segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"WACKEEEEEEENNNNNNN!!!!"

Escrevi isso aí logo após sair do universo paralelo onde as pessoas de preto são normais. Como verão em breve, eu tinha tempo de sobra, por isso ficou “grandinho”. Agora estou em Berlim usando a segunda feira para recuperação. Vamos lá.

Goslar

Na quarta feira anterior ao Wacken, aproveitei para dar um bate e volta em outra dessas cidadezinhas históricas do interior alemão que possuem alguma coisa legal para ver, dica da Tati e de um canadense que mora com ela. A bola da vez foi a pequena Goslar, uma espécie de Heidelberg menos pop. E, na verdade, se descontar o fator “castelo fodaço”, é até mais legal que a parente mais conhecida. Talvez também por eu ter ido durante a semana, a cidade estava menos lotada e era mais fácil ter aquela sensação de imersão medieval. Infelizmente, também por isso, vários pontos turísticos estavam fechados nos horários em que tentei ir. A cidade também possui mais construções antigas. Enquanto Heidelberg me pareceu praticamente toda renascentista ou mais nova, em Goslar existem muitas construções anteriores a 1500 para ver.

Dentre estas, está a atração principal da cidade: as minas. Trata-se de um complexo de túneis de mineração escavados desde o ano 900 e alguma coisa. Isso mesmo, minas com mais de mil anos ainda conservadas. Tem algo que grita mais DUNGEON do que isso? Não vi os anões e os goblins, mas eles com certeza estão por lá.

Não é à toa que o troço foi tombado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. Isto permitiu a criação de um complexo turístico muito rico, onde dá para perder um baita tempo. Tem inclusive visitas guiadas no interior das minas, alguns de várias horas e que vão em profundidades sinistras. Infelizmente eu fui em cima da hora e sem saber que estes mais longos só rolam com reservas antecipadas. Mas ainda deu para pegar uma voltinha de uma hora e meia por uma parte mais recente das minas. Duzentos anos de idade, só isso.

Curti para caramba esse passeio, feliz como pinto no lixo (ou como nerd na dungeon?). Mesmo com o guia só falando alemão (e como falava o tiozinho!) e sem entender os detalhes, deu para acompanhar a lógica e tirar muitas imagens dos túneis e dos trecos de mineração ainda conservados no seu interior. Existem visitas em inglês, mas logicamente não numa quarta feira aleatória.

Depois de sair do túnel, ainda dei uma volta rápida numa parte que é museu, muito interessante. Mas vi só correndo porque meu tempo era curto e precisava voltar para a cidade para passar de nív... quero dizer, andar pelo centro histórico. Devia ter ficado mais pelas minas, pois, como falei, dei de cara com quase tudo fechado. Ficou só na fotografia exterior.

Goslar foi uma agradável parada não-planejada na minha viagem, e ficou até a vontade de voltar em um dia melhor. Vale a pena a visita, mas é preciso um certo planejamento para aproveitar tudo.

Wacken

... mas chega de turismo histórico por enquanto, pois logo depois o negócio foi METAAAAAAALLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!

No dia seguinte, quinta feira, eu e Tati nos mandamos para a “Terra Sagrada de Wacken” (segundo cartaz do próprio evento). Conseguimos uma carona arregada em um site alemão (você busca o lugar onde quer ir e encontra anúncios de quem estiver indo para lá no dia desejado. Funciona legal e fica bem em conta viajar). Meio dia o gurizão passou para nos pegar em casa, já com mais um caroneiro a bordo, Iron Maiden à toda e carro devidamente identificado com as letras “W:O:A”.

Lá fomos nós subindo trezentos e tantos quilômetros para o norte, passando por Hamburgo, enfrentando trânsito (sim, eles também têm disso nas rodovias, porém bem mais sossegado que no Brasil) e chegando no vilarejo de Wacken. Basicamente, é um cu de mundo. A cidadezinha possui 700 habitantes, 2000 vacas e, em determinada época mágica do ano, abre-se um portal por onde jorram 75 mil urubus negros em direção ao reino do metal.

Eu sabia que o Wacken era grande. É o maior festival do gênero no mundo. As bandas que tocam lá são as maiores e mais conhecidas, uma atrás da outra. Mas não estava preparado para o real tamanho da coisa. Não é apenas uns palcos com uma área de acampamento. É literalmente uma cidade de quatro dias. Lá é possível encontrar de tudo e tem toda a estrutura para sobreviver ao festival tranqüilo. Existem três palcos enormes e quatro menores onde rolam o tempo todo atrações intercaladas ou simultâneas. Tem mercado, dezenas de barracas com tudo quanto é comida, Biergarten... Até uma vila medieval inteira eles colocam lá, com tudo o que um guerreiro do metal precisa: comidas de aventureiros, bebidas variadas, armas e armaduras (de metal mesmo!), espaço para treinar as habilidades bélicas (arremesar uma lança ou um machete é mais difícil do que parece!), combates entre guerreiros totalmente caracterizados, e mesmo umas sessões de tortura ocasionais para disciplinar aqueles que se desviam do caminho do Deus Metal. Obviamente também temos outras atividades voltadas ao interesse dos valorosos metaleiros, como concursos de Garota Camisa Molhada e moças de boa família oferecendo fotos de topless por preços módicos.

Basicamente, dá para se divertir o tempo todo sem sequer ver uma banda. Mas, como era minha primeira vez e meu currículo de shows não é dos maiores, decidi focar na música mesmo. Tati fez o mesmo, e não nos arrependemos (bem, talvez de um ou outro...).

O festival começa para valer na quinta, mas na quarta feira a área do festival já está aberta e existem eventos de aquecimento. Então, quando chegamos, por volta das quatro da tarde, a pequena Wacken já estava totalmente transformada em território headbanger. É até engraçado, você vai passando pela ruas e tudo o que vê é gente de preto, gente de preto, gente de preto... Ao contrário de como as coisas ocorrem no Brasil (cof, River, cof, Rock, cof...), a organização trabalha junto com os wackeanos (wackenses?) e estes vêem no festival uma exclenete oportunidade de lucro. Então dá-lhe tiozinhos usando camisas de bandas que nunca devem ter ouvido na vida, vendendo qualquer coisa “... do metal”.

Passando pela cidade em si, logo chegamos à área do acampamento, que ocupa uma grande extensão ao redor da área do festival em si. Quinta feira de tarde, já era tudo um mar de barracas, camisas negras e bêbados capotados (é, a galera já se passa logo de cara, vai entender...). Como éramos só dois, conseguimos depois de algum tempo achar um bom lugar muito próximo da área do festival (se você chegar tarde e precisar de muito espaço, é capaz de ficar a meia hora ou mais de lá). Armamos as barracas no sentido inocente do termo e logo estávamos prontos para começar as andanças. Se tem uma coisa que foto ou vídeo nenhum captura, e é preciso estar lá mesmo para sentir, é a profusão de figuras bizarras com as quais se cruza durante o evento, seja nos shows ou no acampamento. Desde os vikings saídos da Idade Média às glam-hard-bichas-loucas, passando por toda sorte de chapéus engraçados, placas com dizeres filosóficos (“Golfinhos são tubarões gays”, veja quanta sabedoria), pessoas (ou, quem sabe, ninfas da floresta) pouco, muito ou totalmente nuas andando como se estivessem na praia de nudismo. E não despertando mais do que um breve olhar dos outros, antes destes voltarem sua atenção aos seus canecos de um litro de cerveja.

Logo chegou a hora do show de abertura, sete da noite (que na real é dia até quase dez horas). Nada melhor que uma clássica banda alemã para o posto, e lá estava o Helloween para ocupá-lo. Tensão no começo, multidão já reunida, e os veteranos entram quebrando tudo... por 10 segundos. Daí o som falha, as luzes apagam e ficam todos com cara de tacho no palco. Até que tiraram de letra o problema inicial, rindo da situação, até recomeçarem a música e... isso mesmo, tudo desliga de novo. Não dá para saber se a culpa é do pessoal da banda ou da organização, mas digamos que não foi um bom começo. Entretanto, até que gostei, porque daí, por causa da perda de tempo, eles decidiram pular a primeira faixa (de divulgação do disco novo que não conheço) e partir logo para um setlist recheado de clássicos. Gostei muito do show dos caras, pois tocaram muitas músicas dos clássicos “Keepers”, que são os que melhor conheço. E o vocalista Andi Deris é um piadista. Pena que só falava em alemão. Mas o que eu deveria esperar, vendo uma banda alemã num festival alemão cheio de alemães? (tem gente de todos os lugares e tropeçamos em vários brasileiros, mas a grande maioria é da terrinha mesmo)

O Helloween foi a melhor banda de abertura possível para um dos shows que eu mais esperava. Afinal, é uma banda que figura no meu Top 5 e veria pela primeira vez no próprio país deles, onde são gigantes. Porém, o show do Blind Guardian acabou sendo uma decepção. Não por eles, pois as três músicas que consegui curtir foram animais. Mas por algum motivo sinistro ocorreu uma quantidade absurda de “crowd surfing”, aquela brincadeira de shows onde se levanta um sujeito e se vai passando ele por cima da galera de mão em mão. É algo divertido, por certo. Mas não quando a cada 30 segundos tem um mané voando para cima de você e é preciso parar de curtir para empurrar o maldito. Sério, foi ridículo. Ao mesmo tempo em que incomodou muita gente (fiz minha parte ao arremessar uns dois direto no chão, nas horas de mais raiva), a maioria continuava empurrando, e isso durou o show inteiro. Só não fiquei mais puto porque logo no mês que vem verei um show deles no Brasil, mas foi bem chato. Felizmente, o crowd surfing pareceu diminuir dali em diante, mas também começamos a ver os shows mais de trás para não nos incomodarmos tanto (a Tati levou uns belos socos também em rodas de poga – já mencionei que era um festival de ogros metaleiros?).

Depois disso, pausa para o rango. Achei a comida lá muito boa, desde os simples espetos de carne à moda bárbara e lingüiças assadas até rangos mais elaborados. Passaria o dia todo comendo e bebendo, se não fosse tudo tão caro também. Se eu pensasse em termos de preço convertido, estaria chorando a cada espeto de 11 reais e cerveja 400 ml de 8. O negócio é deixar a mente no Modo Euro (“só cinco contos, está em conta!”) e ser feliz, com alguma prudência. Outra coisa que me mostrou como esquemas simples podem funcionar para resolver problemas comuns foi o uso de um sistema de caução para copos e canecos de plástico grosso, que são devolvidos depois, evitando a orgia de copos descartáveis que com certeza ocorreria no Brasil.

Barriga cheia e logo às dez já tínhamos o primeiro headliner do festival. Ninguém menos que o vovô caquético mais amado do Metal, Mr. Ozzy Osbourne . Daí juntou multidão mesmo e logo estava lá o bom velhinho, tocando seus metais clássicos, dando corajosos pulinhos de vinte centímetros e agitando a galera como um animador de festas do asilo. Uma coisa não se pode negar, mesmo com todas as desafinadas e gagazices que apareciam pelo caminho: Ozzy é foda. Com toda aquela idade e os galões de drogas que já correram pelo sangue, eles sabe como empolgar uma multidão e não para de agitar um minuto. É talvez o melhor frontman vivo (?) do metal. Quando veio a primeira do Sabbath, “War Pigs”, meu coração de metal virou melado e os olhos lacrimejaram, ao ver o próprio cara, tocando aquelas músicas, para aquela multidão ensandecida. Foi um show verdadeiramente marcante e fechou uma noite curta de shows com a vibe lá em cima. Antes de dormir, mais um litrão de boa cerveja vendo vídeos antes de fugir para a barraca.

Noite mal dormida, como o esperado para um lugar onde amanhece às cinco horas e em uma barraca baleada que deixava entrar a chuva da manhã. Ao desistir de tentar dormir mais, foi hora de fazer algo nada metal: tomar banho. Primeiros contatos com algumas realidades do evento: como os organizadores estão aumentado a quantidade de ingressos cada vez mais, existe muita gente em todo lugar. Para tudo, uma fila e uma taxa. Para usar o banheiro relativamente limpo, fila de meia hora e 50 centavos de euro (consegue imaginar uma fila longa e demorada de homens agoniados, esperando para fazer a única coisa para a qual homens procuram banheiros limpos? Ah, pois é...). Depois, para tomar banho em estilo militar/presidiário, mais fila de meia hora e 2,50 euros. A manhã ia praticamente toda nisso.

Meio dia rumei para o primeiro horário de shows, pois ia tocar uma das bandas que eu mais queria ver, o Ensiferum. É uma daquelas um pouco menos conhecidas que vêm mais dificilmente ao Brasil, por isso a expectativa. E o viking-power-sei-lá-o-que metal deles é um dos sons que mais escutei nos últimos meses. Não me decepcionei. Com menos pessoas, deu para ficar mais perto, agitar bastante e já mandar para o espaço todo o serviço feito no banho. Tocaram a maioria das minhas favoritas, inclusive a “country” “Stone Cold Metal”, que possui uma paradinha com assobios e piano de faroeste no meio que ficou genial no show.

Feito isso, um tempo para um rango e uma cerveja de trigo no Biergarten antes de encontrar Tati, que tinha ido andar pela cidade, para o show das duas e meia. Algo no mínimo bizarro. Já imaginou metal feito quase totalmente com... a voz? É o que faz o Van Canto. A bateria é o único instrumento “real”. Os riffs e solos de “guitarra”, a base de “baixo” e, bem, os vocais, são feitos apenas com as vozes de três (ou quatro, não lembro) caras e uma mulher. O estilo é Power metal melódico sem grandes novidades. Enquanto camadas e mais camadas de canto se sobrepõe, um deles faz um “dugudum, dugudum, dugudum...” imitando a base cavalgada típica do gênero. Prepare-se para rir quando outro vier fazer o “solo”, algo parecido com o som do Lyu Kang ao dar aquele golpe “pedalada” em que ele sai voando e dá vários chutes no oponente, lembram? Talvez um peru sendo estrangulado soe parecido também. As músicas até que são interessantes e eles fazem alguns covers (Nightwish, Blind Guardian, Metallica), mas eu classificaria mais como curioso do que como legal.

Findo isso, mais um tempinho sentados no Biergarten (eu estava meio quebrado, por causa da falta de sono acumulada há dias e dos shows de quinta) e fomos ver o Rhapsody Of Fire. Eu gosto da banda em estúdio, tenho os quatro primeiros discos e ouço mais o “Power Of The Dragonflame”, onde Fabio Lione passou a cantar de um modo mais variado e agressivo. Mas no show, por algum motivo, não deu liga. Eles estavam lá fazendo exatamente o que se espera deles, com velocidade e teatralidade. Mas não empolgaram, e pela reação do público como um todo eu diria que o show foi morno realmente. Tocaram umas músicas que eu conhecia e tal, mas pelo jeito as que eu mais gosto não são as mais clássicas. Pelo menos serviu para me decidir sobre se “Lamento Eroico” é uma balada épica legal ou pomposa brega. A segunda opção ganhou, desculpe.

Tati agüentou pouco e foi checar o outro show que ocorria simultaneamente no palco grande próximo (sempre era intercalado um horário com um show no palco grande central com outro em que duas bandas tocavam ao mesmo tempo nos dois palcos das extremidades). Como estava meia boca o show, também saí um pouco antes esperado que naquele horário, com dois shows rolando, teria menos briga no estande de merchandising. Doce ilusão. O aglomerado humano nem era tão grande, mas a ineficiência dos atendentes compensava com méritos. Só agüentei ali por uns 40 minutos porque sabia que ia ser assim o tempo todo, e a demora só faria diminuir o número de produtos. Tudo para comprar uma camisa oficial do festival a um preço superfaturado. Mas quando que eu poderia comprar uma lembrança dessas de novo?

Após isso encontrei Tati na fila dos caixas eletrônicos e não me senti mais tão indignado com a demora. Isso porque as filas dos caixas eletrônicos davam um banho em matéria de lerdeza. Tive tempo de ir até a barraca, comprar comida, ir ao banheiro, voltar, e ela ainda estava na metade do caminho. Haja saco. Embora eu creia que ela não tenha um.

Então, estávamos próximos do headliner do dia. Com o show mais longo de todos no festival, o Judas Priest juntou uma multidão em frente ao palco central. Era um mar de gente, aparentemente maior que no Ozzy. Eu nem conheço muito Judas, apenas três discos (Sad Wings Of Destiny, Screaming For Vegeance, Painkiller – e mais uma música, lógico), mas era uma oportunidade única de ver esses velhinhos, já que, segundo os próprios, é a última turnê mundial da banda. Rob Halford perde muito para o Ozzy em matéria de presença de palco, eu diria, pois se limita a cantar e andar pelo palco, apenas ocasionalmente evocando os “crazy metalheads”, “fucking metalheads”, “[insira um adjetivo aqui] metalheads”. Mas em matéria de desempenho ele manda muito bem, com a garganta ainda capaz de dar os característicos gritos estridentes com força total. O show me pareceu morno na primeira metade, não só porque eram músicas que eu pouco conhecia, mas o público não aparentava tanta empolgação. Tudo mudou na metade, quando entrou a absolutamente simplória e clássica Breaking The Law, em que Halford não cantou uma síliaba. Deixou tudo para o público, que fez seu serviço com louvor. Daí a coisa começou a pegar fogo. Ameaçou amornar no inevitável solo de bateria, mas quando o batera emendou a introdução de “Painkiller” (a música mais violenta do Judas, minha favorita) a temperatura estourou de novo. O show seguiu em alto nível até o final, totalizado duas horas e quinze.

Tendo cumprido a missão do dia, eu tinha duas escolhas: esperar três horas até duas da manhã para ver o Apocalyptica (a banda que mais me interessava das que sobraram no dia), ou ir dormir para estar inteiro no dia seguinte, que ia ser mais recheado de bandas. Ainda tomamos uma cerveja e vimos um show com fogo de deixar os hippies da Bio com inveja, mas a segunda alternativa predominou e deixei Tati sozinha esperando pelo quarteto de violoncelos. Foi altos show, segundo sua opinião, mas valeu a pena recuperar uns pontos de vida extras.

Acordei com o sol e pensei que era perto das nove. “Legal, devo ter dormido bem!”. Olhei o relógio: 5:50. Maldito eixo torto da terra e seu ciclo de estações. Daí voltei ao dorme-acorda até dez. Mas estava mais inteiro que na sexta. Novamente, filas da limpeza interna e externa. Voltei à barraca e comi coisas de mercado que tinha trazido, para economizar um pouco. Era um pouco mais que meio dia quando Tati voltou do banho e fomos para um show que ela gostaria de ver, do Visions Of Altantis. Típico metal melódico / pomposo com vocal masculino limpo e feminino. Tem muitas bandas neste estilo, mas eu gosto de escutar, e os 20 minutos que conseguimos ver do show foram legais.

Aí teria um espaço longo na agenda que usamos para passear pela vila medieval, tentando a sorte com as armas medievais e vendo as coisas divertidas que aquele bando de nerds criava. Trombamos com um brasileiro que nos acompanhou durante o próximo show, do Mayhem. É a banda que provavelmente simboliza melhor aquele Black Metal norueguês reto e sem concessões do início dos anos 90. Musicalmente falando, é isso mesmo. Pancadaria extrema, músicas repetitivas e um vocal totalmente insano (que eu gostei bastante). Mas os caras decidiram fugir do estereótipo ao aparecer de cara limpa, sem a característica corpse paint. Acho que isso prejudicou a teatralidade do negócio e só dava para dar risada das caras e bocas do vocalista tentando parecer MegaPowerEvil (lembre-se: JAMAIS SORRIA em um show de Black Metal). Eu gostei do som, mesmo achando a performance tosca, mas Tati logo sentou e ficou com cara de quem poderia vomitar a qualquer grito histérico ou música exatamente igual à anterior. Quem realmente chegou nesse ponto foi um norueguês que estava logo à nossa frente e virou atração com suas gorfadas. Logo outro bêbado tropeçou nele e ficou no chão também. Parecia que ia virar uma pilha de chapados, mas a galera do “genteeee, isso é sério!” acabou com as risadas gerais chamando os paramédicos. Coisas do roquenrôu!

Tendo acabado Mayhem com pelo menos 20% a menos de audição, demos uma olhadinha no Iced Earth, mas como nenhum de nós curtia muito, logo fomos passear de novo. O próximo show foi quinze para as sete, e era nada menos que nossos amigos do Sepultura. Também não é uma banda que eu acompanhe tanto assim, embora goste do estilo. Prestarei mais atenção, porque o show foi realmente forte. Eu queria ter uma idéia do quão grande a banda é na Europa, já que aqui no Brasil a única coisa que o pessoal sabe dizer é que a banda acabou depois que o Max Cavaleira saiu. E olha que isso faz quinze anos. Eu sempre achei o Derrick mais vocalista e o público europeu não parece partidário do chororô, pois a galera que tinha para assistir era comparável à de qualquer uma das bandas locais conhecidas.

Do Sepultura, foi hora de ir direto para o Avantasia, projeto-propriedade do vocalista do Edguy, Tobias Sammet. Aparentemente este era o último show deles, então o grande público estava altamente empolgado. Além de Tobias ser um bom frontman, metade da Alemanha foi chamada para dividir o palco, ficando a banda com seis vocalistas convidados de diversas bandas conhecidas. Gostei bastante, embora seja um pouco melódico demais para meu gosto. Um pouco de pancadaria a mais sempre ajuda.

Última volta pela área do festival antes de engatar uma sequência de shows que detonou, absolutamente. Primeiro, a banda que, na minha opinião, simboliza o rock sujo, rápido, pesado e descompromissiado. Yeah, they are fucking Motörhead, and they are rock’n’roll!. Neste momento, eu acredito que o Wacken inteiro estava lá para assistir. Melódicos, extremos, roqueiros das antigas, não importa, todos estavam lá para curtir com a lenda viva sexagenária Lemmy e seus companheiros. De um jeito bem direto, o trio foi jogando uma cacetada atrás da hora, sem piedade. Para mim, um dos grandes shows do festival, que encerrou com a mais que clássica dobradinha “Ace Of Spades” e “Overkill”.

Já dava para ir embora e me dar como satisfeito, ter visto pela primeira vez três lendas do metal/rock em três noites seguidas. Mas era a última noite, era preciso aproveitar tudo até o final. Os planos eram de ir longe, até o festival literalmente fechar. Várias surpresas ainda viriam pelo caminho, nem todas elas boas.

A primeira foi das mais excelentes, e um dos pontos altos do festival para mim. Logo quinze minutos após o Motörhead começaria outra banda, sobre a qual eu pouco sabia além de que tinha alguma coisa a ver com folk. Como folk metal tem sido minha pira principal nos últimos quatro anos, poderia ser interessante. Tati foi comigo, mas sem muitas expectativas, pois para ela folk metal nada mais é do que um black metal escroto com algum acordeão ou gaita de foles para fazer firula. Qual não foi nossa surpresa ao descobrir que o Eläkeläiset (saúde!) não era metal coisa alguma, mas uma banda da mais pura Humppa! Este é um tipo de música popular finlandesa que se caracteriza pela velocidade extremamente rápida e ritmo contagiante, convidando à batida de pernas e dancinhas divertidas. Só que, além de músicas “true Humppa”, o Eläkeläiset faz versões humppicas de músicas de metal e rock, incluindo Iron Maiden, Metallica, Motörhead, Beatles, Nightwish e por aí vai. Então basicamente tínhamos quatro caras sentados com acordeões, violinos, teclados e contrabaixos, mais um gordinho na bateria, botando para quebrar e não deixando nenhum metaleiro ficar parado (tá, isso pareceu propaganda de Sessão da Tarde, mas era isso mesmo). Além da música em si, a performance era ótima, com danças e piadas (pelo menos esses falavam em inglês!). Ganharam direito a um tempo de 1:15h, longo se comparado ao de muitas bandas conhecidas no festival, minutos que passaram voando na velocidade da Humppa. Nem a chuva, que depois de ameaçar durante três dias resolveu cair com força, impediu os True Warriors Of Metal de dançarem felizes na lama.

O Eläkeläiset foi a surpresa do festival, mas ainda teríamos um excelente fechamento pela frente. O Subway To Sally (não, não me pergunte por que diabos este nome) foi o encarregado e, sendo um banda grande na Alemanha, contou com um bom público que resistiu à chuva pesada (o suficiente para conseguirmos ficar no local mais próximo do palco de todos em que ficamos, sem estresse ou aperto). Até onde sei, o estilo deles era mais voltado ao folk no início da carreira, tendo se deslocado para algo meio industrial com batidas pulsantes (e até dançantes, mas não tão parecido ao Rammstein quanto soa). Felizmente o disco de transição e que parece ser o clássico deles é justamente o único que tenho, então teve várias músicas que eu conhecia. Não posso deixar de salientar a parte pirotécnica, que foi realmente show de bola. Fogo saindo do chão do palco, de cima do palco, das estruturas logo sobre nossas cabeças, cuspido pelos músicos... Um excelente modo de encerrar, às três da manhã, uma dose cavalar de metais pesados injetada diretamente no cérebro ao longo desses dias.

E então tudo acabou.

Literalmente. No momento em que encerrou o último show, o Wacken pareceu balada fechando. Ainda estávamos super animados, pois no programa mostrava que rolaria uma festa metálica com caraoquê e tudo até seis da manhã. Mas no local indicado não aconteceu nada e logo eles trataram de tirar o pessoal do local dos shows. Correndo na chuva entre as barraquinhas que fechavam uma atrás da outra, não era mais possível encontrar uma gota de cerveja, e apenas algumas sobras de comida. Todo mundo fugiu para as barracas, para casa, ou para algum buraco misterioso escondido no meio dos campos. Foi o “acabou a cerveja, acabou a amizade” na maior escala que já vi na vida! Isso deu uma desanimada em nós e só nos restou voltar amuados às barracas.

Mas ainda havia uma longa aventura a ser enfrentada, da volta. Tati tinha planejado festar até amanhecer e disparar direto, pegando os ônibus do festival que levavam até a estação de trem mais próxima, para chegar em casa pelo meio dia e dormir para trabalhar segunda. Meu plano era também festar até tarde, mas daí dar uma bojada e voltar perto do meio dia, por isso comprei a passagem para final da tarde. Tudo poderia dar certo se não fosse pelo detalhe de que não teve festa. O jeito foi ficar nas barracas dando uma bodeada esperando a hora de voltar.

A chuva engrossou e o vento começou a bater com força, de um modo que fazia minha barraquinha já sofrida parecer que ia desabar a cada minuto. Sem o telhadinho que cobre as telas que ficam na parte superior, tive que me virar com umas capas de chuva amarradas, mas com o vento não adiantava muito. Decidi que, se era para ficar na barrada daquele jeito, o melhor seria disparar de uma vez, às seis da manhã também. Não ia conseguir dormir de qualquer maneira. Desmontamos as barracas e caminhamos com as malas por um bom pedaço sob chuva e vento, o que é uma experiência inglória. Chegamos e lá estava um dos ônibus atulhado de metaleiros e malas. Juntamos nossos pacotes e ossos molhados aos deles, e lá fomos sacolejando até Itzehoe, a cidade mais próxima que possui uma estação de trem (eu já mencionei que Wacken é um cu de mundo? Deixa eu falar de novo: Wacken é um cu de mundo!).

“Ter uma estação de trem” não significa “ter uma estação de trem onde caiba todo mundo” e lá foram os metaleiros se amontoar pelo chão da microestação. Aproveitamos para trocar as roupas encharcadas. Ainda faltava uma hora para o trem da Tati e a bagatela de dez horas para o meu. Fui perguntar para o vendedor de passagens se tinha jeito de trocar de horário, mas tudo o que ele me disse foi que poderíamos já ir até Hamburgo a qualquer momento, sem ter que esperar o horário certo. Isso soou melhor que ficar naquele pulgueirinho, e lá fomos nós. Era até engraçado, aquele monte de gente de preto dominando o pequeno local, e lotando o trem que logo chegou. Em Hamburgo, finalmente descemos em uma estação decente e esperamos tomando um café. À essa altura, com a adrenalina já baixa, me sentia como um zumbi. Tati não parecia diferente. Uma hora depois, chegou o horário dela e nos separamos.

Ainda tive que esperar um pouco para abrir o guichê de vendas, onde pude perguntar se dava para trocar o diabo da passagem. Não rolou pois, como eu comprei com preço promocional, teria que pagar uma diferença grande para pegar um trem que sairia apenas três horas antes. Para quem ia esperar por dez, três a menos não fazia tanta diferença. Juro que, se estivesse em condições, aproveitaria para andar pela cidade. Com essa possibilidade totalmente fora de cogitação, me sentei num bando da estação e comecei a escrever este relato, que continuou nas horas em que passei sentado em um McDonalds comendo porcarias. O tempo todo ainda vejo pessoas de preto com cara de sono andando de um lado para o outro ou caídas nos bancos.

Se você conseguiu chegar até o final e achou isto insuportavelmente longo, pode ter uma idéia do quão grande está meu saco de ficar esperando. E ainda tenho uma hora e meia pela frente, mas com certeza não usarei para continuar escrevendo. O plano agora é pegar este trem, em duas horas estar em Berlim, ir direto para o hotel (abençoadamente é do lado da estação) e morrer na cama. Amanhã o dia é de descanso e, quem sabe, lavar as roupas e outros bagulhos que voltaram num estado deplorável. Berlim mesmo, só terça feira. Tudo dentro do planejado. Um dia a menos de turismo por três dias que foram muito, mas MUITO legais. Só me pergunto agora... Quando venho para o próximo??

5 comentários:

tati disse...

Wackeeeeennn!!!!
Vem ano que vem,Félikiss!!!!!!

PS1: "Ainda faltava uma hora para o ônibus da Tati e a bagatela de dez horas para o meu. " É trem, Félikiss! Nao ônibus!!!

PS2: Helgaaaaa!!!!

Ademar disse...

Depois, disso, como fica a imagem do nosso River Rock em Indaial? Ainda dá vontade de ir? Abração. Pai.

Félix B. Rosumek disse...

PQP, vou consertar! Não falei que ia trocar as bolas até o fim da viagem?

Fábio Ricardo disse...

Eu juro que ia fazer um super comentário aqui sobre toda essa saga desumana! (sim, eu li cada virgula).
Minha ideia era ir lendo e ouvindo as musicas de cada banda citada como plano de fundo.
Mas daí... eu ouvi Van Canto.
E devo dizer: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Acabou ali, não consegui ouvir mais nada. e acho que pelo resto dos meus dias não vou parar de gargalhar com esses solos de "guitarra".
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

sara - mãe disse...

Ahá! eu li tuuuudoooo...e fiquei pensando: nossa! como esse cara entende de música e escreve bem! Esse é meu filho!(claro, eu não entendo nada destas paradas metaleiras). Me liguei mais na aventura e saga de um roqueiro na barraca, na chuva, nos banheiros...
Que divetido! rs...rs...rs...