terça-feira, 20 de agosto de 2013

(Aw)full English breakfast

              Depois do primeiro (e espero que único) estresse da viagem, estou de volta ao verão mediterrâneo e feliz da vida! Mas, no momento, é hora de contar sobre a última semana lá no norte, a dois fusos horários de distância.

York
               Cheguei em York uma e meia da tarde e, depois de uma hora e com a ajuda dos prestativos motoristas de ônibus da cidade, estava no hotel. Na verdade, era um pequeno estabelecimento com oito quartos, muito confortável e cuidado com esmero pelo casal de donos. Como não tinha comido nada, larguei as coisas no quarto e caminhei menos de dez minutos até as muralhas históricas que delimitam o centro, em busca de comida e das primeiras visões da cidade.
               York era um posto avançado romano que depois virou vilarejo anglo-saxão, mas adquiriu real importância ao ser conquistada pelos vikings no século IX e virar seu principal bastião nas campanhas britânicas. No século XI, foi reconquistada pela realeza anglo-saxã, apenas algumas semanas antes destes mesmos serem conquistados pelos normados. A partir desse período, a importância e população do local cresceu e virou a segunda maior cidade da Inglaterra até o fim da Idade Média. Desde lá, os centros de poder se deslocaram novamente e York ficou meio de lado, podendo manter muito de sua estrutura medieval nos dias atuais.
               Claro que, depois de Rodes, meu conceito sobre cidades medievais preservadas é outro. Mas York também é muito interessante, me lembrando Lübeck. O centro é um labirinto de ruas estreitas e calçamentos de pedra. Em alguns pontos, como as Shambles, as próprias casas de madeira medievais estão preservadas e seus andares se assomam sobre a cabeça dos transeuntes, quase se tocando. Legal é que, fora algumas vias principais e veículos de carga/deficientes, carros não podem circular ali dentro, então há espaço de sobra para as pessoas caminharem sem se esbarrarem. Havia bastante turistas por lá, mas nada que realmente incomodasse nos locais de interesse, fora uma fila ou outra.
               Após um fast-food-fish-chips rápido, fui gastar o final da tarde no principal marco da cidade, a York Minster, alardeada como "a maior catedral gótica ao norte dos Alpes". Não sei exatamente qual a importância disso, mas efetivamente o troço é grande. Em vez de um domo, possui uma torre central quadrada, na qual é possível subir por 275 degraus e ter umas vistas legais da cidade (mas não acho que valha as cinco libras adicionais). Havia uma exposição no subsolo que incluía alguns restos romanos sobre a qual a Minster foi construída, mas fechava já às cinco. Felizmente, os tíquetes lá tem a estranha característica de serem válidos por um ano após a compra, então pude retornar no outro dia.
               Na terça feira, acordei em horário recorde (oito!) para aproveitar bem meu único dia de verdade em York. Mas o "full English breakfast" do hotel me derrubou por um tempo (inclui ovos, bacon, salsicha, mursilha, cogumelos, feijões e torradas). Deve ser uma reminiscência da Revolução Industrial, quando nego acordava, comia aquilo e ia para a fábrica trabalhar 16 horas seguidas.
               Recuperado, fui até a cidade e comecei por outra das atrações históricas mais famosas da cidade, o Jorvik Viking Center. O centro foi montado sobre um local onde arqueólogos descobriram um conjunto de algumas casas e ruelas do século IX praticamente intactos. Não é possível ver o sítio em si, mas fizeram uma interessante reconstrução do lugar como poderia ter sido na época viking, por onde você passa em um carrinho suspenso enquanto o áudio vai explicando as coisas. Além das casas, uma série de bonecos muito bem feitos interage entre si e com quem vai passando. Desta vez, achei a "interatividade" legal, pois é uma coisa diferente e bem feita. Para o resto do centro, vale aquilo que falei sobre o museu de história natural.
               Foi menos de uma hora no Jorvik. Dali, fui para o York Castle Museu, que fica próximo. Subi na pequena torre em ruínas ao lado, que dá mais uma vista interessante dos arredores, embora cinco libras novamente parece demais por isso. No museu mesmo me diverti mais, pois tem uma série de mostras bem variáveis, mas com um grande destaque: uma reconstrução da York vitoriana com tudo o que merece. Uma rua principal, vielas laterais escuras, casinhas de todos os ofícios, várias delas com interior completo, e até um ciclo de noite e dia na base de sons e luzes. Muito legal para caminhar um pouco, explorando os meandros e objetos de época disponíveis.
               Após sair do museu, passei de novo na York Minster para ver com mais calma a exposição subterrânea, e daí passei na frente de uma "casa assombrada". York está cheia de histórias de fantasmas, e de noite rolam várias "ghost walks" (daquele estilo mais para rir que pra tremer). Esse local em particular clamava ser uma casa bem antiga e sem firulas, apenas com a presença dos Antigos Espíritos do Mal. Não que eu me incomodasse com isso e até bateria papo se surgisse um fantasminha camarada (ou o Mun-Rá), mas o ambiente tétrico por si só poderia ser interessante. Mas já estava meio desconfiado, e vi que a entrada do lugar era uma loja de artigos místicos, leitura de tarô e coisas do tipo. É, efetivamente não era minha cara...
               Então rumei para outro museu, o Yorkshire museu. Ali, uma coleção legal de peças de toda a história da região, dos romanos à Renascença, além de uma pequena mostra meio fora de contexto, sobre extinções (mas tinha fósseis, então tá ótimo!). Como bônus, o museu fica em um parque ocupado anteriormente por uma abadia, e por todos os cantos há ruínas do velho local.
               Para finalizar a tarde, queria fazer uma caminhada sobre as muralhas da cidade, mas o portão de entrada próximo ao museu estava trancado. Fiquei meio decepcionado e achei que as muralhas fechavam no mesmo horário que as outras atrações históricas (quase tudo às cinco da tarde), embora tivessem me dito que ficavam abertas até o anoitecer. O jeito foi fechar o dia com outro tipo de tour histórico: tomando uma cerveja e beliscando algo em um pub de 400 anos de idade. E depois descobri um que dizia ter 500, e isso mereceu uma outra dose.
               Na cidade (e em toda Inglaterra) há um movimento para resgatar o estilo antigo de servir cerveja, ou seja, direto do barril, sem filtragem ou adição de gás, só aquele gerado pela fermentação. Eles chamam de "cask ales" (ou, mais esnobemente, "real ales"), em oposição às draft/draught, que são tiradas do barril com pressão e uma carga adicional de gás. Então, basicamente, é uma cerveja choca, e costuma ter menos álcool também (entre 3,8 e 4,1%). São boas, mas, talvez pelo costume, ainda prefiro as mais gasosas.
               E, na volta para o hotel, passei por outro portão e vi que as muralhas estavam realmente abertas. Era só aquele portão que estava fechado! Então rolou passear um pouco por ali. Isso até mereceu mais uma cerveja (com o bonito nome de "Hobgoblin") para tomar no quarto e encerrar a noite nas alturas.
               Foi só um dia e meio em York, mas bem aproveitado. Valeu bastante a pena ter ido lá. Pelo menos naquela região do centro histórico, é uma cidade bem turística e gostosa de conhecer. É bem compacta também, e dá para caminhar de um ponto a outro com muita facilidade. Tem uma série de outras atrações (ou armadilhas) para turistas, embora não sei se eu teria algo para fazer ficando lá mais um dia (achar um pub de 600 anos, talvez?). Em todos os casos, estando a apenas duas horas de Londres, vale uma passada para qualquer um que for gastar mais tempo na Inglaterra.

Dublin (e Irlanda)
               A quarta feira foi um longo dia de translado. Peguei três trens para ir de York até Holyhead, o porto no litoral do País de Gales de onde saem os ferries para Dublin. Ali a pontualidade irlandesa entrou em cena, e o barco atrasou quase uma hora para começar a viagem de 1:45 até a capital. Pena que o dia estava feio, nublado e com ventania, então não deu nem para aproveitar o deck do barco. Somando todo o tempo gasto em translados e atrasos, cheguei no porto mesmo só às oito da noite. Meu hotel era bem próximo, por isso me rendi a um táxi e logo estava lá. No caminho, bati um papo (ou tentei, enfrentando o sotaque irlandês) com o taxista, e ele me disse para tomar cuidado "porque Dublin é diferente das outras cidades européias, crimes acontecem". Sim, a preocupação deles é que "crimes acontecem". Então fiquei de boa e só tomei os mesmos cuidados que tomaria no Brasil.
               O hotel ficava de frente para o principal rio da cidade. Tinha um pub no térreo que estava fervilhando quando cheguei. Mas o quarto no terceiro andar era silencioso e confortável. Tinha comido no barco (novamente um English breakfast, mas sem a parte "leve", tomate e cogumelos), então fui direto (enrolar na internet e) dormir.
               Na manhã seguinte, acordei às nove para tomar café da manhã (e adivinha? English - ou Irish? - breakfast!) , e depois fiquei no quarto pensando a sério como usar os próximos dias. Minha idéia inicial era dois passeios de um dia em locais próximos, além de um dia para Dublin mesmo, e um dia sobrando que não sabia bem ainda como usar. No fim, o dia em Dublin virou duas tardes, e o dia extra, duas manhãs mortas no quarto do hotel, sendo esta a primeira.
               O clima na Inglaterra tinha estado razoável naquela semana. Nenhum calorzão digno de verão e céu sempre parcialmente nublado. Mas até dava para usar Havaianas. Em York, mais ao norte, já fazia friozinho no começo da manhã e cair da noite, mesmo com sol. Em Dublin, o tempo ficou ruim mesmo. Nesse primeiro dia, estava com vento, chuva e frio. Mesmo assim, não quis deixá-lo passar em branco, então fui para o centro, o que dava uns 15 minutos de caminhada.
               Num primeiro momento, mesmo com mapa, consegui me perder bastante no centro movimentado, mais caótico que o normal por causa da chuva. Acho que tem alguma antiga magia pagã celta em ação na cidade, que faz com que as ruas mudem de direção quando você entra em algum lugar. Mas finalmente consegui achar um McDonald's para descansar a barriga dos cafés da manhã (quando você começa a achar Big Mac com side salad uma refeição leve, é porque a coisa está feia mesmo).
               Após o bate papo com o Ronald, fui visitar o Museu Nacional de Arqueologia, pois sempre são lugares bons para investir tempo em dias de chuva. O museu não é muito grande, mas, de qualquer maneira, eu tinha pouco tempo (cheguei 14:30 e tudo também fecha às 17:00). Mesmo assim, possui algumas coisas muito legais. De cara começava com uma impressionante exibição de artefatos de ouro das Idades do Bronze e Ferro irlandesas, cobrindo um período entre 2200 e 700 a.C. Além disso, uma coleção mostrando a transição religiosa da Irlanda (infelizmente, mostrando muito pouco do paganismo, e mais do desenvolvimento do cristianismo a partir do século VI). Interessante também as coleções da época viking e medieval. O maior destaque, porém, ficou para os corpos da Idade do Ferro encontrados em pântanos. Nenhum tão bem conservado quanto o Homem de Lindow, que tinha visto no British Museum, mas para compensar havia um maior número deles.
               Em duas horas eu já tinha passado por tudo, então ainda tinha meia hora antes dos museus fecharem, e o de História Natural era bem perto. Corri para lá, mais para ver o que tinha e se valeria a pena passar em outro momento (já que a entrada era gratuita mesmo). E fiquei lá menos de dez minutos, incluindo a ida ao banheiro. O formato é aquele que gosto, duas salas enormes cheias de bichos e nomes. Mas eram basicamente só animais atuais empalhados, o que não é me empolga tanto, então logo voltei ao hotel.
               Sexta feira foi o dia do primeiro bate-e-volta, para Cashel, bem no meio do país. Minha maior preocupação era com o tempo, mas amanheceu um dia lindo (que logo virou aquele dia típico de verão do norte europeu, com muitas nuvens no céu, mas ao menos não choveu). No quarto dia, o café da manhã inglês já não estava descendo, então pedi "apenas" ovos, torradas e bacon. Fui até a estação central de ônibus, que também era próxima do hotel, pois na Irlanda as linhas ferroviárias não são tão desenvolvidas assim, e vale a pena ir de busão. A pontualidade irlandesa entrou em jogo novamente, e, em vez de meio dia, como previsto, cheguei quase uma da tarde no meu destino.
               Cashel é uma típica cidadezinha/vilarejo irlandês de interior, mas com um certo foco em turismo. A atração principal é a Rock of Cashel, um morrinho de onde (segundo lendas, claro) governavam os reis de Munster, um importante reino celta do primeiro milênio d.C. O local foi passado à igreja cristã na virada do milênio e entre os séculos XII-XIII foram erguidas as construções que lá ainda permanecem, em ruínas desde que os exércitos ingleses passaram o rodo nos padrecos, no século XVII.
               Eu achava que o complexo era um castelo, com salas e meandros para serem explorados. Entretanto, é só uma grande igreja, com outra pequena construção para moradia ao lado. Além disso, uma das principais capelas da igreja está fechada para restauração e andaimes cercam metade das ruínas. Tudo isso me fez ficar meio decepcionado, ainda mais com a propaganda que é feita sobre o lugar. O que tem lá ainda é interessante, claro. A ruína em si é bonita, a colina é murada e há séculos as pessoas a usam como cemitério, então uma série de sepulturas, monumentos e cruzes celtas rodeiam a igreja. Mas não é um lugar fora de série.
               Me chamou mais a atenção ruínas de outra igreja que podiam ser vistas da colina, no meio de um pequeno pasto. De longe, não vi ninguém andando por elas, nem um guichê de recepção, parecendo efetivamente abandonadas às moscas e vacas. Desci a colina então, em busca de uma entrada que parecia não existir. Outro casal estava na mesma, interessados, mas sem saber o que fazer. Então pulei o muro de pedra do pasto mesmo e rumei para as ruínas, atento a cachorros, bois brabos ou irlandeses com espingarda. O casal veio logo atrás e fomos seguidos por mais algumas pessoas. Se fosse para ser preso, pelo menos não iria sozinho!
               No fim, o local até tem uma entrada "legal" (só não dava para vê-la) e pode ser visitado, mas não tem ninguém de guarda. É a Hore Abbey, construída e abandonada mais ou menos nas mesmas épocas que a Rock. Tem mais aposentos também, embora tudo o que tenha sobrado das partes habitacionais sejam paredes. Poder andar por ali sem restrições, só com mais meia dúzia de pessoas com quem mal cruzava, foi bem mais legal que encarar os andaimes da irmã mais famosa.
               Também não é um local para se perder horas, então fui caminhar no centro da vila em busca de mais alguns pontos de interesse. Alguns nem eram tão interessantes, outros estavam fechados no meio da tarde de sexta (veja só, e a cidade quer ser turística!). Era três e quarenta e eu estava de boa. Um dos horários previstos dos ônibus que passam a cada duas horas lá era 15:25, então fiquei esperando, crente que a pontualidade irlandesa me favoreceria agora. Mas nem. Fiquei até quatro e meia esperando para nada. Há outra magia celta local que prevê que, a cada 738 ascendências de Urano em Sagitário, um ônibus passa na hora, e era aquele. Decidi voltar à Rock para gastar mais algum tempo, e voltei ao ponto um pouco antes do próximo horário, das 17:25. Que, logicamente, passou só depois das seis.
               Valeu a pena ter ido a Cashel, embora não tenha sido tudo o que eu esperava. Posso ao menos dizer que dei uma passeada pelo interior do país. Engraçado que todas as paisagens de planície do norte europeu são muito parecidas, então não foi diferente do que viajar pela Alemanha, Dinamarca ou Inglaterra. É plantação, plantação, pasto, vilarejo, plantação, pequeno fragmento de pinheiros, plantação... A única diferença que percebi na Irlanda é o maior número de ovelhas.
               De volta à Dublin, tinha duas opções. Ou encarar o outro bate-e-volta já no dia seguinte, ou deixar para domingo e andar por Dublin no sábado. Queria ir para o vale de Glendalough, onde ruínas monásticas se misturam com um parque natural. O clima, entretanto, era essencial para esse passeio, e se deixasse para domingo e chovesse, teria perdido a chance. Então decidi que só não iria se estivesse chovendo pra valer. A região é bem mais próxima de Dublin, mas com pouco acesso por transporte público. O melhor é pegar uma excursão que leva e traz no mesmo dia. Convenientemente, descobri uma que saía só 11:30 e ia direto ao vale, voltando 17:40. A outra, que saía às dez, ainda parava em outros vilarejos, então achei que seria muito corrido.
               Pude acordar só às dez e, de quebra perder o café da manhã (iei!). Amanheceu com o tempo completamente nublado, o que me deu uma brochada, mas fui mesmo assim. Cheguei com vinte minutos de antecedência, pois aquele ônibus não vendia passagem antecipada, e já tinha uma fila no local. Não teria problema, na real, pois na Irlanda os ônibus parecem ser pinga-pinga mesmo, faltou assento vai de pé. Mas assim garanti um lugar na janela. A pontualidade irlandesa foi gentil dessa vez, e chegamos ao vale pouco antes da uma, quase no horário previsto.
               Glendalough significa "dois lagos", por causa da principal característica geográfica do vale. Ali, um dos principais santos irlandeses, São Kevin (qual a versão abrasileirada de Kevin?), veio se estabelecer como eremita no século VI. Sua solidão não demorou muito, pois logo outros monges vieram se juntar a ele, e Glendalough se tornou o principal centro religioso da região. A partir do século XIII, entrou em declínio e foi abandonado no século seguinte. Desde lá, tudo o que resta do período monástico são ruínas, também cercadas por sepulturas mais recentes.
               As ruínas monásticas são legais, com certeza, mas o mais interessante do local é sair andando pelas trilhas do parque. Chamar o lugar de "parque natural" tem um sentido diferente na Europa, pois praticamente tudo lá já foi e ainda é usado e manejado. Então são caminhos que seguem por áreas florestadas ou "pastos melhorados", com os lagos de um lado e os penhascos de outro. Não é um vale especialmente profundo ou cênico, mas apenas caminhar em paz por uma área bonita já foi o bastante. A trilha que peguei terminava no início do vale, quando o rio vira cascata, e havia os remanescentes de uma vila de mineiros do século XIX. O tempo melhorou, o sol até se mostrou algumas vezes, e, nos momentos em que choveu, eu estava protegido pelas árvores.
               O tempo curto, infelizmente, não me permitia pegar as trilhas mais longas e complicadas. Fiquei por lá caminhando e vendo as ruínas ocasionais até a hora de voltar. Sem atrasos também, então às sete estávamos em Dublin. Foi um dia bem agradável em Glendalough. Mudar um pouco de ares e ver umas paisagens legais sempre é bom. Ainda mais se tem ruínas seculares pelo caminho!
               O último dia em Dublin também foi em marcha lenta. Acordei tarde e saí do hotel só perto do meio dia. Parei em uma loja para comprar besteiras irlandesas e depois fui em busca dos pontos de interesse da cidade, na sua parte antiga pero no mucho. Fora as igrejas, não há muita coisa anterior ao fim da Idade Média por lá. A catedral católica, a Christ Church, é muito bonita por fora. Mas por dentro não me pareceu muito diferente, então nem paguei para entrar. Preferi ir no prédio em anexo, onde fica a Dublinia, uma exposição sobre a cidade na época viking e medieval. Dublin foi, efetivamente, fundada por escandinavos no século IX e efetivamente permaneceu na mão deles até o vagalhão normando atingir a Irlanda, no século XII. A exposição em Dublinia não é arqueológica: o que tem são textos informativos, reconstruções, bonecos e outras coisinhas interativas. Já falei que isso não me empolga tanto, mas nesse caso até que gostei. Talvez porque não tinha tanta gente, ou por já estar meio saturado e querendo coisas diferentes. Ou talvez só por provar mais uns elmos diferentes!
               Dali, fui para a outra catedral, a anglicana. Só que bem na hora a catedral de São Patrício estava tendo culto e fechada à visitação. Sem Deus na minha vida, o negócio foi ir atrás de cerveja. Caminhei um tanto até a Guiness Storehouse, o centro interativo/propagandista que a maior cervejaria da Europa criou para glorificar a si mesma. É também uma das atrações mais visitadas de Dublin, pelo movimento que tinha lá. Mas, de boa, é puro marketing. Tem umas mostras meia boca mostrando o processo de fabricação e transporte, tudo na base da tela de TV. Umas outras firulas sobre a história da marca. Tem uma "academia" para você aprender a servir seu pint (note a falta do "o", por favor) perfeito. Legal, né? Sim, se você quiser pegar a fila para chegar lá. Daí tem um lounge para degustadores de cerveja. Opa, uma boa, não? É, se você quiser pegar a fila e pagar mais uma taxa adicional para entrar. No fim, o a única coisa que diminui o prejuízo da cara entrada (17 euros) é um pint "cortesia" servido num bar circular com visão panorâmica.
               Eu gosto de Guiness, acho uma boa cerveja, e não há como negar que eles sabem trabalhar a marca. Mas a Storehouse é um baita migué de sete andares. E engraçado que nem vi menção à mistura com nitrogênio na hora de embalar, o maior diferencial da cerveja, que gera aquela espuma cremosa que dá vontade de tomar por si só.
               Depois dali, voltei para a São Patrício e pude entrar. Nada muito diferente também. É uma igreja bem grande e com coisas legais dentro, mas à essa altura já vi tantas que precisa de algo diferente para fazer meu queixo cair. Voltei para o hotel então, pois teria que acordar cedo no outro dia. Pelo menos a presença do pub no térreo facilitou bastante a tarefa de tomar aquela gelada antes de dormir todo dia!
               Dublin não me impressionou muito, mas pode ter sido por já ter passado bastante tempo no norte Europeu, vendo coisas parecidas. A cidade é mais zoada que outras capitais européias, mas não se aproxima do caos de Roma, por exemplo. Por outro lado, não possui a riqueza de antiguidades que torna a outra interessante. Algumas coisas lá foram bem legais nesses dias (o museu, Hore Abbey, Glendalough), mas, de modo geral, aproveitei pouco os quatro dias. Talvez devesse ter feito uma pesquisa maior por coisas diferentes nas redondezas, ou ter efetivamente dado uma volta pelo país, em vez de usar a capital como base. Mas isso exigiria mais tempo, tanto de preparação como de viagem.
               Houve coisas que queria muito ver, mas não valiam a pena, como Newgrange, a mais famosa das tumbas monolíticas do começo da Idade do Bronze. Mas era longe de Dublin, socado de gente (pelas informações que vi) e um sítio relativamente limitado (tá, tu vai lá, vê o túnel de alguns metros, acha legal pra caramba, e deu). É a mesma coisa que me desestimulou de ver Stonehenge, nas redondezas de Londres. São locais que ficarão para um outro momento, possivelmente fora da alta temporada, quando eu fizer um roteiro por cidades menores, históricas (como York). Pois, das capitais, estou de boa.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

"For everything there is a season..."

"For everything there is a season, and a time line for every purpose under heaven"
- Ecclesiastes, 3:1 (adaptado)

               Foram sete longos dias em Londres. Foi o lugar onde fiquei mais tempo em viagens (também fiquei sete dias em Berlim, mas eles incluíram o pós-Wacken). Ainda terei um tempo de Inglaterra pela frente, mas agora é hora de contar o que rolou na maior cidade da Europa.

Londres

               Durante o vôo de Hamburgo para Londres, percebi que os 45 minutos programados estavam demorando para passar. Daí me toquei que estava mudando de fuso, ficando uma hora mais perto do Brasil. Ao chegar, enfrentei a temida imigração britânica, bem menos simpática que os sorridentes e avermelhados alemães. Estando no "grupo de risco", tive uma agradável conversa de dez minutos com um tiozinho indiano, na qual tive que mostrar reserva de hotel, dinheiro, cartão de crédito, etc. Engraçado foi quando respondi à pergunta dele sobre quanto saldo tinha no cartão. Ele parou um segundo e mandou um "really?" desconfiado. Acho que sou muito mais rico do que pareço...
               Depois de receber a carimbada (sem sequer um sorrisinho), resolvi as coisas mais importantes, como sacar libras e entender o sistema de transporte, e parti para uma longa travessia de uma ponta à outra da Grande Londres, do aeroporto onde cheguei (Heathrow, no extremo oeste) até a estação de Walthamstow, no lado leste. O famoso sistema de metrô é muito completo, com uma dúzia de linhas, mas pode confundir no começo por ter várias linhas que se dividem no meio do caminho e estações que não abrem alguns dias da semana. Mas tudo é bem explicado e eficiente, então fiquei na base do metrô todos os dias.
               Ao desembarcar e sair da estação, pensei que tinha ficado tanto tempo sob a terra que havia saído da Inglaterra. Afinal, onde estavam os ingleses? Walthamstow fica numa região de imigrantes, e tudo o que via eram orientais, islâmicos e africanos (ou descendentes, claro). Parece que toda Londres é assim, tem muita gente de fora em todos os lugares. Fiquei um pouco alerta ao cruzar com um povo estilo gangsta americano, mas no fim a vizinhança é sossegada. O povo está ali para viver sua vida, sob a tolerância cada vez menor dos ingleses para com os imigrantes.
               E claro, nesse translado já rolou o primeiro desafio: pessoas paradas no semáforo vermelho para pedestres. Esperei para ver. Ao menor sinal de espaço entre dois carros, o povo se jogou para o outro lado da rua. Iei! De volta ao Brasil!
               Como cheguei na metade da tarde, tudo o que fiz nesse primeiro dia foi comprar comida e pensar nos próximos dias. Fiquei numa guesthouse, então tinha uma cozinha à disposição, o que foi providencial para economizar as libras dos jantares e cafés da manhã de cada dia. O lugar era afastado do centro (25 minutos de metrô), mas hospedagem lá não é para qualquer um (ou para quem quer um quarto individual com banheiro!). Evitei pensar em reais nesses dias, para não ter pesadelos. Libra valendo R$3,50 é fogo!
               Na manhã seguinte, acordei oito e meia para fazer o dia de sightseeing. Nem adiantava acordar muito mais cedo, pois quase todos os pontos turísticos da cidade abrem apenas às 10:00. Menos, logicamente, a Torre de Londres, aquele que escolhi para começar, que abria às nove, portanto já tinha uma generosa fila quando cheguei. É um dos vários castelos construídos pelos normandos no século XI, após a conquista britânica. Aliás, tudo na Inglaterra parece ser ou ter sido iniciado nessa época, séculos XI e XII. O país tem uma história complexa de invasões. Os bretões, povo céltico que já se encontrava há bastante tempo nas ilhas, foram os que enfrentaram a conquista romana no século I. Alguns séculos depois dos romanos se mandarem, vieram os germânicos anglo-saxões, dos quais o termo "inglês" surgiu. Seu domínio sobre o país durou até a chegada dos normandos, que nada mais eram do que vikings estabelecidos na costa francesa há dois séculos. É desse caldeirão de influências germânicas, celtas e latinas que emergiu a Inglaterra atual. Mas é raro encontrar remanescentes do período pré-normando.
               O diferencial da Torre de Londres é ficar bem no coração da cidade atual e nunca ter caído no esquecimento, estando bem conservada até hoje. O meu passeio pelas muralhas e torres externas ficou prejudicado pela grande quantidade de pessoas apertadas nos espaços pequenos, mas logo fugi para a fortaleza central e mais antiga do complexo, a White Tower, onde há uma fabulosa coleção de armamentos medievais e renascentistas. Não é preciso mais que uma maça ou alabarda para deixar o Félix feliz, mas ali tem muito mais que isso, incluindo a Linha dos Reis, uma coleção de armaduras que pertenceram aos reis ingleses dos últimos seis séculos.
               Depois de me divertir na White Tower, olhei para a multidão fazendo fila para entrar em outro prédio, que guardava as jóias da coroa britânica, e dei as costas. Quem precisa de uma coroa e um cetro quando se tem um elmo e uma espada? As filas, no entanto, me desanimaram para ver outras torres mais disputadas, como a Bloody Tower e sua história de prisões e torturas dos inimigos dos reis.
               Parei para comer ao lado do castelo, onde provei o grandioso prato tradicional dos ingleses: peixe empanado com batata frita! É, esse é o famoso "fish & chips", que vem com um potinho de molho tártaro e uma bolinha de ervilhas amassadas para complementar. Não é à toa que 95% dos restaurantes da cidade são de comidas internacionais...
               Logo do lado da Torre e do restaurante, fica a Tower Bridge, aquela ponte basculante vitoriana que todo mundo já viu em mil filmes. Apenas passei caminhando por ela, pegando depois o calçadão que corre ao lado do Tâmisa, até chegar em uma interessante igreja gótica com paredes externas de pedras pretas, a Southwark Cathedral. Dali atravessei novamente o rio e fui até a maior igreja de Londres, a St. Pauls Cathedral. Curiosamente, foi construída no estilo da Basílica de São Pedro, em uma época que o catolicismo romano era banido e perseguido na Inglaterra. Porém, o interior é bem mais austero que o da irmã mais velha. Pena que eram quatro horas e a catedral tinha acabado de fechar a entrada para novos visitantes, mesmo com bastante gente ainda querendo entrar. Bem, perderam várias libras!
               Aproveitei o cartão ilimitado do metrô para economizar alguns passos e minutos e ir até Westminster, onde ficam vários ícones da cidade. O prédio do Parlamento é um troço gigante e tremendamente decorado do lado de fora, com a torre do Big Ben anexada. Um prédio muito bonito, mas não me preocupei em entrar. Preferi gasta o tempo do outro lado da rua, na espetacular Abadia de Westminster (é bom ficar ligado que as admissões também fecham às quatro, mas vão até as seis nas quartas feiras). Como toda igreja gótica, é espetacular por fora. Mas, nesse caso, o interior é mais interessante, pois você vê a história inteira de um país acontecendo. Lá estão sepultados figurões da história britânica, como alguns dos primeiros reis, escritores, filósofos e personagens da nobreza. E qual não foi minha surpresa ao dar os primeiros passos e ler, numa das sepulturas, "Charles Robert Darwin, 1809-1882"? O messias da biologia foi enterrado lá, mesmo sendo ateu/agnóstico, pois mesmo em vida sua obra e importância já eram reconhecidos.
               Graças ao útil guia de áudio, pude ficar cerca de uma hora e meia ali dentro, o que é bastante para uma igreja. Na volta, ainda parei para ver o Temple, que é o bairro que pertenceu aos Templários entre os séculos XII e XIV. Mas não tem nada de muito interessante por lá, fora uma igreja dos velhos cavaleiros, que infelizmente estava fechada. Voltei para a periferia então, encerrando já na noite um dia agitado e produtivo.
               No dia seguinte, decidi ir no zoológico. Teria que ir neste dia ou no sábado, então me pareceu uma boa idéia evitar o fim de semana, quando normalmente os nativos enchem o ambiente com suas proles barulhentas. Não adiantou muito: além de chegar meio tarde, ainda havia uma fila enorme, e uma plenitude de criaturinhas barulhentas, empurradoras e remelentas. God bless the Queen, rock'n'roll and earphones!
               Não é um zoológico muito grande. A ZSL (Zoological society of London) possui um zoo em outra cidade, em uma área enorme onde rolam até mini-safaris, então muitos dos mamíferos de grande porte foram alocados lá. Mas sem problema, quem visita bastante zoológicos já está cansado de leões e rinocerontes. O legal deste zoo foi ter um reptilário bem rico, incluindo uma paixão adolescente minha, e que ainda não tinha visto ao vivo: dragões de Komodo! Tinha dois bichões que, embora longe do tamanho máximo da espécie, ainda eram enormes. Desta vez fui eu a atrapalhar as crianças que queriam ver um dos bichos que estava bem próximo do vidro. Vingança, molecada!
               Após sair, a única coisa que fiz foi atravessar o Regent's park, um dos maiores de Londres, onde fica o zoo. Tem uns jardins bonitos, gramadões a perder de vista, fontes, lago e etc. Logo peguei o metrô de volta à pousada, pois no dia seguinte queria levantar mais cedo, pois era o dia do British Museum.
               Minha preocupação era chegar na hora da abertura, às dez, para evitar as multidões. Quase consegui! Cheguei dez e meia e me surpreendi por não ter fila. Por um motivo muito simples: a entrada é gratuita! Depois de gastar vinte libras para entrar em cada lugar antes disso, foi uma agradável surpresa. Só gastei cinco para pegar um guia de áudio, mas as peças são tão bem explicadas nos cartazes que nem era necessário, para quem prefere ler a ouvir (como eu).
               Tinha escolhido a sexta feira por ser o dia em que o museu fica aberto até mais tarde, e até tinha cogitado fazer algo antes, já que achava que teria tempo de sobra. Felizmente não o fiz, pois no fim só saí do museu com seu fechamento, dez horas depois. As coleções são excelentes, principalmente as do meu período histórico favorito, a Antiguidade no Oriente Próximo. Mas tem peças antigas de tudo quanto é cultura, incluindo Mesoamérica, África, Idade Média européia, Índia, China, Japão... Mesmo com muita gente, a amplitude e variedade do museu não faz as salas ficarem socadas. Foi só evitar alguns espaços e peças nos horários de pico, como a Pedra de Roseta (a peça mais pop do museu), diante da qual o tempo todo tinha gente se empilhando para tirar fotos. No final, ainda faltou tempo para ver com calma a fantástica galeria de culturas orientais, então tive que correr e atuar como aquele tipo de serzinho desprezível que infesta museus, que anda com a câmera na frente da cara só para tirar fotos e dizer que viu, mal olhando para as peças em si.
               O British Museu talvez seja o melhor museu de história e arqueologia que já visitei, pela riqueza de peças, informações e por estar tudo em inglês (óbvio!). É meio difícil de entender a arquitetura do negócio no início, e decifrar o mapa, com seus andares e níveis, é como se aventurar numa dungeon complexa, onde você está no meio dos gregos e de repente faz uma curva e cai no Egito. Mas depois de gastar alguns minutos raciocinando, é possível criar roteiros coesos e se divertir. Comparável a ele, até agora, só o Pergamonmuseum (pelas suas mostras monumentais) e, talvez, o Louvre (pelas peças icônicas).
               Como cheguei tarde na pousada, decidi matar a manhã seguinte e ir só de tarde para o Natural History Museum. Novamente, entrada na faixa, mas desta vez com fila. Com pouco tempo, tentei ir direto ao ponto (dinossauros!), mas havia uma nova fila, e das grandes, para entrar na galeria mais disputada do lugar. Assim, aproveitei para andar pelo resto do museu antes, onde os fósseis estavam espalhados no meio dos animais empalhados (não me empolga ver bichos atuais em museu, pois prefiro vê-los vivos no zoo). A parte mais legal foi um paredão cheio de fósseis de antigos répteis marinhos, como ictiossauros, pliossauros e mosassauros. Depois, encarei a fila para a galeria dos dinos, e me decepcionei um pouco. Acho que esperava algo como o museu de Paris, uma sala enorme com toneladas de fósseis. Mas, como a maior parte deste museu, era uma mostra mais interativa e explicativa, cheia de maquetes e firulas, e com poucos bichos em si. Não tenho dúvida de que é bem mais legal para 99% das pessoas, mas eu preferiria aquele estilo "Pronto, aqui estão fósseis e nomes, lide com isso! Veja essa metade de costela de Opisthocoelicaudia e ache legal!" da contraparte francesa.
               A tarde acabou sendo o bastante para o museu. O tempo curto me impediu de visitar o vizinho Science Museum, mas imagino que, no fim, ia ser uma coisa parecida, cheia de "diversões para toda família". Meu estilo é um pouco diferente: peças, cartazes e imaginação bastam (claro, de vez em quando também é divertido vestir um armamento viking completo, como em Copenhague). Mas é legal que existam esses espaços onde as pessoas (e crianças) possam explorar de modo mais lúdico coisas que não são usuais a elas.
               Para o último dia, tinha planejado ir ao famoso castelo de Windsor, o mais antigo castelo continuamente habitado do mundo. Porém, depois de todas as filas e multidões, cada vez mais aquilo me pareceu uma armadilha para turistas. Lembranças da complicada visita a Versalhes vieram à tona. Assim, explorei algumas opções na internet, encontrando um site muito útil de castelos na Grã-Bretanha e Irlanda (http://www.britainirelandcastles.com/). Ali encontrei o Rochester Castle, um castelo normando em ruínas, mas um dos mais bem preservados do seu tipo. Como bônus, uma catedral antiga do lado e o fato de ser a apenas 40 minutos de trem de Londres. Então, Windsor para as massas, ruínas para o Félix!
               Cheguei às onze em Rochester, uma simpática cidadezinha das antigas. Depois da loucura londrina, foi bom poder caminhar pela tranquila rua central até o castelo. Era bem o que eu esperava: uma antiga fortaleza de 35 metros ainda de pé. O interior está praticamente todo colapsado, mas ainda é possível caminhar pelos corredores das paredes externas até o topo. Como bônus, poucos visitantes e um guia de áudio que ajuda a imaginar a vida medieval do castelo. Paredes caídas, escadas de pedra, ameias e corredores estreitos, esse é o tipo de coisa que me atinge mais do que a pompa e frescura dos palácios ainda habitados. Pena que lugares deste tipo também costumam ser pequenos (até hoje não vi nada que se comparasse ao castelo de Heidelberg), então tentei aproveitar ao máximo cada canto acessível, esticando por uma hora e meia a visita.
               Fora isso e a catedral (não muito diferente das outras), não há muita coisa para ser vista em Rochester. Aproveitei para almoçar a um preço mais suave que Londres e voltar, chegando às quatro. Como ainda tinha tempo, passei no palácio de Buckingham para cumprir tabela e tirar umas fotos do lado de fora. Dali, foi só retornar ao hotel e arrumar as malas para a ida à York, no dia seguinte.

               Assim terminou minha semanada em Londres. Ainda havia outras coisas que poderiam ser feitas, como ver por dentro a Tower Bridge, o Parlamento e etc. E ainda quero visitar Windsor numa época mais calma. Mas tudo fica cheio na temporada, chega próximo de Paris, e não sei se as visitas compensam as filas e cotovelos. A cidade em si é enorme e não tem um centro histórico definido, daqueles no qual você sai caminhando e vendo uma coisa atrás da outra. O turismo é mais baseado em metrô, lugar X, metrô, lugar Y e assim vai. De qualquer modo, pude aproveitar bastante as coisas que mais me interessavam, com tempo de sobra e sem pressa. As entradas gratuitas nos museus e a cozinha da pousada fizeram com que eu gastasse menos do que temia, pois Londres pesa nos bolsos brasileiros (porém, sem chegar perto da insanidade dinamarquesa). Concluindo, uma cidade rica e fundamental para qualquer viajante conhecer. Mas, dependendo dos seu pique e gosto, pode ser vista em bem menos dias.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Wacken III: o melhor da trilogia?

Antes das aventuras na Inglaterra, seguem as aventuras no Wacken! Como o usual, será um texto maior que a média, pois gosto de falar um pouquinho de cada show visto, além das outras histórias. Então bora lá!

Wacken

               Depois de uma noite descansada no hotel, foi hora de partir novamente para a Terra Prometida dos metaleiros. Deixei o grosso da minha bagagem no próprio hotel, levando apenas o necessário para sobreviver até domingo. Fui para a estação de Altona (sim, ali na Itoupava Seca) para encontrar a Tati, vinda lá de Göttingen, para pegarmos o trem para Itzehoe, e dali o ônibus para o festival. Desta vez, nenhuma bomba apareceu pelo caminho e conseguimos chegar no Wacken em si cedo, por volta do meio dia.
               Tinha chovido um pouco de manhã, o suficiente para criar um pouco daquela laminha querida do ano passado. Como gato encharcado tem medo de céu com nuvens, armamos nosso acampamento em uma colina desta vez, mesmo que a previsão fosse de sol, para não irmos por água abaixo de novo. Ainda quando andávamos por lá, uma húngara nascida na Romênia que vivia na Alemanha (e viva a globalização!) pediu para armar as barracas conosco, pois estava sozinha, e ainda andou com a gente por parte do dia.
               Com bastante tempo antes da primeira banda de interesse, fomos fazer aquelas primeiras coisas para botar a casa em ordem: pegar a pulseirinha e a bolsa com souvenirs do festival; deixar as coisas de valor no armário de segurança; comprar merchandise oficial do festival; andar pela Wackinger Village para ver o que os nerds metaleiros estavam aprontando para esse ano; e, logicamente, pegar o primeiro litrão de cerveja de trigo, para exercitar os bíceps.
               O primeiro show que vimos foi do Haggard, 18:45, em um dos palcos menores. A banda leva longe a lógica de misturar metal com música clássica, de um modo bem mais completo e interessante que a maioria dos que seguem nessa linha. Ajuda o fato de que todas as pessoas que tocam os instrumentos clássicos são membros efetivos, não músicos convidados. Então minha curiosidade era ver como eles organizariam uma dúzia de músicos no palco. Soou muito bem, tudo estava no volume certo e bem audível, menos... a voz do vocalista principal! Essa só foi ser ouvida lá na terceira música, quando viram que o volume estava muito baixo. Fora esse detalhe, o resto do show foi muito bom, baseado bastante no "Eppur Si Muove", o terceiro e melhor dos seus discos.
               Feito isso, fizemos a peregrinação aos palcos grandes, onde logo tocaria o Deep Purple. Por mais clássica que seja a banda, nosso interesse maior era no show que viria depois, e já havia uma multidão no palco ao lado esperando. Por isso, fomos lutar por nosso lugar lá e acompanhamos o show dos velhinhos meio de lado, mais pelos telões. Não conheço muito a banda (shame on me!) e Ian Gillian não tem mais metade da voz de antes, mas eles ainda mandam muito bem, do alto de seus quase setenta anos.
               Mas a expectativa mesmo era para a banda que abriria o True Metal Stage, o maior palco do festival. E bota expectativa nisso, pois estava todo mundo lá para ver, pela primeira vez no Wacken, o Rammstein. Segundo os próprios produtores, a banda era um sonho antigo. Perguntei para Tati porque só agora e ela me disse que, mesmo sendo alemães, os shows deles no país se esgotavam em horas. Tudo porque não são tantos assim e exigem uma baita produção. E toda essa estrutura foi carregada até o Wacken.
               Abriram o show com a primeira música do último disco, "Rammlied", já incendiando a galera. Teve mais duas do disco novo, e de resto tocaram todas aquelas que eu gostaria de ouvir: "Wollt ihr das Bett in Flammen sehen?", "Asche zu Asche", "Sehnsucht", "Du hast", "Bück dich", "Links 2-3-4", "Feuer frei!", "Sonne"... além de várias outras ótimas. Só faltou para mim "Engel" e "Te quiero puta!", mas tudo bem. O show em si foi animal, com cada música tendo uma performance teatral diferenciada. E quando tocaram "Sonne", quem aparece no meio da música, como convidado? Nada menos que o Roberto Carlos alemão, o rei da música brega germânica, e amado por metade dos blumenauenses que conheço: o bom e velho Heino! Passa a régua, fecha a conta: o Troféu Fefeleco de Melhor Show do Wacken já tinha dono.
               Com o Rammstein terminava a primeira noite de shows do Wacken, que sempre é mais curta. Paramos cinco minutos para olhar um tal de Henry Rollings Spoken Word, um ex-músico, jornalista, tentativa de comediante fazendo algo que talvez fosse um stand up ou um tiozinho contando histórias. Não era bom de nenhum jeito, então aproveitamos para tomar banho antes de dormir, um horário conveniente em que não há filas enormes para os chuveiros. Dali foi deitar e tentar dormir, às duas da manhã.
               Logicamente essa foi uma tarefa ingrata, e creio que só rolei e cochilei até a barraca começar a ferver, já umas oito da manhã. Nove e pouco desisti, assim como a Tati. O céu estava totalmente limpo e o sol, muito forte. Foi sem dúvida o dia mais quente que já passamos lá. Muito melhor que a chuva, com certeza, e não tínhamos o que reclamar a Thor e Zeus. Mas isso nos obrigou a, algumas vezes, nos preocuparmos mais com sombra do que com visibilidade em alguns shows. E a tomar vários e vários canecões de... água! Sim, além da inevitável cerveja, nada melhor do que um litrão de água na goela e outro na cabeça para refrescar a vida.
               Como levantamos cedo, conseguimos ver metade do show do Russkaja. É uma banda que faz uma apresentação bem-humorada de rock-ska-música russa e toca praticamente todos os dias nos palcos menores. Depois de alguns anos fazendo isso, deram a eles a oportunidade de tocar em um dos palcos principais. Tá certo que às 11:00 da manhã, mas até que tinha um bom público lá de divertindo.
               Os shows "para valer" começaram com o Tristania, uma banda que já gostei, mas hoje em dia não acompanho. Não faz mais tanto minha cabeça, e, sendo meio dia, foi melhor sentar numa sombra e esperar pela próxima, o Eisbrecher. Esses fazem o tal do Neue Deutsche Härte, ou, traduzindo, "Rammstein metal". O som do Eisbrecher segue de perto o dos irmãos maiores, com menos melodia e mais ênfase no bate-estaca. O show foi muito bom e o vocalista era bem carismático e piadista. Foi uma das várias vezes nesse Wacken que gostaria de entender alemão, e não precisar pedir traduções à Tati depois que todo mundo já tinha rido.
               Fugimos do calor por uma hora e meia no Biergarten, onde aproveitei para comer algo mais substancioso do que espetinhos de carne e cervejas de trigo, para às quatro voltarmos aos palcos grandes. Tati foi ver o Ugly Kid Joe, enquanto eu, com vontade de ouvir um black metal, fui no Ihsan. Não conhecia nada da banda além de saber que era do ex-vocalista do Emperor, então tive uma agradável surpresa. A maioria das músicas é lenta, arrastada ou melódica, focada mais na atmosfera que na agressividade, com boas doses de heavy puro e vocais limpos. Do black, só o onipresente vocal extremo, um dos mais insanos desde a época do Emperor. Mais para o final, Ihsan nos mostrou que ainda tem uma Sombra, e vieram sonzeiras bem violentas regadas a blasting beats. Um show legal que me fará pesquisar pela discografia da banda.
               Após essa hora, nos encontramos de novo e tínhamos um longo tempo até o show. Fomos então passear pela próprio vilarejo de Wacken, que já fica na porta do festival. É realmente um lugar pequeno: possui duas ruas principais e uma ou outra lateral. Nesta época, tudo, mas literalmente TUDO, gira em torno do festival. Cada habitante bota em seu quintal um estande para vender comida ou bebida. Os velhinhos colocam suas cadeiras na varanda para observar o movimento e rir das loucuras da molecada. Os fazendeiros fazem comboios para desfilar com seus tratores na rua. Os religiosos distribuem "Bíblias Heavy Metal", que nada mais são do que Novos Testamentos acompanhados do depoimento de roqueiros e metaleiros cristãos. Em resumo: tudo na mais perfeita paz e harmonia entre uma sossegada vila bem de interior e uma legião de fãs do mais controverso dos estilos musicais.
               Aproveitamos para tirar um cochilo sob a sombra no agradável gramado da igreja local, com as sepulturas das importantes famílias wackeanas ao lado. Daí voltamos ao festival, onde demos algumas voltas e aproveitei para comprar umas camisas de banda difíceis de encontrar no Brasil. Eram nove horas quando começaria o próximo show, e daí tive que tomar uma decisão difícil. Na mesma hora tocava o Mötorhead, banda que adoro, e o Corvus Corax, que não conhecia, mas sabia que era de um estilo que curto. Escolhi, com pesar no coração, o segundo, o que se mostrou uma decisão acertada por três motivos. Primeiro, eu já tinha visto dois shows do Mötorhead em 2011. Segundo, este seria o primeiro show da banda após o vocalista lenda-viva Lemmy quase virar lenda-morta com um problema cardíaco. Pelo jeito ele ainda não estava recuperado, pois, após meia hora e seis músicas, tiveram que deixar o palco porque o vocalista não aguentava mais.
               O terceiro foi simples: o show do Corvus Corax foi excelente. Eles fazem música celta e viking puramente folclórica, com vocais rústicos, uma infinidade de instrumentos tradicionais e um trabalho enérgico de percussão. É o tipo de coisa que não tem nada de metal, ou mesmo rock, mas é adorado pelo público metaleiro (principalmente os europeus), então a banda teve um bom público e ótima aceitação. E dá-lhe pulos, palmas, dancinhas de braços dados e batidas de pé no chão.
               Pulamos direto para o palco ao lado para a headliner da noite, o show de trinta anos de carreira da "rainha do metal", Doro. Quis assistir por puro interesse bibliográfico, pois a moça (nem tanto, já nos seus cinquentinha) é um dos ícones da estilo, embora eu não conheça quase nenhuma música. E dá-lhe aquele heavy metal oitentista puro, com seus refrões para cantar junto e riffs de guitarra básicos. Uma multidão de convidados fez parte do show, e a Doro parecia bem feliz e emocionada, quase uma criança na sua primeira vez no palco, o que foi perfeitamente resumido pela Tati na alcunha "Xuxa do metal".
               Quando terminou, era meia noite e ainda teria shows até três da manhã. Tati foi assistir mais um, mas eu entreguei os pontos e fui tomar banho e dormir, pois o sábado seria barra-pesada. Além de ser o provavelmente o último desta minha sequência de Wacken, a maior parte das bandas que eu queria ver tinha ficado para este dia.
               Claro que nunca se dorme exatamente bem num festival desses, mas estava tão cansado que consegui apagar rapidamente. O dia começou bem mais fresco também, e a barraca demorou mais para esquentar. Levantamos depois das dez e ficamos algumas horas aproveitando as barraquinhas medievais da Wackinger Village, onde pudemos, como sempre, testar nossa (falta de) habilidade com armas medievais. Eu morreria fácil se tivesse que arremessar um machado ou disparar um arco naquela época, mas se fosse um besteiro até que me daria bem...
               Os shows do dia começaram 13:30, com o Fear Factory, os pais do metal industrial. Gosto do som violento dos caras, que mostra como foi inadequado o uso do rótulo para definir bandas como o Rammstein no início de carreira, pois está mais para thrash metal do que para musiquinhas dançantes. Mas não me incomodei de ver o show sentado na sombra.
               O show que veio em seguida era um dos que eu mais esperava, pois o Die Apokaliptischen Reiter é uma banda que gosto muito, mas é quase desconhecida no Brasil e dificilmente faria uma turnê por lá. Não me decepcionei: a banda soou muito bem ao vivo e teve uma performance bem humorada, apesar de ter um pé no metal extremo. Não tocaram minha favorita, "Friede sei mit dir", mas não se pode esperar que cada fã tenha todos os seus desejos atendidos, né?
               Fomos então da Alemanha para a Finlândia, do industrial para o melódico com o Sonata Arctica. Também nunca ouvi o som deles, que é aquele metal melódico mais limpo, cadenciado, cheio de sintetizadores, sem surtos de velocidade. A performance da banda, no entanto, foi muito boa, e o vocalista mostrou um jeito, vamos dizer, extremamente "curioso" de se despedir em um show de metal. Durante o show, as nuvens vieram e uma pancada de chuva se abateu sobre nós. Felizmente foi só nesse momento e o sol voltou depois, então tudo o que tivemos que enfrentar foi mais alguma lama em alguns pontos.
               Gastamos mais algumas horas na Wackinger (sim, é o melhor lugar para passar o tempo lá), o que incluiu o show de uma das bandinhas que tocam todos os dias no pequeno palco do setor. O Wacken vale quase tanto por esses pequenos shows quanto pelos grandes, pois eles escolhem bandas que, além do som com pegada folk que a galera adora, fazem apresentações divertidas. Nesse caso, o Feuerschwanz (algo que pode ser traduzido como "pinto de fogo") vai além e faz uma apresentação teatral de comédia mesmo, junto com seu folk rock feito para pular. Eu gosto do lado "sério" do folk, mas sempre é legal ver uns caras de armadura e roupas medievais prontos para rir de si mesmos.
               Voltamos ao palco principal para ver os pioneiros do doom Candlemass. Conheço apenas os dois primeiros discos da longa carreira da banda, mas não imaginava que o som funcionasse tão bem ao vivo. O som lento, com riffs arrastados e macabros, aliados a um vocal limpo muito acima da média, cheio de feeling, criou o ambiente perfeito para bater cabeça e viajar completamente imerso na música. A cerveja e o hidromel da Wackinger podem ter tido alguma parte nisso, mas foi um dos melhores shows do festival para mim.
               Logo em sequência, outro dos shows mais esperados por nós. Tanto eu como Tati somos fãs do Nightwish (é ou já foi a banda favorita dela) e ambos estávamos decepcionados com os rumos após chutarem a vocalista Tarja Turunen e botarem a meia boca Anette Olzon no lugar. O que de melhor poderia ter acontecido, então, quando há um ano chutaram essa mesma guria e colocaram lá aquela que é, na minha opinião, a melhor vocalista do metal, a ex-After Forever Floor Jansen? Eu tinha tanto a expectativa de ver as músicas da banda ao vivo quanto a de ouvir a Floor, já que o After Forever já acabou. A segunda foi cumprida com mérito: ela canta demais ao vivo, do mesmo modo que nos discos, e possui um carisma fantástico. A primeira ficou devendo um pouco: eles focaram a apresentação no material mais novo, dos discos com Anette. Uma escolha natural até, pelo fato deles terem escolhido o Wacken para gravar um DVD ao vivo, e já tem vários representando as músicas da "fase clássica". Teve, felizmente, algumas do último disco com a Tarja, o "Once", além de duas do meu favorito, "Bless the child". Mas, dos três primeiros discos, apenas "She is my sin" foi tocada (uma ótima escolha, por sinal!). Quando voltaram para o bis e anunciaram uma última música, eu gritava por uma velharia por dento ("Wishmaster", cadêêêê?), mas eles escolheram fechar com mais uma música nova. Isso não se faz nunca em um show, pois não agita ninguém como deveria, e deixa um gostinho amargo na boca dos fãs mais antigos. Não posso negar que foi um puta show do mesmo modo, só ficou esse porém que os deixa de fora do meu Top 3 deste ano.
               O festival se encaminhava para seu final, mas ainda tínhamos uma hora para curtir os arredores antes do último show, 1:45. Nada melhor do que encerrar o último festival com a mesma banda que encerrou o primeiro, o Subway to Sally. Novamente foi um show excelente, e eles estavam soando mais folk do que nunca (a banda é classificada como folk metal, mas o material que conheço não parece muito). Não precisava pedir mais nada, com um final desses.
               Mas o que você faz quando são três da manhã, e você pretende desmontar o acampamento às cinco para pegar cedo o ônibus de volta a Itzehoe? Vai para a barraca dar uma descansada antes da cansativa jornada de volta, não é? Errado! Bem, é o que tínhamos feito nos outros anos, mas desta vez pareceu uma idéia muito melhor pegar o último litrão de cerveja e sair dando voltas no acampamento por duas horas.
               É engraçado como as coisas são diferentes na Alemanha: quando acaba o festival, tudo fecha e as pessoas vão realmente para suas barracas dormir. Você vê poucos pontos onde pessoas ainda se divertem, e raras almas caminhando pelas ruelas de barro. Nós descobrimos locais que nem imaginávamos que existiam, pois a área de camping é muito grande e sempre ficamos por perto da área dos shows. Foi legal pois não foi um final melancólico com clima de "ah, já acabou?", mas divertido e regado a piadas e descobertas nas pilhas de escombros deixados pelo pessoal que já tinha ido embora.
               Melancólica foi apenas a volta em si, na qual cada passo era doído e cada tentativa frustrada de sobrar a barraca, um apocalipse particular. Tivemos a caminhada até o ônibus, depois os 45 minutos até Itzehoe, depois o trem de uma hora até Hamburgo. Tati ainda encararia uma jornada maior até sua cidade, e eu teria que ir até o hotel onde tinha deixado as malas e atravessar a cidade até meu outro hotel, perto do aeroporto. Quando cheguei no hotel, praticamente morto, perguntei se, como eram hotéis da mesma rede, não poderia transferir a reserva para lá. Meus olhos brilharam quando ela disse que sim, só teria que esperar um pouco para um quarto ser liberado. Esperei (ou melhor, apaguei) por um tempo indefinido no hall do hotel antes da moça me acordar e eu me arrastar até o quarto. Pouca coisa pude fazer além de tomar banho, engolir um par de Snickers e deixar na cama, ao meio dia.
               Bati todos os meus recordes ao dormir mais de vinte horas seguidas, acordando só ocasionalmente para ver as horas e rolar de lado. Levantei oito e meia e aproveitei para destruir no café da manhã do hotel. O dia não foi diferente do planejado, para descansar e recuperar as energias. Nem tive ânimo para ir ver o museu da emigração, que tinha ficado devendo na última passagem por Hamburgo. Apenas caminhei até uma rua comercial próxima, onde achei uma lavanderia automática (e foi só ficar cinco minutos parado, olhando para os cartazes em alemão, para um outro cliente me perguntar em inglês se eu precisava de ajuda), uma loja de sapatos (para comprar um substituto para meu outro tênis alemão, que resistiu heroicamente por dois anos e três Wackens) e almoçar uma currywurst (pois não dá para passar pela Alemanha sem comer uma salsicha!).

               O Wacken foi, em uma palavra, fenomenal. É difícil comparar com o primeiro, onde tudo é novidade e também houveram muitos shows ótimos, e fácil de comparar com o segundo, onde a chuvarada forçou a barra e dificultou as coisas. Mas talvez tenha sido o melhor de todos. E, no final, quando eles anunciam algumas bandas já confirmadas para o ano que vem, dá vontade de já comprar o ingresso de novo... Bem, talvez eles não esgotem antes de dois meses, então ainda dá para pensar no assunto!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os saques vikings do século XXI

Primeiro post da viagem, e ele tem só três páginas! Iei!

Copenhague

               De Floripa a Copenhague, foram 22 horas de viagem. Pela primeira vez, me senti cansado, parecia que a viagem nunca acabava. O avião transoceânico da Swiss também era diferente dos que eu tinha pego antes. Nas laterais, eram fileiras de dois bancos, não três. A parte boa é que era praticamente garantido que não teria ninguém ao meu lado. A parte ruim foi tentar dormir. Nunca desejei tanto ter um metro e meio de altura...

               Nas outras viagens, eu chegava no local perto das onze da manhã. Dava para chegar no hotel, comer alguma coisa e morrer na cama cedo. Desta vez, foi apenas quatro e vinte, em estado perfeitamente zombiático. Mais um tempo de trem do aeroporto à estação central, pausa para o primeiro (de muitos!) McDonald's e uma curta caminhada da estação até o hotel. Não era grande coisa, mas suficiente para mim, e com uma localização privilegiada. Mudar a mala de lugar toda vez que abria a porta e ter um chuveiro praticamente conjugado com a privada são meros detalhes. Quase chorei de emoção ao ver um ventilador no quarto, pois não tinha nada de nórdico no clima daquele sábado.

               No fim, fui dormir só lá pelas dez. Em vez acordar relativamente cedo após a hibernação, com o relógio biológico em dia, só levantei às onze, ainda não plenamente recuperado. Que estratégia melhor, então, do que passar o restante do dia em um lugar só? Desci do hotel e literalmente na esquina estava o Museu Nacional, com uma interessante coleção de material da história dinamarquesa. Com destaque, logicamente, para os vikings (além das ricas exibições normais, estava rolando uma mostra temporária sobre os bonitões, com o criativo nome de... "Viking"). Então pude experimentar uma boa dose de cultura nórdica, dos potes aos machados, passando pelos corpos mumificados da Idade do Bronze encontrados nos pântanos.

               Ao estudar a história viking, é curioso ver como a fama estereotípica deles como saqueadores de cidades e monastérios cristãos se refere a um período relativamente curto da dita "Era Viking", mais ou menos entre 750-850 d.C. No restante do período (lá pelo fim do século XII) eles estavam mais preocupados em explorar, colonizar e, claro, guerrear, mas de um modo mais organizado, buscando a conquista efetiva, não só pilhar-matar-destruir. O último século da dita era viu a progressiva cristianização dos nórdicos, e formalmente se encerra quando o paganismo se encontrava virtualmente extinto e os vikings já estavam completamente integrados na sociedade européia cristã medieval.

               Saí do museu com seu fechamento. Os dinamarqueses não prezam tanto por horários extensos, a maioria dos lugares turísticos abre às dez e fecha às cinco. Caminhei um pouco pelas ruas, me assustando com os preços de tudo. Tá certo que a Europa é cara, ainda mais com as cotações atuais, mas Copenhague é sacanagem. A coroa dinamarquesa vale 40 centavos de real, mas é normal pagar 40 coroas por um café num ponto turístico, ou duzentas por uma refeição razoável na rua, ou mesmo 14 por UMA barrinha de Snickers! Por isso vivi praticamente só de McDonald's, já que, pelo menos nesse caso, o preço não difere tanto do Brasil (65 coroas por um menu grande - é só escolher as saladas para não se sentir tão envenenado!).
               Pude dormir cedo para estar mais inteiro na segunda feira, o Dia Maldito dos Museus. Aproveitando que muita coisa estaria fechada, fiz um dia biológico à base de zoológico e aquário. No zoo cheguei dez e meia, pouco depois da abertura. Não era muito grande nem tinha espécies muito diferentes, mas eu sempre me divirto nesses lugares e, como já falei outras vezes, é diferente de ir num zoológico brasileiro, pois você vê os bichos bem de perto. Nesse caso, tão perto que até era possível alimentar as girafas. O destaque ficou por conta do recém-inaugurado complexo dos ursos polares, onde vidros e um túnel subaquático permitem ver os grandões por todos os ângulos, a centímetros de distância. Saí relativamente cedo, às quatro, já que a jaula dos lobos estava fechada e não pude gastar duas horas só contemplando eles.

               O zoo foi legal, mas dentro do normal. Diferente do Aquário Nacional, o melhor lugar que visitei em Copenhague. Antes, para chegar na estação de metrô, cruzei um grande e bonito parque, daqueles em que você entra e sente como se não estivesse em uma cidade, e as pessoas se jogam na grama ou sob as árvores para curtir o dia. Depois, atravessei a cidade para chegar no aquário, que fica lá para os lados do aeroporto. Como ele funciona com horário estendido nas segundas, estava cheio, mesmo às cinco da tarde, mas isso não atrapalhou muito. É um baita centro construído no ano passado só para funcionar como aquário, então eu esperava que fosse diferente daqueles que tinha visitado em zoológicos, e não me decepcionei.

               Os vários ambientes aquáticos do mundo estão representados, como Amazônia, África, recifes de coral e etc. Mas, sem dúvida, o que mais chama a atenção é o imenso aquário oceânico, com uns sete metros de altura, com tubarões, meros, moréias e cardumes inteiros de peixes menores. Além de um túnel que passa por dentro dele e dá uma visão de 360°, um dos lados consiste em um paredão de vidro e uma pequena arquibancada, na qual dá para sentar com uma cerveja e curtir os peixes nadando. É como assistir no cinema aquele velho descanso de tela do Windows, só que real. Fiquei duas horas e meia por lá e depois rumei direto ao hotel (apenas com uma pausa para dar um oi ao palhaço Ronald).

               Acabou ficando para meu último dia aquilo que usualmente se faz primeiro: a andança pela cidade para ver igrejas, prédios, parques e outros pontos de interesse. Comecei, entretanto, por mais um museu, também na porta do hotel: a Ny Carlsberg Glyptotek, que possui uma excelente coleção de estátuas e outros artefatos de várias culturas da Antiguidade.Também coleções de quadros e artistas mais modernos, mas não é minha praia, então nem cheguei a ver.

               Depois fui andar pelo centro. A cidade não é particularmente bonita, mas ainda é pontuada por diversos prédios antigos, facilmente reconhecíveis pelo estilo de tijolos vermelhos. O centro possui uma rede de ruas só para pedestres cercadas de lojas e cafés, por onde uma galera transita e muitos artistas de rua se exibem. Há igrejas em profusão, mas não me chamaram muito a atenção. Nenhuma assombra pelo tamanho, e os interiores são no austero estilo protestante. Quando visitei Munique, achei que a predominância de paredes brancas com pouca decoração era um efeito da reconstrução pós-guerra, mas ali em Copenhague (que, até onde sei, não foi intensamente bombardeada) a aparência é bem semelhante. Exceção à regra é a Igreja de Mármore, construída para imitar o domo da basílica de São Pedro. É bem parecido, mas basicamente só o domo, nem se comparando em altura e tamanho total. Ao menos o interior é decorado e com afrescos, bem diferente do tédio das outras.

               Nas minhas andanças ainda passei por alguns palácios e locais turísticos, mas só para ver mesmo, pois não tinha tempo para conhecê-los por dentro. Não sei o quão chamativos seriam também, pois alguns continuam a ser usados pelo governo e realeza. Também atrapalhou o fato de que, após dois dias bonitos, a tarde ficou chuvosa e com vento.

               Durante o passeio, também não pude deixar de entrar em uma loja de brinquedos, para apreciar a rica coleção de Legos de todos os tipos. É claro que bateu aquela vontade, já que há tempos estava querendo comprar um, por pura bobagem nostálgica, mas os preços no Brasil são absurdamente caros. No fim da tarde, quando voltei ao hotel, pesquisei na internet qual era a diferença real de preço. Menos da metade do Brasil! Corri para a loja e peguei uma baita caixa do Senhor dos Anéis. Não que tenha custado barato, e ficou apertado na mala, mas ao menos me senti uma criança bem feliz!

               Mesmo já tendo gasto bastante em brinquedo, decidi, depois de tanto Big Mac, enfiar o pé na jaca na última refeição e experimentar coisas tipicamente dinamarquesas. Também ao lado do hotel havia um bom restaurante, e o primeiro prato que pedi era descrito como "arenques preparados de três formas diferentes", acompanhados de pão de centeio. Quando o prato chegou, achei que tinha voltado a Blumenau e pedido três rollmops decorados. Mas havia apenas uma semelhança superficial na aparência, pois o gosto era completamente diferente (dois eram adocicados, o outro mais picante, nenhum deles com gosto de vinagre). Só que era um pratinho miado, então tive que pedir outro: um legítimo smørrebrød (nada mais que carnes e firulas montadas sobre uma fatia de pão) de enguia defumada. O primeiro prato foi bom, o segundo foi delicioso. O próprio pão é diferente, feito com grãos inteiros de centeio. Deve ser uma dureza para encarar todo dia, mas caiu muito bem em uma refeição de turista. Claro que os viking fizeram sua pilhagem novamente, e gastei 320 coroas para sequer encher a barriga, mas valeu a pena por ter experimentado coisas diferentes.

               No outro dia, apenas fui para a estação pegar o trem rápido para Hamburgo,  numa viagem de quatro horas e meia que inclui um trecho de 45 minutos de ferryboat para atravessar da Dinamarca à Alemanha. Em Hamburgo, só fiquei de boa no excelente hotel, me preparando à Terra Prometida no dia seguinte. Isso incluiu passar num mercado para comprar suprimentos. Depois da Dinamarca, poder comprar um pacote com CINCO Snickers por menos de dois Euros foi como ser o Bill Gates comprando alface na feira da esquina.


               Copenhague não se destaca muito dentre os lugares onde já fui. Os dois museus e zoo/aquário foram as partes que mais curti. Talvez se estivesse no meio da viagem e já visto várias coisas, me chamariam menos a atenção (fora o aquário), mas, de qualquer modo, gostei bastante. No dia a dia, lembra a Alemanha, no modo como as coisas são feitas. E parece que todo mundo fala inglês, dos moleques aos tiozões, então o "do you speak english?" nem é necessário. Mas o maior problema é que é tudo muito caro, até para os padrões europeus. A capital vale a visita, mas não creio que valha a pena fazer uma viagem mais longa por lá, pelo que o país tem a oferecer.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fefeleco’s trip parte III: o confronto final

Como em uma trilogia de cinema, chega no inverno o último capítulo da saga de viagens do Félix na Europa. Não, não quer dizer que eu jamais voltarei a enfrentar o olhar sisudo dos alemães ou mergulhar no azul do Egeu. Muito pelo contrário, pois existe a possibilidade de, já no ano que vem ir, para a terra dos ancestrais morar uns bons anos, com o doutorado como descul... uhm, “motivação”.

Entretanto, em matéria de grandes viagens turísticas, vou dar uma sossegada. Há muitos outros lugares a serem desbravados, e outros pontos nos quais investir tempo e recursos. Sim, viajar é um dos melhores investimentos possíveis, e tenho que agradecer aos deuses por ter conseguido fazer tanto em tão pouco tempo. Mas nem salário de servidor público com vida de estudante agüenta uma dessas todo ano. Mesmo porque, assim como o retorno de um rei, a vingança de um Sith ou uma última cruzada, esta terceira parte contará com o maior orçamento da série. Espero que siga o exemplo e seja, também, a melhor de todas!

Não é só a disparada absurda das cotações nos últimos meses a causa do prejuízo, mas também escolhi, inconscientemente, locais naturalmente caros. Menos mal, pois significa que pesariam no bolso em qualquer situação, não só agora. O negócio é ir com bolso cheio, cartão de crédito liberado e um sorriso na cara, para aproveitar ao máximo a nova jornada.

E qual o mapa da aventura? Também sem muito perceber, montei neste ano um roteiro bem viking, uma das culturas mais fascinantes do Velho Mundo, tanto por sua história inicial de paganismo e terror nos corações cristãos medievais, quanto pelo seu momento posterior de desbravamento de novas terras, chegando tão longe quanto a América séculos antes de qualquer português esticar o pescoço além da costa européia.

Tudo começa na ponte aérea Floripa-Copenhague. A Dinamarca foi escolha fácil, considerando a proximidade com o Wacken e o fato de ser o lugar menos frio para conhecer legítimas terras vikings. Ficarei quatro noites lá, com tempo para bate-e-volta em alguma cidade de interesse próxima. Neste ano, preferi fazer assim: estabelecer uma base na capital e ficar mais livre para explorar as redondezas como quiser, sem cronogramas fechados e reservas de uma noite em mil hotéis.

Depois, desço de trem para Hamburgo em um dia, só para ir ao Wacken no outro. Este ano é, talvez, o melhor de todos os três em matérias de bandas que curto, então espero que o clima colabore! Depois do festival, volto a Hamburgo por duas noites, usando o tempo para me recuperar da quebradreira e, talvez, visitar um local que deixei para trás no ano passado. E é só de Alemanha por este ano. Deixo novos passeios para um futuro quem sabe próximo.

De Hamburgo, voarei para a maior cidade européia, que, graças às Olimpíadas, deixei para trás no ano passado. Terei nada menos que seis noites em Londres, para conhecer os fantásticos museus e relíquias medievais da cidade, além de explorar as redondezas. Sim, faltará tempo em uma cidade tão cheia de coisas, mas será legal poder passar um dia todo num museu ou no zoológico, sem pressa e preocupação.

Em seguida, atravesso meia Inglaterra de trem para chegar ao segundo destino viking da viagem: York. Ali serão duas noites, apenas para ter um dia completo na mais importante colônia nórdica na Grã-Bretanha. Convenientemente calculado, o litoral oeste do país fica relativamente perto, para onde irei pegar um ferryboat em direção a outra importantíssima cidade fundada pelos barbudos: Dublin. Serão cinco noites e, provavelmente, gastarei alguns dias fazendo passeios a outros pontos da Irlanda, país pequeno que permite esse luxo.

Daí entro na última etapa da viagem, virando tudo de pernas para o ar. Atravesso o continente inteiro para sair do verão com cara de outono do norte da Europa para mergulhar novamente no magnífico verão mediterrâneo. Afinal, eu jamais viajaria para a Europa sem visitar meu país do coração novamente (sim, já tou cheio de intimidade!). E é para a Grécia que volto mais uma vez, para conhecer lugares diferentes. O primeiro, Égina, é uma ilha bem próxima de Atenas e fácil de chegar, com algumas coisas interessantes para ver. Depois de duas noites lá e uma num hotel ao lado do porto de Atenas (por questões de logística), pego um ferry para meu destino final, Míconos, a mais badalada ilha da Grécia. Não é o agito que procuro lá, e sim a vizinha Delos, uma ilhota-sítio arqueológico dentre os mais importantes da Grécia antiga. Mas, em fim de viagem e com quatro noites em Míconos, tudo o que vou querer também é apenas relaxar e curtir as praias e paisagens, antes de retornar ao inverno meridional.

Então é isso. Com uma câmera na mão e milhares de páginas de História na cabeça, é hora de começar a diversão. Não perca a estréia, nesta sexta feira, e atualizações periódicas em um blog e Facebook pertinho de você!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

It's the final countdown!

    ... de três horas até embarcar no avião para Floripa. E isso que já estou há uma hora e meia aqui no Rio. Mas vamos ser rápidos e rasteiros, pois tem muita coisa aí embaixo, sobre os últimos nove dias e tudo mais.

    A ida até Ancara contou com mais um rolo na rede de ônibus, algo que parece comum aqui (vejo gente discutindo e reclamando com os caras das empresas o tempo todo). O ônibus, que era para ser direto de Göreme à capital, primeiro virou um mini-ônibus que nos levou até a rodoviária de Nevsehir. Ali, um funcionário colocou nossas bagagem em um ônibus grande, mas logo apareceu outro mandando ele tirar. O ônibus grande foi tirado da garagem e colocado no estacionamento. Ficamos daí um tempão ali esperando, sem que eu tivesse idéia do que estava acontecendo.

    Depois de algum tempo, apareceu um mini-ônibus e os caras da empresa sinalizaram para o pessoal entrar. Uma velhinha turca começou a berrar furiosamente com os funcionários, junto com reclamações dos outros turcos. Conversei com outro turista que entendia algo de turco e ficou claro que queriam que fizéssemos a viagem de 300 km no mini-ônibus. Quando apontávamos para o ônibus grande, os funcionários só falavam “problem, big bus problem”. Ficamos com a forte suspeita de que, por ter pouca gente na viagem (15 pessoas), eles não quiseram mandar o ônibus grande.

    No fim, nem o escândalo da velhinha adiantou e acabamos embarcando no troço apertado e sem telinhas amigáveis com música para escutar. O menos mal foi que o mini-ônibus andava mais rápido, então chegamos às seis, “apenas” com uma hora de atraso, depois das duas horas de atraso antes de partirmos. Göreme (a empresa, não a vila), nunca mais!

    Com metrô à disposição, foi rápido chegar no hotel. Este, mesmo bem barato, era um nível acima dos que fiquei na viagem. Era daqueles bem completos, com restaurante, várias coisinhas de conveniência (de pantufas a estojo de costura), decoração bonita e quarto confortável. O que foi ótimo, já que passei uma boa parte do tempo em Ancara ali mesmo.

Ancara

    Antes de sair de Göreme, falei para Mustafa que ia para Ancara. Ele me olhou meio estranho e perguntou: “mas o que você vai fazer lá?”. Falou que até duas noites já era demais. E eu no fim fiquei três, pois, quando vi o problema do aluguel de carro e fiz a reformulação em cima da hora pouco antes da viagem, transferi o tempo de Bogazkale para lá. Não é uma cidade bonita e há pouca coisa particularmente legal para ver, pois a cidade ganhou mais importância apenas com o estabelecimento da República Turca em 1923, quando a capital foi transferida de Istambul para lá. Aliás, o nome “angorá” é derivado de Ancara, pois de lá vieram os gatos, ovelhas e coelhos que carregam este nome. Pronto, vocês já não podem dizer que não aprenderam nada hoje.

    No dia seguinte à minha chegada, fui então para o único lugar que realmente queria ver por lá, o Museu das Civilizações da Anatólia. É um museu bem famoso, tendo até ganho o prêmio de Melhor Museu da Europa em 1997, um ano depois de ter aberto as portas. A coleção reúne peças de todos os povos que já habitaram a Ásia Menor, e bota povo nisso: Hattianos, Hurritas, Hititas, Assírios, Frígios, Lídios, Gregos, Romanos, Bizantinos, Árabes, Turcos Sejlúcidas, Otomanos... Como um lugar onde floresceram alguns dos primeiros impérios do mundo, e estando no caminho entre Europa e Ásia, não é a toa que a área tenha passado por tantas mãos.

    Tendo apenas isso para realmente ver na cidade, cheguei tarde, umas onze e meia, e estava preparado para passar o resto do dia lá. Então imaginem minha cara quando fui informado já na entrada que a maior parte do museu estava fechada para reformas. Apenas um dos vários salões estava realmente montado e organizado, e peças importantes dos outros salões estavam colocadas no pátio central, de forma totalmente acronológica, atemática e ilógica. Tentar seguir a ordem do guia de áudio era impossível, além de várias peças indicadas nele estarem faltando.

    Fiz o que deu para aproveitar. O salão organizado (com os achados mais antigos, indo do Neolítico ao começo da Idade do Bronze) deu uma mostra do quão bom o museu deveria ser, pois tinha peças realmente espetaculares, bem diferentes do que eu já tinha visto, e abundância de informações em inglês. O salão central tinha muita coisa legal, mas a completa desorganização tirou a graça. No fim, saí depois de duas horas. Melhor Museu da Europa, só se for em 1997. O único prêmio que o museu ganha em 2012 é o Troféu Fefeleco de Decepção da Viagem.

    Sem muito ânimo para sair andando pela cidade quente e barulhenta atrás das migalhas de certo interesse que ainda sobravam, fui é para o hotel, ficar bodeando no quarto e pensando no que fazer em seguida. A principal coisa que eu queria ver na região era o sítio arqueológico de Hattusa, a antiga capital hitita. Tinha ouvido falar de excursões de um dia que saíam de Ancara, mas não encontrei nada muito claro no Google e o pessoal do hotel não pôde me ajudar (mal entender o que eu falava eles conseguiam...). Na rodoviária, no dia anterior, tinha perguntado como era ir para lá, e o cara de uma empresa me informou que não havia ônibus para o cú de mundo que é Bogazkale, o vilarejo ao lado do sítio, mas o esquema era ir até uma cidade próxima e depois pegar um mini-ônibus para lá. Nada diferente do que eu já tinha feito, só que a viagem toda era estimada em quatro horas.

Fiquei pensando se valia tanto o tempo e o esforço, quatro horas de ida e quatro de volta, para ver um lugar que não tem praticamente nada remanescente. Mas a passagem era barata e, se eu ficasse em Ancara, o que ia fazer? Ficar o dia todo no hotel? “Ora, Félix, no futuro, quando todo o planeta estiver embaixo da água, você vai querer falar para os seus netos que viu Hattusa ou que ficou dormindo em Ancara?”.

    Seis e meia do dia seguinte estava de pé, a tempo de pegar, às oito, o primeiro ônibus que ia para Sugurlu, a tal cidade próxima. O ônibus não tinha uma grande seleção de rock, mas um interessante canal clássico que ia de Beethoven e Bach à “O Fortuna” e a versão de “Nothing Else Matters” do Apocaliptika. Não foi tão difícil aguentar a ida, então. Vinte liras por uma viagem de 200 km com serviço de bordo e ônibus bem equipado, em um país onde o litro da gasolina custa 4,5 liras (lembrem-se que a lira tem o valor parecido com o Real). E aí, Catarinense, como fica a viagem de 150 km para Blumenau que nem água tem e custa 40 contos?

    O duro foi chegar a Sugurlu, onze horas, e ver que tinha caído na Pegadinha do Turco de novo. A platéia deve ter se matado de rir ao me ver perguntar para os motoristas sobre o mini-ônibus para Bogazkale e ver eles não terem a menor idéia. Ao sair de onde o ônibus tinha parado para a rodoviária, fui abordado por um taxista, que também não entendia inglês. Mas, com muito custo, conseguiu me dizer que o táxi só para ir a Bogazkale era 90 liras, ou que eu poderia pagar a bagatela de 200 liras por o tour de táxi, em que ele ficaria o dia à minha disposição para visitar o sítio. Não estava esperando gastar tanto, então fui até a rodoviária, onde todos me disseram que não tinha mesmo mini-ônibus para lá. E, pior, o último ônibus de volta a Ancara era 17:00, então teria que voltar mais cedo do que previa.

    O taxista, que tinha visto naquele turista perdido uma presa fácil, não tinha largado do meu pé ainda. Sem muita alternativa, lá fui eu. Afinal, em viagem, dinheiro é mato, não é?

Bogazkale (Hattusa)

    Chegando em Bogazkale, a primeira coisa que fui ver foi o Santuário de Yazilikaya, um antigo santuário a céu aberto dos hititas. É pequeno, mas possui alguns altos-relevos legais que sobreviveram na formação rochosa que cerca o santuário, com figuras de deuses hititas e alguns de outras culturas que foram sincretizados na religião deles. Ali um guri um pouco mais novo que eu, Mahmud, começou a me acompanhar, mais para treinar o bom inglês que tinha, segundo ele. Claro que sei que a coisa não é bem assim, então, quando ele se ofereceu para me acompanhar a Hattusa, perguntei se era um guia pago ou algo assim. Ele falou que apenas gostava de acompanhar os turistas, embora, é, claro, eles geralmente dessem uma gorjeta. Como estava com saudades de ter uma conversa de verdade com alguém e ele conhecia bastante coisa sobre os sítios, aceitei sua companhia, nem que fosse apenas para servir de tradutor.

    Depois de parar para almoçar em Bogazkale, subimos até o sítio de Hattusas. Foi providencial estar de carro, pois, quando você vê distâncias de quatro ou cinco quilômetros no Google Maps, ele não te diz imediatamente que podem ser quatro ou cinco quilômetros de subidas e descidas entre os montes e penhascos da antiga capital. É extremamente complicado visitar o sítio a pé, por isso há uma estrada por onde carros e mini-ônibus transitam para alcançar os pontos de maior interesse.

    Cabe aqui explicar por que tanta vontade de ver o diabo da cidade antiga, que pouco mais apresenta atualmente do que as fundações dos edifícios. Talvez seja porque os hititas foram o meu primeiro passo na História além da escola, quando li a série “Ramsés” no começo do ensino médio. Ali tinha papel proeminente uma civilização sobre a qual nunca tinha ouvido falar nos livros, que pulavam do “o mundo começou com Egípcios e Sumérios” direto para os reinos babilônicos e assírios antigos. Ou talvez seja porque a campanha do demo de Age Of Empires seja com eles e, como eu não tinha o jogo completo, só me restava jogar ela uma vez atrás da outra. De qualquer maneira, uma coisa é certa: eles são antigos. Uma verdadeira civilização imperial da Idade do Bronze, que floresceu no segundo milênio a.C. Enquanto os cretenses construíam um palácio grande, os hititas construíam cidades inteiras. Enquanto os gregos viviam uma era nublada pela mitologia, os hititas faziam história.

    Era uma questão de honra, portanto. Mas nem por isso o sítio se torna interessante apenas para aqueles que têm pôsteres de reis hititas na porta do quarto (não é meu caso, relaxem). Embora pouco tenha sobrado dos prédios, a localização da cidade vale por si só, espalhada por sobre alguns montes e delimitada por colinas abruptas e penhascos. Os hititas souberam tirar valor da topografia, fortificando as colinas com muralhas e portões, que são as partes mais bem preservadas. Não devia ser fácil invadir a cidade, embora isso tenha acontecido no século XII a.C. e colocado um fim no império. A paisagem é desolada, como todo planalto da Anatólia, e a absoluta falta de grandes concentrações urbanas nas redondezas contribui para o clima.

   Mahmud foi de grande valia no passeio, me apontando coisas interessantes que não estavam nos cartazes explicativos. No final, dei uma boa gorjeta, embora ele tenha ficado naquela de “oh, não precisava”. Podem me achar inocente, mas pareceu realmente que ele estava fazendo aquilo tanto pela diversão quanto pela oportunidade de ganhar uns trocados.

   Finalizada a volta em Hattusas, era apenas duas e meia da tarde. Como teoricamente tinha o taxista pelo dia todo e, no meio das palavras descoordenadas da primeira conversa, ele tinha mencionado Alacahöyük (saúde!), pedi a ele para me levar lá. É outro sítio hitita que fica entre Sugurlu e Bogazkale, fazendo parte do Complexo Hattusas (o nome que se dá ao conjunto de remanescentes hititas encontrado na área, que é... adivinha? Sim, Patrimônio Cultural Da Humanidade! Cinco em nove dias! Ieba!).

    O sítio em si é bem menor e menos impressionante que Hattusa. Tem como maior destaque uma série de tumbas de reis (ou assim os arqueólogos acham) hurritas (um povo que habitou o local antes dos hititas) dos (parênteses!) séculos XXV – XX a.C. O pequeno museu em anexo não tem grandes novidades, pois os achados mais importantes estão lá em Ancara. No fim, fiquei apenas uns 40 minutos por ali.

    De volta a Sugurlu, eu estava bem feliz. Tinha curtido bastante o passeio e me conformado com o gasto. No fim, era tão ou menos caro do que ter alugado um carro para ter ido até lá. Só que, na hora de pagar, o turco tirou outra carta da manga. Duzentas liras era o preço da visita para Hattusas. Alacahöyük era extra. Ele me mostrou o taxímetro ligado: mais 150 liras para o espaço. Na minha cabeça, estava tudo incluso, porque ele ficaria o dia todo comigo, tinha dito que “tempo não era problema” e mencionado alguma hora o outro sítio. Pego de surpresa, sem sequer conseguir me comunicar com ele, e nem tendo certeza do que ele tinha dito antes, não consegui comprar briga. Dei a grana, o que praticamente me zerou, e saí puto do táxi. Aquilo azedou legal meu humor e fiquei com vontade de mandar à merda todos os turcos à minha volta.

    Demorou bastante tempo para dissipar a raiva. Era menos dor no bolso do que no coração, por me sentir feito de trouxa desde o momento em que o safado da rodoviária falou sobre o mini-ônibus. Mas, passado um dia, essa sensação ficou para trás, ficando apenas um rancor de todos os taxistas turcos que passaram pela minha frente até o fim da viagem, e não me arrependo de ter feito o passeio. Teria me arrependido profundamente se não tivesse ido, na verdade. Mesmo tendo custado mais de 400 liras e me obrigado a sacar uma grana adicional no caixa eletrônico (viva a globalização!), foi uma oportunidade única de realizar um sonho. Mas um investimento de algum tempo a mais nos dias anteriores para achar uma excursão de um dia poderia ter me economizado bastante dinheiro e estresse.

    Cheguei ao hotel pouco depois das nove. Estiquei o sono até dez e pouco do dia seguinte, a tempo de ainda pegar o café da manhã. Duas horas caminhei um pouco até o local de onde saem os ônibus para o aeroporto, e lá fiquei por algumas horas até meu vôo, seis e meia. Depois de ter comido meu último McDonald’s lá em Hamburgo, até que gostei de comer fast food de novo enquanto esperava, no Burguer King.

    Ancara foi realmente uma perda de tempo. Eu tinha incluído ela porque era caminho no meu roteiro anterior, mas na reformulação poderia até ter ido da Capadócia a Istambul direto. Valeu por conhecer os sítios hititas, mesmo com a filho-da-putice do taxista, e só. Muito pouco para um lugar no qual gastei tanto tempo.

Istambul

    Cheguei à capital da Turquia... ops... à principal cidade dela sete e meia e levei mais uma hora para chegar do Aeroporto B da cidade ao centro. O treco não chegava nunca, porque Istambul é enorme. Mais alguns minutos de taxi (armado de todos os mapas e distâncias estimadas, para evitar golpe – gato escaldado...) e cheguei ao meu pequeno hotel, bem na região histórica da cidade. E em ruelas onde um milhão de hotéis iguais existem. Mas nem por isso o quarto deixava de ser bom e tinha uma iluminação de LED azul que o deixava como um lounge de festa eletrônica. Ou quarto de motel.

    Somando ainda o tempo de caçar um jantar tradicional (McTurco no McDonald’s – sim, existe), fui dormir um pouco tarde. O que me fez acordar no limite para o café da manhã e sair para andar pela cidade perto das onze. O primeiro dia foi assim, bem de leve, andando pela parte histórica da cidade e vendo alguns pontos de interesse. Comecei, claro, pelo principal: Hagia Sofia (Ayasofia, Santa Sofia, Igreja da Santa Sabedoria e por aí vai). O lugar por onde todos começam, acho, porque tinha uma bela fila para entrar. Mas, depois disso, não tem incomodação, pois, mesmo com uma galera, é difícil aquilo lá ficar apertado.

Ela não é nem de perto a maior, ou a mais antiga, ou a mais bonita construção religiosa do mundo, mas duvido que tenha alguma outra no Ocidente que combine do mesmo modo as três coisas (não tenho conhecimento para falar do Oriente). O imenso aposento principal e o domo possuem 56 metros de altura, metade da Basílica de São Pedro. Mas o treco foi construído mil anos antes da basílica, no ápice do Império Romano do Oriente, na metade do século VI. Não existia nada no mundo que sequer se aproximasse dela na época em que foi feita e assim continuou a ser por quase um milênio. Tão imponente era que, quando os turco-otomanos conquistaram Constantinopla em 1453, não a abandonaram ou depredaram, mas transformaram-na em mesquita.

É difícil imaginar o impacto absurdo que ela causava em qualquer visitante daquela época, ainda mais com todos os mosaicos originais com cenas cristãs. Como os bizantinos tinham essa tradição de mosaicos, em vez de apenas afrescos, muitas coisas sobreviveram em bom estado até hoje. Os turcos, é claro, pintaram e cobriram tudo com reboco, pois, embora Jesus seja considerado um profeta no Islã e as cenas tenham significado para eles, sua religião proíbe a reprodução de pessoas e outros animais em obras religiosas. A partir do momento em que Hagia Sofia deixou de ser templo para ser apenas museu, na década de 20, os mosaicos foram sendo redescobertos e restaurados. Até pouco tempo ela ainda estava em restauração, mas agora não tem nada de andaimes e panos para atrapalhar a visão.

E ela é... adivinha, adivinha... Isso mesmo! Seis em onze dias! Praticamente um fiscal da Unesco!

Depois de uma hora ali, dei uma passada nos mausoléus dos sultões enterrados nos fundos da Hagia Sofia e atravessei a praça para entrar pela primeira vez em uma mesquita, a enorme Mesquita Azul. Tinha lido recomendações de que roupas curtas, incluindo shorts masculinos, não são bem vistos pela galera. E que sempre se tira os calçados ao entrar em uma mesquita. Então minha solução foi simples: calça e Havaianas. O primeiro ponto é irrelevante: pelo menos nestas que são grandes atrações, a turistada entra de boa com roupa um pouco mais curta (mulheres às vezes tem que cobrir os ombros com um pano). O segundo ponto é real, todos os fiéis e forasteiros precisam tirar os calçados para entrar.

A estrutura de uma mesquita não tem nada a ver com a de uma igreja. Não tem bancos, não rolam missas, não tem altar propriamente dito (só uma paradinha simples que indica a direção de Meca). Na frente sempre tem um grande pátio interno. Dentro, é um grande aposento único. No caso da Azul, quatro colunas enormes dominam o ambiente, além do domo principal. Na metade, o pessoal coloca uma cerca de madeira que delimita a área para turistas e fiéis. Homens, claro, pois mulheres não podem entrar ali e rezam apenas em aposentos meio escondidos nos fundos. Como eu vi alguns caras ali que não tinham a menor panca de islâmico, entrei também na “área proibida” para tirar umas fotos. Fora do horário das rezas (mais sobre isso adiante), não tem grande problema, aparentemente. Mas, como na primeira vez entrando na casa de um desconhecido, mantive uma atitude estritamente respeitosa (o que nem todos os turistas fazem), morrendo de medo de criar uma mini-Jihad a qualquer momento. Na hora em que cruzei por acidente a frente de um grupo que estava começando a oração e o cara me segurou e olhou feio, achei que era a hora de disparar.

Mas, correndo o risco de atrair a ira de Alá para mim, posso dizer que mesmo a Mesquita Azul, consideradas uma das mais bonitas do mundo, não é tão interessante quanto as igrejas cristãs equivalentes. Sim, ela impressiona de cara com o porte e as decorações geométricas e de folhagens (os arabescos) e as escritas artísticas em língua árabe, que são mesmo muito bonitas. Mas a falta de imagens torna a decoração um pouco limitada e repetitiva. Não dá para gastar tanto tempo dentro de uma quanto de uma igreja cheia de firulas (mesmo essas acabam parecendo meio iguais depois que você vê um monte delas...).

Dos pontos que passei depois, destaco a Cisterna da Basílica, uma cisterna coberta criada pelos bizantinos que ocupa um espaço imenso recheado de colunas. Foi mantido um espelho d’água habitado por inúmeras carpas e o pessoal anda por passarelas em meio à penumbra fria e úmida, iluminada por luzes vermelhas. Não gastei mais do que meia hora ali, mas vale a visita pela atmosfera do lugar.

O segundo dia foi bem mais simples: passei o dia todo no Museu de Arqueologia de Istambul. Tinha muita coisa legal lá e também eu ainda não tinha ido a um museu arqueológico grande e bem organizado nesta viagem (Ancara, vai tomar no c*). Mais de duas horas foram só no setor chamado Museu do Oriente Antigo, que tem artefatos daquela que é minha região e período favorito na História, o “Oriente Próximo”. Sumérios, assírios e babilônios sempre fizeram minha cabeça, não sei muito bem por que. Tem várias outras coisas legais lá, incluindo peças de algumas culturas que pouco tinha visto em museus mais ocidentais, como árabes pré-islâmicos, hebreus e fenícios.

Para entrar, comprei um passe que custa 72 liras e vale por 72 horas, permitindo uma entrada em cada um dos principais museus da cidade. Além de valer a pena financeiramente, não precisa pegar as filas. Vacilei bastante ao não ter comprado já no dia anterior, pois vale para Hagia Sofia também. Para fazer o gasto valer a pena, então, gastei a última hora do dia no Museu dos Mosaicos, ali pela região, que nada mais é do que uma parte do antigo palácio dos reis bizantinos que foi descoberta, com uma quantidade impressionante de mosaicos bem conservados.

Segunda feira usei para ir ao Palácio Topkapi, o palácio dos imperadores turco-otomanos desde a conquista da cidade até o século XIX. A escolha foi simples, já que segunda feira é o Dia Maldito dos Turistas, quando tudo fecha, mas felizmente eles pensaram nisso e mudaram o dia de folga do palácio para terça. É lógico que todo mundo pensa a mesma coisa e o palácio estava socado de gente. A primeira coisa que fiz, segundo a sugestão do meu guia de viagem, foi correr para os salões do antigo harém. Ali não tinha muita gente, mas também pouca coisa para ver, fora os quartos ricamente decorados dos sultões. Todos dentro da lógica dos arabescos, como todo o palácio, o que acaba causando a mesma sensação que tive na Mesquita Azul.

Com exceção do harém, o resto foi guerra. Havia longas e lentas filas para entrar nos outros lugares principais, como o Tesouro. Lá tinham peças e ouro e jóias incríveis, mas que não despertaram tanto minha atenção, com exceção de algumas armas. Já outro salão disputado é o das Relíquias Sagradas. Lá estão vários objetos sagrados para os muçulmanos, como espadas e objetos que pertenceram aos primeiros califas da religião, no século VII, algumas atribuídas ao próprio Maomé, como alguns fios de barba (sim! As barbas do profeta!). Como uma das três religiões abraâmicas, naturalmente tinha algumas relíquias hebraicas também. E, bem, nas espadas e fios de barba do século VII eu até posso acreditar, mas... A espada de Davi, do século X a.C., em bom estado de conservação? O cajado de MADEIRA de Moisés, de XIII a.C., zero bala?? O CHAPÉU DE PANO DE ABRAÃO, DE XX A.C., INTEIRAÇO??? Fala sério, né? Mesmo admitindo a hipótese de que existiu um Davi, Moisés ou Abraão, tem que ser muito ignorante e/ou crente para acreditar que aquilo passou pela mão dos caras...

O último salão que visitei, e que foi disparado o que mais me interessou, foi o do antigo arsenal.
Obviamente, o que tinha lá era uma coleção incrível de armas e armaduras brancas turco-otomanas e árabes, além de algumas européias que vieram parar lá como despojos de guerra. As armas e armaduras dos orientais tinham a característica de serem ricamente decoradas. Mesmo considerando que aquelas que estão lá são armas de rico, em média são mais pomposas que as de rico européias. As maças são tão bonitas que até devia dar gosto ter a cabeça esmigalhada por uma. Mas as armas carnavalescas não me impressionaram mais do que o simples e grosso conjunto de três gigantescas espadas de ferro húngaras. A maior delas tinha o meu tamanho, se não mais. Não tinham nenhuma decoração, então não creio que fossem cerimoniais, mas é difícil acreditar em um sujeito manejando aquilo. Tenho uma vaga memória de ter lido algo sobre armas assim serem usadas por cavaleiros para destruir barreiras de lanças, mas preciso pesquisar mais para crer...

No fim, fiquei apenas duas horas no palácio, tendo corridos nas seções que estavam mais socadas de gente. Como o hotel era caminho para meu próximo destino, peguei um lanche e comi lá mesmo, saindo em seguida para dar uma olhada nos bazares da cidade. Não me empolguei de ir até o famoso Grande Bazar, pois a idéia de estar em um ambiente fechado com mares de pessoas e turcos tentando me vender coisas não me apetecia. Fui direto para o Bazar de Especiarias Egípcio e ali pelas redondezas encontrei cafés e chocolates para levar para o Brasil.

Ao lado do bazar encontra-se a maior mesquita de Istambul, a de Sulemain, o Magnífico (que humilde, hein?). Feita antes da Mesquita Azul, foi quando os turcos finalmente conseguiram fazer algo maior (i.e. mais alto) que Hagia Sofia. Foi também quando tive a muito interessante experiência de ver in situ o momento das orações dos islâmicos. As mesquitas, mesmo as turísticas, fecham por uma hora neste momento, mas como faltava cinco minutos para começar, às cinco, pulei para dentro. Logo um rapaz veio explicando aos poucos turistas que ali estavam que poderíamos permanecer, desde que ficássemos sentados e quietos nos fundos (mas não era tão estrito, dava para levantar e tirar umas fotos de tempo em tempo).

Enquanto os homens iam chegando e se dirigindo à parte da frente, as mulheres se dirigiam aos quartinhos dos fundos. Algumas, na verdade, pois várias ficaram ali pela área de turistas mesmo, tirando fotos ou falando no celular. Já os homens estavam todos lá, perfilados de frente para a parada que indica a direção de Meca. Três caras ficaram em uma parte lateral mais elevada e começaram a entoar as orações cantadas.

Basicamente, é uma grande brincadeira de morto-vivo. O cara canta uma coisa, a galera se abaixa. Canta outra, todo mundo se ajoelha e encosta a cabeça no chão. Mais um canto e o pessoal levanta. E assim segue várias vezes. Parece que, embora os movimentos sejam coordenados, cada um faz seu ritual pessoal, pois quem chegava atrasado entrava no jogo e continuava enquanto os primeiros já tinham saído. A cantoria em si fica por toda aquela hora, eu acho, dando tempo para quem chegar depois poder brincar. E ela vai ficando cada vez mais empolgada, não devendo em nada para um vocalista de power metal se exibindo. Depois de vinte minutos, quando a coisa começou a parecer um solo de guitarra do Van Canto, fui embora.

No hotel, tomei um banho e, sete e meia, veio me pegar o transporte para um passeio noturno de barco pelo Bósforo que tinha reservado de manhã. Eu queria fazer um desses passeios, mas não daria tempo durante o dia. Este era anunciado como “noite turca”, prometendo tudo do mais brega possível, de dança do ventre a apresentação folclórica. Mas o preço era bom e rolaria uma janta, então lá fui eu. Justamente neste momento, a minha teoria de que jamais chove no verão Mediterrâneo veio abaixo, junto com uma bela pancada de chuva. Chegando no barco, todos restritos à parte de baixo coberta, socada de mesas arrumadas em estilo banquete. Sim, 100% brega. Comecei a achar que tinha entrado em furada.

Felizmente, tudo deu certo no fim. O jantar foi razoável e tinha cerveja liberada (e era... Skol!). Bati um papo com um inglês e uma espanhola que tinham acabado de chegar a Istambul e logo iam para a Grécia, procurando praia e fugindo da chuva (deram azar...). Depois, como a chuva parou, fugi do queijo no deck superior, onde pude satisfazer meu desejo principal no passeio, que era curtir um passeio pela Istambul noturna tomando umas geladas. A cidade fica muito bonita, pois todos os pontos turísticos são iluminados, e as pontes também são decoradas com luzes. O dono do nosso barco devia ser amigo de algum vereador, pois era só chegarmos perto delas que as luzes começavam a mudar e piscar em uns padrões malucos. Não cheguei a ver nenhuma apresentação, mas, no final, quando desci, vi um assustador subproduto do sexismo ainda predominante na Turquia: só havia macharada dançando no meio do salão, ao som de música eletrônica. Praticamente uma festa de algum curso de Engenharia. O passeio terminou meia noite e o transporte me levou de volta ao hotel. Não demorei muito para dormir, pois o café da manhã só ia até dez horas.

Meu último dia de viagem não foi nada pretensioso, mas nem queria que fosse diferente. Depois de tomar café, voltei e fiquei no hotel arrumando as coisas e bojando até a hora do check out, meio dia. Como meu transporte para o aeroporto era só as três, deixei a bagagem no hotel e saí para dar uma última caminhada e fazer render o cartão dos museus. Fui no de Arte Turca e Islâmica, que tem um acervo legal de velharias destas culturas, mas estava muito abafado dentro dele e, à essa altura, eu precisava de mais para me impressionar, então fiquei apenas uma hora ali. Em seguida, dei mais uma passada na Hagia Sofia, como bônus final e para ver algumas coisas que não tinham prestado muita atenção da primeira vez. Dali, fui para o McDonald’s, do McDonald’s ao hotel, e do hotel ao aeroporto.

A viagem seguiu sem problemas, fora o fato de que, quando escrevia isso, tinha uma criança berrando na minha frente no avião, outra chutando a cadeira atrás de mim, e uma terceira enfiando a cabeça no meu colo para ver a janelinha. Vendo o tanto de brasileiros mais velhos voltando comigo, só posso pensar como é bom poder fazer essas viagens relativamente cedo na vida, antes de chegar a uma idade em que as coisas se tornam fisicamente e psicologicamente mais complicadas, e a flexibilidade/tolerância/saco diminui.

Turquia

    Tendo ficado duas semanas quicando pela Turquia, dá para falar um pouco das impressões que tive do país e de seus habitantes. É um país que, aparentemente, está na dúvida entre ser ocidental e secular, ou oriental e religioso. No geral, é um país secular e bem europeu, mas a todo momento você vê reminiscências (ou ressurgências, já que há uma tendência conservadora recente) de uma sociedade islâmica. No Brasil, por exemplo, o estado também sofre influência da religião predominante, mas lá a coisa é bem mais forte.

As mulheres estão em todo lugar fazendo todas as coisas, de atendentes a policiais, e, em todas as instâncias comerciais e oficiais se vestem “normalmente”. Fora disso, é bem dividido entre as mulheres que usam o lenço na cabeça e roupas mais discretas e as que não usam e mostram um pouco mais (nenhuma piriguete, porém). Em Istambul vi com bastante frequência mulheres com aquela roupa negra que cobre todo o corpo, mas pouco nas outras cidades. Em média, acho até que as mulheres mostram mais pele do que os homens, que só muito raramente usam bermuda, não importa o calor. Na verdade, a maneira mais fácil de localizar um turista na Turquia é pelas bermudas ou por chinelos/sandálias.

   Sem saber muito o que esperar, nos primeiros dias economizei nas camisas de metal e deixei para lá as mais do capeta, mas depois fiquei mais de boa. Porém, percebi várias vezes olhares meio estranhos, geralmente mais de curiosidade/estranhamento do que animosidade em si. Só em um restaurante que comi em Pamukkale a coisa foi mais além, pois os garçons me olhavam com tanta intensidade que quase achei que iam tentar me converter, ou me xavecar.

    Falando em restaurante, o islamismo também esta à mesa. Não existe porco na Turquia. Nem no McDonald’s de uma cidade cosmopolita como Istambul você vai achar uma fatia de bacon no meio do sanduíche. Não é proibido nem nada, mas simplesmente não tem público para isso (e, pelo que li em uma reportagem, rola uma pressão extra-oficial contra os açougues que comercializam porcos). Bebidas alcoólicas você encontra com frequência, mas não consigo lembrar de ter visto algum grupo claramente turco tomando uma gelada em um bar ou na janta. Embora permitido, incide uma pesada taxa sobre o álcool. Só tem uma marca de cerveja comum lá, a Efes, que está em todo lugar, mas não é particularmente boa. Cerveja de barril? Raríssimo, acho que só tomei uma vez.

    Até o café, uma bebida que me parecia tão ligada à região (pô, o nome científico é Coffea arabica!), não é unanimidade. Interessante lembrar que até o café já foi proibido pelo islamismo, por ser considerado intoxicante. Já chá preto, bem forte, eles bebem o tempo todo, do café da manhã até de noite. Não é um costume tão antigo (século XIX, pelo que li), mas se tornou predominante na sociedade. Acho que ainda não falaram para eles que o chá preto tem bastante cafeína também...

    Se não bebem álcool, eles compensam no fumo. Como fumam os turcos! Me pareceu que a maioria dos homens fuma, incluindo os mais novos. Recentemente passou a ser proibido fumar em locais fechados, o que é bem respeitado em Istambul, mas no resto dos lugares nem tanto. Até os motoristas dos ônibus que peguei fumavam enquanto dirigiam. Quem acha que álcool e cigarro estão ligados, tem que dar uma passadinha lá. Cada sociedade com seus costumes, não é?

    Quem acompanhou os textos aqui, viu que eu me estrepei várias vezes por incompetência ou abuso dos turcos. Não são piores que a maioria dos brasileiros em locais como Rio de Janeiro ou Nordeste, por exemplo, sempre prontos para tirar uma vantagem dos turistas incautos. Eles não são desonestos, tenho que deixar claro. Mas são espertos. Se as coisas não estiverem bem claras, tem grande chance de você se dar mal.

E como deixar as coisas claras em um país onde, mesmo nos locais turísticos, o povo não manja de inglês? Foram realmente poucas as vezes em que encontrei garçons ou atendentes de hotel que tivessem sequer um conhecimento superficial da língua. Dificultou várias coisas e, mesmo nos casos em que a comunicação à base de gestos e palavras-chave funciona, é bem chato não poder ter uma conversa de verdade com alguém, ao ver um objeto em um museu, ou pedir mais detalhes sobre um prato no restaurante, e por aí vai. Exceção à regra é Istambul, onde, na parte turística, o pessoal geralmente fala bem inglês.

O país tem muita coisa legal para ver. Para quem curte história, é um prato cheio. Na minha opinião, é o país perfeito para se fazer aqueles mochilões longos, indo para tudo quanto é lugar sem muita preocupação com o tempo. Pois é um país barato. Comida e hospedagem são bem em conta, até nos principais pontos turísticos, e ônibus tem para todo lugar o tempo todo, com preços muito em conta (comparando ao Brasil). Com tempo limitado, se torna mais desafiador, para não se gastar muito tempo em translados, já que avião nem sempre é vantajoso. Veja a viagem que fiz de Pamukkale a Göreme, por exemplo, onde paguei 250 liras (não vou contar o Táxi do Desespero) e gastei cerca de seis a sete horas, pois todos os voos passam por Istambul ou Ancara. Por bem menos liras e dez horas, poderia ter ido de ônibus de uma vez.

A segunda viagem

    Esta viagem foi bem diferente da primeira. Na primeira vez, tudo é novo, estranho, difícil, fascinante. Um prédio velho é uma atração a ser fotografada. Uma peça mais antiga no museu é um achado a ser explorado. Uma máquina de comprar tíquete é um inimigo a ser derrotado.

    Na segunda vez, é mais fácil contextualizar e entender as coisas de uma outra forma. Nem tudo vai ser super-legal, mas você passa a reconhecer o que é super-legal e o que é só mais uma coisa (para o gosto pessoal de cada um, claro). Isso te ajuda a fugir de algumas armadilhas para turistas. Talvez se eu tivesse concluído isso mais cedo, não teria passeado de balão... Mas pelo menos não fui no Grande Bazar!

    Na primeira viagem, tudo deu muito certo. Mas é que ela foi “fácil”. Essa eu já sabia que seria mais complicada e teria mais chance de me meter em fria. Não esperava, logicamente, perder o celular ou afundar na lama. Mas ter que fazer acrobacia para ir de um lugar ao outro ou ter que abrir a mão para se virar em um momento crítico? Mais do que esperado. Na hora, essas coisas me irritaram bastante. Depois, já fica mais forte a lembrança da coisa boa à qual o estresse levou. E o logo o perrengue vira piada.

    A questão de viajar por mais lugares por mais tempo também contribui para cansar mais. Muito tempo de translado, ainda mais viajando sozinho, é foda. Mas, por outro lado, me obrigou a curtir mais intensamente cada lugar que fui. A chegar do aeroporto e já sair para fazer alguma coisa. E, convenhamos: quantas cidades existem onde dá para se gastar vários dias e ainda querer mais, em vez de já pensar na próxima? Toda cidade tem muito mais coisa para ver do que nossa vã rota turística pode imaginar, por certo. Mas, quem está turistando por outro continente, não precisa saber que aquele é o banheiro onde o fundador da cidade teve sua primeira dor de barriga. Muitas cidades tem só uma ou outra coisa interessante, mas é uma baita coisa (tipo Éfeso e Pamukkale. Eu já mandei Ancara tomar no c* hoje?). O pingue-pongue é a alternativa, nesses casos.

    Claro, sempre tem o pacotão. Mas, do alto das minhas centenas de liras gastas à toa, posso dizer: o “ir quando quiser, na hora em que quiser, pelo tempo que quiser” não tem preço. Talvez eu que seja um baita birrento que não aguenta nem acompanhar um guia turístico por meia hora. Mas ainda prefiro viajar por conta própria. Pelo menos até decidir ir para o Oriente Médio, onde eles realmente não gostam de quem usa camisa preta de banda.

Resumo do resumo

Melhor momento: Santorini.

Outros momentos de destaque: Wacken (com chuva ou sol, é o Wacken, porra!), Lübeck, Cidade Medieval de Rodes, Pamukkale, Andança pelos vales de Göreme, Museu de Arqueologia de Istambul... e por aí vai!

Pior momento: sem “menos melhor momento”, desta vez Ancara deu as caras!

Lugares para voltar logo: Grécia (enquanto não tiver conhecido todas as ilhas e todo continente – e voltado em cada um – continuo indo!), Wacken (sempre, né).

Lugares para não voltar tão cedo: as cidadezinhas pequenas que você conhece em um dia, além da Turquia como um todo (ainda falta o roteiro mais litorâneo do Egeu e do Mediterrâneo, mas consigo viver em paz por um bom tempo antes de fazê-lo).

A conta: minha estimativa razoavelmente correta deste ano é de que gastei doze barões. Ano passado foram dez. Considerando que o Euro aumentou uns 15% neste período, até me surpreendi que não tenha sido mais, por ter gasto muito mais com transporte interno (deve ter chego perto de dois mil), a gorda fatia perdida no câmbio e todos os gastos imprevistos. Mas é que a Turquia é bem barata, no fim das contas. Ao torcer o nariz ao ter que gastar acima da média, como 25 liras por um jantar, eu precisava lembrar que apenas um pouco antes estava gastando 15 euros por refeição.

Palavra final: hummmm... já tou sentindo uma coceirinha... será?