domingo, 14 de agosto de 2011

De germanos para francos

Acabei de chegar em Paris. Meu último dia em Berlim foi bem sossegado, andei de novo pela região do Reichstag e Portão de Brandenburgo para tirar novamente as fotos perdidas, aproveitando para almoçar um joelho de porco arregado na Unter Den Linden. Estava muito bom, mas a tiazinha francesa da mesa ao lado parecia que ia vomitar a cada garfada que eu dava. Dica etílica é a cerveja de trigo da Paulaner, a melhor que tomei nesses dias por lá.

O dia estava bem bonito e ensolarado, diferente de como tinha sido no resto da semana. Berlim é a cidade com o tempo mais maluco que já vi. Cada dia tinha uns três ou quatro ciclos de sol, vento forte e chuva. Às vezes em menos de meia hora você tinha céu aberto, daí chuva e ventania, e de repente tempo limpo de novo. Nunca saia do hotel de Havaianas e bermuda (com o tempo ensolarado) ou cheio de casacos (com o tempo feio) achando que será daquele jeito até de noite.

De tarde passei no Museu de História Natural. Tinha pouco tempo, mas acabou sendo uma boa deixar ele para a finaleira, pois rodei tudo em pouco mais de uma hora. De cara você entra em uma sala com esqueletos gigantes de dinossauros montados. Depois, fica um pouco menos interessante, pois, depois de ter ido no zoológico, ver bichos empalhados não é aquela coisa toda. E coleções com centenas de tipos de minerais diferentes não são muito minha praia...

Depois voltei para o hotel apenas um curto tempo para esperar o trem, que saía sete da noite. Eu tinha ouvido que os trens rápidos de longa distância são cheios das coisas, com vagão-restaurante, internet wireless e etc. Bem, não os trens-dormitório noturnos. Esses são os trens-favela. Quartinhos bem apertados, nada de internet e micro-cozinhas com sanduíches. De um tipo só. Pelo menos a mulher que cuidava do vagão atendia bem e dividi a cabine com um tiozinho bem simpático, com quem tive uma boa conversa e me ajudou na primeira experiência com o metrô parisiense. Não deu para dormir muita coisa e fiquei pensando se não era melhor ter economizado a cara reserva de quarto e ter ido na poltrona mesmo, mas valeu a experiência.

Então, hora de falar do pouco que pude conhecer da vida dos alemães. De modo geral, qualquer ocidental pode se sentir à vontade na Alemanha, pois ainda estamos dentro da “nossa sociedade”. Você pode olhar para as meninas na rua sem ter seus olhos arrancados e não precisa cagar em um buraco no chão. Aliás, o banheiro é um bom modo de começar. Todo ele tem um sistema eficiente de controle de fluxo e temperatura da água em nas torneiras. Os banheiros e demais aposentos tem calefação e água quente, o que me faz pensar de onde vem toda essa energia. Por outro lado, todas as privadas possuem alguma forma de economizar água, seja podendo parar o fluxo com um novo aperto ou (mais comum) o botão para líquidos e o botão para sólidos, se é que me entendem. Ah, e eles não possuem cestos de papel (só para papel toalha na pia). Limpou o traseiro, manda para a privada. Os canos devem ser bem largos para evitar desgraças... Demorei um pouco para perceber isso, e a tiazinha da limpeza do meu primeiro hotel deve estar até agora horrorizada por ter mexido no cesto de toalhas de papel.

Outra coisa muito interessante é a relação deles com os sinais de trânsito. Imaginem eu, ao chegar na cidade, indo atravessar a primeira rua junto com outras pessoas. Sinal fechado para pedestres, mas nenhum carro por perto, já vou me metendo e, de repente, vejo que estou sozinho no meio da rua. Olho para trás e todo mundo está lá, parado, esperando de boa. Talvez algum olhar acusador me fuzilando também. Com os dias, percebo que todos sofrem de síndrome de Coiote do Papa-léguas: pode não ter carro algum em vista até o horizonte, mas se o sinal está fechado, eles não metem o pé na rua. Eles realmente obedecem a parada, pois, segundo Tati me falou, tem uma multa pesada esperando pelos espertinhos. Claro que é muito raro ter um guarda vendo, e uns 10% ou 20% das pessoas atravessam de qualquer modo, mas passei a obedecer também. Mesmo me sentindo um perfeito idiota.

Falando em coisas que poderiam ser feitas por não ter ninguém olhando, um brasileiro FDP poderia se dar muito bem no sistema de transporte, se quisesse. Em todos os trens e metrôs, você compra sua própria passagem em um guichê automático e, quando o veículo pára na estação, abre as portas e é só entrar. Existe uma multa por andar sem passagem, mas em todos os trens urbanos que peguei, e na maior parte dos interurbanos, não passou ninguém cobrando passagem. É muito interessante ver como as pessoas obedecem. Uma certa dose de consciência misturada com uma vigilância ocasional e punições pesadas, este me parece ser o modo como as coisas funcionam na Alemanha.

E como funcionam. O sistema de transporte é eficiente e rápido, embora caro para os padrões brasileiros. Demora um pouco para pegar a manha com os números de plataforma, a mistureba de linhas de trem, metrô e ônibus, as diferentes direções que eles percorrem... Não espere por um cara saltitante de camisa vermelha qual das 16 plataformas da estação é a de trem subterrâneo, pois essas coisas são marcadas apenas por uma letra nas placas. Porém, logo depois que você se acostuma, vê como é fácil ir de um lado para o outro das cidades.

Tal conveniência nem precisa ser tanta, pois mesmo as duas cidades grandes por onde passei, Frankfurt e Berlim, me pareceram bem compactas. Você pode ir para a maioria dos lugares andando e, sinceramente, na maioria das vezes me pareceu mais fácil pegar apenas uma linha e caminhar até meu destino do que fazer as várias baldeações possível para chegar lá direto.

Com um sistema de transporte público desses, dificilmente eu vi trânsito pesado ou trens lotados. Ajuda o fato deles usarem muito bicicletas e ter ciclovia em todas as ruas. Até bicicleta com carrinho de bebê ou cachorro acoplado eu vi.

Ah, e tem as pessoas também, né? Como sou um sociopata viajando sozinho, tive poucas interações de verdade com os alemães, além do “quanto custa?” e “onde fica?” (encontrar quem fale ou pelo menos entenda o básico do inglês é fácil). Mas as poucas impressões que tive foram corroboradas pela Tati, que já os conhece há mais tempo. Eles são bem educados e prestativos (embora um bom número de vezes eu tivesse a impressão de me tratarem como um turista idiota – o que é pura verdade, claro), mas bem protocolares. Mesmo tomando uma cerveja ou entre amigos, assuntos pessoais não vêm à tona. Tati falou que possui amigos de um ano sobre os quais não sabe quase nada. Ninguém se mete na sua vida, mas também estão pouco se fodendo para você. Eu precisaria de um tempo mais longo de convívio para me decidir se gostaria ou não disso.

Uma coisa que ainda não peguei direito é a cultura da gorjeta. Segundo as informações que tenho, é de praxe dar uma gorjeta por um serviço prestado, como o atendimento em um restaurante ou uma corrida de taxi. Normalmente isso é feito arredondando para cima os centavos. Até entendo no caso de um almoço em um restaurante, mas quer dizer que toda vez que eu sentar para tomar um café tenho que dar gorjeta? Todos os meus cafés de 2,50 euros custarão três? Não saquei ainda bem o protocolo, mesmo porque quando você não fala nada eles te dão o troco normal direto, sem parecer incomodados (ao menos, fingem bem). Em várias ocasiões dei a gorjeta, mas de modo geral ainda espero meu troco, ainda mais pagando os preços super inflacionados dos locais turísticos (uma Coca 500 ml sai por 2,50 em média, quando no mercado um litro vai custar 1,00 – mas o recorde foi uma Coca 400 ml de três euros no Neues Museum).

Por fim, uma coisa que adorei: eles AMAM cachorros. Os bichos estão por toda a parte, e não falo só de poodles, yorkshires e chiuauas. O tempo todo na rua você vê pessoas andando com cães do tamanho de pôneis, totalmente tranqüilos, sem focinheira, até com a corrente solta. Os cães entram nas lojas com os donos, ficam deitados ao lado da mesa nos cafés, pegam metrôs e trem interurbanos... Parece que eles descobriram que o problema raramente é o cão em si, mas o seu dono, e com algum cuidado e treinamento você pode levar seu lobo para passear no parque sem causar tremores nem na mais rabugenta das velhinhas.

Um país onde as coisas realmente funcionam, as pessoas seguem as regras que fazem a sociedade funcionar, são relativamente impessoais e amam cachorros... É, eu acho que gostaria de morar em um país assim. Mesmo ainda me sentindo um idiota ao esperar o sinal de pedestres abrir.

5 comentários:

Fábio Ricardo disse...

hummm... nunca achei que eu gostaria tanto da Alemanha. Pessoas que respeitam as coisas simplesmente pq eh certo respeitar, que não se metem na vida dos outros e adoram cachorros.
Se eles não falassem em alemão, seria ótimo.

sara disse...

Guten Tag! Wie gehts du?
Depois desta viagem, se você quiser, posso dar umas aulas básicas de alemão para tua próxima...rs...rs...
Gostei de saber das tuas impressões...foram as minhas também!
Gute reize!(ih!acho que minha escrita está péssima!)

Ademar disse...

Hallo, baby ...

Mal sehen, wie ist mein Deutsch. Wenn Sie nicht interpretieren kann, verwenden Sie den Google-Übersetzer. Über die Hunde in Deutschland, ein Kuriosum. Eigentümer zahlen Steuern auf die Hunde und der Wert ist proportional zum Gewicht des Hundes.

Big hug. Ich liebe dich

Vater

Fábio Ricardo disse...

rá! eu fui obrigado a jogar o comentário do teu pai no google translate. hahahaha

Félix B. Rosumek disse...

Fábio, e onde é que tu acha que ele criou aquele texto? Pq o alemão dele é tão bom quanto o meu! :D