sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"I sold my soul to you...", recapitulando

Agora foi. Hoje tomei posse de um cargo efetivo de biólogo na UFSC. Depois de tantas bolsas, conversas em laboratórios e cafés feitos/tomados, finalmente sou reconhecido como funcionário público de verdade. Não mais o plano de me aposentar como bolsista que não recolhe imposto, agora é INSS na cabeça!

Como? Quem? Quando? Onde? O Félix não ia para Campinas fazer doutorado? Os porcos voam?

Olha, se eu incluir este janeiro de 2010, o último ano foi um dos mais malucos da minha vida. Creio que ainda não perde para 2007, mas apenas porque não foi tão caótico naquele departamento um pouquinho importante chamado "relacionamentos". Mas chega perto. Se 2007 foi o Ano das Seis Casas, 2009 foi o Ano dos Seis Empregos (nada anormal para algumas pessoas que conheço, mas tudo bem). Desde o momento, em 2008, que eu resolvi dar um ano antes de engatar o doutorado direto no mestrado e ver qual era dessa vida de biólogo trabalhador, muita coisa aconteceu. E a ironia máxima se encontra no post de 28 de maio de 2008, sobre o próprio concurso que agora me levou de volta à pátria UFSCiana. Senta que lá vem história...


A Saga do Pequeno Félix no Ano em que o Dois e os Zeros Foram Seguidos pelo Nove

Há muito, muito tempo atrás, no longínquo janeiro de 2009, o pequeno Félix ainda era o mestrando bolsista feliz. Já sabia que teria um trabalho garantido (passando no concurso para professor temporário do município) e só se preocupava de aproveitar o verão e escrever a dissertação. Entretanto, em fins de janeiro começo a Operação Macaco Louco, um período de corrida ensandecida com início das atividades na escola, uma consultoria e a dissertação para acabar e apresentar.

O pico deste, em fevereiro, frenesi é emblemático: o pequeno Félix foi à Belo Horizonte de ônibus no domingo (dia 17), chegando 20 horas depois na segunda (dia 18), apresentou a dissertação na quarta (dia 20), voltou para Floripa na quinta (dia 20), chegando na sexta (dia 21), foi para São Francisco no domingo de carnaval (dia 22 - para festar? há, pra fazer conslutoria!), voltou para Florianópolis quarta de noite (dia 25), deu seu primeiro dia de aula na quinta (dia 26 - uma mixaria de 10 aulas seguidas), na sexta retornou a São Chico (dia 27) e ficou até domingo (dia 1) fechando o campo, sendo que na segunda iniciou uma nova semana de aulas.

Este momento turbulento durou até fins de março, quando Félix decidiu dar uma bicuda no seu Inferno Pessoal em forma de estabelecimento de ensino, após meras três semanas de aulas ministradas. Havia a dúvida por parte de muita gente sobre ele estar sendo precipitado e ficar desempregado, mas o neófito jurava que, se entrasse mais uma vez em uma sala de aula daquelas, haveria crianças a menos no mundo.

Então veio O Grande Vácuo. Um período entre abril e junho em que o pequeno Félix pouco mais fez do que participar de todas as festas possíveis da universidade e assistir todos os episódios de House baixados no computador. Com apenas uma proposta de consultoria que parecia nunca se efetivar, se contentou em ficar morgando deitado sobre a fortuna acumulada na Operação Macaco Louco.

Ali por junho, até do ócio Félix já se cansara, e então começou a frequentar novamente a universidade, mais para se envolver em alguns projetos no laboratório onde trabalhava antes e se sentir algo útil (sim, ele se sentia muito útil conversando e bebendo café, desde que o fizesse dentro da universidade). Foi nesse momento que algumas portas pareceram se abrir, com um concurso para tutor de uma disciplina do Ensino à Distância da UFSC e outro para professor substituto de um campus da UFSC em Curitibanos. Um outro projeto apareceu, uma espécie de consultoria coordenada por um curso da faculdade, que poderia render mais uns trocados. Como os dígitos da conta corrente estavam diminuindo a olhos vistos e o pequeno Félix só poderia comer, ter um teto e pagar a internet até agosto, nada melhor.

Bem, a consultoria nunca apareceu. Ele ficou em terceiro de quatro pessoas no consurso para substituto. O outro trabalho nunca foi para a frente. E no EaD passou, mas houve uma séria ameaça de que o trabalho (e as bolsas) seria adiado.

Basicamente, em agosto o pequeno Félix era o fodido dos fodidos. Em um movimento que lhe custou muito de seu orgulho pessoal, teve que apelar para aqueles fundos emergenciais dos quais não esperava precisar mais desde a ida à Belo Horizonte e a sua emancipação: os paitrocínios. O EaD finalmente rodou, mas, seguindo a onipresente Maldição do Retroativo, Félix só veria a cor do ouro lá por outubro. Sem se abalar (ou completamente abalado e se sentindo um traste, mas indo em frente e tentando estabelecer um objetivo maior do que garantir a Coca do mês seguinte), começou o contato com um professor da Unicamp, para o doutorado. Demorou um pouco a engatar, pois o docente estava bem ocupado, mas ao menos foi bem receptivo e animou o nosso herói a revitalizar sua gana científica, abalada após o terrível mestrado nas montanhas do norte.

Setembro foi mês de paitrocínio, de gastar uma grana que não existia indo pra Campinas conhecer o orientador, de criar e escrever um projeto de doutorado em duas semanas. Félix mergulhou nos artigos e nas últimas inovações dos insanos ecólogos, tendo no final um produto aceitável. O trabalho intelectual lhe permitia se afastar um pouco de sua deplorável situação material. Durante todo esse período, ele sempre argumentava que "em último caso, poderia se virar com um emprego-B" (leia-se: não na área). Não se sabe se alguma vez acreditou nisso mais do que para conseguir dormir de noite, pois entre pegar um emprego alternativo para pagar as contas e voltar para Blumenau podendo se focar mais no agora ansiado doutorado (e guardando as últimas economias para a ida em um importante simpósio em novembro), a segunda alternativa parecia mais produtiva (ou seja, possivelmente, exigia menos esforço).

Quando outubro despontava, as últimas reservas se esgotavam e o pequeno Félix já estava se preparando psicologicamente para fazer as malas e voltar com o rabo entre as pernas para a terra pátria. Foi então que os deuses se apiedaram e jogaram um presente no seu colo. Abençoada seja a criatura que entrara na sua frente no concurso de Curitibanos, pois ela fora chamada para outro cargo na metade do caminho. O grão-conselho curitibano chamou então Félix para fechar o semestre, dando apenas seis semanas de aula, da última de outubro à primeira de dezembro. E agora? Como Félix conciliaria a perspectiva de uma mudança-relâmpago para o Meio Oeste com o mais-do-que-vital doutorado, sem dúvida a prioridade?

Mas os deuses reservavam uma supresa maior para o pequeno e desesperado Félix: as aulas seriam apenas de quarta a sexta, e mesmo que só uma semana de aula fosse dada em dezembro, o mês seria pago integralmente. Cifrões começaram a aparecer nos olhos do nosso herói, e ele começou a fazer as contas com passagens de ônibus e hotéis. O ponto final veio quando ele decretou para seus superiores que não poderia dar duas semanas de aulas, pois uma seria a seleção do doutorado e outra o simpósio. Sem muitas alternativas, pois não havia mais quem chamarem, os poderes foram complacentes e disseram "tudo bem, isso está previsto, você tem esses direitos". Fechado. Félix iria para Curitibanos apenas quatro semanas, então poderia pagar as passagens, viver em hotel e ainda assim equilibrar confortavelmente as contas. O dinheiro demoraria a chegar, pois a Maldição do Retroativo jamais enfraquecerá, mas estaria garantido.

As forças do universo então não pararam de sorrir para o pequeno Félix. Começando por uma Oktoberfest onde pôde se divertir e lavar a alma na base do chope, o intrépido viajante encarou a Operação Chá de Busão, oito mil quilômetros quicando pela imensidão do seu reino até o início de dezembro. Sem parar um segundo, mas agora muito mais feliz, deu início ao seu segundo grande período de atividade no ano, dando aulas, estudando para prova de doutorado, sofrendo com o EaD e viajando por aí.

No fim, tudo deu certo. Félix curtiu dar as aulas, aprendeu e se divertiu no simpósio em Ouro Preto e fez a prova de doutorado tranquilo (fora a dor de barriga, dor de cabeça, falta de sono, etc.). No último segundo, quando tudo o que lhe restava de dinheiro e crédito eram quinze reais na carteira e cinco no cheque especial, o salário chegou e inundou suas contas com dígitos. No início de dezembro, deu sua última semana de aula e voltou a ficar mais que dois dias seguidos em sua casa em Floripa. A sentença de felicidade completa veio naquela semana: foi um dos poucos felizardos a passar na seleção. Agora, com dinheiro o bastante no bolso, e com a certeza de um doutorado de alto nível a começar em breve, no crepúsculo do ano Félix pôde relaxar e contemplar os três meses que teria de verão pela frente, antes da nova vida. Pois o verdadeiro vagabundo, se trabalha dois meses, precisa descansar por mais que isso para compensar. Mas, sagaz, ele irá se matar durante aquele breve período, para depois ter toda a paz do mundo ao seu dispôr.

Entretanto, não era paz que os deuses planejavam para o verão do pequeno Félix. Pois, se antes haviam dado risadas ao vê-lo perder o sono pela falta de alternativas, agora gargalhariam de suas insones dúvidas ante um mar de possibilidades.

Pois foi em 13 de janeiro, após dez dias sossegados em uma praia, que Félix retornava à Florianópolis quando, no ônibus, o telefone tocou. "Sr. Félix Baumfmjkenfkqeb Rosnmwen [onomatopéia das tentativas de pronúncia], aqui é da Universidade Federal de Santa Catarina e queríamos marcar sua entrevista. Pode anotar?" Hein? Hãn? Cuma? Aturdido, Félix apenas conseguia balbuciar e escrever uma data e uma hora no verso da passagem. Tão perdido ficou o pobre, que nem perguntou sobre o que era. Mas a compreensão não lhe demorou a atingir, como um raio.

Era aquele concurso. Aquele bendido concurso de um ano e meio atrás. Aquele mesmo que Félix botou muita esperança e estudou dedicadamente. Aquele que lhe parecia o Céu na época ("Biólogo? Na UFSC?? Em Floripa???"). Aquele ao qual ele se lamentou profundamente de ter chego tão perto, mas, ao mesmo tempo, tão longe. Aquele cujas questões erradas vinham lhe assombrar de noite, pois uma semanada obrigatória em Belo Horizonte logo antes do concurso havia apagado as respostas. Depois de tanto lamento, da negação, raiva, depressão e aceitação, novamente ele voltava a bater em sua porta.

Mas Félix não pôde evitar embarcar em um turbilhão de dúvidas. Sua chama acadêmica estava reavivada. Ele estaria no melhor curso de sua área no Brasil. Com o melhor orientador que poderia achar no país, cuja fama transcendia as fronteiras nacionais e continentais. Com as portas abertas para o exterior e para as terras de seus ancestrais que tanto sonhou em conhecer. Ele havia lido todas as tiras do PhD Comics, contemplando com olhos sonhadores os prazeres que só a sofrida vida de pós-graduando pode oferecer. Estava preparado para uma grande virada, para uma nova vida, para um recomeço. Ele tinha planos para si mesmo e estava tomado por ilusões de grandeza, conquistas, poder e glória.

Largaria tudo agora para continuar onde estava, fazendo algum trabalho meia boca, apenas por garantir estabilidade financeira para toda a vida e seguir na cidade onde gostava de viver?

"Não, é claro", lhe dizia a mente.

Para logo em seguida contra-atacar: "mas é óbvio, mané!".

Em meio a idas e vindas de uma tempestade mental prodigiosa, Félix tinha problemas mais imediatos a resolver. Por causa de sua viagem, ficara sabendo em cima da hora do fato, e tinha pouco mais de duas semanas para decidir sua vida e adiantar uma série de exames e burocracias necessárias à posse do cargo. Para complicar mais, surge uma ligação de um contato de meses, sobre uma consultoria, para, no tradicional estilo do ramo, ser feito na corrida e para a próxima semana. Félix aguardava por aquilo, teria tempo de sobra para fazer antes do doutorado. Mas não se pegasse o trabalho na UFSC. Mas, se desistisse da consultoria por causa da UFSC, e depois escolhesse o doutorado, teria perdido uma oportunidade fácil de ganhar uma bolada.

Sofrimento e dúvida por excesso de opções. Quanta ironia...

No dia 19 de janeiro, a tormenta culminou em uma sequência de eventos. Primeiro, a entrevista. Félix estava decidido a não pegar o trabalho, se na entrevista soubesse que seria locado em um laboratório de micro-alguma-coisa--infra-molecular. Com um sorriso afável e uma ótima recepção, os entevistadores lhe revelaram a existência de uma vaga direcionada para a ecologia. Ao sair da entrevista, Félix ligou para seu orientador em Campinas, que lhe deu sábios conselhos e algumas sutis censuras, mas não lhe ajudou a decidir. Por fim, uma ligação para um amigo que trabalhava na mesma função revelou que o salário era consideravelmente maior do que ele esperava. Diante de tanta informação, Félix só pôde fazer uma coisa: sair para tomar cerveja com os amigos, e passar longas horas discutindo sobre a vida, o universo e tudo mais com uma grande amiga.

Foi um Félix diferente que emergiu naquele dia seguinte. De repente, algumas dúvidas pareciam tão pequenas. O universo estava ali, descaradamente lhe mostrando o caminho a seguir. A certeza do que ele queria começou a surgir, timidamente. Mas, como em um efeito borboleta, bastou esta pequena perturbação para que surgissem ondas e ondas, derrubando as dúvidas, fazendo surgirem novos argumentos, alimentando a racionalização rumo à decisão final...

"Pega essa porra agora e cala a boca, seu trouxa. Tá vacilando por que?"

Não tinha mais porque ficar se lamentado. Tudo estava dando certo para que ele permanecesse ali. A própria terra parecia chamá-lo. De quebra, pode mandar às favas a consultoria, afinal, nunca lhe agradara as maquinações e trambiques do ramo. E é muito mais fácil ser idealista com uma situação material estabelecida, por certo...

Agora decidido e feliz, bastou a Félix prosseguir ajustando os detalhes para que tudo desse certo no final. Ouviu felicitações. Palavras de apoio. Amigos felizes. Vez por outra uma decepção velada por estar largando a expansão de mente da renovação e do desconhecido pelo conforto das pequenas coisas. Mas ele estava com tudo em mente. Sabia que o trabalho não lhe deixaria estagnado. Sabia que todas as condições lhe eram dadas para prosseguir em sua elevação pessoal e profissional, apenas ficaria um pouco mais lenta. Um pequeno preço a se pagar por todos os benefícios que dali viriam.

Oh, e no dia da posse, no 28 de janeiro onde este texto teve início, ficou sabendo que seu contrato em Curitibanos seria renovado para o próximo ano. "Humf, mais uma oportunidade? Não, obrigado!" diz por fim nosso herói, tomado pela soberba, quase beirando a arrogância, daqueles que, do fundo de um poço, emergiram para a grande felicidade. Haverá um novo abismo logo em frente, ele bem sabe disso, mas, no momento, apenas quer dar um ponto final e sorrir.

3 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

Uau! Charada: qual o cúmulo da arrogância? Passar horas na madrugada escrevendo um texto gigante sobre você mesmo que ninguém vai ler!

Mas ao menos escreva em terceira pessoa para aliviar!

Ou eu me amo muito, ou apenas estava com uma baita vontade de escrever. Felizmente, embora eu esteja de boa com a primeira opção no momento, é mais a segunda mesmo...

Fábio Ricardo disse...

hahaah, eu li! isso significa que eu tbm te amo?
HAHAHAHAH
espero que nao.

Mas de resto, espero que a decisão se mostre correta.

Ah, e obrigado pela parte que me toca, ainda no início do texto. 6 empregos no ano eh fichinha. Meu negocio é 6 empregos ao mesmo tempo :)

Ademar disse...

Pode crer que, para mim, o seu artigo foi muito tocante. Proporcionou-me uma oportunidade de entrar um pouco mais dentro do teu Eu. Obrigado SUPREMA FORÇA UNIVERSAL, pelo(s) filho(s) que me deu.