Um pequeno museu mostra relíquias ainda mais antigas.
Depois dessas andanças por caminhos milenares (e com os pés de mendigo, com as Havaianas saturadas de poeiras milenares), comi um sanduíche qualquer numa barraquinha e rumei para o Coliseu. Ainda tinha fila, mas com o ingresso integrado na mão foi só ir direto para a entrada. Subi as escadas que levavam até o interior e, quando finalmente cheguei lá, um longo minuto de silêncio se passou, enquanto eu contemplava a visão. Como eu já falei, ele não é maior do que um estádio de futebol, mas a sensação de observar aquilo ali é completamente diferente. Com alguma imaginação (e tendo visto “Gladiador” umas dez vezes) dá para ver a multidão enchendo os vários níveis, enlouquecida com o espetáculo sangrento da arena. Esta se encontra aberta, mostrando os corredores inferiores por onde podiam sair as feras e os combatentes.
Depois de uma hora por lá, fui caminhar pela cidade vendo coisas aleatórias. Roma é uma cidade riquíssima e a cada esquina você dá de cara com uma praça ou construção monumental. Acredito que, se tivesse um guia turístico da cidade à mão, poderia aproveitar bem mais. Mesmo assim, a birra do primeiro dia já tinha passado e pude ver que, embora com vários problemas em comum, Roma não é São Paulo, no fim das contas.
De noite, em casa, fui programar o dia seguinte, procurando detalhes de como chegar nas catacumbas que queria tanto visitar. Só daí que vi que várias fechavam aos domingos. Claro, é um excelente dia para fechar um ponto turístico, certo? Ainda assim, das cinco que são disponíveis para visitação (de um total de dezesseis conhecidas, se não me engano), três abririam, então bora lá.
O caso é que as catacumbas não se localizam exatamente no centro, então tive que encarar o sistema de ônibus de Roma, que não fica nada a dever aos brasileiros em desorganização e demora. Comprei um passe que vale para viagens ilimitadas durante um dia, muito bom para quem pretende ir a vários pontos. Demorei bastante para chegar na zona da Via Apia, a estrada principal da Roma antiga. Seguindo a máxima do “segue o fluxo”, desci com mais uma penca de pessoas no ponto errado (e o motorista nem aí...) e tive que caminhar rápido e ainda choramingar um pouco para pegar a última visita em inglês antes do meio dia nas Catacumbas de São Calisto (depois, só de tarde). Um padre católico filipino gente boa falando em inglês (e viva a globalização!) nos levou por pequenos corredores do século IV d.C. (muito, mas muito mais antigos que os de Paris) onde os cristãos sepultavam seus mortos no período em que a religião ainda não era legalizada em Roma. Não é verdade que as catacumbas eram “o refúgio dos cristãos durante os períodos de perseguição”, mas foram usadas por muito tempo como cemitério subterrâneo. Além dos nichos (vazios, depois de ataques de bárbaros), há pinturas com cenas cristãs da época em que a igreja cristã nem tinha um cânone (a Bíblia só passou a “existir” no final daquele século).
O passeio é muito bom, pena que curto e corrido. Infelizmente as outras duas catacumbas que ficam na Via Apia são as que fecham nos domingos. Então eu teria que atravessar o centro para chegar nas outras. Junto com o grupo que tinha ido comigo, fiquei esperando mais de meia hora pelo ônibus para voltar. Peguei um ônibus que me levaria até outro ponto que queria conhecer, a Arquibasílica de São João em Laterano. Para os menos informados (como eu, até alguns dias atrás), a Basílica de São Pedro não é a igreja-mor do catolicismo romano. Este título pertence a São João, estabelecida no século IV d.C, quando o cristianismo foi aceito pelo império romano. É nela (que nem no Vaticano está) que oficialmente fica a cadeira do bispo de Roma (o bom e velho papa) e, por isso, ela recebeu o power título de “arquibasílica”.
Quando encontrei ela, achei que era bem meia boca. Mas, na verdade, era uma entrada lateral. A igreja mesmo é muito grande e imponente (mesmo sem chegar perto de São Pedro), embora quase nada tenha restado da igreja original do século IV. Há uma visita paga simples para se fazer no claustro interior dela, que na verdade não valeu a pena porque estava grande parte em reforma (mas ali dentro, no mais recôndito refúgio católico, existe... uma máquina de refrigerantes!). Vale pagar aqueles três euros porque assim você ganha o guia de áudio da igreja toda também, e ele possui momentos épicos, como a descrição de uma batalha entre o exército de Constantino (o imperador que legalizou o cristianismo no império) e o de Maxentius (seu rival ao posto de imperador), e hilariantes, como uma entrevista totalmente real com o próprio Constantino (sim, em pessoa!) onde ele fala que foi apenas um instrumento de Deus para consolidar a religião no mundo.
Depois desta visita, tive que procurar e esperar por mais um ônibus, pois o trecho de metrô entre São João e o terminal central é o que não está funcionando. No terminal central, engoli um McDonald’s rápido (depois de quatro dias sem, vejam só!) e fui atrás de outra catacumba, que diz a propaganda ser uma das mais importantes. Nisso já passava das três. O busão deu umas voltas estranhas e pulei fora quando achei que estava perto, tendo que caminhar um trecho ainda. Me perdi nas indicações e tive que andar um pedaço do caralho até perceber que estava na direção errada, e voltar tudo até finalmente estar diante da entrada do lugar. E encontrar a Folhinha Impressa da Perdição, implacável em seu curto texto: “As Catacumbas de Priscilla estarão fechadas até 28 de agosto para reparos de rotina”. Legal. Legal pra cacete. De que adianta olhar no site um dia antes, não é? Xinguei alto o diabo dos padres que cuidam dela e me resignei em caminhar mais um tanto até uma terceira catacumba, que era relativamente próxima. Daí rolou uma visita, o metaleiro maluco com mais dez tiozinhos religiosos (nenhum parecia ter menos de 50 anos). Curta, meia boca e sem novidades.
Nova espera longa pelo ônibus para voltar ao terminal central. Daí já era tarde e não dava tempo de mais nada. Ainda aproveitei meu passe ilimitado para ir parando em praças aleatórias durante o retorno de metrô, mas isso não conseguiu tirar da boca o gosto ruim (junto com o de um chá gelado com adoçante horrível que a máquina de bebidas me deu) de um dia mal aproveitado. As catacumbas certamente merecem uma visita, mas vá num dia diferente de domingo nas da Via Apia e deu.
Não pensei que eu fosse gostar de Roma tanto assim. Somando a quantidade de coisas disponíveis com o domingo ruim e minha preguiça em levantar cedo, ficou um gosto de quero mais. Nem vi os famosos Museus Capitolinos, os complexos arqueológicos das Termas de Caracalla e de Dioclesiano, vi só duas das quatro basílicas principais e só duas das cinco catacumbas... É uma cidade que, se eu passar novamente, terei muita coisa a aproveitar ainda. Quem sabe no futuro eu programe uma viagem mais completa à Itália e inclua Roma novamente. Fica a ver. Por enquanto, a única certeza que tenho é: as nossas pizzas são melhores que as deles!
Assinar:
Postagens (Atom)