segunda-feira, 12 de agosto de 2013

"For everything there is a season..."

"For everything there is a season, and a time line for every purpose under heaven"
- Ecclesiastes, 3:1 (adaptado)

               Foram sete longos dias em Londres. Foi o lugar onde fiquei mais tempo em viagens (também fiquei sete dias em Berlim, mas eles incluíram o pós-Wacken). Ainda terei um tempo de Inglaterra pela frente, mas agora é hora de contar o que rolou na maior cidade da Europa.

Londres

               Durante o vôo de Hamburgo para Londres, percebi que os 45 minutos programados estavam demorando para passar. Daí me toquei que estava mudando de fuso, ficando uma hora mais perto do Brasil. Ao chegar, enfrentei a temida imigração britânica, bem menos simpática que os sorridentes e avermelhados alemães. Estando no "grupo de risco", tive uma agradável conversa de dez minutos com um tiozinho indiano, na qual tive que mostrar reserva de hotel, dinheiro, cartão de crédito, etc. Engraçado foi quando respondi à pergunta dele sobre quanto saldo tinha no cartão. Ele parou um segundo e mandou um "really?" desconfiado. Acho que sou muito mais rico do que pareço...
               Depois de receber a carimbada (sem sequer um sorrisinho), resolvi as coisas mais importantes, como sacar libras e entender o sistema de transporte, e parti para uma longa travessia de uma ponta à outra da Grande Londres, do aeroporto onde cheguei (Heathrow, no extremo oeste) até a estação de Walthamstow, no lado leste. O famoso sistema de metrô é muito completo, com uma dúzia de linhas, mas pode confundir no começo por ter várias linhas que se dividem no meio do caminho e estações que não abrem alguns dias da semana. Mas tudo é bem explicado e eficiente, então fiquei na base do metrô todos os dias.
               Ao desembarcar e sair da estação, pensei que tinha ficado tanto tempo sob a terra que havia saído da Inglaterra. Afinal, onde estavam os ingleses? Walthamstow fica numa região de imigrantes, e tudo o que via eram orientais, islâmicos e africanos (ou descendentes, claro). Parece que toda Londres é assim, tem muita gente de fora em todos os lugares. Fiquei um pouco alerta ao cruzar com um povo estilo gangsta americano, mas no fim a vizinhança é sossegada. O povo está ali para viver sua vida, sob a tolerância cada vez menor dos ingleses para com os imigrantes.
               E claro, nesse translado já rolou o primeiro desafio: pessoas paradas no semáforo vermelho para pedestres. Esperei para ver. Ao menor sinal de espaço entre dois carros, o povo se jogou para o outro lado da rua. Iei! De volta ao Brasil!
               Como cheguei na metade da tarde, tudo o que fiz nesse primeiro dia foi comprar comida e pensar nos próximos dias. Fiquei numa guesthouse, então tinha uma cozinha à disposição, o que foi providencial para economizar as libras dos jantares e cafés da manhã de cada dia. O lugar era afastado do centro (25 minutos de metrô), mas hospedagem lá não é para qualquer um (ou para quem quer um quarto individual com banheiro!). Evitei pensar em reais nesses dias, para não ter pesadelos. Libra valendo R$3,50 é fogo!
               Na manhã seguinte, acordei oito e meia para fazer o dia de sightseeing. Nem adiantava acordar muito mais cedo, pois quase todos os pontos turísticos da cidade abrem apenas às 10:00. Menos, logicamente, a Torre de Londres, aquele que escolhi para começar, que abria às nove, portanto já tinha uma generosa fila quando cheguei. É um dos vários castelos construídos pelos normandos no século XI, após a conquista britânica. Aliás, tudo na Inglaterra parece ser ou ter sido iniciado nessa época, séculos XI e XII. O país tem uma história complexa de invasões. Os bretões, povo céltico que já se encontrava há bastante tempo nas ilhas, foram os que enfrentaram a conquista romana no século I. Alguns séculos depois dos romanos se mandarem, vieram os germânicos anglo-saxões, dos quais o termo "inglês" surgiu. Seu domínio sobre o país durou até a chegada dos normandos, que nada mais eram do que vikings estabelecidos na costa francesa há dois séculos. É desse caldeirão de influências germânicas, celtas e latinas que emergiu a Inglaterra atual. Mas é raro encontrar remanescentes do período pré-normando.
               O diferencial da Torre de Londres é ficar bem no coração da cidade atual e nunca ter caído no esquecimento, estando bem conservada até hoje. O meu passeio pelas muralhas e torres externas ficou prejudicado pela grande quantidade de pessoas apertadas nos espaços pequenos, mas logo fugi para a fortaleza central e mais antiga do complexo, a White Tower, onde há uma fabulosa coleção de armamentos medievais e renascentistas. Não é preciso mais que uma maça ou alabarda para deixar o Félix feliz, mas ali tem muito mais que isso, incluindo a Linha dos Reis, uma coleção de armaduras que pertenceram aos reis ingleses dos últimos seis séculos.
               Depois de me divertir na White Tower, olhei para a multidão fazendo fila para entrar em outro prédio, que guardava as jóias da coroa britânica, e dei as costas. Quem precisa de uma coroa e um cetro quando se tem um elmo e uma espada? As filas, no entanto, me desanimaram para ver outras torres mais disputadas, como a Bloody Tower e sua história de prisões e torturas dos inimigos dos reis.
               Parei para comer ao lado do castelo, onde provei o grandioso prato tradicional dos ingleses: peixe empanado com batata frita! É, esse é o famoso "fish & chips", que vem com um potinho de molho tártaro e uma bolinha de ervilhas amassadas para complementar. Não é à toa que 95% dos restaurantes da cidade são de comidas internacionais...
               Logo do lado da Torre e do restaurante, fica a Tower Bridge, aquela ponte basculante vitoriana que todo mundo já viu em mil filmes. Apenas passei caminhando por ela, pegando depois o calçadão que corre ao lado do Tâmisa, até chegar em uma interessante igreja gótica com paredes externas de pedras pretas, a Southwark Cathedral. Dali atravessei novamente o rio e fui até a maior igreja de Londres, a St. Pauls Cathedral. Curiosamente, foi construída no estilo da Basílica de São Pedro, em uma época que o catolicismo romano era banido e perseguido na Inglaterra. Porém, o interior é bem mais austero que o da irmã mais velha. Pena que eram quatro horas e a catedral tinha acabado de fechar a entrada para novos visitantes, mesmo com bastante gente ainda querendo entrar. Bem, perderam várias libras!
               Aproveitei o cartão ilimitado do metrô para economizar alguns passos e minutos e ir até Westminster, onde ficam vários ícones da cidade. O prédio do Parlamento é um troço gigante e tremendamente decorado do lado de fora, com a torre do Big Ben anexada. Um prédio muito bonito, mas não me preocupei em entrar. Preferi gasta o tempo do outro lado da rua, na espetacular Abadia de Westminster (é bom ficar ligado que as admissões também fecham às quatro, mas vão até as seis nas quartas feiras). Como toda igreja gótica, é espetacular por fora. Mas, nesse caso, o interior é mais interessante, pois você vê a história inteira de um país acontecendo. Lá estão sepultados figurões da história britânica, como alguns dos primeiros reis, escritores, filósofos e personagens da nobreza. E qual não foi minha surpresa ao dar os primeiros passos e ler, numa das sepulturas, "Charles Robert Darwin, 1809-1882"? O messias da biologia foi enterrado lá, mesmo sendo ateu/agnóstico, pois mesmo em vida sua obra e importância já eram reconhecidos.
               Graças ao útil guia de áudio, pude ficar cerca de uma hora e meia ali dentro, o que é bastante para uma igreja. Na volta, ainda parei para ver o Temple, que é o bairro que pertenceu aos Templários entre os séculos XII e XIV. Mas não tem nada de muito interessante por lá, fora uma igreja dos velhos cavaleiros, que infelizmente estava fechada. Voltei para a periferia então, encerrando já na noite um dia agitado e produtivo.
               No dia seguinte, decidi ir no zoológico. Teria que ir neste dia ou no sábado, então me pareceu uma boa idéia evitar o fim de semana, quando normalmente os nativos enchem o ambiente com suas proles barulhentas. Não adiantou muito: além de chegar meio tarde, ainda havia uma fila enorme, e uma plenitude de criaturinhas barulhentas, empurradoras e remelentas. God bless the Queen, rock'n'roll and earphones!
               Não é um zoológico muito grande. A ZSL (Zoological society of London) possui um zoo em outra cidade, em uma área enorme onde rolam até mini-safaris, então muitos dos mamíferos de grande porte foram alocados lá. Mas sem problema, quem visita bastante zoológicos já está cansado de leões e rinocerontes. O legal deste zoo foi ter um reptilário bem rico, incluindo uma paixão adolescente minha, e que ainda não tinha visto ao vivo: dragões de Komodo! Tinha dois bichões que, embora longe do tamanho máximo da espécie, ainda eram enormes. Desta vez fui eu a atrapalhar as crianças que queriam ver um dos bichos que estava bem próximo do vidro. Vingança, molecada!
               Após sair, a única coisa que fiz foi atravessar o Regent's park, um dos maiores de Londres, onde fica o zoo. Tem uns jardins bonitos, gramadões a perder de vista, fontes, lago e etc. Logo peguei o metrô de volta à pousada, pois no dia seguinte queria levantar mais cedo, pois era o dia do British Museum.
               Minha preocupação era chegar na hora da abertura, às dez, para evitar as multidões. Quase consegui! Cheguei dez e meia e me surpreendi por não ter fila. Por um motivo muito simples: a entrada é gratuita! Depois de gastar vinte libras para entrar em cada lugar antes disso, foi uma agradável surpresa. Só gastei cinco para pegar um guia de áudio, mas as peças são tão bem explicadas nos cartazes que nem era necessário, para quem prefere ler a ouvir (como eu).
               Tinha escolhido a sexta feira por ser o dia em que o museu fica aberto até mais tarde, e até tinha cogitado fazer algo antes, já que achava que teria tempo de sobra. Felizmente não o fiz, pois no fim só saí do museu com seu fechamento, dez horas depois. As coleções são excelentes, principalmente as do meu período histórico favorito, a Antiguidade no Oriente Próximo. Mas tem peças antigas de tudo quanto é cultura, incluindo Mesoamérica, África, Idade Média européia, Índia, China, Japão... Mesmo com muita gente, a amplitude e variedade do museu não faz as salas ficarem socadas. Foi só evitar alguns espaços e peças nos horários de pico, como a Pedra de Roseta (a peça mais pop do museu), diante da qual o tempo todo tinha gente se empilhando para tirar fotos. No final, ainda faltou tempo para ver com calma a fantástica galeria de culturas orientais, então tive que correr e atuar como aquele tipo de serzinho desprezível que infesta museus, que anda com a câmera na frente da cara só para tirar fotos e dizer que viu, mal olhando para as peças em si.
               O British Museu talvez seja o melhor museu de história e arqueologia que já visitei, pela riqueza de peças, informações e por estar tudo em inglês (óbvio!). É meio difícil de entender a arquitetura do negócio no início, e decifrar o mapa, com seus andares e níveis, é como se aventurar numa dungeon complexa, onde você está no meio dos gregos e de repente faz uma curva e cai no Egito. Mas depois de gastar alguns minutos raciocinando, é possível criar roteiros coesos e se divertir. Comparável a ele, até agora, só o Pergamonmuseum (pelas suas mostras monumentais) e, talvez, o Louvre (pelas peças icônicas).
               Como cheguei tarde na pousada, decidi matar a manhã seguinte e ir só de tarde para o Natural History Museum. Novamente, entrada na faixa, mas desta vez com fila. Com pouco tempo, tentei ir direto ao ponto (dinossauros!), mas havia uma nova fila, e das grandes, para entrar na galeria mais disputada do lugar. Assim, aproveitei para andar pelo resto do museu antes, onde os fósseis estavam espalhados no meio dos animais empalhados (não me empolga ver bichos atuais em museu, pois prefiro vê-los vivos no zoo). A parte mais legal foi um paredão cheio de fósseis de antigos répteis marinhos, como ictiossauros, pliossauros e mosassauros. Depois, encarei a fila para a galeria dos dinos, e me decepcionei um pouco. Acho que esperava algo como o museu de Paris, uma sala enorme com toneladas de fósseis. Mas, como a maior parte deste museu, era uma mostra mais interativa e explicativa, cheia de maquetes e firulas, e com poucos bichos em si. Não tenho dúvida de que é bem mais legal para 99% das pessoas, mas eu preferiria aquele estilo "Pronto, aqui estão fósseis e nomes, lide com isso! Veja essa metade de costela de Opisthocoelicaudia e ache legal!" da contraparte francesa.
               A tarde acabou sendo o bastante para o museu. O tempo curto me impediu de visitar o vizinho Science Museum, mas imagino que, no fim, ia ser uma coisa parecida, cheia de "diversões para toda família". Meu estilo é um pouco diferente: peças, cartazes e imaginação bastam (claro, de vez em quando também é divertido vestir um armamento viking completo, como em Copenhague). Mas é legal que existam esses espaços onde as pessoas (e crianças) possam explorar de modo mais lúdico coisas que não são usuais a elas.
               Para o último dia, tinha planejado ir ao famoso castelo de Windsor, o mais antigo castelo continuamente habitado do mundo. Porém, depois de todas as filas e multidões, cada vez mais aquilo me pareceu uma armadilha para turistas. Lembranças da complicada visita a Versalhes vieram à tona. Assim, explorei algumas opções na internet, encontrando um site muito útil de castelos na Grã-Bretanha e Irlanda (http://www.britainirelandcastles.com/). Ali encontrei o Rochester Castle, um castelo normando em ruínas, mas um dos mais bem preservados do seu tipo. Como bônus, uma catedral antiga do lado e o fato de ser a apenas 40 minutos de trem de Londres. Então, Windsor para as massas, ruínas para o Félix!
               Cheguei às onze em Rochester, uma simpática cidadezinha das antigas. Depois da loucura londrina, foi bom poder caminhar pela tranquila rua central até o castelo. Era bem o que eu esperava: uma antiga fortaleza de 35 metros ainda de pé. O interior está praticamente todo colapsado, mas ainda é possível caminhar pelos corredores das paredes externas até o topo. Como bônus, poucos visitantes e um guia de áudio que ajuda a imaginar a vida medieval do castelo. Paredes caídas, escadas de pedra, ameias e corredores estreitos, esse é o tipo de coisa que me atinge mais do que a pompa e frescura dos palácios ainda habitados. Pena que lugares deste tipo também costumam ser pequenos (até hoje não vi nada que se comparasse ao castelo de Heidelberg), então tentei aproveitar ao máximo cada canto acessível, esticando por uma hora e meia a visita.
               Fora isso e a catedral (não muito diferente das outras), não há muita coisa para ser vista em Rochester. Aproveitei para almoçar a um preço mais suave que Londres e voltar, chegando às quatro. Como ainda tinha tempo, passei no palácio de Buckingham para cumprir tabela e tirar umas fotos do lado de fora. Dali, foi só retornar ao hotel e arrumar as malas para a ida à York, no dia seguinte.

               Assim terminou minha semanada em Londres. Ainda havia outras coisas que poderiam ser feitas, como ver por dentro a Tower Bridge, o Parlamento e etc. E ainda quero visitar Windsor numa época mais calma. Mas tudo fica cheio na temporada, chega próximo de Paris, e não sei se as visitas compensam as filas e cotovelos. A cidade em si é enorme e não tem um centro histórico definido, daqueles no qual você sai caminhando e vendo uma coisa atrás da outra. O turismo é mais baseado em metrô, lugar X, metrô, lugar Y e assim vai. De qualquer modo, pude aproveitar bastante as coisas que mais me interessavam, com tempo de sobra e sem pressa. As entradas gratuitas nos museus e a cozinha da pousada fizeram com que eu gastasse menos do que temia, pois Londres pesa nos bolsos brasileiros (porém, sem chegar perto da insanidade dinamarquesa). Concluindo, uma cidade rica e fundamental para qualquer viajante conhecer. Mas, dependendo dos seu pique e gosto, pode ser vista em bem menos dias.

3 comentários:

mãesara disse...

Viajei com você neste relato e matei saudades de Londres. Ainda quero voltar lá. Não fui ver a torre de Londres(que pena!), nem o British Museum.É verdade que esta não deve ser a melhor época para ir aos lugares turísticos...
Você ficou devendo conhecer Oxford - é muito a tua cara!
Adoro ler do jeito que eascreves. É divertido! Beijos mãe

Larissa disse...

Curti o ctrl J :)

Lili disse...

Eu simplesmente adoro a Inglaterra e adoro Londres, mesmo sem conhecer outras partes da Europa.
E sim, museus gratuitos são realmente o máximo, e são comuns por todo território inglês.

O Museu de História Natural durante a semana é tranquilo, no fim de semana que eu peguei fila (por causa dos dinos também).
Minha única frustração foi não ver a baleia azul.

Concordo sobre o British Museum ser um dos melhores. E gosto bastante do Victoria and Albert por ser um museu extremamente diverso (tem de tudo).

Fiquei aqui babando e morrendo de inveja (cuidado, algo de ruim pode te acontecer).

Devo acrescentar apenas uma coisa que faltou na tua postagem. Fish and chips são acompanhados do MUITA gordura.

Laise